OS PENSADORES
PLATÃO
DEFESA DE SÓCRATES
XENOFONTE
DITOS E FEITOS
MEMORÁVEIS DE SÓCRATES
*
CA POLOCIASDE SOCRATES
ARISTÓFANES
“AS NUVENS
EDITOR: VICTOR CIVITA
Títulos originais:
'Amohoyia rod Ewxpárous (Defesa de Sócrates)
'Aroumuoveúuara (Ditos e Feitos Memoráveis de Sócrates)
“Asrohoyia rob Bwepárous (Apologia de Sócrates)
Nepéxal (As Nuvens)
1.3 edição — Dezembro 1972
o - Copyright desta edição, 1972,
Abril S.A. Cultural e Industrial, São Paulo.
Traduções publicadas sob licença de:
Editora Cultrix Ltda.. São Paulo (Defesa de Sócrates)
Cia. Brasil Editora, Rio de Janeiro (Ditos e Feitos Memoráveis de Sócrates
e Apologia de Sócrates)
Difusão Européia do Livro, São Paulo (As Nuvens)
iss SUMARIO
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Diros EFEITOS MEMORÁVEIS DE SÓCRATES ..liiiiciiiiii o de
APOLO RIU DEDOCRATES | ac unas fo cu ada A Desen a RR qua o
As NUVENS
Nora DO EDITOR
Sócrates não deixou nenhum escrito. Tudo o que sabemos sobre ele — sobre
sua vida e sobre seu pensamento — provém de depoimentos de discípulos ou de
adversários. Os historiadores da filosofia são unânimes em considerar que os
principais testemunhos sobre Sócrates são fornecidos por Platão e Xenofonte,
que o exaltam, e por Aristófanes, que o combate e satiriza. Do confronto desses
diferentes retratos é que se pode tentar extrair a verdadeira fisionomia de
Sócrates.
Como outros textos de escritores antigos, os de Platão, Xenofonte e Aristó-
fanes são tradicionalmente divididos em passagens identificadas, em todas as
edições, através de números e/ou letras colocadas nas margens laterais.
PLATÃO
a DERESA. ves,
E Db E SOCRATES |
Tradução de JAIME BRUNA
I7a.
I
Exórdio
Não sei, Atenienses, que influência
exerceram meus acusadores em vosso
espírito; a mim próprio, quase me fize-
ram esquecer quem sou, tal a força de
persuasão de sua eloguência. Verdade.
porém, a bem dizer, não proferiram
nenhuma. Uma, sobretudo, me assom-
brou das muitas aleivosias que assaca-
ram: a recomendação de cautela para
não vos deixardes embair pelo orador
formidável que sou. Com efeito, não
corarem de me haver eu de desmentir
prontamente com os fatos, aos mos-
trar-me um orador nada formidável,
eis O que me pareceu o maior de seus
descaramentos, salvo se essa gente
chama formidável a quem diz a verda-
de; se é o que entendem, eu cá admiti-
ria que, em contraste com eles, sou um
orador. Seja como for, repito-o, verda-
de eles não proferiram nenhuma ou
quase nenhuma; de mim, porém, vós
ides ouvir a verdade inteira. Mas não,
por Zeus, Atenienses, não ouvireis dis-
cursos como os deles, aprimorados em.
nomes e verbos, em estilo florido;
serão expressões espontâneas, nos ter-
mos que me ocorrerem, porque depo-
sito confiança na justiça do que digo;
nem espere outra coisa quem quer de
vós. Deveras, senhores, não ficaria
bem, a um velho como eu, vir diante de
vós plasmar seus discursos como um
rapazola. Faço-vos, no entanto, um
pedido, Atenienses, uma súplica pre-
mente; se ouvirdes, na minha defesa, a
mesma linguagem que habitualmente
emprego na praça, junto das bancas,
onde tantos dentre vós me tendes escu-
tado, e noutros lugares, não a estra-
nheis nem vos amotineis por isso.
Acontece que venho ao tribunal pela
primeira vez aos setenta anos de idade;
sinto-me, assim, completamente es-
trangeiro à linguagem do local. Se eu
fosse de fato um estrangeiro, sem dúvi-
da me desculparíeis o sotaque e o lin-
guajar de minha criação; peço-vos.
nesta ocasião a mesma tolerância, que
é de justiça a meu ver, para minha lin-
guagem — que poderia ser talvez pior,
talvez melhor — e que examineis com
atenção se o que digo é justo ou não.
Nisso reside o mérito de um juiz; o de
um orador, em dizer a verdade.
Duas Classes de Acusadores
Cumpre, Atenienses, me defenda, acusadores; depois, das recentes e dos
em primeiro lugar, das primeiras alei-
vosias contra mim e dos primeiros
recentes. Com efeito, muitos acusado-
res tenho junto de vós, hã muitos anos,
I8a
b
12 PLATÃO
que nada dizem de verdadeiro. A esses
tenho mais medo que aos da roda de
Ânito!, posto que estes também são
temíveis. Mais temíveis, porém, senho-
res, sao aqueles, que, encarregando-se
da educação da. maioria de vós desde
meninos, fizeram-vos crer, com acusa-
ções inteiramente falsas, que existe
certo Sócrates, homem instruído, que
estuda os fenômenos celestes, que
investigou tudo o que há debaixo da
terra e que faz prevalecêr a razão mais
- fraca. Por terem espalhado esse boato,
Atenienses, são esses os meus acusado-
res temíveis, porque os seus ouvintes
acham que os investigadores daquelas
matérias não crêem tampouco nos deu-
ses. Depois, esses acusadores são nu-
merosos. e vêm acusando hã muito
tempo; mais ainda, falavam convosco
na idade em que mais crédulos podiíeis
ser, quando alguns de vós éreis crian-
ças ou rapazes, € a acusação era feita a
inteira revelia, sem defensor algum. De
tudo, o que tem menos sentido é não se
poderem dizer nem saber os seus
* Ânito, rico industrial e político, fracassou como
general no ano 409 a.C. e, processado por isso, sal-
vou-se corrompendo os juízes. Passando ao partido
popular, cooperou na derrubada da tirania dos Trin-
ta e tornou-se muito influente. Figura, com Meleto e
Licão, entre os acusadores de Sócrates no processo.
(N. do T.)
|
nomes, salvo quando se trata, porven-
tura, de um autor de comédias. Os que,
por inveja, ou malquerença, vos procu-
ravam convencer, mais os que, conven-
cidos, por sua vez convenciam a
outros, todos esses são os mais emba-
raçosos; nem sequer é possível citar
aqui em juízo nenhum deles e refutá-lo;
o defensor é inevitavelmente obrigado
a combater como que sombras, a repli-
car sem tréplica. Em conclusão, con-
cordai comigo em que meus acusado-
res são de duas classes: os que acabam
de acusar-me e os de antanho, a quem
aludi; admiti, também, que destes me
deva defender em primeiro lugar, pois
que a suas acusações destes ouvido
primeiro e muito mais que às dos
últimos.
Bem, Atenienses, é mister que apre-
sente minha defesa, que empreenda
delir em vós os efeitos dessa calúnia, a
que destes guarida por tantos anos, e
isso em prazo tão curto. Eu .quisera
que assim acontecesse, para o meu e
para o vosso bem, e que lograsse êxito
a minha defesa; considero, porém, a
empresa dificil e não tenho a mínima
ilusão a esse respeito. Seja como for,
que tomem as coisas o rumo que
aprouver ao deus, mas cumpre obede-
cer à lei e apresentar defesa.
“Acusações Antigas
Recapitulemos, portanto, desde o
começo, qual foi a acusação donde
procede a calúnia contra mim, dando
crédito à qual, me moveu Meleto? o
presente processo. Vejamos: que é
mesmo o que afirmam os caluniadores
2 Meleto, ou Melito, poeta de segunda ordem, cuja
obra não chegou até nós. (N. do T.)
em sua difamação? Como se faz com o
texto das acusações, leiamos o das
suas: “Sócrates é réu de pesquisar
indiscretamente o que há sob a terra e
nos céus, de fazer que prevaleça a
razão mais fraca e de ensinar aos ou-
tros o mesmo comportamento.” É mais
ou menos isso, pois é o que vós pró-
19a
DEFESA DE SÓCRATES 13
prios víeis na comédia de Aristófanes?
— um Sócrates transportado pela
cena, apregoando que caminhava pelo
ar e proferindo muitas outras sandices
sobre assuntos de que não entende
nada. Dizendo isso, não desejo menos-
cabar tais conhecimentos, se é que os
possui alguém — não será desse crime
que me há de processar Meleto — mas
a verdade é que não tenho deles,
Atenienses, a mais vaga noção. Invoco
o testemunho da maioria de vós mes-
mos, pedindo que vos informeis mu-
tuamente e digam aqueles que alguma
vez ouviram minhas conversas — hã
muitos deles entre vós. Dizei-o, pois,
mutuamente, a ver se algum de vós me -
ouviu alguma vez discorrer, por pouco
que fosse, sobre tais assuntos. Assim
ficareis sabendo que é do mesmo esto-
fo tudo o mais que por aí se fala de
mim.
“Na realidade, não têm fundamento
nenhum essas balelas; tampouco falará
verdade quem vos disser que ganho
dinheiro lecionando. Sem embargo,
acho bonito ser capaz de ensinar,
como Górgias de Leontino *, Pródico
3 Aristófanes, célebre e grande comediógrafo;
punha em cena personagens e temas da época, pole-
mizando a respeito de política, costumes e idéias.
Na comédia das Nuvens, ridiculariza e calunia a
Sócrates, apresentando-o como um charlatão. (N.
do T.)
* Górgias, Pródico e Hípias eram sofistas, isto é,
professores; propunham-se a tornar seus discípulos
sophói, ou seja, hábeis, preparados. O primeiro
ensinou filosofia e retórica; o segundo, moral e
gramática; o terceiro, de tudo. (N. do T.)
de Ceos e Hípias de Élis. Cada um
deles, senhores, é capaz de ir de cidade
em cidade, persuadindo os moços —
que podem fregientar um de seus
concidadãos a sua escolha e de graça
-—— a deixarem essa companhia e virem
para a sua, pagando e ficando-lhes,
anda, agradecidos. Por sinal, encon-
tra-se entre nós outro sábio, um de
Paros; veio para uma temporada
segundo soube. Fui, por acaso, visitar
um homem, que tem pago a sofistas
mais dinheiro que todos os outros reu-
nidos; trata-se de Cálias, filho de
Hiponico. Eu lhe perguntava (ele tem
dois filhos): “Cálias, dizia eu, se teus
filhos fossem potros ou garrotes, sabe-
riamos a quem ajustar como treinador
para lhes aprimorar as qualidades ade- .
quadas; seria um adestrador de cava-
los ou um lavrador; como, porêm, eles
são homens, quem pensas tomar como
seu treinador? Quem é mestre nas qua-
lidades de homem e de cidadão? Supo-
nho que pensaste nisso, por teres
filhos. Existe algum, — dizia eu — ou
não existe? — Existe, sim, — disse ele.
— Quem é? — tornei eu; de onde é?
quanto cobra? — É Eveno, ó Sócrates,
— respondeu ele — de Paros, por
cinco minas.” Fiquei, então, com inve-
ja desse Eveno, se é que é senhor dessa
arte e leciona a tão bom preço. Por
mim, bem que me orgulharia e enso-
berbeceria de ter a mesma ciência!
Pena é que não a tenho, Atenienses.
20
2la
ESA
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A
14 PLATÃO
Ciência e Missão de Sócrates
Um de vós poderia intervir: “Afinal,
Sócrates, qual é a tua ocupação?
Donde procedem as calúnias a teu res-
peito? Naturalmente, se não tivesses
uma ocupação muito fora do comum,
não haveria esse falatório, a menos que
praticasses alguma extravagância. Di-
ze-nos, pois, qual é ela, para que não
façamos nós um Juízo precipitado.”
Teria razão quem assim falasse; tenta-
rei explicar-vos a procedência dessa
reputação caluniosa. Ouvi, pois. Al-
guns de vós achareis, talvez, que estou
gracejando, mas não tenhais dúvida:
eu vos contarei toda a verdade. Pois
eu, Atenienses, devo essa reputação
exclusivamente a uma ciência. Qual
vem a ser a ciência? A que é, talvez, a
ciência humana. É provável que eu a
possua realmente, os mestres mencio-
nados há pouco possuem, quiçá, uma
sobre-humana, ou não sei que diga,
porque essa eu não aprendi, e quem
disser o contrário me estará calu-
niando. Por favor, Atenienses, não vos
amotineis, mesmo que eu vos pareça
dizer uma enormidade; a alegação que
vou apresentar nem é minha; citarei o
autor, que considerais idôneo. Para
testemunhar a minha ciência, se é uma
ciência, e qual é ela, vos trarei o deus
de Delfos 5. Conhecestes Querefonte,
decerto. Era meu amigo de infância e
também amigo do partido do povo e
seu companheiro naquele exílio de que
5 Em Delfos havia um templo, onde Apolo dava
oráculos, predizendo o futuro. A alusão é ao exílio
sofrido pelos partidários da democracia, no ano 404
a.C., quando se instalou em Atenas a tirania dos
Trinta. (N. do T.)
voltou conosco. Sabeis o tempera-
mento de Querefonte, quão tenaz nos.
seus empreendimentos. Ora, certa vez,
indo a Delfos, arriscou esta consulta
ao oráculo — repito, senhores; não
vos amotineis — ele perguntou se
havia alguém mais sábio que eu; res-
pondeu à Pítiaê que não havia nin-
guém mais sábio. Para testemunhar
isso, tendes aí o irmão dele, porque ele
já morreu.
Examinai por que vos conto eu esse
fato; é para explicar a procedência da
calúnia. Quando soube daquele orácu-
lo, pus-me a refletir assim: “Que quere-
rã dizer o deus? Que sentido oculto
pôs na resposta? Eu cá não tenho
consciência de ser nem muito sábio
nem pouco; que quererá ele, então, sig-
nificar declarando-me o mais sábio?
Naturalmente, não está mentindo, por-
que isso lhe é impossível.” Por longo
tempo fiquei nessa incerteza sobre o
sentido; por fim, muito contra meu
gosto, decidi-me por uma investigação,
que passo a expor. Fui ter com um dos
que passam por sábios, porquanto, se
havia lugar, era ali que, para rebater o
oráculo, mostraria ao deus: “Eis aqui
um mais sábio que eu, quando tu dis-
seste que eu o era!” Submeti a exame
essa pessoa — é escusado dizer o seu
nome; era um dos políticos. Eis,
Atenienses, a impressão que me ficou
do exame e da conversa que tive com
ele; achei que ele passava por sábio
aos olhos de muita gente, principal-
8 Assim se chamava a sacerdotisa do templo de
Delfos, que formulava as oráculos. (N. do T.)
DEFESA DE SÓCRATES 15:
mente aos seus próprios, mas não Oo
era. Meti-me, então, a explicar-lhe que
supunha ser sábio, mas não o era. A
consequência foi tornar-me odiado
dele e de muitos dos circunstantes.
Ao retirar-me, ia concluindo de mim
para comigo: “Mais sábio do que esse
homem eu sou; é bem provável que ne-
nhum de nós saiba nada de bom, mas
ele supõe saber alguma coisa e não
sabe, enquanto eu, se não sei, tam-
pouco suponho saber. Parece que sou
um nadinha mais sábio que ele exata-
mente em não supor que saiba o que
não sei.” Daí fui ter com outro, um dos
que passam por ainda mais sábios e
tive a mesmissima impressão; também
ali me tornei odiado dele e de muitos
outros.
Depois disso, não parei, embora
sentisse, com mágoa e apreensões, que
me ia tornando odiado; não obstante,
parecia-me imperioso dar a máxima
innportânéia ao serviço do deus. Cum-
pria-me, portanto, para averiguar O
sêntido do oráculo, ir ter com todos os
que passavam por senhores de algum
saber. Pelo Cão, Atenienses! Já que
vos devo a verdade, juro que se deu co-
migo mais ou menos isto: investigando
de acordo com o deus, achei que aos
mais reputados pouco faltava para
serem os mais desprovidos, enquanto
outros, tidos como inferiores, eram os
que mais visos tinham de ser homens
de senso. Devo narrar-vos os meus vai-
véns nessa faina de averiguar o orácu-
lo.
Depois dos políticos, fui ter com os
poetas, tanto os autores de: tragédias
como os de ditirambos e outros, na
esperança de aí me apanhar em fla-
grante inferioridade cultural. Levando
em mãos as obras em que pareciam ter
posto o máximo de sua capacidade,
interrogava-os minuciosamente sobre
o que diziam, para ir, ao mesmo
tempo, aprendendo deles alguma coisa.
Pois bem, senhores, coro de vos dizer a
verdade, mas é preciso. A bem dizer,
quase todos os circunstantes poderiam
falar melhor que eles próprios sobre as
obras que eles compuseram. Assim,
logo acabei compreendendo que tam-
pouco os poetas compunham suas
obras por sabedoria, mas por dom
natural, em estado de inspiração, como
os adivinhos e profetas. Estes também
dizem muitas belezas, sem nada saber
do que dizem; o mesmo, apurei, se dá
com os poetas; ao mesmo tempo, notei
que, por causa 'da poesia, eles supõem
ser os mais sábios dos homens em ou-
tros campos, em que não o são. Saí,
pois, acreditando superá-los na mesma
particularidade que aos políticos.
Por fim, fui ter com os artífices;
tinha consciência de não saber, a bem
dizer, nada, e certeza de neles desco-
brir muitos belos conhecimentos.
Nisso não me enganava; eles tinham
conhecimentos que me faltavam; eram,
assim, mais sábios que eu. Contudo,
Atenienses, achei que os bons artesãos
têm o mesmo defeito dos poetas; por
praticar bem a sua arte, cada qual ima-
ginava ser sapientissimo nos demais
assuntos, os mais dificeis, e esse enga-
no toldava-lhes aquela sabedoria. De
sorte que perguntei a mim mesmo, em
nome do oráculo, se preferia ser como
sou, sem a sabedoria deles nem sua
ignorância, ou possuir, como eles, uma
e outra; e respondi, a mim mesmo € ao
oráculo, que me convinha mais ser
como sou.
Dessa investigação é que procedem,
Atenienses, de um lado, tantas inimiza-
des, tão: acirradas e maléficas, que
deram nascimento a tantas calúnias, e,
de outro, essa reputação de sábio. E
que, toda vez, os circunstantes supõem
23a
16 PLATÃO
que eu seja um sábio na matéria em
que confundo a outrem. O provável,
senhores, é que, na realidade, o sábio
seja o deus e queira dizer, no seu orá-
culo, que pouco valor ou nenhum tem
a sabedoria humana; evidentemente se
terá servido deste nome de Sócrates
para me dar como exemplo, como se
dissesse: “O mais sábio dentre vós,
homens, é quem, como Sócrates, com-
preendeu que sua sabedoria é verdadei-
ramente desprovida do mínimo valor.”
Por isso não parei essa investigação
até hoje, vagueando e interrogando, de
acordo com o deus, a quem, seja cida-
dao, seja forasteiro, eu tiver na conta
de sábio, e, quando julgar que não o é,
coopero com o deus, provando-lhe que
não é sábio. Essa ocupação não me
permitiu lazeres para qualquer ativi-
dade digna de menção nos negócios
públicos nem nos particulares; vivo
numa pobreza extrema, por estar ao
serviço do deus.
Além disso, os moços que esponta-
neamente me acompanham — e são os
que dispõem de mais tempo, os das
famílias mais ricas — sentem prazer
em ouvir o exame dos homens; eles
próprios imitam-me muitas vezes; nes-
sas ocasiões, metem-se a interrogar os
outros; suponho que descobrem uma
multidão de pessoas que supõem saber
alguma coisa, mas pouco sabem, quiçã
nada. Em consequência, os que eles
examinam se exasperam contra mim e
não contra si mesmos, e propalam que
existe um tal Sócrates, um grande
miserável, que corrompe a mocidade.
Quando se lhes pergunta por quais
atos ou ensinamentos, não têm o que
responder; não sabem, mas, para não
mostrar seu embaraço, aduzem aque-
las acusações contra todo filósofo,
sempre à mão: “os fenômenos celestes
— o que há sob a terra —a descrença
dos deuses — o prevalecimento da
razão mais fraca”. Porque, suponho,
não estariam dispostos a confessar a
verdade: terem dado prova de que fin-
gem saber, mas nada sabem. Como
são ciosos de honrarias, tenazes, e
numerosos, persuasivos no que dizem
de mim por se confirmarem uns aos
outros, não é de hoje que eles têm
enchido vossos ouvidos de calúnias
assanhadas. Dai a razão de me ataca-
rem Meleto, Ânito e Licão — tomando
Meleto as dores dos poetas; Anito, as
dos artesãos e políticos; e Licão, as
dos oradores. Dessarte, como dizia ao
começar, eu ficaria surpreso se logras-
se, em tão curto prazo, delir em vós os
efeitos dessa calúnia assim avolumada.
Ai tendes, Atenienses, a verdade; em
meu discurso não vos oculto nada que
tenha alguma importância, nada vos
dissimulo. Sem embargo, sei que me
estou tornando odioso por mais ou
menos os mesmos motivos, o que com-
prova a verdade do que digo, que é
mesmo essa a calúnia contra mim €
são mesmo essas as suas causas. É o
que haveis de descobrir, se investi-
gardes agora ou mais tarde.
2d4a
DEFESA DE SÓCRATES 17
A Denúncia de Meleto
Nada mais preciso dizer para defen-
der-me, diante de vós, das mentiras de
meus primeiros acusadores. Tentarei,
em seguida, defender-me de Meleto,
esse honrado e prestante cidadão,
como se proclama, e dos acusadores
recentes. Novamente, já que se trata de
outros acusadores, tomemos também o
texto de sua acusação. Reza ele mais
ou menos assim: “Sócrates é réu de
corromper a mocidade e de não crer
nos deuses em que o povo crê e sim em
outras divindades novas.” Essa a natu-
reza da queixa; examinemo-la parte
por parte.
Diz que sou réu de corromper a
mocidade. Mas eu, Atenienses, afirmo
que Meleto é réu de brincar com assun-
tos sérios; por leviandade, ele traz a
gente à presença dos juízes, fingindo-se
profundamente interessado por ques-
tões de que jamais fez o mínimo caso.
Vou também procurar demonstrar-vos
que assim é.
— Dize-me cá, Meleto: Dás muita
importância a que os jovens sejam
quanto melhores?
— Dou, sim.
— Faze, então, o favor de dizer a
estes senhores quem é que os torna
melhores; evidentemente o sabes, pois
que te importa. Descoberto o corrup-
tor, segundo afirmas, tu me conduzes à
presença destes senhores e me acusas;
portanto, faze o favor de dizer quem os
torna melhores; conta-lhes quem é.
Estás vendo, Meleto, que te calas e não
sabes o que dizer? Com efeito, não
achas que isso é feio e prova que não
fazes o mínimo caso, como eu disse?
Vamos, bom rapaz, fala; quem é que
os tona melhores”?
— São as leis.
— Não é isso o que estou pergun-
tando, excelente rapaz; pergunto que
homem é, o qual, para começar, sabe
exatamente isso, as leis.
— Às pessoas presentes, Sócrates;
OS Juízes.
—— Que dizes, Meleto? Os presentes
são capazes de educar os moços e os
tornam melhores?
— Sem dúvida.
— Todos? Ou uns sim e outros
não?
— "Todos.
— Boa notícia nos dás, por Hera!
Sobejam os benfeitores! Que mais? E
esses da assistência os tornam melho-
res ou não?
Eles também.
Que dizer dos conselheiros?
Também os conselheiros.
Mas, então, Meleto, acaso os
homens da assembléia, os eclesiastas
corrompem a mocidade? Ou eles todos
- também a tornam melhor?
— Também eles.
— Logo, não é assim? todos os ate-
nienses a tornam gente de bem, menos
eu; eu sou o único a corrompê-la! É
isso O que dizes?
— Exatamente isso é o que digo.
— Que imensa desdita apontas em
mim! Responde também a esta per-
gunta: no teu entender, com os cavalos
sucede o mesmo? Toda gente os
melhora e um só os vicia? Ou se dá
250
18 PLATÃO
inteiramente o contrário: quem os sabe
melhorar é um só, ou muito poucos, os
adestradores; a maioria, quando trata
de cavalos e os monta, vicia-os? Não é
assim, Meleto, com os cavalos e com
todos os outros animais? Sem dúvida,
quer o negueis tu e Ânito, quer o afir-
meis. Que bom para os moços, se há
um só a corrompê-los e os outros todos
a fazer-lhes bem! Ora, Meleto, estás
dando provas acabadas de que nunca
te preocupaste com a mocidade e reve-
lando claramente a tua indiferença
para com o crime de que me acusas!
Por Zeus, Meleto, dize-nos mais uma
coisa; é melhor habitar entre cidadãos
prestimosos ou entre daninhos? Meu
caro, responde; minha pergunta é faci-
lima! Não é verdade que sempre os
daninhos acabam fazendo mal a quem
estã perto, e os prestimosos algum
bem?
— Decerto.
— Haverá, então, quem queira re-
ceber de seus companheiros antes
danos que beneficios? Responde, bom
homem; a lei manda que respondas.
Há quem prefira o dano?
— Não, é claro.
— Adiante. Trouxeste-me aqui
como alguém que corrompe e perverte
a mocidade por querer ou sem querer?
— Por querer, ora essa!
— Como assim, Meleto? Tu na tua
idade me superas tanto a mim na
minha, que tu sabes que os maus sem-
pre acabam fazendo algum mal a seus
mais próximos e os bons algum bem, e
eu sou tão ignorante que nem mesmo
sei que, se tornar malfazejo alguém do
meu convívio, me arrisco a receber
dele algum dano? E, segundo dizes,
tamanho mal eu o faço por querer? A
mim não me convences disso, Meleto;
nem creio que convenças outra pessoa.
26: Não; Ou não corrompo, ou, se corrom-
po, é sem querer; numa suposição
como na outra, estás mentindo. Se,
porém, corrompo sem querer, a lei não
manda trazer-me aqui por semelhante
erro involuntário, mas tomar-me de
parte, ensinar-me, ralhar comigo; evi-
dentemente, depois de aprender, deixa-
rei de fazer o que sem querer ando
fazendo. Tu, porém, evitaste, não esta-
vas disposto a ajudar-me com teus
ensinamentos e me trouxeste aqui, para
onde a lei manda trazer quem precisa
de castigo e não de lições. Ora,
Atensenses, está demonstrado o que eu
dizia: Meleto jamais fez o mínimo caso
dessa questão. Sem embargo, dize-nos,
Meleto: por que processo corrompo eu
4
a mocidade, segundo afirmas? Ou é
claro que, segundo a tua denúncia,
ensinando-os a não crer nos deuses em
que o povo crê e sim em outras divin-
dades novas? Não afirmas que os cor-
rompo ensinando isso?
— E exatamente isso que proclamo
em alto e bom som.
— Então, Meleto, por esses mes-
mos deuses de que agora se trata, fala
com mais clareza ainda, a mim e a
estes senhores; não consigo entender se
afirmas que ensino a crer na existência
de certos deuses — nesse caso admito
a existência de deuses, absolutamente
não sou ateu, nem é esse o meu crime,
se bem que não sejam os deuses do
povo, mas outros, e por serem outros é
que me processas — ou se afirmas que
não creio mesmo em deus nenhum €&
ensino isso aos outros.
— Isso é o que afirmo, que não crês
mesmo em deus nenhum.
— Meleto, tu és um assombro!
Com que intuito dizes isso? Então eu
não creio, como toda gente, que o sol e
a lua são deuses?
— Por Zeus, senhores juízes, ele
27ar
DEFESA DE SÓCRATES 19
não crê, pois afirma que o sol é pedra e
a lua é terra.
— Tu supões estar acusando o
Anaxágoras”, meu caro Meleto ! Dessa
forma, subestimas os presentes, julgan-
do-os tão iletrados que ignorem que os
“livros de Anaxágoras de Clazômenas é
que andam cheios dessas teorias. Logo
de mim é que os moços aprendem liga-
ções que eles podem, vez por outra,
comprar na orquestra, quando muito
por três dracmas e depois rir de Sócra-
tes se as quiser impingir como suas,
tanto mais umas tão originais! Enfim,
por Zeus, é isso o que pensas de mim?
que não creio em deus algum?
— Não crê, por Zeus; ele não crê
em deus algum !
-— Tu não mereces fé, Meleto, nem
mesmo a tua própria, ao que parece.
Este homem, Atenienses, acho que é
por demais temerário e estouvado e me
fez esta denúncia apenas por temeri-
dade e estouvamento de juventude; ele
dá a impressão de estar propondo uma
adivinha para me experimentar: “Será
que o sábio Sócrates vai perceber que
estou brincando e me contradizendo,
ou será que o vou lograr com os de-
mais ouvintes?” Penso que ele se con-
tradiz na denúncia, como se dissesse:
“Sócrates é réu de crer nos deuses em
vez de crer nos deuses.” Isso é de quem
está brincando. |
Examinai comigo, senhores, por que
penso que ele diz isso; tu, -Meleto,
responde-nos. Vós, de vossa parte,
lembrai-vos do que vos pedi no come-
ço e não vos amotineis se eu arranjar a
discussão à minha maneira-habitual.
Existe, Meleto, uma pessoa que
7 Anaxágoras, filósofo da escola jônica, mestre e
conselheiro de Péricles, célebre por ter concebido a
- existência duma Mente, Nous, ordenadora do Uni- .
verso. Por dar explicações naturalistas dos fenôme-
nos celestes, foi condenado por impiedade a exilar-
se de Atenas em 432 a.C. Suas obras, como as de
outros autores, podiam ser compradas no local do :
teatro destinado ao coro, denominado orquestra.
(N. do To)
acredite na existência de coisas huma-
nas e não na dos homens? Que ele res-
ponda, senhores, e não levante protes-
tos sobre protestos! Há alguém que
não acredite em cavalos e sim na equi-
tação? não creia em flautistas, e sim na
arte de tocar flauta? Não há, excelente
- homem; se não queres tu responder, eu
o direi a ti e aos demais presentes. Res-
ponde, porém, à pergunta que vem,
após aquelas: há quem acredite em
poderes demoníacos, mas não que exis-
“tam demônios?
— Não há.
— Obrigado por teres respondido,
embora contrariado, sob a coação: do
tribunal. Por conseguinte, afirmas que
eu acredito e ensino que há poderes
demoniacos; sejam novos, sejam anti-
gos, segundo dizes, acredito em pode-
res demoniacos; foi o que juraste na
denúncia. Ora, se acredito em seus
poderes, força é concluir que acredito
em demônios. Não é assim? Sem dúvi-
da; faço de conta que concordas, já
que não respondes. Os demônios, não é
verdade que os consideramos deuses
ou filhos de deuses? Sim ou não?
— Por certo. |
— Logo, se acredito em demônios,
estes ou são uma sorte de deuses — e
eu teria razão afirmando que estás pro-
pondo uma adivinha por brincadeira,
dizendo que eu creio em deuses em vez
de crer em deuses, pois que acredito
em demônios — ou são filhos de deu-
ses, uma sorte de bastardos, nascidos
de ninfas ou de outras mulheres a
quem os atribui a tradição — e que
homem pode acreditar em filhos de
deuses e não em deuses? Seria a
mesma aberração de quem acreditasse
“Serem os machos filhos de éguas e
jumentos, sem crer em éguas e jumen-
tos. Não, Meleto, não é admissível que
tenhas apresentado essa denúncia sem
o propósito de nos pôr à prova, salvo
se foi à falta de um crime real por que
28a
20
me processes; de convenceres alguém,
por estúpido que seja, de que uma
mesma pessoa possa acreditar em
poderes demoníacos e divinos, mas
sem acreditar em demônios, deuses e
heróis, não existe a mínima possibili-
dade. Por conseguinte, Atenienses, a
ausência da culpa a mim imputada na
denúncia de Meleto não parece deman-
dar longa defesa; basta o que foi dito.
PLATÃO
Ficai, porém, certos de que é verda-
de o que eu dizia há pouco, que muita
gente me ficou querendo muito mal. O
que me vai condenar, se eu for conde-
nado, não é Meleto, nem Ânito, mas a
calúnia e o rancor de tanta gente; é o
que perdeu muitos outros homens de
bem e ainda os hã de perder, pois não é
de esperar que pare em mim.
Justificação de Sócrates
Alguém, talvez, pergunte: “Não te
pejas, ó Socrates, de te haveres dedi-
cado a uma ocupação que te põe agora
em risco de morrer?” Eu lhe daria esta
resposta justa: “Estás enganado,
homem, se pensas que um varão de
algum préstimo deve pesar as possibili-
dades de vida e morte em vez de consi-
derar apenas este aspecto de seus atos:
se o que faz é justo ou injusto, de
homem de brio ou de covarde. No teu
entender, não teriam méritos os semi-
deuses que pereceram em Tróia; entre
eles o filho de Tétis?, que desdenhava
tanto o perigo em confronto com o
passar por uma vergonha. Querendo
ele matar a Heitor, sua mãe, uma
deusa, lhe disse parece que mais ou
menos estas palavras: “Filho, se mata-
res a Heitor para vingar a morte de teu
amigo Pátroclo, tu próprio morrerás;
pois, dizia ela, o teu destino te espera:
logo depois de Heitor.” Ele, apesar de
ouvir a advertência, fez pouco caso do
perigo de morte e, porque temia muito
mais viver com desonra, respondeu:
8 Tétis, nereida, divindade' marinha, foi mãe de
Aquiles, herói da Ilíada; aqui, alude-se a uma cena
do canto XVIII, desse poema. (N. do T.)
“Morra eu assim que castigue o culpa-
do, mas não fique por aqui, alvo de
risos junto das curvas naus, como um
fardo da terra.” Cuidas que ele se preo-
cupou com o perigo de morte?” A ver-
dade, Atenienses, é esta: quando a
gente toma uma posição, seja por a
considerar a melhor, seja porque tal foi
a ordem do comandante, aí, na minha
opinião, deve permanecer diante dos
perigos, sem pesar o risco de morte ou
qualquer outro, salvo o da desonra.
Grave falta, Atenienses, teria come-
tido eu, que, em Potidéia, em Anfípolis
e Délio, permaneci, como qualquer
outro, no posto designado pelos chefes
por vós eleitos para me comandar e ali
enfrentei a morte, se, quando um deus,
como eu acreditava e admitia, me
mandava levar vida de filósofo, subme-
tendo a provas a mim mesmo e aos
outros, desertasse o meu posto por
temor da morte ou de outro mal qual-
quer. Seria grave e então deveras côm
Justiça me haveriam trazido ao tribu-
nal pelo crime de não crer nos deuses,
pois teria desobedecido ao oráculo por
temor da morte e supondo ser sábio
sem que o fosse.
29a
DEFESA DE SÓCRATES 21
Com efeito, senhores, temer a morte
é o mesmo que supor-se sábio quem
não o é, porque é supor que sabe o que
não sabe. Ninguém sabe o que é a
morte, nem se, porventura, será para O
homem o maior dos bens; todos a
temem, como se soubessem ser ela o
maior dos males. A ignorância mais
condenável não é essa de supor saber o
que não sabe? É talvez nesse ponto,
senhores, que difiro do comum dos
homens; se nalguma coisa me posso
dizer mais sábio que alguém, é nisto
de, não sabendo o bastante sobre o
Hadesº, não pensar que o saiba. Sei,
porém, que é mau e vergonhoso prati-
car o mal, desobedecer a um melhor do
que eu, seja deus, seja homem; por
isso, na alternativa com males que
conheço como tais, Jamais fugirei de
medo do que não sei se será um bem.
Portanto, mesmo que agora me
dispensásseis, desatendendo ao parecer
de Ânito, segundo o qual, antes do
mais, ou eu não devia ter vindo aqui,
ou, já que vim, é impossível deixar de
condenar-me à morte, asseverando ele
que, se eu lograr absolvição, logo
todos os vossos filhos, pondo em prá-
tica os ensinamentos de Sócrates, esta-
rão inteiramente corrompidos; mesmo
que, apesar disso, me dissésseis:
“Sócrates, por ora não atenderemos a
Ânito e te deixamos ir, mas com a con-
dição de abandonares essa investiga-
ção e a filosofia; se fores apanhado de
novo nessa prática, morrerás”; mesmo,
repito, que me dispensásseis com essa
condição, eu vos responderia:
“Atenienses, eu vos sou reconhecido e
vos quero bem, mas obedecerei antes
ao deus que. a vós; enquanto tiver alen-
º Segundo criam os gregos, após a morte, iam as
almas para o Hades, espécie de limbo, lugar escuro
e frio, situado no âmago da terra, onde continuavam
a viver, como sombras. (N. do T.)
to e puder fazê-lo, jamais deixarei de
filosofar, de vos dirigir exortações, de
ministrar ensinamentos em toda oca-
sião àquele de vós que eu deparar,
dizendo-lhe o que costumo: “Meu caro,
tu, um ateniense, da cidade mais
importante e mais reputada por sua
cultura e poderio, não te pejas de cui-
dares de adquirir o máximo de rique-
zas, fama e honrarias, e de não te
importares nem cogitares da razão, da
verdade e de melhorar quanto mais a
tua alma? ? E se algum de vós redar-
guir que se importa, não me irei embo-
ra deixando-o, mas o hei de interrogar,
examinar e confundir e, se me parecer
que afirma ter adquirido a virtude e
não a adquiriu, hei de repreendê-lo por
estimar menos o que vale mais e mais
o que vale menos. É o que hei de fazer
a quem eu encontrar, moço ou velho,
forasteiro ou cidadão, principalmente
aos cidadãos, porque me estais mais
próximos no sangue. Tais são as or-
dens que o deus me deu, ficai certos. E
eu acredito que jamais aconteceu à ci-
dade maior bem que minha obediência
ao deus.
Outra coisa não faço senão andar
por aí persuadindo-vos, moços e ve-
lhos, a não cuidar tão aferradamente
do corpo e das riquezas, como de
melhorar o mais possível a alma,
dizendo-vos que dos haveres não vem
a virtude para os homens, mas da vir-
tude vêm os haveres e todos os outros
bens particulares e públicos. Se com
esses discursos corrompo a mocidade,
seriam nocivos esses preceitos; se
alguém afirmar que digo outras coisas
e não essas, mente. Por tudo isso,
Atenienses, diria eu, quer atendais a
Ânito, quer não, quer me dispenseis,
quer não, não hei de fazer outra coisa,
anda que tenha de morrer muitas
vezes.
30a
22 PLATÃO
Quem Perderia Mais com a Condenação
Não vos amotineis, Atenienses;
mantende o favor que vos pedi, não
vos amotinando com o que digo, mas
ouvindo-me; acredito que ouvir-me vos
serã realmente proveitoso. Estou, é
verdade, para dizer outras coisas que
talvez vos façam gritar, mas não façais
isso de modo algum. Ficai certos de
uma coisa: se me condenardes por ser
eu como digo, causareis a vós próprios
maior dano que a mim. A mim dano
algum podem causar Meleto e Ânito;
eles não têm forças para tanto; não
creio que os céus permitam que um
homem melhor sofra danos de um pior.
Eles podem, sim, mandar-me matar,
exilar-me, privar-me dos direitos; tal-
vez eles e outros pensem que essas são
grandes desgraças; eu não; eu penso
que muito pior é fazer o que ele está
fazendo, tentando a execução injusta
de um homem. Neste momento, Ate-
nienses, longe de atuar na minha defe-
sa, como poderiam crer, atuo na vossa,
evitando que, com a minha condena-
ção, cometais uma falta para com a
dádiva que recebestes do deus. Se me
matardes, não vos será fácil achar
outro igual, outro que — embora seja
engraçado dizê-lo — por ordem divina
se aferre inteiramente à cidade, como a
um cavalo grande e de raça, mas um
tanto lerdo por causa do tamanho e
precisado de um tavão que o espevite;
parece-me que o deus me impôs à cida-
de com essa incumbência de me assen-
tar perto, em toda parte, para não ces-
sar de vos despertar, persuadir e
repreender um por um. Outro igual
não tereis facilmente, senhores, mas, se
me crerdes, vós me poupareis. Bem
pode ser que, aborrecidos como quem
dormia e foi despertado, deis ouvidos a
Ânito e, repelindo-me, me condeneis
levianamente à morte; depois, passa-
reis o resto da vida a dormir, salvo se o
deus, cuidadoso de vós, vos enviar
algum outro. Podeis reconhecer que
sou bem um homem dado pelo deus à
cidade por esta reflexão: não é con-
forme à natureza do homem que eu
tenha negligenciado todos os meus
interesses, sofrendo, hã tantos anos, as
consequências desse abandono do que
é meu, para me ocupar do que diz res-
peito a vós, dirigindo-me sem cessar a
cada um em particular, como um pai
ou um irmão mais velho, para o per-
suadir a cuidar da virtude. Se auferisse
proveito, se meus conselhos fossem
pagos, meu procedimento teria outra
explicação; mas vós mesmos o estais
vendo: meus acusadores, tão descara-
dos em todas as outras acusações, não
foram capazes da extrema impudência
de exibir testemunha de que alguma
vez tenha recebido ou pedido remune-
ração. Porque da verdade de minhas
alegações exibo, suponho, uma prova
cabal: minha pobreza.
3la
J2a
DEFESA DE SÓCRATES 23
Abstenção da Política
Pode parecer esquisito que eu me
azafame por todo canto a dar conse-
lhos em particular e não me abalance a
subir diante da multidão para dar con-
selhos públicos à cidade. A razão disso
em muitos lugares e ocasiões ouvistes
em minhas conversas: uma inspiração .
que me vem de um deus ou de um
gênio, da qual Meleto fez caçoada na
denúncia. Isso começou na minha
infância; é uma voz que se produz e,
quando se produz, sempre me desvia
do que vou fazer, nunca me incita. Ela
é que me barra a atividade política. E
barra-me, penso, com toda razão; ficai
certos, Atenienses: se há muito eu me
tivesse votado à política, há muito
estaria morto e não teria sido nada útil
a vós nem a mim mesmo. Por favor,
não vos doam as verdades que digo;
ninguém se pode salvar quando se
opõe bravamente a vós ou a outra mul-
tidão qualquer para evitar que aconte-
çam na cidade tantas injustiças e ilega-
lidades; quem se bate deveras pela
Justiça deve necessariamente, para
estar a salvo embora por pouco tempo,
atuar em particular e não em público.
Disto vos posso dar provas valiosas;
não argumentos, mas fatos, que é o que
acatais. Ouvi o que me sucedeu, para
saberdes que não tenho, por medo da
morte, transigência nenhuma com a
injustiça e que, por não ceder, teria
perecido. O que vou dizer é banal, é de
leguleio, mas é verdade.
Com efeito, Atenienses, jamais exer-
ci um cargo público; apenas fiz parte
do Conselho. Calhou que a pritania!º
coube à minha tribo, a Antióquida,
quando do processo dos dez capitães
que deixaram de recolher os mortos da
batalha naval; vós os querieis julgar
em bloco, o que era ilegal, como todos
reconhecestes depois. Naquela ocasião
fui o único dos prítanes que me opus a
qualquer ação ilegal vossa, votando
contra; os oradores estavam prontos a
processar-me, a mandar-me prender;
vós os incitáveis a isso aos brados.
Embora! Achei de meu dever correr
perigo ao lado da lei e da justiça, em
vez de estar convosco numa decisão
injusta, por medo da prisão ou da
morte.
Isso foi ainda no regime democrá-
tico. Doutra feita, após a instauração
da oligarquia, fui chamado com outros
quatro à Rotunda pelos Trinta e estes
nos ordenaram que fôssemos a Sala-
mina buscar a Leão Salamínio para
morrer; a muitas outras pessoas eles
davam ordens semelhantes, no intuito
de comprometer o maior número pos-
sível. Nessa ocasião, de novo, por atos,
não por palavras, demonstrei que à
morte — desculpai a rudeza da expres-
são — não ligo mais importância que
a um figo podre, mas a não cometer
nenhuma injustiça ou impiedáde, a isso
sim dou o máximo valor. A mim, aque-
1º Os delegados das tribos, em que se dividia o
povo ateniense, ao Conselho dos Quinhentos, espé-
cie de câmara deliberativa, chamavam-se pritanes.
Alude-se ao processo dos comandantes da batalha
naval de Arginusas, em 406 a.C. (N. do T.)
24 PLATÃO
le governo, poderoso como era, não
conseguiu forçar-me a uma injustiça;
ao deixarmos a Rotunda, os quatro
seguiram para Salamina e trouxeram
Leão, mas eu voltei para casa. Bem
podia ter morrido por isso, se aquele
governo tardasse a cair. Há muitas
testemunhas desses fatos. Pensais,
acaso, que eu teria vivido tantos anos,
se houvesse tomado parte na política e,
obrando como homem de bem, me
houvesse batido pela justiça, dando a
essa atitude a máxima importância que
lhe é devida? Que esperança, Atenien-
ses! Nem “eu, nem outro homem
nenhum! Pois bem, em toda minha
vida, em minha pouca intervençã. nos
negócios públicos, deixei patente que
sou assim, como também sou assim
nos negócios. particulares, jamais as-
sentindo com quem quer que seja no
que quer que seja fora dos limites da
Justiça, principalmente com qualquer
daqueles que os caluniadores chamam
discípulos meus.
A Escola de Sócrates
Eu nunca fui mestre de ninguém,
conquanto nunca me opusesse a moço
ou velho que me quisesse ouvir no
desempenho de minha tarefa. Tam-
pouco falo se me pagam, e se não
pagam, não; estou igualmente à dispo-
sição do rico e do pobre, para que me
interroguem ou, se preferirem ser inter-
rogados, para que ouçam o que digo.
Se algum deles vira honesto ou não,
não é justo que eu responda pelo que
jamais prometi nem ensinei a ninguém.
Quem afirmar que de mim aprendeu |
ou ouviu em particular alguma coisa
que não todos os demais, estai certos
de que não diz a verdade.
Então, por que será que alguns gos-
tam de se entreter comigo tanto
tempo? Vós o ouvistes, Atenienses; eu
vos disse toda a verdade; eles gostam
de me ouvir examinar os que supõem
ser sábios e não o são; e isso não deixa
de ter o seu gosto. Mas, repito, faço-o
por uma determinação divina, vinda
não só através do oráculo, mas tam-
bém de sonhos e de todas as vias pelas
“quais O homem recebe ordens dos deu-
ses. É fácil de comprovar essa verdade;
se hã moços que estou corrompendo e
outros que já corrompi, forçosamente,
decerto, alguns deles já amadurecidos
compreenderam que outrora, na sua
mocidade, eu lhes dera maus conselhos
e podem levantar-se para me acusar e
punir; se não o quiserem eles fazer,
alguém da família, o pai, os irmãos,
outros parentes, se os seus familiares
sofreram qualquer má influência
minha, podem lembrá-la agora e pu-
nir-me. Há um bem grande número
deles que estou vendo aqui, a começar
por Criton, que é da minha idade e do
meu bairro, pai de Critobulo aqui pre-
sente; em seguida, Lisânias de Esfetos,
pai Je Ésquines, que aí está; depois,
Antifonte de Cefísia, pai de Epígenes;
aí estão outros, cujos irmãos freqiien-
taram aqueles entretenimentos: Nicós-
33a
Jda
DEFESA DE SÓCRATES 25
trato, filho de Teozótides e irmão de
Teódoto — Teódoto, por sinal, morreu
e não poderia estorvá-lo com sua inter-
cessão; há mais Páralo, filho de Demó-
doco, de quem era irmão Teages; esse
outro é Adimanto, filho de Aristão, de
quem é irmão Platão aqui presente;
esse é Ajantodoro, de quem é irmão
Apolodoro, também presente. Posso
citar muitas outras pessoas, uma das
quais de preferência devia Meleto ter
apresentado como testemunha da acu-
sação; se então se esqueceu, faça-o
agora, com minha licença, e diga se
tem algum testemunho daquela nature-
za. Bem ao contrário, senhores, acha-
reis todos prontos a acudir-me a mim,
o corruptor, que faço mal a seus paren-
tes no dizer de Meleto e Anito. Talvez
tivessem razões para me apoiar os
corrompidos; mas os que não corrom-
pi, já mais idosos, parentes daqueles,
que motivo terão para apoiar-me,
senão o reto e justo de reconhecerem
que Meleto mente e eu digo a verdade?
O Estilo da Defesa
Basta, senhores; o que eu poderia
alegar em minha defesa é, em suma,
isso mesmo e quiçá argumentos do
mesmo gênero. Algum de vós talvez se
indigne com a recordação do seu caso,
se ele próprio, às voltas com uma lide,
embora menos grave que esta, teve de
pedir, de suplicar aos juizes com lâgri-
mas copiosas, de trazer, para melhor
movê-los à piedade, os filhos, outros
parentes, muitos amigos, ao passo que
eu — não é? — não vou fazer nada
disso, apesar de estar correndo, como
posso imaginar, o extremo perigo.
Pode ser que alguém, com esse senti-
mento, seja mais duro para comigo e,
raivoso do contraste, dê um voto de
raiva. Se algum de vós estiver nesse
caso — o que não creio — mas se esti-
ver, eu me acharia no direito de lhe
dizer: “Eu também, meu caro, não
deixo de ter parentes.” Como lá diz
Homero,
não nasci dum carvalho ou dum penedo,
mas de seres humanos; portanto, Ate-
nienses, tenho parentes e filhos; estes
são três, um já taludo e dois pequeni-
nos. Não obstante, não trouxe nenhum
deles para aqui com o fito de vos pedir
absolvição. Por que razão não hei de
' fazê-lo? Não por presunção, Atenien-
ses, nem por menosprezo vosso; minha
calma ou perturbação em face da
morte é questão à parte; mas em face
da honra, minha, vossa e de toda a
cidade, eu considero uma nódoa aquele
procedimento na minha idade e com a
reputação adquirida; certa ou errada,
sempre é opinião corrente que Sócrates
nalguma coisa se distingue do comum
dos homens. Se, quem passa por distin-
guir-se entre vós pela sabedoria, pela
coragem ou qualquer outro mérito, é
uma pessoa daquelas atitudes, que ver-
gonha! Como vi tantas vezes pessoas,
embora tidas como homens de valor,
SJsa
26 — PLATÃO
fazer em juizo cenas de causar espan-
to, persuadidos de que seria um horror
terem de morrer, como se houvessem
de ser imortais se vós não os condenás-
seis à morte; eles são, a meu ver, uma
vergonha para a cidade, dando ao
forasteiro a impressão de que os ho-
mens distinguidos entre os atenienses
pelos seus merecimentos e escolhidos
por eles para o governo e cargos hono-
ríficos em nada diferem das mulheres.
Nós que passamos; não importa como,
por ter algum valor, não devemos,
Atenienses, adotar aquele procedi-
mento, nem deveis vós consentir nele,
caso o adotemos, e sim mostrar-vos
mais decididos a condenar quem, ence-
nando desses dramas lamurientos,
lança o ridículo sobre a cidade, do que
um de comportamento decente.
À parte a questão da honra, senho-
res, não me parece justo pedir e obter
ce dos juízes a absolvição, em vez de
informá-los e corvencê-los. O juiz não
toma assento para dispensar o favor da
Justiça, mas para julgar; ele não jurou:
favorecer a quem bem lhe pareça, mas
Julgar segundo as leis. Nós não vos
devemos habituar ao perjúrio, nem vós
deveis contrair esse vício; seria impie-
dade nossa e vossa. Portanto, Atenien-
ses, não pretendais que eu pratique
diante de vós o que não consideró belo,
nem justo, nem pio, sobretudo, por
Zeus, quando aí está Meleto acusan-
do-me de impiedade! Evidentemente,
se, com a força de persuasão de mi-
nhas súplicas, vos levasse ao perjúrio,
eu vos estaria ensinando a não crer na
existência dos deuses e, com tal defesa,
simplesmente me estaria acusando de
não crer em deuses. Muito ao contrá-
rio, Atenienses, eu acredito como ne-
nhum de meus acusadores e espero de
vós e da divindade que vossã sentença
a meu respeito seja a melhor para mim
e para vós.
e
J6a
a!
27
Análise da Votação
Para que eu me conforme com o
resultado, a minha condenação, con-
correm muitas razões; entre elas, a de
não se tratar de fato inesperado. Muito
mais me espanta o número de votos
contados de cada parte. Eu imaginava
que a decisão seria essa, não por
pequena, mas por grande margem; no
entanto, parece, com uma transposição
de apenas trinta votos, estaria absolvi-
do. No tocante a Meleto, acho que fui
absolvido; mais do que isso, quem
quer pode ver que, não fosse subirem
Anito e Licão para acusar-me, ele seria
multado em mil dracmas, por não ter
colhido um quinto dos sufrágios.
Discussão das Penas
Ora, o homem propõe a sentença de
morte. Bem; e eu que pena vos hei de
propor em troca, Atenienses? A que
mereço, não é claro? Qual será? Que
sentença corporal ou pecuniária mere-
ço eu que entendi de não levar uma
vida quieta? Eu que, negligenciando o
de que cuida toda gente — riquezas,
negócios, postos militares, tribunas e
funções públicas, conchavos e lutas
que ocorrem na política, coisas em que
me considero de fato por demais
pundonoroso para me imiscuir sem me
perder — não me dediquei áquilo, a
que se me dedicasse, haveria de ser
completamente inútil para vós e para
mim? Eu que me entreguei à procura
de cada um de vós em particular, a fim
de proporcionar-lhe o que declaro o
maior dos benefícios, tentando persua-
dir cada um de vós a cuidar menos do
que é seu que de si próprio para vir a
ser quanto melhor e mais sensato,
menos dos interesses do povo que do
próprio povo, adotado o mesmo princi-
pio nos demais cuidados? Que sen-
tença mereço por ser assim? Algo de
bom, Atenienses, se há de ser a sen-
tença verdadeiramente proporcionada
ao mérito; não só, mas algo de bom
adequado a minha pessoa. O que é:
adequado a um benfeitor pobre, que
37a
28 - PLATÃO
precisa de lazeres para vos viver exor-
tando? Nada tão adequado a tal
homem, Atenienses, como ser susten-
tado no Pritaneu; muito mais do que a
um de vós que haja vencido, nas Olim-
piadas, uma corrida de cavalos, de
bigas ou de quadrigas. Esse vos dá a
impressão da felicidade; eu, a felici-
dade; ele não carece de sustento, eu
careço. Se, pois, cumpre que me sen-
tenciem com justiça e em proporção ao
mérito, eu proponho o sustento no
Pritaneu.
Dizendo isso pode parecer, como foi
a respeito das lamúrias e súplicas, que
falo presunçosamente. Não é assim,
Atenienses; mas é que estou conven-
cido de que não faço mal a ninguém
por querer. mas não consigo conven-
cer-vos disso. É que conversamos
durante pouco tempo; se fosse norma
entre vós, como em outros povos, não
decidir um processo capital num dia
só, mas em muitos, suponho que vos
teria convencido; infelizmente, não é
fácil em tempo exíguo escoimar-se de
calúnias tão fortes. Convencido, por-
tanto, de que não faço mal a ninguém,
muito menos o farei a mim próprio;
não direi eu próprio contra mim que
mereça algum mal, nem proporei pena
alguma. Que posso temer? Sofrer a
pena proposta por Meleto, que declaro
ignorar se é um bem, se é um mal? Hei
de preferir e propor em troca uma
daquelas que sei que são males? Por-
ventura a prisão? Para que hei de viver
na cadeia, escravizado ao comando
sempre reformado dos Onze!'? Ou
uma multa, permanecendo preso até
1 Os Onze eram autoridades policiais eletivas. (N.
do T.)
pagá-la toda? Daria na mesma, pois,
como disse há pouco, não tenho bens
com que pagar. Proporei, então, o des-
terro, a que possivelmente me senten-
ciaríeis? Muito amor à vida deveria eu
ter para ficar tão estúpido que não
compreendesse que, se vós, sendo meus
concidadãos, não pudestes aturar mi-
nhas conversas e assuntos, tão impor-
tunos e odiosos para vós, que neste
momento vos estais procurando livrar
deles, outros hão de aturá-los melhor?
Que esperança, Atenienses!
Bela vida seria a minha se, homem
da minha idade, partisse daqui para
viver expulso de cidade em cidade!
Estou certo de que, aonde quer que vá,
os moços me virão ouvir, como aqui;
se os repelir, eles mesmos darão ouvi-
dos aos mais velhos para me expulsar;
se não os repelir, hão de expulsar-me
por causa deles seus pais e parentes.
Pode alguém perguntar: “Mas não
serás capaz, ó Sócrates, de nos deixar €
viver calado e quieto?” De nada eu
convenceria alguns dentre vós mais
dificilmente do que disso. Se vos disser
que assim desobedeceria ao deus e, por
isso, impossível é a vida quieta, não me
dareis fé, pensando que é ironia; dou-
tro lado, se vos disser que para o
homem nenhum bem supera o discor-
rer cada dia sobre a virtude e outros
temas de que me ouvistes praticar
quando examinava a mim mesmo e a
outros, e que vida sem exame não é
vida digna de um ser humano, acredi-
tareis ainda menos em minhas pala-
vras. Digo a pura verdade, senhores,
mas convencer-vos dela não me é fácil.
Acresce que não estou habituado a jul-
gar-me merecedor de mal nenhum.
J8a
DEFESA DE SÓCRATES 29
Propõe Sócrates uma Muita
Se tivesse dinheiro, estipularia uma
multa dentro de minhas posses; não
sofreria nada com isso. Infelizmente,
não tenho mesmo, salvo se quiserdes
estipular tanto quanto possa pagar.
Talvez vos possa pagar uma mina de
“prata; é quanto estipulo, portanto. Mas
aí está Platão, Atenienses, com Criíton,
Critobulo e Apolodoro., mandando que
estipule trinta minas, sob sua fiança.
Estipuio, pois, essa quantia; serão fia-
dores da soma essas pessoas idôneas.
c
WI
Aos que o Condenaram
Por não terdes esperado mais um
pouco, Atenienses, aqueles que deseja-
rem injuriar a cidade vos lançarão a
fama e a acusação de haverdes matado
Sócrates, um sábio. Sim, dir-me-ão
sábio, embora não o seja, os que vos
quiserem malsinar. Se aguardásseis
mais algum tempo, a natureza mesma
satisfaria a vossa vontade. Bem vedes
a minha idade, já distante da vida e
próxima da morte. Não dirijo essas,
palavras -a todos vós, mas aos que
votaram pela minha morte.
Para esses mesmos, acrescento o
seguinte: talvez imagineis, senhores,
que me perdi por falta de discursos
com que vos poderia convencer, se na
minha opinião se devesse tudo fazer e
dizer para escapar à justiça. Engano!
Perdi-me por falta, não de discursos,
mas de atrevimento e descaro, por me
recusar a proferir o que mais gostais de
ouvir, lamentos e gemidos, fazendo e
dizendo uma multidão de coisas que
declaro indignas de mim, tais como
costumais ouvir dos outros. Ora, se
antes achei que o perigo não justifi-
cava nenhuma indignidade, tampouco
me pesa agora da maneira por que mê
defendi; ao contrário, muito mais folgo
em morrer após a defesa que fiz, do
que folgaria em viver após fazê-la
daquele outro modo. Quer no tribunal,
quer na guerra, não devo eu, não deve
ninguém lançar mão de todo e qual-
quer recurso para escapar à morte.
Com efeito, é evidente que, nas bata-
lhas, muitas vezes se pode escapar à
morte arrojando as armas e suplicando
piedade aos perseguidores; em cada
perigo, tem muitos outros meios de
escapar à morte quem ousar tudo fazer
e dizer. Não se tenha por difícil esca-
par à morte, porque muito mais difícil
é escapar à maldade; ela corre mais
ligeira que a morte. Neste momento,
fomos apanhados, eu, que sou um
velho vagaroso, pela mais lenta das
duas, e os meus acusadores, ágeis e
velozes, pela mais ligeira, a malvadez.
Agora, vamos partir; eu, condenado
por vós à morte; eles, condenados pela
verdade a seu pecado e a seu crime. Eu
aceito a pena imposta; eles igualmente.
Por certo, tinha de ser assim e penso
que não houve excessos.
Sobre o futuro, porém, desejo fazer-
vos um vaticínio, meus condenadores;
com efeito, eis-me chegado aquele
momento em que os homens vaticinam
melhor, quando estão para morrer. Eu
vos afianço, homens que me mandais
matar, que o castigo vos alcançará
logo após a minha morte e será, por
Zeus, muito mais duro que a pena
capital que me impusestes. Vós o fizes-
J9a
40a
32 | PLATÃO
tes supondo que vos livraríeis de dar
boas contas de vossa vida; mas o resul-
tado será inteiramente oposto, eu vo-lo
asseguro. Serão mais numerosos os
que vos pedirão contas; até agora eu os
continha e vós não o percebieis; eles
serão tanto mais importunos quanto
são mais jovens, e vossa irritação será
maior. Se imaginais que, matando
Ãos que O
Com os que votaram pela absolvi-
ção, gostaria de conversar a respeito
do que se acaba de passar, enquanto
estão ocupados os magistrados e antes
de seguir para onde devo morrer. Por-
tanto, senhores, ficai comigo mais um
pouco; nada impede que nos entrete-
nhamos enquanto dispomos de tempo.
Quero explicar-vos, como a amigos, O
sentido exato do que me sucedeu
agora.
O que me aconteceu, senhores juízes
— a vós é que chamo com acerto juí-
zes — foi uma coisa prodigiosa. A
inspiração costumada, a da divindade,
sempre foi rigorosamente assídua em
opor-se mesmo a ações mínimas, quan-
do eu ia cometer um erro; agora,
porém, acaba de suceder-me o que vós
estais vendo, o que se poderia conside-
rar, € há quem o faça, como o maior
dos males; mas a advertência divina
não se me opós de manhã, ao sair de
casa, nem enquanto subia aqui para O
tribunal, nem quando ia dizer alguma .
coisa; no entanto, quantas vezes ela me
conteve em meio de outros discursos!
Mas hoje não se me opôs nenhuma vez
no decorrer do julgamento, em nenhu-
homens, evitareis que alguém vos
repreenda a má vida, estais enganados;
essa não é uma forma de libertação,
nem é inteiramente eficaz, nem honro-
- sa; esta outra, sim, é a mais honrosa e
mais fácil; em vez de tapar a boca dos
outros, preparar-se para ser o melhor:
possível. Com este vaticínio, despeço-
me de vós que me condenastes.
Absolveram
ma ação ou palavra. À que devo atri-
buir isso? Vou dizer-vos: é bem possí-
vel que seja um bem para mim o que
aconteceu e não é forçoso que acerte-
mos quantos pensamos que a morte é
um mal. Disso tenho agora uma boa
prova, porque a costumada adver-
tência não poderia deixar de opor-se,
se não fosse uma ação boa o que eu es-
tava para fazer.
Façamos mais esta reflexão: hã
grande esperança de que isto seja um
bem. Morrer é uma destas duas coisas:
ou o morto é igual a nada, e não sente
nenhuma sensação de coisa nenhuma;
ou, então, como se costuma dizer, tra-
ta-se duma mudança, uma emigração
da alma, do lugar deste mundo para
outro lugar. Se não há nenhuma sensa-
ção, se é como um sono em que o
adormecido nada vê nem sonha, que
maravilhosa vantagem seria a morte!
Bem posso imaginar que, se a gente
devesse identificar uma noite em que
tivesse dormido tão profundamente
que nem mesrno sonhasse e, contra-
pondo a essa as demais noites e dias de
sua vida, pensar e dizer quantos dias e
noites de sua existência viveu melhor é
sla
DEFESA DE SÓCRATES 33
mais agradavelmente do que naquela
noite, bem posso imaginar que, já não
digo um particular, mas o próprio rei
da Pérsia acharia fáceis de enumerar
essas noites entre as outras noites e
dias. Logo, se a morte é isso, digo que
é uma vantagem, porque, assim sendo,
toda a duração do tempo se apresenta
como nada mais que uma noite. Se, do
outro lado, a morte é como a mudança
daqui para outro lugar e está certa a
tradição de que lá estão todos os mor-
tos, que maior bem haveria que esse,
senhores juízes?
Se, em chegando ao Hades, livre
dessas pessoas que se intitulam juízes,
a gente vai encontrar os verdadeiros
juízes que, segundo consta, lá distri-
buem a justiça, Minos!2?, Radamanto,
Éaco, Triptólemo e outros semideuses
que foram justiceiros em vida, não
valeria a pena a viagem? Quanto não
daria qualquer de vós para estar na
companhia de Orfeu!?, Museu, He-
siodo e Homero? Por mim, estou pron-
to a morrer muitas vezes, se isso é ver-
dade; eu de modo especial acharia lá
um entretenimento maravilhoso, quan-
do encontrasse Palamedes! *, Ajax de
Telamão e outros dos antigos, que te-
nham morrido por uma sentença iní-
qua; não me seria desagradável com-
parar com os deles os meus
sofrimentos e, o que é mais, passar O
tempo examinando e interrogando os
de lã como aos de cá, a ver quem deles
é sábio e quem, não o sendo, cuida que
'2 Minos, rei de Creta, Radamanto, Éaco, Triptó-
lemo, heróis mitológicos, foram, segundo a tradição .
conservada nos ritos secretos dos chamados Misté-
“rios, designados juízes das almas no outro mundo.
(N. do T.)
13 Orfeu e Museu são autores lendários dos hinos e
cânticos dos ritos dos Mistérios. (N. do T.)
14 Palamedes e Ájax são figuras lendárias; o pri-
meiro teria morrido apedrejado, vítima duma calú-
nia, no acampamento dos gregos em Tróia; o segun-
do, herói duma tragédia de Sófocles, além de o ser
da Ilíada, suicidou-se por ter sido fraudado na
herança das armas de Aquiles, que deviam caber ao
mais valoroso dos guerreiros. (N. do T.)
é. Quanto não se daria, senhores jui-
zes, para sujeitar a exame aquele que
comandou a imensa expedição contra
Tróia, .ou Ulisses,, ou Sísifo —
milhares de outros se poderiam no-
mear, homens e mulheres, com quem
seria uma felicidade indizível estar
Junto, conversando com eles, sujeitan-
do-os a exame! Os de lá absoluta-
mente não matam por uma razão des-
sas! Os de lá são mais felizes que os de
càã, entre outros motivos, por serem
imortais pelo resto do tempo, se a tra-
dição está certa.
Vós também, senhores juízes, deveis
bem esperar da morte e considerar
particularmente esta verdade: não há,
para o homem bom, nenhum mal, quer
na vida, quer na morte, e os deuses não
descuidam de seu destino. O meu não é
efeito do acaso; vejo claramente que
era melhor para mim morrer agora €
ficar livre de fadigas. Por isso é que a:
advertência nada me impediu. Não me
insurjo absolutamente contra os que
votaram contra mim ou me acusaram.
Verdade é que não me acusaram e con-
denaram com esse modo de pensar,
mas na suposição de que me causavam
dano: nisso merecem censura. Contu-
do, só tenho um pedido que lhes faça:
quando meus filhos crescerem, ,casti-
gai-os, atormentai-os com os mesmis-
simos tormentos que eu vos infligi, se
achardes que eles estejam cuidando
mais da riqueza ou de outra coisa que
da virtude; se estiverem supondo ter
um valor que não tenham, repreendei-
Os, como vos fiz eu, por não cuidarem
do que devem e por suporem méritos,
sem ter nenhum. Se vós o fizerdes, eu
terei recebido de vós justiça; eu, e
meus filhos também.
Bem, é chegada a hora de partirmos,
eu para a morte, vós para a vida.
Quem segue melhor rumo, se eu, se
vós, é segredo para todos, menos para
a divindade.
2a
XENOFONTE
DITOS E FEITOS
MEMORÁVEIS
DE SÓCRATES
Tradução de LÍBERO RANGEL DE ANDRADE através da versão francesa de Eugêne Talbot
a
CAPÍTULO I
Admirou-me muitas vezes por que
argumentos, afinal, lograram os acu-
sadores! de Sócrates persuadir os ate-
nienses de que ele merecia a morte por
crime contra o Estado. Com efeito, eis
pouco mais ou menos os termos da
acusação: Sócrates é culpado de não
preitear os deuses que cultua o Estado
e introduzir extravagâncias demonia-
cas. Culpado ainda de corromper os
jovens.
A que testemunho, afinal, recorre-
ram para provar que ele não honrava
os deuses do Estado; se fazia sacrifi-
cios frequentes às abertas, ora em sua
casa, ora nos altares públicos; se
praceiramente recorria à arte divina
tória? Corria a voz, ateada pelo pró-
prio Sócrates, de que o inspirava um
demônio?: eis, sem dúvida, por que o
criminaram de introduzir extrava-
gâncias demoniacas. No entanto, não
introduzia ele mais novidades do que
todos aqueles que crêem na adivinha-
ção e interrogam o vôo das aves, as
vozes, OS signos e as entranhas das vi-
timas: não supõem nas aves nem
naqueles com que se encontram o
conhecimento do que buscam, mas
acreditam que por seu intermédio lho
1 O poeta Meleto, o curtidor Ânito e o orador
Licão. (N. do E.)
2 Demônio: gênio bom ou divindade, e não o senti-
do posterior de gênio do mal. (N. do E.)
a
revelam os deuses; Sócrates também
pensava o mesmo. Diz o vulgo que as
aves e os encontros nos advertem se
devemos prosseguir ou retroceder no
que temos de olho: Sócrates falava o
que sentia, dizendo-se inspirado por
um demônio. E de acordo com as reve-
lações desse demônio aconselhava aos
amigos o fazer certas coisas, o abster-
se de outras. Só tinham a ganhar os
que o ouviam. Arrependiam-se os que
nele não acreditavam. Claro que não
havia de querer passar por imbecil nem
por impostor aos olhos de seus disci-
pulos. E imbecil e impostor ter-se-ia
tornado, se predissesse coisas como
reveladas por um deus e em seguida
fosse desmentido. Evidente, portanto, é
que se absteria de predizer caso não
estivesse certo de falar verdade. Ora, o
que lhe inspiraria esta certeza senão
um deus? E se tinha fé nos deuses,
como poderia negar-lhes a existência?
Por outro lado, eis como se portava
para com os amigos. Em se tratando
de coisas de resultado certo, aconse-
lhava-os a procederem da maneira que
melhor lhe parecia. Quanto às coisas
de êxito duvidoso, mandava-os consul-
tarem os oráculos. Há mister ajudar-se
da adivinhação, dizia, para bem gerir
as casas e os Estados. A arquitetura, a
metalurgia, a agricultura, a política e a
teoria das ciências que tais, o cálculo,
H
40 XENOFONTE
a economia, e todos os conhecimentos
congêneres estão, opinava, ao alcance '
da inteligência humana, porém, agre-
gava, o que de mais eminente encerram
estas ciências encofram-no os deuses
para si, sequer entremostrando-o aos
olhos dos homens. Com efeito, ignora
aquele que bem plantou um vergel
quem lhe colherá os frutos. Quem a
capricho construiu uma casa não sabe
quem a habitará. Tampouco sabe o
general se lhe será vantajoso coman-
dar. Tampouco sabe o político se lhe
aproveitará governar o Estado. Tam-
pouco sabe aquele que, esperando ser
feliz, esposa uma bela mulher, se ela
não será seu tormento. Tampouco sabe
aquele que se alia aos poderosos do
Estado se dia virá em que por eles seja
banido. Insensatos chamava Sócrates
aos que em tudo isso não vêem provi-
dência divina e tudo sujeitam à inteli-
gência humana. Por igualmente insen-
satos, porém, havia os que consultam
os oráculos sobre coisas que os deuses
nos deram a faculdade de saber por
nós próprios. Como se lhes perguntás-
semos a quem confiar nosso carro, a
cocheiro hábil ou inapto. A quem
entregar nosso navio, a bom ou mau
piloto. Ou sobre coisas que podemos
saber por meio do cálculo, da medida
ou da balança. Reputava impiedade
consultar os deuses sobre coisas tais:
aprendamos o que nos conferiram os
deuses a faculdade de aprender, dizia,
e deles procuremos saber o que nos é
velado. Porque eles o revelam aos que
distinguem com seus favores.
No mais, Sócrates sempre viveu à
luz pública. Pela manhã saía a passeio
e aos ginásios, mostrava-se na ágora à
hora em que regurgitava de gente e
passava o resto do dia nos locais de
maior concorrência, o mais das vezes
falava, podendo ouvi-lo quem quisesse.
Viram-no ou ouviram-no alguma vez
fazer ou dizer algo contrário à moral,
ou à religião? Abstendo-se, ao revés da
maioria dos outros filósofos, de disser-
tar sobre a natureza do universo, de
indagar a origem espontânea do que os
sofistas chamam “cosmos” e a que leis
fatais obedecem os fenômenos celestes,
ia a ponto de demonstrar a loucura dos
que vacam a semelhantes especula-
ções. Antes de tudo examinava se eles
presumiam ter aprofundado suficiente-
mente os conhecimentos humanos para
se ocuparem de tais assuntos, ou se
achavam razoável pôr de parte o que
está ao alcance do homem para intro-
meter-se no que aos deuses pertence.
Admirava-se de que não vissem serem
tais segredos intangíveis ao homem, de
vez que, longe de concordarem entre si,
aqueles mesmos que se gabam de me-
lhor falar sobre eles se têm mutua-
mente na conta de loucos. EFfetiva-
mente, entre os loucos, uns não temem
o que é temível, outros temem o que
não é de temer. Uns acham poder-se
sem pejo tudo dizer e tudo fazer em pú-
blico, outros, dever-se fugir todo co-
mércio com os homens. Uns não res-
peitam nem templos nem altares, nem
nada do que é divino, outros reveren-
ciam ag pedras € as primeiras árvores e
animais que lhes aparecem pela frente.
Quanto aos que se preocupam com a
natureza do universo, estes afirmam a
unidade do ser, aqueles sua multipli-
cidade infinita. Uns crêem os corpos
em perpétuo movimento, outros em
inércia absoluta. Aqui se pretende que
tudo nasce e tudo morre, ali que nada
se criou e nada deve ser destruído. Per-
guntava Sócrates ainda se, assim como
estudando o que concerne ao homem
se espera auferir desse estudo proveito
para si e para outros, não imaginam os
que estudam o que pertence aos deu-
ses, uma vez instruídos nas leis fatais
do mundo poder produzir a seu capri-
cho os ventos, a chuva, as estações e
tudo o de que venham a precisar no gê-
t
12
Js
17
18
MEMORÁVEIS-I 41
nero ou se, sem se abalançarem a
"tanto, contentar-se-ão de saber como
se processa cada um desses fenômenos.
Eis .o que dizia dos que Se ingerem
nesta sorte de indagações. Quanto a,
ele, discutia constantemente tudo o que
ao homem diz respeito, examinando o
que é o piedoso e o ímpio, o belo e o
vergonhoso, o justo e o injusto, a sabe-
doria e a loucura, o valor e a pusilani-
midade, o Estado e o homem de Esta-
do, o governo e o governante e mais
coisas deste jaez, cujo conhecimento
lhe parecia essencial para ser virtuoso
e sem o qual se merece o nome de
escravo.
Não admira, pois, que seus juízes se
hajam enganado quanto a seus pensa-
mentos íntimos. Porém o que todos
sabiam, não é de estranhar que o te-
nham sobreolhado? Membro do sena-
do, proferira Sócrates o juramento que
aos senadores se exige de desincum-
bir-se de suas funções de conformidade
com as leis. Eleito epistata do con-
gresso popular e querendo o povo,
contrariamente: às leis, condenar à
morte, coletivamente e por um único
voto, nove generais, entre os quais Tra-
silo e Erasínides, recusou a votação,
não obstante a cólera do povo e as
ameaças de muitos poderosos. Preferiu
manter-se fiel ao juramento a cometer
uma injustiça para comprazer à multi-
dão e pór-se a coberto de ameaças. É
que, embora diversamente da maneira
como crê a maior parte dos homens,
acreditava que os deuses têm olhos
fitos nas ações humanas. Crê a média
dos homens que os deuses sabem cer-
tas coisas e ignoram outras. Achava
Sócrates que de tudo estão ao corrente
—— palavras, ações, pensamentos secre-
tos — que estão em toda parte e tudo
nos revelam que seja de nossa alçada.
Admira-me, pois, hajam crido os
atenienses alimentasse Sócrates opi-
niões extravagantes sobre os deuses,
ele que jamais coisa alguma disse nem
praticou de ímpio, ele cujas palavras e
ações sempre foram tais que quem
falasse e se portasse do mesmo modo
seria reputado o mais pio dos huma-
nos.
19
20
CAPÍTULO II
O que igualmente me assombra é o
haver-se embrechado em certos espíri-
tos que Sócrates corrompia a juventu-
de, Sócrates que, à parte o que foi dito,
era 6 mais reportado dos mortais nos
prazeres dos sentidos como da mesa, o
“mais endurecido contra o frio, o calor,
as fadigas de toda espécie e tão sóbrio
que lhe sobrebastava seu minguado
pecúlio. Com tais qualidades, como
poderia ter desencaminhado os outros
à impiedade, à libertinagem, à indolên-
cia? Pelo contrário, não. divertiu mui-
tos homens desses vícios, fazendo-os
amantes da virtude e infundindo-lhes a
esperança de, mediante a fiscalização
de si mesmos, virem a ser um dia vir-
tuosos? Nunca se disse, contudo, mes-
tre de sabedoria, posto com seu proce-
dimento fizesse esperar aos que o
frequentaram o dele se aproximarem
imitando-o. Não descurava do corpo
nem aprovava os que o fazem. Rejei-
tava o comer com excesso para ao de-
pois fatigar-se outro tanto, recomen-
dando um repasto regulado pelo
apetite e seguido de exercício modera-
do. Este regime — dizia — conserva a
saúde do espírito. Ao demais, não era
afetado nem refinado, fosse no vestir,
fosse no calçar, fosse em toda a sua
maneira de viver. Tampouco fazia de
seus discípulos homens cúpidos, pois
curando-os das outras paixões não
pedia a menor paga aos que lhe procu-
ravam a companhia. Cria, com esta
abstenção, melhor resguardar a pró-
pria liberdade, chamando escraviza-
dores de si mesmos os que reclamam
salário por suas palestras, visto se
imporem a obrigação de conversar
com os que lhes pagam. Admirava-se
de que um homem que fizesse profis-
são de ensinar a virtude exigisse remu-
neração e que em vez de ver na aquisi-
ção de um amigo virtuoso a maior das
recompensas, temesse que um coração
tonverso à virtude não pagasse O
maior dos benefícios com o maior
reconhecimento. Aliás, Sócrates nunca
prometeu nada de semelhante a nin-
guém. Porém abrigava a certeza de
ganhar, naqueles que lhe seguiam os
princípios, bons amigos que o ama-
riam e se estimariam reciprocamente
para o resto da vida. Como, pois,
corromperia um homem desses a ju-
ventude? A menos que o incitamento à
virtude seja meio de corrupção.
Mas, por Júpiter! — diz o acusador
— instigava seus discípulos ao des-
prezo das leis estabelecidas, tachando
de estupidez o escolher com uma fava
os magistrados de uma república,
quando ninguém tiraria à sorte um
piloto, um arquiteto, um tocador de
flauta, etc., cujos erros são, no entanto,
muito menos prejudiciais que os da-
10
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44
queles que governam os Estados. Tais
falas — acresçenta — inspiram nos jo-
vens o menosprezo da constituição em.
vigor e os tornam violentos. De mim
penso que os que praticam a sabedoria
e se crêem capazes de dar conselhos
úteis a seus concidadãos de modo ne-
nhum são violentos, visto saberem que
a violência atiça o ódio e acarreta peri-
go, enquanto a persuasão elimina os
riscos e não prejudica a perfeição.: De
fato, o homem a quem constrangemos
nos odeia como se o houvéssemos lesa-
do. Aquele a quem persuadimos nos
preza como se lhe tivéssemos feito um
benefício. Não dos que praticam a
sabedoria, pois; é própria a violência,
porém, dos que'têm força mas não têm
razão. Além do que, na violência hão:
mister numerosos auxiliares. Para per-
suadir não se precisa de ninguém: sozi-
nho pode-se convencer. Demais, nunca
tais homens mancharam as mãos de
sangue. Quem preferiria matar seu
semelhante a deixá-lo viver e lhe ser
útil pela persuasão?
Todavia — prossegue o acusador
— Críitias e Alcibiades, que foram
discípulos de Sócrates, causaram o
maior mal ao Estado. Crítias foi o
mais cúpido, violento e sanguinário
dós oligarcas. Alcibiades o mais in-
temperante e insolente dos democratas.
Longe de mim, se estes dois homens
fizeram algum mal à pátria, o propó-
sito de justificá-los. Quais foram suas
relações com Sócrates, eis o que desejo
esclarecer. Eram eles, por natureza, Os
mais ambiciosos de todos os atenien-
ses. Queriam tudo feito por eles, que
seu nome não tivesse par. Sabiam Só-
crates contente de pouco, senhor abso-
luto de todas as suas paixões e capaz
de acaudilhar a seu talante o espírito
daqueles com que falava. Sabedores
disso e com o caráter que já lhes perfi-
lei, crerá alguém fosse pelo desejo de
imitar a vida de Sócrates e sua tempe-
XENOFONTE
rança que lhe solicitavam a conversa-
ção, ou na esperança de, frequentan-
do-o, tornarem-se bons oradores e
nábeis políticos? A mim me quer pare-
cer que se um deus lhes houvesse dado
a escolher entre o viver a vida inteira
como viam viver Sócrates ou morrer,
teriam preferido a morte. Desembu-
çou-os seu procedimento. Assim se jul-
garam superiores aos companheiros,
abandonaram Sócrates para abraçar a
política, móvel de sua ligação com ele.
Objetar-me-ão, talvez, que Sócrates
não deveria ter ensinado política aos
que com ele privavam antes de ensi-
nar-lhes a sabedoria. Não o nego.
Vejo, porém, que todos aquejes que
ensinam praticam o que ensinam afim. .
de edificar pelo exemplo os que apren+ -
dem, a passo igual que os estimulam
pela palavra. Sei que Sócrates era para
seus discípulos modelo vivo de virtuo-
sidade e que lhes administrava as mais
belas lições acerca da virtude e o mais
que ao homem concerne. Sei que Cr-
tias e Alcibiades se portaram prudente-
mente enquanto conviverám com Sé-
crates. Não que temessem ser por ele
castigados ou batidos, mas por crerem.
então ser a tudo preferível o hábito de
virtude.
Quiçã sustentem muitos de nossos
pretensos filósofos que o homem justo
jamais se torna injusto nem o sábio
insolente. Que urna vez de posse de
uma ciência nunca mais se esquece o:
que se aprendeu. De minha parte, estou
longe de pensar como eles. Vejo, em
efeito, que se não se exercita o corpo a
gente se torna inapto para os trabalhos
corporais, e que, igualmente, se não se
exercita o espirito se torna incapaz dos
trabalhos espirituais, não se podendo
fazer o que se deve nem se abster do
que se deve evitar. Eis por que os pais,
seja qual for a sabedoria de seus filhos,
os afastam dos homens perversos, con-
victos de que o comércio dos bons
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MEMORÁVEIS-I 45
alenta a virtude, e cresta-a o dos maus.
Testemunham-no os versos do poeta:
Os homens de bem te ensinarão
boas coisas.
Os maus te farão perder a prt
ria razão.
irestoutro:
Às vezes o sábio é bom, às vezes
mau.
A esses testemunhos ajunto o meu.
Pois vejo que, se pela falta de exercício
se eBquecem os versos, não obstante o
recufso da medida, da mesma forma se
esquece a palavra do mestre, por causa
da negligência. Ora, quando se esque-
cem estas exortações, se esquecem
também as impressões que induzem a
alma a desejar a sabedoria. E olvida-
das tais impressões, não admira que se
2 olvide a própria sabedoria. Noto ainda
que aqueles que se entregam ao vinho e
capitulam dos prazeres dos sentidos
são. menos capazes de fazer o que
dever e de resguardar-se do que cum-
pre evitar. Muitos há que antes de
“amar sabiam administrar seus bens.
Amando, já não o sabem. E perdidos
-« seus haveres, já não se esguardam de
-.B
24
ganhos de que se mantinham castos
por considerá-los vergonhosos. Impli-
- Cará tontradição, pois, que o sábio de
ontem já não o seja hoje, que o justo se
tenha feito injusto? Por mim periso que
todas as virtudes requerem a prática,
notadamente a temperança. Inatas na
alma com o corpc, as paixões incitam
a pôr de lado a sabedoria e a satisfazer
“O mais presto os apetites sensuais.
Enquanto conviveram com Sócra-
tes,
puderam, graças ao seu auxílio, sopear
as más paixões. Uma vez longe dele,
Crítias, refugiado na Tessália, viveu
em companhia de homens mais afeitos
à ilegalidade que à justiça. Perseguido,
- por causa de sua beleza, por uma mul-
tidãao de mulheres da mais alta catego-
ria, corrompido por causa do crédito
tanto Crítias como Alcibiades '
de que gozava assim na república como
nas cidades aliadas, por um enxame de
hábeis aduladores, honrado pelo povo,
alcançando sem esforço o primado do
poder, Alcibíades relaxou-se tal esses
atletas que, triunfando facilmente em
todas as lutas, descuidam de todo exer-
cício. Depois, orgulhosos de seu nasci-
mento, soberbos de sua riqueza, ébrios
do próprio poder, amolentados por
uma turba de indulgentes, corrompidos
de tantos lados ao mesmo tempo, ad-
mira que sua insolência haja trans-
posto todos os limites? E a Sócrates é
que acha o acusador de imputar as fal-
tas que cometeram?! Entretanto,
quando eram jovens, numa idade em
que mais que nunca deveriam ter sido
desregrados e intemperantes, Sócrates
conteve-os na moderação: o que o acu-
sador não acha digno do menor lou-
vor. Não é esta a praxe do julgador.
Onde-o flautista, o citarista ou o mes-
tre qualquer a quem se reproche o fato
de seus discípulos, uma vez formados,
se tornarem maus sob outros mestres?
Onde o pai cujo filho, prudente en-
quanto manteve relações com um
amigo, se haja pervertido na sociedade
de outro, que se lembre de acusar o pri-
meiro amigo? Pelo contrário, não o
elogiará tanto mais quanto míais vicio-
so se tenha tornado seu filho com o
segundo? Os próprios pais não são
responsáveis, ainda que a seu pé, seus
filhos enveredem pela senda do mal,
uma vez que só lhés dêem bons exem-
plos. Eis como se devia julgar Sócra-
tes. Cometeu ele próprio algum mal?
Merece ser tratado como perverso.
Porém, se jamais deixou de ser homem
de bem, será justo acusá-lo de uma
depravação que não lhe cabe? Se, em-
bora abstêmio do mal, houvesse assis-
tido sem desaprová-los aos atos vergo-
nhosos dos outros, estaria no
direito de censurá-lo. Mas, tendo per-
cebido que Critias, enamorado de Euti-
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3!
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46 XENOFONTE
demo, queria gozá-lo à maneira dos
que abusam do próprio corpo para
satisfazer seus desejos amorosos, for-
cejou por demovê-lo de semelhante
intento, dizendo-lhe indigno de homem
livre e indecente a amigo da virtude ir
como mendicante solicitar algo do ob-
jeto amado, junto ao qual cumpre
sobretudo fazer-se valer, e ainda mais
solicitar coisa oprobriosa. Crítias fazia
ouvidos de mercador e não dava de si.
Então se pretende haver Sócrates dito
ante numerosa assistência e em pre-
sença de FEutidemo que Crítias lhe
parecia ter tal ou qual semelhança com
um porco, pois queria esfregar-se em
Eutidemo como se esfregam os porcos
nas pedras. Desde então Crítias se tor-
nou inimigo jurado de Sócrates. No-
meado um dos Trinta e monoteta com.
Cáricles, guardou-lhe rancor e proibiu
por lei o ensino da oratória. Assim ata-
cava Sócrates. Não tendo de que acu-
sá-lo; carregava-o com a censura que
de comum se insimula aos filósofos e
caluniava-o junto à opinião pública.
Porque de mim nunca ouvi Sócrates
dizer o que quer que fosse que autori-
zasse semelhante acusação nem sei de
ninguém que diga tê-lo ouvido. Que a
lei de Crítias era petardo endereçado
contra Sócrates, de sobejo o provaram
os acontecimentos. Haviam os Trinta
feito morrer grande número de cida-
daãos dos mais ilustres e desgarrado ou-
tros tantos da trilha da justiça. Disse
Sócrates, de uma feita, que muito
estranharia que o guarda de um reba-
nho que fizesse seus bois diminuírem
de número e emagrecerem, não se reco-
nhecesse mau pastor. Mas que mais
estranharia ainda se um homem colo-
cado à testa de um Estado e cujos cida-
dãos tornasse menos numerosos e pio-
res não se envergonhasse de seus atos e
não conviesse ser mau magistrado.
Indo estas palavras ter aos ouvidos de
Crítias e Cáricles, estes chamaram Só-
crates a sua presença, mostraram-lhe a
lei e proibiram-lhe toda palestra com
os jovens. Perguntou-lhes Sócrates se
lhe era permitido interrogá-los sobre o
que nessa proibição se lhe afigurava
obscuro, e à sua resposta afirmativa:
— Estou pronto — disse — a obe-
decer às leis. Mas. para que não me
aconteça infringi-las por ignorância,
34
eis o que claramente desejo saber de -
vós. Que entendeis, quando lhe proibis
a prática, por arte da palavra? O mal
ou o bem falar? Porque se vos referis à E
arte de bem falar, evidente é dever abs-
ter-se de bem falar. Mas se tendes em
vista a má oratória, claro é dever esfor-
çar-se por bem falar.
— De vez que és tão bronco, ó Só-
crates — repostou Caricles Rolanco:
— anterdizemos-te expressamente, O
que é mais claro, o conversar com Os
moços.
— Para evitar — volveu Sócrates
— que por equívoco não observe o que -
me é defeso, dizei-me até que idade
deve ter-se os homens por moços.
— Enquanto não tiverem acesso ao
senado — respondeu Cáricles, à min-
gua de razão suficiente. — Não fales,
pois, com os jovens de menos de trinta
anos.
— Então se quiser comprar alguma
coisa de homem de menos de trinta
anos não poderei perguntar-lhe: Quan-
to custa isso?
— Sim, isso se te permite — assen-
tiu Cáricles. — Mas tens a mania, Só-
crates, de viver fazendo perguntas
sobre coisas que sabes, e isso é que te
proibimos. |
— Quer dizer que não poderei res-
ponder a um jovem que me perguntar:
Onde mora Cáricles? Onde estã Cri-
tias?
— Ainda isso se te permite — disse
Cáricles.
— Sim, Sócrates — interferiu Cri-
tias — é preciso deixar em paz os
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MEMORÁVEIS-I 47
sapateiros, carpinteiros e ferreiros.
Eles estão fartos das tuas parolagens.
— Como! exclamou Sócrates
— devo, pois, renunciar às conclusões
de justiça, piedade, etc., que deles
tirava?
— Sim, por Júpiter! — respondeu
Cáricles. —- E 'renuncia também aos
teus vaqueiros. De outra forma arris-
cas. diminuir por tua vez o número dos
bois.
Estas palavras denotam claramente
que haviam sido inteirados do propó-
sito sobre os bois e estavam abespi-
nhados com Sócrates.
Vimos, pois, quais eram as relações
entre Crítias e Sócrates e suas disposi-
ções mútuas. Eu não hesito em dizer
impossível aprender com mestre que
não nos agrade. Ora, Crítias e Alci-
biades frequentavam Sócrates, não
porque este lhes agradasse, mas por
abrigarem a esperança de governar o
Estado. Enquanto se mantiveram a seu
lado, procuraram aproximar-se sobre-
tudo dos que se achavam ligados aos
negócios políticos. Assim, diz-se que
Alcibiades, antes dos vinte anos de
idade, teve com Péricles seu tutor e pri-
meiro cidadão de Atenas, esta con-
versa em torno das leis:
— Diz-me, Péricles,
nar-me o que é uma lei?
— Naturalmente — respondeu Pé-
ricles.
— Ensina-me então, em nome dos
deuses — tornou Alcibíades. — Pois
ouço elogiarem certos homens por seu
respeito às leis e me parece que sem
podes ensi-
saber o que seja uma lei jamais se
poderia merecer tal encômio.
— Se é isso o que desejas saber,
facil é satisfazer-te, Alcibíiades
disse Péricles —: Chama-se lei toda
deliberação em virtude da qual o povo
reunido decreta o que se deve fazer ou
não.
— E que ordena ele que se faça, o
bem ou o mal?
— O bem,
nunca o mal.
— E quando, em lugar do povo, é,
como numa oligarquia, uma reunião
de algumas pessoas que decreta o que
se deva fazer, como se chama isso?
— Tudo o que após deliberação or-
dena o poder que dirige um Estado se
chama lei.
— Mas se um tirano que governa
um Estado ordena aos cidadãos fazer
tal ou qual coisa, trata-se ainda de lei?
— Sim, tudo o que ordena um tira-
no que detém o poder se chama lei.
— Que é então, Péricles, a violên-
cia e a ilegalidade? Não é o ato pelo
qual o mais forte, em vez de persuadir
o mais fraco, constrange-o a fazer o
que lhe apraz?
— Essa a minha opinião — con-
veio Péricles.
— Portanto, toda vez que, em lugar
de usar da persuasão, um tirano força
os cidadãos por um decreto, será
legalidade?
— Ássim o creio. Errei, pois, dizen-
do sejam leis as ordens de um tirano
que não emprega a persuasão.
— E quando a minoria não usa da
persuasão junto à multidão, mas abusa
de seu poder para forjar decretos, cha-
maremos a isso violência ou não?
— Tudo o que se exige de alguém
sem empregar a persuasão, trate-se ou
não de um decreto, pila me antes
violência que lei.
— E tudo o que, exercendo o poder,
impuser a multidão aos ricos sem o
emprego da persuasão será ainda antes
violência que lei?
— Bravos! Alcibiades! — excla-
mou Péricles. — Nós também, na tua
idade, éramos hábeis em semelhantes
matérias. Tomávamo-las por tema de
declarações € argumentações, tal como
presentemente fazes comigo.
rapaz, por Júpiter! e
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so
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48 XENOFONTE
— Lamento, Péricles, não ter podi-
do palestrar contigo nessa época em
que ganhavas a mão a ti mesmo! —
rematou Alcibiades.
Apenas se julgaram mais hábeis que
os administradores da cidade, Criítias e
Alcibiades deixaram a companhia de
Sócrates, com quem nunca simpati-
zaram e que os feria fazendo-lhes sen-
tir as próprias faltas, e abraçaram a
política, motivo de sua ligação com
ele. Já Criton, Querefonte, Querécra-
tes, Hermócrates, Símias, Cebes,
Fédon e tantos outros de seus discí-
pulos dele se acercaram, não para se
formarem na elogiúência da ágora ou
do tribunal, mas para se tornarem ho-
mens virtuosos e conhecerem seus
deveres para com sua família, seus
parentes, servidores, amigos, pátria,
concidadãos: e jamais nenhum deles,
nem na juventude nem em idade mais
avançada, praticou o mal nem disso foi
acusado.
Mas Sócrates — diz seu acusador
— destruía nas criançás o respeito
filial, convencendo seus discípulos de
que os tornava mais hábeis que seus
pais, dizendo-lhes que a lei permite
encarcerar o pai convicto de loucura,
para provar o que dizia que ao homem
instruído assiste o direito de encadear
o ignorante. Longe disso, achava Só-
crates que o indivíduo que sob capa de
ignorância acorrentasse outro, merecia
ser acorrentado a seu turno pelo pri-
meiro que soubesse mais que ele. Eis
por que examinava de cotio em que di-
fere a ignorância da loucura, parecen-
dolhe não se proceder erradamente
encarcerando os loucos — em seu pró-
prio interesse e de seus amigos — ao
passo que os ignorantes devem apren-
der o de que necessitam da boca dos
que sabem.
Não só aos pais — prossegue o acu-
sador — «mas também aos outros
parentes ensinava Sócrates seus disci-
pulos a desrespeitarem, dizendo que
quando se está doente ou empenhado
num processo de nada valem os paren-
tes e sim os médicos ou os advogados.
Do mesmo modo, falando dos amigos,
dizia que de nada nos serve sua
benevolência, se não nos aproveita.
Que só merecem nossa estima os que
sabem o que é preciso saber e no-lo
podem ensinar. E como persuadia os
Jovens de que era muito sábio e muito
hábil em tornar os outros sábios,
convencia-os, em proveito próprio, a
não agasalharem a menor estima a
seus semelhantes. Não ignoro usasse
Sócrates dessa linguagem ao falar dos
pais, parentes «e amigos: aventava que
após a deserção da alma devemos
apressar-nos em fazer desaparecer o
corpo do ente inda o mais querido,
pois unicamente naquela reside a inte-
ligência. Enquanto vivo — dizia — o
homem corta com as próprias mãos ou
faz cortar por outrem o que em seu
corpo, objeto de sua mais viva afeição,
lhe parece inútil e supérfluo. Assim os
homens cortam de vontade própria as
unhas, os cabelos, as calosidades.
Entregam-se aos médicos para que os
cortem e queimem, com dores e sofri-
mentos indizíveis e ainda se crêem na
obrigação de recompensá-los. Afinal
cospem a saliva o mais longe possível
da boca, porque de nada lhes serve o
guardá-la, sendo até prejudicial. Assim
falando, não exortava a enterrar o pai
vivo nem cortar-se a si mesmo em
pedaços, mostrando que o que é inútil
deve ser desprezado, instava seus disci-
pulos a envidarem todos os esforços
por tornar-se o mais sóbrios €e úteis
possível, a fim de que, se desejassem
granjear a estima dos pais, irmãos ou
não importa quem, não se fiassem ape-
nas nos liames parentescos, mas pro-
curassem ser úteis âqueles cuja estima
ambicionassem.
Pretende o acusador que Sócrates
escolhesse os trechos mais perigosos
dos grandes poetas e os utilizasse
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só
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a
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MEMORÁVEIS-I 49
como argumentos para formar seus
discípulos no crime e na violência.
Assim, quando citava este verso de
Hesíodo: Não a ação, mas a inação é
que-é vergonhosa, seria para mostrar o
poeta animando a não deixar passar
nenhuma oportunidade, justa ou injus-
ta, e de tudo aproveitar-se. Longe disso
a verdade. Reconhecendo ser a ação
útil e honrosa ao homem e a inação
» prejudicial e vergonhosa, uma um bem
“ty PESE
ie a outra um mal, dizia que aqueles
“que praticam o bem agem e agem
como deve agir-se, enquanto chamava
ociosos os que jogam dados ou se dedi-
cam a outras ocupações condenáveis e .
funestas. Assim compreendido, nada
mais verdadeiro que o verso: Não a
ação, mas a inação é que é vergonhosa.
Acrescenta ainda o acusador que Só-
crates citava frequentemente estés ver-
sos de Homero, onde se diz de Ulisses
que Quando via um rei, um herói de
escol, detinha-o com palavras de lison-
ja: “Filho dos deuses, não fujas como
um covarde, senta-te e faze sentar tua
grosseira falange”. Mas se topava com
um reles soldado a vociferar, batia-lhe
com o cetro e rude e altivamente lhe
dizia: “Senta-te! mísero, ouve a pala-
vra de quem vale mais que tu, raça inú-
til e frívola, covarde no combate, zero
no conselho!” Tais versos explicá-los-
ia Sócrates como se o poeta tivesse
aprovado que se maltratasse aos ple-
beus e aos pobres. A verdade, porém, é
que Sócrates nunca disse semelhante
coisa, do contrário teria crido se deves-
se maltratá-lo a ele próprio: dizia que
os homens que nada valem tanto no
conselho como na ação, incapazes,
quando necessário, de prestar seu con-
curso ao exército, ao Estado, à nação
e, não obstante, prenhes de atrevi-
mento, devem ser reprimidos por todos
os meios, inda que ricos. Muito pelo
contrário, Sócrátes mostrava-se aber-
tamente amigo do povo e filantropo.
De feito, cercado de numerosos discí-
pulos, atenienses e estrangeiros, jamais
auferiu proveito algum desse comércio,
transmitindo a todos e sem reserva o
que sabia. Alguns deles venderam
caríssimo a outros o que dele haviam
recebido gratuitamente e não foram
como ele amigos do povo, atento have-
rem recusado suas lições aos que não
lhas podiam pagar. Assim, muito mais
exaltou Sócrates a nossa República
que Licas a dos lacedemônios. Licas
tinha sua mesa aberta aos forasteiros
que as gimnopédias atraíam à Lacede-
mônia. Sócrates, espargindo seu tesou-
ro durante todo o curso de sua vida,
prestou o maior dos serviços a todos
os que dele quiseram quinhoar, devol-
vendo melhores os que o procuravam.
Senhor de tal caráter, minha convic-
ção é que Sócrates merecia de nossa ci-
dade não a morte, porém, honras. Jul-
gai o fato à luz das leis e haveis de
concordar comigo. Passível da pena de
morte, segundo as leis, é quem for
surpreendido roubando, furtando rou-
pas, cortando bolsas, arrombando pa-
redes, vendendo seus semelhantes, pi-
lhando templos: todos crimes de que
mais que ninguém se absteve Sócrates.
Excitou sedições ou ocasionou derro-
tas? Maculou-se em alguma traição ou
outro crime qualquer? Esbulhou al-
guém de seus haveres? Lançou alguém
na desgraça? Não, jamais foi acusado
de nenhum destes crimes. Como,
então, poderia ser submetido a julga-
mento, ele que, longe de pretender a
inexistência dos deuses, como o incri-
mina o auto de acusação, mais que
“ninguém foi respeitoso da divindade?
Longe de corromper os jovens, como
lhe censura a acusação, extirpava. aos
olhos de todos as paixões de seus discí-
pulos e trabalhava por inspirar-lhes o
amor à virtude, essa deidade tão bela e
tão sublime que fez florescerem as
cidades e os lares. Assim procedendo,
como não mereceu as maiores honras
de sua pátria?
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A RO E EESC E E SAE = = a |
ty
CaríTruLO II
Como Sócrates me parecia ser útil a
seus discípulos, já pelo procedimento,
já pela palavra, eis o que passo a rela-
tar, alinhavando o melhor que possa
minhas recordações. No que se refere
aos deuses, havia-se e falava de confor-
midade com as respostas que dá a Pítia
aos que interrogam sobre como se deve
proceder em relação aos sacrifícios, às
honras que é vezo render aos antepas-
sados, etc. Declara a Piítia, por um orá-
culo, que quem quer que sobre esse
ponto proceda conformemente às leis
da pátria procede piedosamente. Ora,
assim procedia e instigava Sócrates os
outros a que procedessem, tendo todos
aqueles que se portassem diferente-
mente na conta de indivíduos excên-
tricos e insensatos. Pedia aos deuses
simplesmente que lhe concedessem os
bens, convicto de que melhor que nós
sabe a divindade quais são eles: pedir-
lhes ouro, dinheiro, poder e o mais que
por aí segue, seria o mesmo, dizia, que
indagar-lhes o resultado de um lanço
de dados, de um combate ou coisas
incertas que tais. Modesto em suas ofe-
rendas, modestos como eram seus
haveres, nem por isso julgava ficar
abaixo dos ricos que, senhores de lar-
gas posses, ofertam vítimas de avanta-
jado tamanho e em grande número.
Indigno dos deuses, dizia, seria aceita-
rem as grandes benesses com maior
prazer que as pequenas, pois assim
mui frequentemente as dádivas dos
maus lhes seriam mais gratas que as
dos bons. Por sua vez, o homem esti-
maria a vida bem pouca coisa, se os
dons das pessoas virtuosas fossem
menos agradáveis aos deuses que os
dos maus. Ao contrário, achava: ele
serem as oferendas das pessoas mais
piedosas as que melhor sabem à divin-
dade. Por isso louvava este verso:
Ofertai aos deuses imortais segundo
vossas posses. E pretendia ser este um
excelente preceito quê observar para
com os amigos, os hóspedes e em todas
as circunstâncias da vida: “.. .ofertai
segundo vossas posses”. Se lhe parecia
receber algum aviso dos deuses, seria
mais fácil decidi-lo a tomar por guia
um cego ignorante do caminho em vez
de um homem clarividente e conhece-
dor do itinerário que fazê-lo proceder
contrariamente a esse aviso. Loucos
chamava aos que, para pôr-se ao abri-
go-da má opinião dos homens, vão de
encontro aos avisos dos deuses, os
quais tinha em muito maior conta que
tudo o que parte do homem. Afizera o
corpo a regime tal que, tirante o caso
de intervenção do Alto, quem o se-
guisse viveria completamente isento de
inquietudes e perigos, tendo sempre
com que ocorrer a suas modestas
necessidades. Era tão frugal que não
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52 XENOFONTE
sei de pessoa que não pudesse traba-
lhar o bastante para ganhar o que con-
tentava Sócrates. Não comia senão
enquanto tivesse prazer, fazendo-o
com disposição tal que o apetite lhe
servia de condimento. Toda bebida lhe
sabia agradavelmente, porque jamais
bebia sem ter sede. Se, convidado, ia a
um banquete, facilimo lhe era observar
o que à maior parte dos homens se
antolha tão penoso, o não entregar-se a
excessos. Aos que não eram capazes
de fazer outro tanto, aconselhava não
comer sem apetite nem beber sem sede.
Sao tais demasias — aditava — que
fazem mal ao estômago, cabeça e espi-
rito. E ajuntava, brincando, que Circe*
empregava a abundância de iguarias
para transformar os homens em por-
cos, e que aos conselhos de Mercúrio,
à sua natural temperança e à absti-
nência dos excessos da mesa devera
Ulisses o haver-se furtado à metamor-
fose. Assim casava o chistoso ao sério.
No tocante ao amor, aconselhava a
fugir resolutamente a sociedade das
pessoas belas. Não é fácil — dizia —
manter-se prudente em seu comércio.
Vindo a saber, certa vez, que Critobu-
lo, filho de Criton, roubara um beijo
ao filho de Alcibíades, mancebo de
rara formosura, teve com Xenofonte,
em presença de Critobulo, esta entrefa-
la:
-— Dize-me, Xenofonte, não tinhas
Critobulo na conta de jovem sábio
antes que de amoroso indiscreto,
homem prudente antes que insensato e
temerário?
— Certamente — conveio Xeno-
fonte.
— Pois bem, considera-o, dora-
vante como o mais impulsivo e arro-
jado dos homens, capaz de desafiar o
ferro e afrontar o fogo.
— Que o viste fazer — indagou
3 Cf. a narração de Homero na Odisséia, canto X.
(N. do E.)
“
Xenofonte — para acusá-lo dessa
maneira?
— Pois não teve a temeridade de
furtar um beijo ao filho de Alcibiades,
jovem de tamanha beleza e frescor?
— Ora, isso é ato de temerário! —
retrucou Xenofonte. — Estou que eu
próprio bem poderia cometer seme-
lhante temeridade.
— Desgraçado! — exclamou Só-
cratêés. — Imaginas o que te sucederia
se beijasses uma pessoa jovem e bela?
Ignoras que de livre, num momento te
tornarias escravo? Que pagarias caro
prazeres perigosos? Que já não terias
ânimo de perquirir o que é o belo e o
bem? Que haverias de dar cabeçadas
como um louco?
— Por Hércules! — retrucou Xe-
nofonte — que terrível poder empres-
tas a um beijo!
— Admira-te? — perguntou Sócra-
tes. — Não sabes que as tarântulas,
que não são maiores que u'a moeda de
meio óbolo 4, com o só tocar os lábios
causam ao homem dores tremendas e
privam-no da razão?
— Por Júpiter! bem o sei: — repli-
cou Xenofonte — mas é que ao picar a
carne as tarântulas insinuaram-lhe um
não sei quê.
— Insensato! — bradou Sócrates
— não desconfias haver no beijo de
uma pessoa jovem e bela algo que teus
olhos não vêem? Ignoras que esse
monstro que se chama uma pessoa
louçã e formosa é tanto mais temível
que a tarântula, quanto esta fere tocan-
do ao passo que a outra, sem tocar,
mas, pelo só aspecto, lança à distância
um não sei quê que põe em delírio?
Talvez até seja porque os jovens belos
firam de longe que se dá o nome de
archeiros aos amores. Aconselho-te,
* Moeda ateniense com o valor de 1/6 da dracma,
pesando 72 centigramas. (N. do E.)
12
MEMORÁVEIS-I 53
pois, Xenofonte, que quando vires uma
pessoa bela, fujas, sem sequer te volta-
res. E a ti, Critobulo, receito-te viajar
um ano inteiro: todo este tempo mal
dará para curar tua picada.
Era pois de parecer, em amor, que
aqueles que não pudessem reprimir seu
ardor o mitigassem como a tudo a que
o espírito só atende em caso de impe-
riosa necessidade do corpo, necessi-
dade cuja satisfação não deve, todavia,
impor à alma o menor constrangi-
mento. Quanto a ele, estava tão bem
armado contra tais delírios, que se
afastava das pessoas jovens e bonitas
com mais facilidade que outros das
pessoas feias e disformes.
Eis como se portava em face do
beber; do comer e dos prazeres dos
sentidos. E além de expor-se muito
menos aos sofrimentos, cria experi-
mentar tanto prazer em satisfazer-se
como os que compram o gozo ao preço
de mil tormentos.
15
CarpíTuULO IV
Se, coma por conjetura muitos es-
crevem e dizem, crê alguém possuisse
Sócrates o maior talento para convidar
os homens a ingressarem na senda da
virtude, porém fosse incapaz de os
fazer trilhá-la, que examine não só as
questões por que confundia, à guisa de
correção, os que pretendiam tudo
saber, como também as práticas que
diariamente entretinha com seus disci-
pulos, e então, julgue se era ou não
capaz de tornar melhores os que com
ele tratavam. Referirei, de começo, a
conversa que lhe ouvi acerca da divin-
dade com Aristodemo, por alcunha o
Pequeno. Soubera ele que Aristodemo
não oferecia aos deuses sacrifícios nem
preces, que não se socorria da adivi-
nhação e até chufeava dos que obser-
vam tais práticas.
|. — Dize-me, Aristodemo — inter-
pelou-o — haverã homens que admires
pelo talento?
— Por certo.
— Nomeia-os.
— Na poesia épica admiro sobre-
tudo Homero, no ditirambo Melanípe-
des, na tragédia Sófocles, na estatuária
Policleto, na pintura Zêuxis.
— Quais são, a teus olhos, mais
dignos de admiração, os artistas que
fazem imagens sem razão e sem movi-
mento ou os artistas que criam seres
inteligentes e animados?
— Por Júpiter! os que criam seres
animados, desde que tais seres não
sejam obra do acaso, mas uma inteli-
gência.
— Das obras sem destinação mani-
festa e daquelas cuja utilidade é incon-
testável, quais consideras como produ-
to do acaso ou de uma inteligência?
— Justo é perfilhar a uma inteli-
gência as obras que tenham fim de
utilidade.
— Não te parece então que aquele
que, desde que o mundo é mundo,
criou os homens lhes haja dado, para
que lhes fossem úteis, cada um dos ór-
gãos por intermédio dos quais experi-
mentam sensações, olhos para ver O
que é visível e ouvidos para ouvir os
sons? De que nos serviriam os olores
se não tivéssemos narículas? Que idéia
teriamos do doce, do amargo, de tudo
o quê agrada ao paladar, se não exis-
tisse a língua para os discernir? Ao
demais, não achas dever olhar-se como
ato de previdência que sendo a vista
um órgão frágil, seja munida de pálpe-
bras, que se abrem quando preciso e se
fecham durante o sono; que para pro-
teger a vista contra o vento, estas pál-
pebras sejam providas de um crivo de
cílios; que os supercílios formem uma
goteira por cima dos olhos, de sorte
que o suor que escorra da testa não
lhes possa fazer mal; que o ouvido re-
10
56 | XENOFONTE
ceba todos os sons sem jamais encher-
se; que em todos os animais os dentes
da frente sejam cortantes e os molares
aptos a triturar os alimentos que
daqueles recebem; que a boca, desti-
nada a receber o que excita o apetite,
esteja localizada perto dos olhos e das
narículas, de passo que as dejeções,
que nos repugnam, têm seus canais
afastados o mais possível dos órgãos
dos sentidos? Trepidas em atribuir a
uma inteligência ou ao acaso todas
essas obras de tão alta previdência?
— Não, por Júpiter! — respondeu
Aristodemo — parece, sem dúvida,
tratar-se da obra de algum artífice
sábio e amigo dos seres que respiram.
— E o desejo inspirado às criaturas
de se reproduzirem, e o desejo inspi-
rado às mães de alimentarem o próprio
fruto, e neste fruto o maior amor à vida
e o mais profundo temor da morte?
— Evidentemente tudo isso são
obras de um ente que decidira existis-
sem animais.
— Crês-te um ser dotado de certa
inteligência e negas existir algo inteli-
gente fora de ti, quando sabes não teres
em teu corpo senão uma parcela da
vasta extensão da terra, uma gota da
massa das águas, e que tão-somente
uma parte ínfima da imensa quanti-
dade dos elementos, entra na organiza-
ção do teu corpo? Pensas haver açam-
barcado uma inteligência que
conseguintemente inexistiria em qual-
quer outra parte, e que esses seres infi-
nitos em relação a ti em número e
grandeza sejam mantidos em ordem
por força ininteligente?
— Sim, por Júpiter! pois não lhes
vejo os autores como vejo os artífices
das nossas obras.
— Tampouco vês tua alma, senho-
ra de teu corpo: de sorte que poderias
dizer nada fazeres com inteligência,
mas tudo fazeres ao acaso.
Aristodemo: Claro, Sócrates,
que não desprezo a divindade. Mas
creio-a muito grande para ter necessi-:
dade de meu culto.
— Contudo — retorquiu Sócrates
— quanto maior for o ente que se
digna de tomar-te sob sua tutela tanto
mais lhe deves homenagens.
— Pois olha, se achasse que os deu-
ses se ocupam dos homens, não os
negligenciaria.
— Como! Julgá-lo que não, se,
antes de mais nada, só ao homem, den-
tre todos os animais, concederam a
faculdade de se manter de pé, postura
que lhe permite ver mais longe, con-.
templar os objetos que lhe ficam acima
e melhor guardar-se dos perigos! Na
cabeça colocaram-lhe os olhos, os
ouvidos, a boca. E enquanto aos ou-
tros animais davam pés que só lhes
permitem mudar de lugar, ao homem
presentearam também com mãos, com
o auxílio das quais realizamos a maior
parte dos atos que nos tornam mais
felizes que os brutos. Todos os animais
têm língua: a do homem é a única que,
tocando as diversas partes da boca,
articula sons e comunica aos outros
tudo o que queremos exprimir. Deverei
falar dos prazeres do amor, cuja facul-
dade,-restrita para todos os outros ani-
mais a uma estação do ano, para nós
se estende ininterruptamente até a
velhice? Nem se satisfez a divindade
em ocupar-se do corpo do homem,
mas, o que é o principal, deu-lhe a
mais perfeita alma. Efetivamente, qual
o outro animal cuja alma seja capaz de
reconhecer a existência dos deuses,
autores deste conjunto de corpos imen-
sos e esplêndidos? Que outra espécie
além da humana rende culto à divinda-
de? Qual o animal capaz tanto quanto
o homem .de premunir-se contra a
fome, a sede, o frio, O calor, curar as
doenças, desenvolver as próprias for- ”
ças pelo exercício, trabalhar por adqui-
rir a ciência, recordar-se do que viu,
13
lá
15
16
MEMORÁVEIS-I 57
ouviu ou aprendeu? Não te parece evi-
dente que os homens vivem como deu-
ses entre os outros animais, superiores
pela natureza do corpo como da alma?
Com o corpo de um boi e a inteligência
de um homem não se estaria em me-
lhor condição que os seres apercebidos
de mãos mas desprovidos de inteli-
gência. Tu, que reúnes essas duas van-
tagens tão preciosas, não crês que os
deuses se carpem de ti? Que será preci-
so então que façam para convencer-te?
— Que me enviem, como dizes que
te enviam, avisos sobre que deva ou
não fazer.
— Quando faiam aos atenienses
que os interrogam por meio da adivi-
nhação, julgas que não falam a ti tam-
bém? Da mesma forma, quando por
prodígios manifestam sua vontade aos
gregos, a todos os homens, serás tu o
único esquecido? Pensas que se não.
tivessem poder para tanto, os deuses
teriam incutido nos homens a crença
de poderem distribuir o bem e o mal, e
que os homens, por eles enganados hã
tantos séculos ainda não o teriam per-
cebido? Não vês que as instituições
humanas mais antigas e mais sábias
— estados e nações — são também as
mais religiosas, que as épocas mais lú-
cidas são também as de maior pieda-
de? Saiba, meu caro, que tua alma
aposentada em teu corpo, governa-o
como lhe apraz. Mister é acreditar,
portanto, tudo dispor a seu grado a
inteligência que habita o universo.
Quê! tua vista pode abranger um raio
de vários estádios e os olhos da divin-
dade não poderiam tudo abarcar ao
mesmo tempo! Teu espírito pode ocu-
par-se simultaneamente do que se
passa aqui, no Egito, na Sicília, e a
inteligência da deidade não seria capaz
de em tudo pensar a um só tempo!
Certo, se obsequiando os homens,
aprendes a conhecer os que também
são suscetíveis de obsequiar-te; se
prestando-lhes serviços, vês os que por
seu turno estão dispostos a retribuir-te;
se deliberando com eles, distingues os
que são dotados de prudência: assim
também, rendendo homenagem aos
deuses, verás até que ponto estão dis-
postos a esclarecer os homens sobre o
que nos ocultaram, conhecerás a natu-
reza e a grandeza dessa divindade que
tudo pode ver e ouvir contemporanea-
mente, estar presente em toda parte e
de tudo ocupar-se ao mesmo tempo.
Tenho para mim que, assim falando,
Sócrates ensinava seus discípulos a se
absterem de toda a ação ímpia, injusta
e reprovável, não somente em presença
dos homens como também na soleda-
de, visto convencê-los de que nada do
que fizessem escaparia aos deuses.
18
!
CAPÍTULO V
Se a temperança é para o homem
uma bela e útil aquisição, vejamos se a
ela não exortava Sócrates quando
dizia: “Cidadãos, se nos sobreviesse
uma guerra € quiséssemos escolher um
homem capaz antes de tudo de salvar-
nos e subjugar o inimigo, escolhe-
riamos alguém que soubéssemos escra-
vo do próprio estômago, do vinho, dos
prazeres do amor, da moleza e do
sono? Como poderíamos esperar que
semelhante homem nos salvasse e
triunfasse do inimigo? Se ao termo da
existência desejássemos confiar a al-
guém a educação de nossos filhos, a
honra de nossas filhas, a adminis-
tração de nossos bens, veriamos o
intemperante digno de tal confiança?
Entregariamos a um escravo intempe-
rante a guarda de nossos rebanhos, de
nossos celeiros, a gerência de nossos
trabalhos? Aceita-lo-iamos ainda que
gratuitamente como intendente e pro-
vedor? E se não quereriamos nem se-
quer um escravo intemperante, como
não temermos parecer com ele? De
fato não se pode dizer que, da mesma
forma que esbulhando os outros de
seus bens crê o avaro enriquecer, seja o
intemperante prejudicial aos outros
mas útil a si próprio: ao contrário, se
faz mal aos outros mais ainda o faz a
si mesmo, pois o que é mais pernicioso
que arruinar, ao mesmo tempo que sua
casa, o corpo e a alma? No comércio
da vida, quem gostaria de um homem
que a seus amigos prefere o vinho e a
boa mesa, a seus companheiros as
mulheres prostituídas? Não é um
dever, para todo aquele que saiba ser a
temperança o cimento da virtude, o
encastoá-la antes de tudo na própria
alma? Sem ela, como discernir o bem e
praticá-lo dignamente? O escravo das
próprias paixões não degrada vergo-
nhosamente o corpo €e o espírito? Pare-
ce-me, por Juno!, que todo homem
livre deve pedir aos deuses não venha a
ter um escravo tal, e todo escravo das
próprias paixões encontre bons senho-
res;-do contrário estará perdido”. Eis o
que dizia, e suas ações mais que suas
palavras testemunhavam sua tempe-
rança: sobranceiro não somente aos
prazeres dos sentidos como também ao
que busca a riqueza, achava que rece-
ber dinheiro do primeiro que aparece é
comprar um senhor e sujeitar-se à mais
ignominiosa servidão.
CarpíruLo VI
Convém não calar a conversação
que teve com o sofista Antifão. Certo
dia Antifão, que queria tomar a Sócra-
tes seus discípulos, interpelou-o e dis-
se-lhe na presença deles:
— Eu pensava, Sócrates, que os
que professam a filosofia, fossem mais
felizes. Muito outro, porém, parece ser
o fruto que colhes da filosofia. Vives
de tal guisa que não há escravo que de-
seje viver sob tal senhor. Alimentas-te
das viandas mais grosseiras, bebes as
mais vis beberagens. Cobre-te um
manto chamboado, que te serve no
verão como no inverno. Não tens cal-
çado nem túnica. Sem embargo, não
aceitas nenhum oferecimento de di-
nheiro, por agradável que seja recebê-
lo e muito embora proporcione vida
mais independente e aprazível. Se,
pois, como todos os mestres formas os
teus discípulos à tua semelhança,
podes considerar-te um professor de
miséria.
Ao que Sócrates respondeu —
Fazes, creio, Antifão, tão triste idéia
de minha existência, que preferirias
morrer a viver como eu. Ora bem, exa-
minemos por que achas minha vida tão
penosa. Será porque, ao contrário dos
que, exigindo salário, são obrigados a
fazer o que lho rende, eu que nada re-
cebo não sou forçado a falar com
quem não queira? Achas minha vida
miserável por que minha alimentação
seja menos sã ou menos nutritiva que a
tua? Porque meus alimentos sejam
É difíceis de obter que os teus, os
quais são mais raros e mais delicados?
Porque os mranjares que preparas te
saibam melhor ao paladar que os meus
a mim? Não sabes que quem come
com apetite não tem necessidade de
condimento, que a quem bebe com pra-
zer, fácil é prescindir da bebida que
não tem? Quanto às vestes, sabes que
quem as muda não o faz senão por
causa do frio e do calor; que se se cal-
çam sapatos, é para que os pés não
sejam impedidos no andar pelo que os
possa ferir. Viste-me alguma vez ento-
cado em casa por causa do frio? dispu-
tar, no verão, a sombra a alguém, ou
impossibilitado de ir aonde quisesse
por ter os pés feridos? Ignoras que gra-
ças a certos exercícios pessoas fracas
de corpo se tornam mais fortes e os
suportam mais facilmente do que aque-
las que, nascidas mais fortes, foram
descuidadas? Não crês que eu, que
avezei meu corpo a resistir a todas as
influências, não sofra melhor que tu,
que não te exercitaste? Se não sou
escravo do ventre, do sono, da volúpia,
é porque conheço prazeres mais doces
que não deleitam apenas no momento,
mas fazem esperar vantagens conti-
nuas. Sabes que sem a esperança do
62 XENOFONTE
sucesso nenhum prazer experimen-
tamos, de passo que, se se pensa lograr '
bom êxito, seja na agricultura, seja na
navegação, seja em outra profissão
qualquer, a ela nos dedicamos com
tanto júbilo como se já houvéssemos
triunfado. Pois bem, julgas que esta
felicidade iguale a que nos dá a espe-
rança de nos tornarmos melhores a nós
próprios e aos nossos amigos? Tal e:
contudo, a opinião em que persisto ! Se
for preciso servir aos amigos, ou à pá-
tria, quem para tanto terá mais lazer,
aquele que vive como eu ou aquele que
esposa o gênero -de vida de que te
vanglorias? Quem fará a guerra mais a
seu grado, aquele que não pode dispen-
sar u'a mesa suntuosa ou aquele que
se contenta com o que tenha à mão?
Quem capitulará mais depressa, aquele.
que tem necessidade de iguarias difi-
ceis de obter ou aquele que se contenta
com os alimentos mais triviais? Pare-
ces, Antifão, colocar a felicidade nas
delícias e na magnificência. De mim,
penso que de nada necessita a divinda-
de. Que quanto menos necessidades se
tenha, mais nos aproximamos dela. E
como a divindade é a própria perfei-
ção, quem mais se avizinhar da divin-
“dade, mais próximo estará da perfei-
ção.
De outra feita, disse Antifão a
Sócrates.
— Sócrates, creio-te justo, mas não
de todo sábio. Aliás parece-me comun-
gares comigo nesta opinião. Não acei-
tas dinheiro por tuas lições. Entre-
tanto, a ninguém darias nem venderias
por preço inferior ao que valem teu
manto, tua casa nem nada do que pos-
suis e que reputas de algum valor.
Claro é que, se estimasses igualmente
tuas lições, far-te-jas pagar o que
valem. És, portanto, honesto, de vez
que não enganas por cupidez, porém
não sábio, já que nada sabes que valha
o que quer que seja. |
Ao que Sócrates respondeu
— Antifão, não é coisa corrente
entre nós poder fazer-se tanto da bele-
za quanto da sabedoria emprego honesto
ou vergonhoso? Quem chatina com a
beleza com quem lha queira pagar se
chama um prostituido. Mas aquele
que, conhecendo um homem amante
da virtude, procura fazer-se seu amigo,
consideram-no sensato. O mesmo su-
cede em relação à sabedoria: os que
com ela traficam com quem lha queira
pagar se chamam sofistas ou prosti-
tuídos. Aquele, porém, que reconhe-
cendo em outrem um bom caráter lhe
ensina tudo o que sabe de bem e se faz
seu amigo, reputam-no fiel aos deveres
do bom cidadão. Assim, Antifão, ao
passo que outros gostam de possuir um
bom cavalo, um cão, um pássaro,
gosto eu e muito mais, de ter bons ami-
gos. Ensino-lhes tudo o que sei do bem,
aditando tudo o que os possa ajudar a
se fazerem virtuosos. Os tesouros que
nos legaram os antigos sábios em seus
livros, percorro-os de conversa com
meus amigos. Se encontramos alguma
coisa boa, recolhemo-la e regozijamo-
nos de ser úteis uns aos outros.
Ouvindo estas palavras, eu via em
Sócrates um homem feliz que virtuosos
fazia OS que o escutavam.
De outra vez, perguntando-lhe Anti-
fão por que razão, se se gloriava de
tornar os outros hábeis na política, não
se ocupava ele próprio desta ciência,
que pretendia conhecer:
“Que será preferível, Antifão, res-
pondeu Sócrates, consagrar tão-so-
mente a minha pessoa à política ou
dedicar meus cuidados a tórnar grande
número de indivíduos capazes de a ela
vacarem??”
CarpíruLo VII
Vejamos ainda se, ao desviar seus
discípulos da fatuidade, Sócrates os le-
vava à prática da virtude. Pois costu-
mava dizer que-não há mais belo cami-
nho para a glória que um homem de
bem ser o que realmente deseja pare-
cer. Assim provava a verdade de sua
asserção:
Imaginemos — dizia — um indivi-
duo que quisesse passar por bom toca-
dor de flauta sem o ser de fato. Que
faria? Não deveria macaquear os bons
flautistas em tudo o que forma o exte-
ror da sua arte? Primeiro, como os
bons artistas possuem belos instrumen-
tos, e cercam-se de numerosos acólitos,
ele faria o mesmo. Depois, como
numerosos encomiadores lhes cele-
bram os talentos, procurar-sé-ja gran-
de número de encomiadores. Que
nunca, porém, se metesse a tocar flau-
ta, do contrário pronto se cobriria de
ridiculo e todos se capacitariam ser
não somente mau artista como impos-
tor. E se despendesse muito, nada
ganhasse e de inhapa ainda perdesse a
reputação, não viveria vida miserável,
inútil e ridícula? Da mesma forma, se
um homem quisesse passar por hábil
piloto e bom general sem o ser real-
mente, vejamos o que lhe aconteceria.
Querendo passar por homem capaz de
preencher tais funções e.não conse-
guindo convencer ninguém, não seria
infeliz? E convencendo, não o seria
mais anda? Com efeito, encarregado
do comando de um navio ou posto à
cabeça de um exército, perderia aque-
les mesmos que quisera salvar e se reti-
raria coberto de vergonha e desprezo.
Demonstrava Sócrates igualmente
nada haver mais perigoso para um
homem que dar-se por mais rico, mais
forte, mais corajoso do que realmente
é. Se lhe confiam encargos que desbor-
dam de suas forças, não podendo exe-
cutar o de que parecia ser capaz não
fará jus à menor indulgência. Insigne
embusteiro chamava aquele que se
apodera do dinheiro ou o que quer que
lhe tenham confiado, mas embusteiro
maior anda o homem sem valor que
empreende convencer os outros de ser
capaz de dirigir o Estado. Excelente
para afastar seus discípulos do charla-
tanismo se me afigurava a linguagem
de Sócrates.
LIVRO II
1
CAPÍTULO I
Antolhava-se-me, ademais, que com
semelhantes discursos Sócrates afazia
seus discípulos à abstinência em face
da boa carne, do vinho, da lubricidade,
do sono, e à resistência ao frio, ao
calor, à fadiga. Sabedor de que um
deles.se entregava a rédeas soltas a
todos esses excessos.
— Dize-me, Aristipo — interpe-
lou-o — se te cometessem a educação
de dois jovens, um para se tornar apto
a governar, outro para ser simples
cidadão, como formarias um e outro?
Queres que comecemos nosso exame
pela alimentação, isto é, pelos primei-
ros elementos?
— Naturalmente — respondeu
Aristipo — porquanto a alimentação
me parece ser o princípio da educação;
sem alimento, impossível viver.
— Provavelmente, então à hora das
refeições ambos pediriam de comer?
— Não resta a menor dúvida.
— Qual habituariamos, pois, a ocu-
par-se de um negócio urgente antes de
satisfazer o apetite?
— Por Júpiter! o destinado a go-
vernar, a fim de que os negócios do. Es-
tado não -se paralisassem durante sua
gestão.
— E quando quisessem beber, não
seria ainda a esse que acostumaríamos
a resistir à sede?
— Seguramente.
— E se fosse preciso vencer o sono,
ser capaz de deitar tarde, levantar cedo
e velar, a qual dos dois o ensina-
riamos?
— Ainda ao mesmo.
— Pois bem, a quem ensinariamos
a abster-se dos prazeres do amor, para
que não o impedissem de agir no
momento necessário?
— Sempre ao mesmo.
— Qual afariamos a não fugir ao
trabalho, mas enfrentá-lo com gosto?
— O educado para governar, evi-
dentemente.
— Ora, vejamos, se há uma ciência
que ensine a triunfar dos adversários, a
quem conviria ensiná-la?
— Por Júpiter !. ao que se destinasse
a mandar. Porque sem tal ciência de
nada lhe valeriam as outras.
— Não te parece então que um
homem assim educado estaria muito
menos «exposto a se deixar prender
pelos inimigos do que o estão os ani-
mais? Efetivamente, uns, engodados
pela gulodice, atraídos, a despeito de
sua desconfiança, pelo desejo e pelo
cevo, lançam-se sobre a isca e são pre-
sos. Outros: encontram armadilhas na
água onde vão beber.
-—— De fato — conveio Aristipo.
— Outros, vítimas de seu calor
amoroso, como as codornizes e as per-
dizes, aliciados à voz da fêmea pelo de-
68 XENOFONTE
sejo e a esperança do prazer, perdem e
caem nos laços.
— Ainda é verdade.
— Não te parece uma vergonha
rebaixar-se o homem à condição dos
mais estúpidos animais? Por exemplo,
os adúlteros, que penetram em aposen-
tos fechados, muito embora saibam
expor-se o delinquente à ameaça da lei,
a embarrancar-se em uma armadilha, a
ver-se cobrir de infâmia. A despeito
destes males e deste opróbrio reser-
vado ao adultério, a despeito de todos
os meios por que podem mitigar sem
risco seus apetites amorosos, atiram-
se, cabeça baixa, ao perigo. Não é pro-
ceder como verdadeiro doido?
— Ássim penso.
— De vez que a maior parte das
ocupações obrigatórias do homem se
exercem ao ar livre, como a guerra, a
agricultura e outras igualmente impor-
tantes, não achas desmarcada negli-
gência o não se endurecerem muitos
homens contra o frio e o calor.
— Certamente.
— Quer dizer que quem queira
mandar deve afazer-se a suportar sem
pena um e outro? Indubitavelmente.
Então, se alinhamos entre os homens
capazes para mandar os que sofrem
com constância todas essas incomodi-
dades, não devemos classificar as pes-
soas incapazes de fazê-lo entre as inap-
tas para o mando?
— De acordo.
— Pois bem, já que conheces o
lugar que merece cada uma dessas
duas classes de homens, já examinaste
em qual delas te colocarias?
— Quanto a mim — disse Aris-
tipo — estou longe de formar entre os
que aspiram ao mando. Quando já é
tão penoso provermos a nossas pró-
prias necessidades, parece-me redonda
insensatez o não nos contentarmos
com isso e ainda nos impormos o fardo
de prover às de nossos concidadãos.
Recusar-se a si mesmo tantas coisas
que se desejam e por-se à cabeça do
Estado para depois ser chamado à
barra do tribunal por não se fazer tudo
o que quer a cidade, não é o cúmulo da
loucura? Porque, ao cabo de tudo, pre-
tendem as cidades servir-se de seus
governantes comio eu de meus escra-
vos. Quero que meus escravos me pre-
parem com abundância tudo o que me
é necessário, mas que ém nada toquem.
Acham as cidades deverem os gover-
nantes procurar-lhes toda sorte de
bens, de que eles próprios se absterão.
Aqueles, pois, que querem dar-se a um
mundo de serviços e oferecê-los aos
outros, formá-los-ei como dissemos e
os alinharei entre as pessoas aptas a
mandar. Quanto a mim, formo com
aqueles cujo desejo é levar a vida mais
doce e agradável.
Então Sócrates:
— Queres, pois, examinemos quem
leva vida mais agradável, governantes
ou governados?
— Com todo o gosto — respondeu
Aristipo.
— Primeiramente, dentre os povos
que conhecemos, na Ásia os persas
mandam, OS sírios, frígios e lídios obe-
decem. Na Europa mandam os citas,
os meotos lhes estão sujeitos. Na Líbia
governam os carfagineses, os líbios são
governados. Desses povos, quais julgas
vivam mais agradavelmente? E dentre
Os gregos, entre os quais te encontras,
quais parecem levar vida mais agradá-
vel, os que mandam ou os que obede-
cem?
— Mas — disse Aristipo — tam
pouco entendo reduzir-me à escravi-
dão. Parece-me existir um caminho
intermédio, que forcejo por trilhar,
entre o poder e a servidão: a liberdade,
que mais seguramente conduz à felici-
dade.
— Muito bem — disse Sócrates. —
Se esse caminho que não passa entre o
MEMORÁVEISAI 69
poder e a servidão tampouco passasse
através dos homens, talvez tivesse
algum valor o que dizes. Mas se, viven-
do entre os homens, não quiseres nem
mandar, nem obedecer, nem servir de
bom grado os que mandam, penso não
ignorares que os mais fortes sabem
fazer gemerem os mais fracos, seja em
massa, seja um a um, € escravizá-los.
Não vês os que colhem as searas que
outros semearam, cortam as árvores
que outros plantaram, infligem toda
espécie de violência aos fracos e aos
que recusam servir, até fazê-los prefe-
rir a escravidão à luta com mais for-
tes? E entre os particulares, não sabes
que os corajosos e os fortes avassalam
a seu proveito os poltrões e os impo-
tentes?
— Para não passar por isso não me
fixo em nenhuma cidade, mas em toda
parte sou estrangeiro.
Então Sócrates:
— Propoões-me, certo, um artifício
maravilhoso. Porque desde que Sinis,
Cirão e Procusto morreram, os foras-
teiros não são maltratados por nin-
guém. Mas hoje os governantes dão
leis a sua pátria para se porem ao abri-
go da injustiça. Criam, além do que se
chamam os laços naturais, amigos que
lhes servem de auxiliares. Cintam as
cidades de muralhas, reúnem exércitos
para repelir as agressões injustas e até
cuidam de alianças no exterior: não
obstante nem todas estas precauções
os preservam do insulto. E tu que nada
disso tens, que passas quase todo o
tempo nos longos caminhos onde se
comete o maior número de assaltos, tu
que em qualquer cidade a que chegues
és mais pequeno que o último dos cida-
dãos, tu que enfim te encontras numa
situação em que mais que em outra
qualquer a gente está exposto à injusti-
ça, imaginas a ela subtrair-te graças a
tua qualidade de forasteiro? Será por-
que as cidades te assegurem publica-
mente o direito de entrar e sair que
acalentas essa confiança? Ou crês que
a nenhum senhor seria útil um escravo
de tua espécie? Quem quereria, com
efeito, ter em casa um homem que
nada quer fazer e se compraz com a
vida mais suntuosa? Vejamos, a pro-
pósito, como procedem os senhores em
relação a tais servidores. Não lhes cor-
rigem a gulodice pela fome? Não os
impedem de furtar pondo sob chave
tudo o que poderiam surrupiar? De
fugir, carregando-os de cadeias? A
preguiça não a reduzem ao trabalho a
chicotadas? Que fazes tu mesmo quan-
do percebes ter um doméstico dessa
laia?
— Inflijo-lhe todas as correções até
constrangê-lo a servir-me. Mas Sócra-
tes, os que são educados para o ofício
de rei, que pareces considerar a felici-
dade, em que diferem dos que padecem
por necessidade, se voluntariamente se
condenam a suportar a fome, a sede, o
frio, as vigílias e outras fadigas? Por
mim não vejo que diferença há entre
ter eu a pele rasgada por um vergalho
a bem ou a mal de meu grado, e que
meu corpo, queira-o eu ou não, padeça
toda espécie de violências. Não é ser
além de louco fazer voluntariamente
cabeça baixa a estes sofrimentos?
— Com que então, Aristipo —, vol-
veu Sócrates — não vês esta diferença
entre os males voluntários e os que não
o são, que aquele que consente em pas-
sar fome desde que o queira pode
comer, que quem se condena à sede
desde que o queira pode beber, e assim
para o mais que segue, de passo que O
homem que padece por necessidade,
poderá ele, quando o quiser, cessar de
sofrer? Demais, quem sofre voluntaria-
mente se consola de seus males com
uma doce esperança, como vemos os
caçadores suportarem bizarramente as
fadigas pela esperança de uma captura.
Semelhante recompensa é bem pouca
20
22
70
coisa para suas penas. Mas os que tra-
balham para ter bons amigos ou para
triunfar dos inimigos, para robustecer
o corpo e a alma e assim bem gerir sua
casa, fazer bem aos amigos, prestar
serviços à pátria, como não crer que
com tais alvos diante dos olhos supor-
tem com prazer todas as fadigas e
vivam felizes, contentes de si próprios,
louvados e invejados dos outros ho-
mens? Mais: os hábitos de indolência e
os prazeres fáceis não podem, no dizer
dos ginastas,:dar boa compleição ao
corpo nem fazer penetrar no espirito
nenhum conhecimento apreciável. Ao
invés, OS exercícios que querem cons-
tância nos conduzem à prática de belas
e boas ações, como dizem os grandes
homens. Disse algures Hesiodo*: O
vício é sedutor e fácil, seu caminho
lhano e breve. Antes da virtude, porém,
colocaram os deuses o suor, e a vereda
que leva ao cimo é áspera, fragosa e
árdua: ganhando-se o alto, todavia,
aplaina-se o caminho.
O mesmo testemunho presta Epi-
carmo neste verso: 4 felicidade é um
bem que nos vendem os deuses. Diz
ainda alhures: Malvado, foge à indo-
lência ou teme a dor.
As mesmas idéias exprime o sábio
Pródico sobre a virtude em sua obra
sobre Hércules, de que fez diversas lei-
turas públicas. Eis, ao que me lembra,
pouco mais ou menos o que diz. Conta
que Hércules, apenas dobrara a infân-
cia, nessa idade em que os jovens, já
senhores de si, deixam ver se entrarão
na vida pelo caminho da virtude ou do
vício, retirou-se para a solidão e sen-
tiu-se incerto quanto à via a escolher.
Duas mulheres de avantajada estatura
apresentaram-se-lhe ao olhar: uma de-
* Poeta dos meados do século VIII a. C.; com sua
poesia didática de inspiração religiosa (Teogonia) e
moral (Trabalhos e Dias) exerceu profunda in-
fluência no mundo grego dos séculos seguintes.
XENOFONTE
cente e nobre, o corpo ornado de sua
natural pureza, os olhos grávidos de
pudor, o exterior modesto, as vestes
brancas; a outra toda nediez e moleza,
a pele caiada a fim de aparentar cores
mais brancas e mais vermelhas, procu-
rando, na postura, parecer mais esbelta
do que naturalmente o era, os olhos
escancelados; um adereço estudado
pára realçar seus encantos, mirando-se
sem cessar, observando se a contem-
plavam e a todo momento voltando a
cabeça para admirar a própria sombra.
Aproximando-se de Hércules, en-
quanto a primeira conservava o
mesmo andar, a segunda, querendo
antecedê-la, correu para 'o jovem herói
e disse-lhe:
“Vejo-te, Hércules, incerto do cami-
nho a seguir na vida. Se me quiseres
tomar por amiga, conduzir-te-ei pela
estrada mais agradável e fácil, prova-
rás todos os prazeres e viverás livre de
pena. Primeiro não te ocuparás de
guerras nem negócios, mas não cessa-
rás de examinar que iguarias e que
bebidas melhor te sabem ao paladar,
os objetos que possam deleitar-te os
olhos e os ouvidos, acariciar-te o olfa-
to ou o tato, que afeição terá mais
encantos para ti, como dormirás mais
docemente, como poderás procurar
todos estes prazeres com o menor
esforço. Se receias venha a faltar-te o
necessário para te dares tais doçuras,
não temas que eu te obrigue a traba-
lhar e a penar de corpo e espirito para
os adquirires; aproveitarás do trabalho
alheio e não te absterás do que quer
que possa proporcionar-te ganho: por-
que dou aos que. me seguem a facul-
dade de em toda parte obter vanta-
gens”.
Hércules, após ouvir estas palavras,
indagou-lhe:
“Mulher, qual é teu nome?”
“Meus amigos — respondeu ela
— chamam-me a Felicidade, e meus
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30
MEMORÁVEISTI n
inimigos, para dar-me nome odioso,
chamam-me a Perversidade”.
Ai a outra mulher, adiantando-se,
disse-lhe:
“Eu também venho a ti, Hércules;
conheço os que te deram à luz e desde
tua infância penetrei-te o caráter.
Assim espero que se tomares o cami-
nho que traz a mim, serás um dia autor
ilustre de belos e gloriosos feitos e eu
própria me verei mais honrada e consi-
derada dos homens virtuosos. Não te
“iludirei com promessas de prazeres:
expor-te-ei o que existe com verdade e
tal qual o dispuseram os deuses. Do
que há realmente honesto e belo, nada
concedem os deuses aos homens sem
sacrifício e diligência. Queres que os
deuses te sejam propícios? Preiteia-os.
Ambicionas a estima de teus amigos?
Beneficia-os. Desejas que uma nação
te honre? Serve-a. Queres que a Grécia
inteira admire teu valor? Procura ser-
lhe útil. Desejas que a terra te prodiga-
lize seus frutos? Cultiva-a. Preferes
enriquecer com rebanhos? Apascenta-
os. Aspiras a fazer-te grande pela guer-
ra? queres tornar livres teus amigos e
triunfar de teus inimigos? Aprende a
arte da guerra com aqueles que a
conhecem, exercita-te em pór-lhes em
prática as lições. Desejas adquirir
força fisica? Habitua o corpo ao impé-
rio da inteligência e tempera-o no tra-
balho e no suor”.
Aí a Perversidade retomando, no
dizer de Pródico:
“Compreendes, Hércules — disse-
lhe — quão penoso e longo é o cami-
nho da felicidade que te propõe essa
mulher? Enquanto eu, é por estrada
fácil e breve que te conduzirei à ventu-
ras
Então a Virtude:
“Miísera! — exclamou — que bens
possuis? Que prazeres podes conhecer,
tu que nada queres fazer para comprá-
los? Sequer deixas nascer o desejo:
farta de tudo antes de ter desejado
coisa alguma, comes antes da fome,
bebes antes da sede. Para comer com
prazer, vives à caça de cozinheiros.
Para beber com prazer, procuras beber
vinhos caríssimos e no verão corres a
toda parte em busca de neve. Para dor-
mir agradavelmente, procuras cobertas
macias e leitos flexíveis. Porque não é
o cansaço e sim a ociosidade que te faz
desejar o sono. Em amor, provocas a
necessidade antes de senti-la, usas de
mil artifícios e te serves tanto de ho-
mens como de mulheres. Assim é, em
verdade, que formas teus amigos. À
noite os degradas e de dia os adorme-
ces durante os instantes mais precio-
sos. Imortal, foste rechaçada pelos
deuses e os homens de bem te despre-
zam. Nunca te acariciou os ouvidos o
mais adulador dos sons, o de um lou-
vor, nem jamais contemplaste uma boa
ação praticada por ti. Quem daria fé a
tuas palavras? Quem te socorreria na
precisão? Qual o homem de bom senso
que ousaria misturar-se a teu bulhento
cortejo? Os que te seguem, se jovens,
são impotentes de corpo; velhos, têm a
alma embrutecida. Nédios na juventu-
de, por via da ociosidade, emagrecem
ao peso de trabalhosa velhice. Enver-
gonhados do que fizeram, atormen-
tados do que têm de fazer, borbole-
tearam na primavera da vida de prazer
em prazer e diferiram as penas para o
outono da existência. Eu, ao contrário,
estou com os deuses, estou com os ho-
mens de bem: entre os deuses como
entre os mortais nenhuma bela ação se
faz sem mim. Mais que ninguém, rece-
bo eu dos deuses e dos homens legiíti-
mas honras, companheira querida que
sou do trabalho do artesão, guardiã fiel
da casa do senhor, protetora benévola
do servidor, gentil associada nos traba-
lhos da paz, aliada constante nas labu-
tas da guerra, intermediária devotada
da amizade. Meus amigos saboreiam
3!
33
pe XENOFONTE
com prazer e sem confeição alimentos
e bebidas, porque esperam o desejo
para comer e beber. O sono lhes é mais
agradável que aos ociosos; interrom-
pem-no sem pesar e não lhe sacrificam
seus negócios. Jovens, sentem-se feli-
zes dos elogios dos anciãos. Velhos,
recebem ditosos os respeitos da juven-
tude. Recordam com deleite as ações
pretéritas e realizam prazerosos o que
lhes resta fazer. Por virtude minha, são
amados dos deuses, caros aos amigos,
honrados da pátria. Ao soar a hora
fatal, não dormem em olvido sem
honra, mas sua memória esplende cele-
- brada de evo em evo. Ai está, Hércu-
les, filho de pais virtuosos, como,
trabalhando, podes alcançar a suma
felicidade”.
Eis pouco mais ou menos como
narra Pródico a lição dada a Hércules
pela Virtude, conquanto ornasse seus
pensamentos de expressões mais no-
bres que as por mim usadas neste
momento. Reflete, Aristipo, e trabalha
por gizar a conduta que observarás
para o resto da existência.
34
CaPpÍíTULO II
Tendo percebido que Lâmprocles, o
mais velho de seus filhos, andava às
testilhas com a mãe:
— Dize-me, filho — perguntou-lhe
-— sabes existirem certos homens a que
se chama ingratos?
— Sei — respondeu o jovem.
— Sabes também por que recebem
este nome?
— Sim. Chamam-se ingratos aque-
les que receberam benefícios e que,
podendo-o não testemunham reconhe-
cimento.
— Não sabes que se classificam os
ingratos entre os homens injustos?
— Sei-o.
— Por ventura te perguntaste a ti
mesmo, se assim como é injusto escra-
vizar Os amigos e justo avassalar os
inimigos, será injusto ser ingrato para
com os amigos e justo sê-lo aos
inimigos?
— Naturalmente. E tenho por in-
justo quem não se esforça por dar
prova de reconhecimento a um benfei-
tor, seja amigo ou inimigo.
Pois bem! se assim é, então a
ingratidão é pura injustiça.
Lâmprocies conveio.
— E não será um homem tanto
mais injusto quanto mais ingrato se
mostrar ao receber mais benefícios?
Ainda uma vez Lâmprocles concor-
dou.
— Pois bem! quem mais cumulado
de benefícios que os filhos o são dos
pais? São os pais que os fazem transi-
tar do nada ao ser, ao espetáculo de
tantas maravilhas, à fruição de tantos
bens com que nos presentearam os
deuses: bens que se nos figuram tão
preciosos que nosso maior temor é
perdê-los. Por isso estatuíram as cida-
des a pena de morte contra os maiores
crimes, como o castigo mais tremendo
para suster a injustiça. Sem dúvida não
crerás ser unicamente pelos prazeres
do amor que os homens procuram ter
filhos, pois as ruas e as casas regurgi-
tam de meios de se satisfazerem.
Longe disso, vêem-nos considerar quais
as mulheres que nos darão os mais
belos filhos, e é a elas que nos unimos
para realizar nossa esperança. Então o
esposo tem de sua mão aquela que o
ajuda a tornar-se pai; acumula previa-
mente para os futuros filhos tudo o que
crê lhes seja útil na vida, fazendo a
mais ampla provisão possível. A mu-
lher recebe e carrega esse fardo que a
faz pesada e lhe põe os dias em perigo;
dá ao filho parte da própria substân-
cia; depois, ao cabo de gestação e de
parto cheio de dores, cria-o e desvela-
se, sem nenhuma tenção, sobre um
filho que não sabe de quem lhe vêm
tais cuidados que sequer pode dar a
entender o de que necessita, de passo
74 XENOFONTE
que a mãe procura adivinhar o que lhe
convém, o que pode agradá-lo, e que
ela fomenta dia e noite, ao preço.de mil
fadigas e sem saber qual será a paga de
seus sofrimentos. E não é só o alimen-
to: Logo que os julgam em idade de
aprender alguma coisa, comunicam-
lhes os pais todos os conhecimentos -
úteis que possam ou os confiam aos
cuidados de alguém que creiam mais
capazes de ensiná-los, não poupando
despesas nem cuidados para que seus
filhos se tornem os melhores possíveis.
Ao que retorquiu o jovem:
— Sim, certo ela fez tudo isso e atê
mil vezes mais. Porém não há quem
lhe suporte o mau humor.
Volveu Sócrates:
— Não achas o humor selvagem de
uma besta mais insuportável que o de
u'a mãe?
— Não, pelo menos de mãe qual a
minha.
— Terá te mordido ou dado algu-
ma patada, como soem fazer as bes-
tas?
— Mas, por Júpiter ! diz coisas que
nem ao preço da vida se quereriam
ouvir.
A SE Eh disse Sócrates
— quantos dissabores insuportáveis
não lhe causaste desde a infância, já
com palavras, já com atos, ora de dia,
ora de noite? Quantas aflições não lhe
deram tuas doenças?
— Pelo menos nunca lhe disse nem
fiz nada de que ela tivesse de corar.
— Quê! ser-te-á mais penoso ouvir
o que ela diz do que aos comediantes
ouvir as injúrias que mutuamente se
prodigalizam nas tragédias?
— Mas, penso, como não julgam
que aquele que os ofende o faça por
mal, nem que aquele que os ameaça os
ameace seriamente, facilmente supor-
tam o que lhe dizem.
— E tu, que sabes muito bem que
tua mãe, diga-te o que te disser, não o
diz por mal, mas quereria ver-te feliz
como ninguém, te irritas contra ela?
Pensas então seja tua mãe para ti uma
inimigá?
— Claro que não.
Aí Sócrates:
— Então, esta mãe que te ama, que
quando enfermas te dispensa todos ós
cuidados para devolver-te à saúde, que
se desvela para que nada te falte, que
pede aos deuses te prodigalizem seus
benefícios e cumpre os votos que por ti
fez, queixas-te de seu mau humor?
Quero crer que se não suportas seme-
lhante mãe o próprio bem te é insupor-
tável. Mas dize-rne, achas que se deva
ter atenções para com todos ou não
procurar comprazer a ninguém, a nin-
guém obedecer, nem a um estratego
nem a não importa que magistrado?
— Por Júpiter ! há obedecer.
— Pois bem — disse Sócrates —
sem dúvida quererás agradar teu vizi-
nho para que, em caso de necessidade,
te acenda o fogo, te faça bons ofícios,
em caso de acidente, acuda de bom
grado em teu socorro?
— Está visto.
— Será indiferente termos por ami-
gos ou inimigos um companheiro de
viagem, de navegação ou qualquer que
seja? Ou achas que nos devamos dar
ao trabalho de ganhar-lhe as graças?
— Claro que sim.
— Como! estás pronto a ter aten-
ções para com todos esses estranhos e
não crês devê-las à tua mãe, que te
quer mais que a ninguém! Ignoras que
o Estado faz vista grossa a todas as
outras ingratidões, não as persegue e
deixa impunes os obrigados mal agra-
decidos, porém castiga aquele que não
respeita os pais, o degrada e exclui das
magistraturas, persuadido de que se-
melhante indivíduo jamais seria capaz
de oferecer com santidade os sacrifi-
cios públicos nem praticar boa e hon-
rada ação? E, por Júpiter ! se um cida-
MEMORÁVEISAII 75
dão não honrou o túmulo dos pais
mortos, pede-lhe contas o Estado nos
inquéritos abertos sobre os futuros
magistrados. Se, pois, és prudente,
filho meu, temeroso que as deidades te
olhem como ingrato e te recusem seus
favores, rogar-lhes-ás te perdoem as
ofensas à tua mãe. Quanto aos ho-
mens, cuidarás em que, sabedores de
tua falta de respeito para com teus
pais, não te desprezem todos e te dei-
xem sem amigos. Porque se suspei-
tassem foras ingrato para com teus
pais, quem te creria capaz de reconhe-
cer um benefício? ;
to
CaríruLO III
Querefonte e Querécrates, dois ir-
mãos, conhecidos seus, não iam lã
muito um com o outro. Tendo-o nota-
do e topando certo dia com Querécra-
tes, interrogou-o:
— Dize-me, Querécrates, acaso
não serias desses homens que reputam
as riquezas mais estimáveis que os
irmãos, muito embora às riquezas fale-
ça razão, enquanto um irmão é ser
razoável; elas precisam ser defendidas,
ao passo que ele pode defender-nos;
elas são em número infinito e ele
único? Coisa não menos estranha é
crer-se alguém esbulhado por não pos-
suir cs bens dos irmãos, quando nin-
guém considera dano as riquezas dos
concidadãos, por não possui-las. Prefe-
re-se viver cercado de amigos e gozar,
sem temor, de recursos suficientes do
que viver só e fruir na insegurança as
posses de todos os concidadãos:: a
tanto, ao tratar-se de irmãos, desco-
nhece-se esta verdade. De outra parte,
os que o podem compram escravos
para ajudar-se de seus trabalhos, bus-
"cam amigos para ter apoio, porém
negligenciam os irmãos, como se fosse
possível encontrar amigos entre patrí-
cios e não o fosse entre os irmãos. Sem
embargo, que melhor título para a ami-
zade que haver nascido juntos, se até
os animais têm uma espécie de ternura
para os que se alimentaram do mesmo ,
leite? Quando por mais não fosse, os
homens respeitam mais e mais receiam
ofender aqueles que têm irmãos do que
os que não os têm..
Ripostou Querécrates:
— Certo, Sócrates, se a desinteli-
gência fosse pequena, seria justo su-
portar o irmão e dele não se afastar
por motivos insignificantes: porque
como dizes, grande bem é um irmão,
quando tal qual deve ser; mas quando
falta a todos os deveres, quando se
mostra de todo em todo o contrário do
que é de esperar, como tentar o
impossível?
— Vejamos, Querécrates — tornou
Sócrates —, Querefonte desagrada a
toda gente como a ti ou há pessoas a
quem compraza?
— Precisamente por isso, Sócrates,
tenho razão de odiá-lo: sabe agradar
os outros ao passo que a mim em vez
de me ser útil só sabe desgostar-me
com atos e palavras.
— Não será — prosseguiu Sócra-
tes — que tal o corcel que derruba o
cavaleiro inábil que tenta montá-lo, re-
fuga um irmão ao irmão sem tato que
dele intenta servir-se?
— Como — replicou Querécrates
— não saberia eu lidar com meu
irmão, se a boas palavras sei responder
com boas palavras, a bons ofícios com
bons oficios? Todavia, se alguém toma
78 XENOFONTE
a assinatura contra mim não sei dizer-
lhe-palavra de agrado nem prestar-lhe
um benefício, e sequer o tento.
Ao que respondeu Sócrates:
— Estranho tuas palavras, Queré-
crates. Se tivesses um cb, guarda fiel
de teus rebanhos, que festejasse teus
pastores mas rosnasse à tua aproxima-
ção, em lugar de te pores colérico
procurarias amansá-lo com bons tra-
tos; e teu irmão, que reconheces gran-
de bem desde que bem disposto para
contigo, tu que campas de reto no falar
e obrar não procuras concitar-lhe a
afeição?
— Receio, Sócrates — disse Que-
récrates — não ser suficientemente
hábil para bem animá-lo em relação a
mim.
— Entretanto — volveu Sócrates
-— parece-me não haver necessidade
de empregares artifícios numerosos e
extraordinários. Os que conheces serão
bastante para ganhar-lhe a estima.
— Possuirei eu, sem o BaDeTo algum
filtro para isso?
— Dize-me, que farias se quisesses
que alguém de teu conhecimento, ofe-
recendo um sacrifício, te convidasse
para jantar?
— Evidentemente começaria eu
próprio por convidá-lo, quando sacrifi-
* casse.
— E se quisesses levar um de teus
amigos a gerir teus negócios quando
viajasses, que farias?
— Quando se ausentasse, seria o
primeiro a encarregar-me dos seus.
— E que farias, se quisesses dispor
um estrangeiro a receber-te quando
fosses a sua cidade?
— Obviamente seria o primeiro a
dar-lhe acolhida quando viesse a Ate-
nas; e se quisesse que me auxiliasse a
despachar os negócios para que fora a
sua terra, evidentemente seria o pri-
meiro a fazer-lhe outro tanto.
— Como? conheces todos os filtros
4
de que dispõem os homens e deles
fazes mistério há tanto tempo! Será
que crerias descnrar-te, prevenindo teu
irmão com bons tratos? Entretanto,
olha-se como homem digno de todos
os elogios o que sabe ser o primeiro em
estorvar os inimigos e servir os ami-
gos. Julgasse eu Querefonte mais apto
que tu a dar o exemplo destas boas
disposições, e tê-lo-ia induzido a dar os
primeiros passos para conquistar tua
amizade; tenho-te, porém, por mais
capaz de encetar esta obra.
Retorquiu Querécrates:
— Francamente; Sócrates, teus
conselhos me admiram. Dizes coisas
indignas de ti: queres que eu, o mais
Jovem, tome a iniciativa. No entanto,
entre todos os povos o contrário é que
voga. Em tudo tem o mais velho o pri-
meiro passo, seja para a ação, seja
para a palavra.
— Quê! — exclamou Sócrates —
consoante o uso universalmente esta-
belecido não é o mais jovem que deve
ceder o caminho ao mais velho, levan-
tar-se se sentado, dar-lhe a honra de
um leito mais macio e deixá-lo falar
primeiro? Não tergiverses, meu caro.
Trata de adoçar teu irmão, que pronto
se renderáã. Não vês como ele é nobre e
generoso? As almas tacanhas com-
pram-se com presentes. As almas gene-
rosas conquistam-se com mostras de
amizade.
Fen E
— E se apesar disso ele não se tor-
nar melhor para comigo?
— Que arriscas com isso? — reto-
mou Sócrates — se não mostras que és
um espírito nobre e bom irmão en-
quanto ele é vil e indigno de afeto?
Mas não creio que nada disso aconte-
ça.. Apenas se sinta provocado a esta
luta ele forcejará por vencer-te em
generosidade. De feito, ora estás como
estariam as duas mãos, feitas pelos
deuses para se ajudarem reciproca-
15
17
MEMORÁVEISAI 79
mente, se esquecessem esta destinação
para se atrapalharem uma a outra, ou
como estariam os dois pés, pela provi-
dência feitos para trabalhar de concer-
to, se ao revés deste fim procurassem
entravar-se mutuamente. Não seria o
cúmulo da ignorância e demência
mudar em detrimento nosso o que se
fez para nossa utilidade? Parece-me
que os deuses, em criando dois irmãos,
tiveram em vista sua utilidade reci-
proca mais ainda que a das mãos, dos
pés, dos olhos e do mais de que deram
aos homens a parelha fraternal. As
mãos não poderiam pegar ao mesmo
tempo duas coisas distantes mais de
uma toesa, uma da outra, nem os pés
separar-se um do outro mais de uma
toesa*. Os próprios olhos, que se nos
afiguram dé alcance muito mais exten-
so, não podem ver simultaneamente de
frente e de trás os objetos mais próxi-
mos. Porém dois irmãos que se amem,
seja qual for a distância que os separe,
podem obrar de mão comum e servir-
se mutuamente.
ê Antiga medida de 6 pés, ou seja 1,98 m. (N. do
E.) SP
)
CapíTULO IV
De outra feita falando Sócrates da
amizade, ouvi-lhe dizer coisas utilís-
simas para aprender a adquirir amigos
e com eles tratar. Dizia ouvir muita
gente estribilhar ser um amigo seguro e
virtuoso o mais precioso de todos os
bens, mas de tudo se ocuparem menos
da aquisição de amigos. Via, dizia,
toda gente empenhar-se em adquirir
casas, campos, escravos, rebanhos,
móveis e esforçar-se por conservar o
que possui. Mas um amigo, que se diz
o mais precioso de todos os bens, não
via ninguém cuidar de adquirilo e,
uma vez adquirido, de conservá-lo.
Adoecesse um escravo, via, dizia, man-
darem buscar médicos e tudo fazerem
para volvê-lo à saúde. Enfermasse um
amigo, não moviam-uma palha. Mor-
resse um escravo, choravam-no e olha-
vam-lhe a morte como uma perda.
Morresse um amigo e nada creriam ter
perdido. Não descuram nenhum de
seus bens, porém negligenciam os ami-
gos que necessitam de seus cuidados.
Agregava a isto que a maior parte dos
homens conhece muito bem, por exten-
so que seja, o rol de tudo o que pos-
suem; quanto aos amigos, por poucos
que sejam, não só lhes ignoram o nú-
mero, mas quando se lhes pergunta
quantos têm, embaraçam-se na enume-
ração, tanto se importam com os ami-
gos! No entanto, qual o bem compa-
rável a um amigo sincero? Qual o
cavalo, qual a parelha tão útil como
um bom amigo? Qual o escravo tão
devotado, tão fiel? Qual o bem tão
proveitoso? Um bom amigo está sem-
pre pronto a substituir-se ao amigo em
tudo o que preciso for, seja na gestão
de seus negócios particulares, seja nos
assuntos do Estado; queira este prestar
um serviço a alguém, ele lhe vem em
auxílio; possua-o algum temor, acode
em seu socorro, contribuindo para
suas despesas e com ele laborando, de
concerto com ele empregando a per-
suasão ou a violência, deleitando-o no
abatimento. Os serviços que a cada um
de nós nos prestam as mãos, o que são
os olhos para o ver, os ouvidos para O
ouvir, os pés para o andar, não sobe-
jam ao que faz um amigo delicado. E
muita vez o que nós mesmos não fize-
mos, não vimos, não ouvimos, fá-lo
um amigo por nós. Homens há, não
obstante, que por causa do fruto se
consagram de corpo e alma à cultura
de árvores, sobreolhando, indolentes, o
mais frutuoso dos bens — o amigo.
1
| CAPÍTULO V
Outro dia, ouvi-o usar de linguagem .
“capaz de fazer o ouvinte entrar em si
mesmo e considerar qual o grau de es-
tima que merecia de seus amigos.
Sabedor de que um de seus discípulos
abandonava um amigo na indigência,
dirigiu-se a Antístenes em presença
desse amigo indigno e de muitas outras
pessoas: k :
— Dize-me, Antistenes, haverá
preço para os amigos como o há para
os escravos? Entre os escravos um vale
duas minas”, outro nem meia; esta
vale cinco, aquele seis. Diz-se até que
Nícias, filho de Nicerato pagou um
talento? pelo intendente de suas minas
de prata. Vejamos, pois, se assim como
existe preço para os escravos, existe
para os amigos.
— Claro que sim — disse Antiste-
7 Mina: moeda de 100 dracmas; 10 minas de-prata
fazem 1 mina de ouro; 60 minas de prata, 1 talento.
(N. do E.)
s Cf. nota 7. (N. do E.)
nes. — Hã tal homem cuja amizade eu
preferiria a duas minas, outro por
quem não daria meia mina, outro por
quem daria até dez minas, outro por
quem daria todas as minhas riquezas e
rendas.
— Assim sendo — respondeu Só-
crates —, bem seria que cada um exa-
minasse a que preço deve ser estimado
pelos amigos e se esforçasse por valer:
o mais possível, a fim de correr menos
o risco de ser abandonado. A todo ins-
tante ouço dizer a um que o amigo o
traiu, a outro que por uma mina se viu
desprezado pelo homem que julgava
amigo. À vista de tudo isso, pergunto-
me a mim mesmo se, da mesma forma
que se vende um mau escravo pelo
preço que se encontra, não se deve pôr
à venda e vender um mau amigo desde
que ofereçam mais do que vale. Vejo,
porém, que nunca se vendem os bons
escravos e jamais se abandonam os
bons amigos.
)
yo
CaríruLo VI
Plenos de bom senso me pareciam
também os conselhos que dava acerca
dos predicados que se devem procurar
nos amigos, quando dizia:
— Dize-me, Critobulo, se precisás-
semos de um bom amigo, o que deve-
riamos considerar em primeiro lugar?
Antes de tudo, não deveríamos procu-
rar um homem que soubesse dominar o
próprio ventre, o desejo da bebida, da
lubricidade, do sono, da indolência?
Porque aquele que obedece a todos
estes pendores nada faz de útil nem a si
mesmo nem a um amigo.
— Por Júpiter ! seria incapaz.
— Não achas, pois, que se deva
fugir de homem escravizado por tais
paixões?
— Acho.
— O perdulário incapaz de bastar-
se a si mesmo, sempre necessitado dos
outros, que pede emprestado e não
paga, que se ofende se não lhe empres-
tam, não te parece também amigo
muito incômodo?
— Certamente.
— Deveriamos, pois, afastar-nos
igualmente de tal homem?
— Deveriamos.
— E aquele que sabe aumentar seus
haveres, mas desejoso de' entesourar
grande riqueza e por isso mesmo difícil
de tratar nos negócios, mais amigo de
receber que de devolver?
— Parece-me pior ainda que o
anterior — disse Critobulo.
— E o aurissedento cuja única
preocupação é excogitar meios de
ganho?
— Acho que também deve ser evi-
tado, pois seria inútil a um amigo.
— E o rixoso pronto a criar para os
amigos uma legião de inimigos?
— E homem de fugir, por Júpiter !
— E o homem que, sem ter nenhum
desses defeitos, deixa que lhe façam o
bem sem lembrar-se de retribuir?
— Também seria inútil. Mas então,
Sócrates, quem devemos procurar para
amigo?
— Aquele, penso, que tenha as qua-
lidades contrárias: senhor dos apetites
sensuais, fiel a seus juramentos, con-
descendente nos negócios, que não
fique atrás dos que o beneficiem, pron-
to a servir quem o sirva.
— Mas como, Sócrates, nele reco-
nhecer tais qualidades antes de pô-lo a
prova?
— Para julgar os estatuários —
disse — não vamos atrás de suas pala-
vras: fiamo-nos em quem haja execu-
tado belas estátuas, certos de que ou-
tras fará igualmente belas.
— Queres dizer que se um homem
proceder bem com os amigos que já
teve, de certo procederá da mesma
forma com os que vier a ter?
da
1
86 XENOFONTE
— Sim. Um picador que eu visse
montar bem alguns cavalos, cré-lo-ia
capaz de com outros fazer outro tanto.
— Seja. Mas tendo um homem nos
parecido digno de nossa amizade,
como fazé-lo amigo?
— Antes de mais nada — disse Só-
crates — há mister consultarmos os
deuses e ver se nos aconselham a fazê-
lo nosso amigo.
— Pois bem — prosseguiu Crito-
bulo — uma vez -confirmada nossa
escolha pelo consentimento dos deu-
ses, poderás dizer-me como caçaremos
nosso amigo?
— Por Júpiter! não será nem cor-
rendo-lhe no encalço, como à lebre,
nem com reclamo, como aos pássaros,
nem de força, como aos inimigos:
árdua tarefa seria conquistar um
amigo contra sua vontade. Nem que o
encadeássemos qual escravo, logra-
riamos retê-lo. Semelhante tratamento
criar-nos-ia antes inimigos que amigos.
— Como, então, conseguir amigos?
— Dizem existir. certas palavras
mágicas, que, sabidas e pronunciadas,
fazem amigos nossos quem quer que
queiramos, filtros cujo conhecimento
serve para fazer-se amar de quem se
queira. g
— Qnde aprender essas receitas?
— Disse-te Homero as palavras
mágicas que a Ulisses disseram as
sereias. Principiam mais ou menos
assim: Aproxima-te, ilustre Ulisses,
honra dos aqueus.
— Mas, Sócrates, não é o canto
com que as sereias retinham os outros
homens e os impediam de fugir-lhes às
seduções?
— Não. Este canto só o endere-
çavam aos amigos da virtude.
— Pareces-me dizer dever-se en-
cantar os homens com palavras tais
que não lhes pareça mofa os louvores
que ouçam. De outra forma .ganha-
ramos um inimigo e seríamos repeli-
dos, se, para louvá-lo, fôssemos dizer a
um homem que se saiba pequeno, feio
e fraco, que é belo, grande e robusto.
Mas não conheces outros amavios?
— Não. Ouvi dizer, porém, que Pé-
ricles conhecia muitos, que usava para
fazer-se amado de seus concidadãos.
'— E Temistocles, como fez para
conquistar-lhes a amizade?
— Por Júpiter ! não foi com feitiços
mas cumulando-os de benefícios.
— Sem dúvida, Sócrates, queres
dizer que, se quisermos adquirir um
bom amigo, devemos ser igualmente
honestos de palavras e atos?
— Pensavas então — disse Sócra-
tes — pudesse homem improbo procu-
rar amigos virtuosos?
— É que vi — disse Critobulo —
maus retóricos amigos de oradores dis-
tintos, homens sem conhecimentos mi-
litares intimamente ligados aos mais
hábeis generais.
— Mas, voltando ao nosso propó-
sito, conheces homens inúteis que te-
nham sido capazes de granjear amigos
úteis?
— Não, à.verdade. Todavia, se ao
perverso é impossível travar amizade
com pessoas honestas, gostaria de
saber se será fácil, sendo a gente
honesto, encontrar amigos entre os ho-
mens virtuosos.
— O que te embaraça, Critobulo, é
veres muitas vezes pessoas que prati-
cam o bem e se abstêm do mal, longe
de amigos, atacarem-se umas às outras
e tratarem-se rnais indignamente que
os últimos dos homens.
— E não são os particulares —
disse Critobulo — que assim proce-
dem. As cidades, até as que mais
amam tudo o que é belo e mais abomi-
nam tudo o que é vergonhoso, freguen-
temente estão em guerra umas com as
outras. Quando penso nisso, desespero
completamente de poder adquirir ami-
gos. Vejo que os maus não podem
14
20
22
23
MEMORÁVEISAI 87
amar-se uns aos outros: efetivamente,
como poderiam seres ingratos, negli-
gentes, cúpidos, sem fé e sem freio tor-
nar-se amigos? Os maus foram feitos
antes para odiar-se mutuamente que
para amar-se. De mais a mais, como tu
próprio o dizes, impossível formarem
os maus concerto amistoso com os
bons, pois qual a amizade possível
entre os que fazem o mal e os-que o
detestam? E se até os homens que pra-
ticam a virtude se dividem para os pri-
meiros postos das cidades, se a mútuo
ódio os arrasta a inveja, onde encon-
trar amigos? em quem a benevolência
e a fidelidade?
— Há em tudo isso, Critobulo —
contestou Sócrates — diversas manei-
ras de encarar os fatos. Os homens têm
naturalmente o sentimento da amizade.
Necessitam uns dos outros, capitulam
à piedade, socorrem-se mutuamente,
compreendem-se e se mostram gratos.
Mas têm também o sentimento da ini-
mizade. Quando suas idéias sobre os
bens e os prazeres são as mesmas,
lutam por alcançá-los. Quando dividi-
dos pelas opiniões, combatem-se uns
aos outros: a guerra nasce da disputa e
da cólera; a malevolência, dos desejos
ambiciosos; o ódio, da inveja. Porém a
amizade vence todos os obstáculos
para unir os corações virtuosos: é que,
graças à virtude, preferem os homens
possuir em paz haveres moderados a
tudo dominar pela guerra. Com fome
ou sede, cordialmente dividem os ali-
mentos e a bebida. Cobiçosos de um
belo objeto, sabem resistir a si próprios
para não afligir aqueles que devem res-
peitar. Não tomam das riquezas senão
sua parte legítima, sem nenhuma idéia
de cupidez, e demais auxiliam-se uns
aos outros. Sabem resolver suas diver-
gências não somente sem prejudicar-
se, mas ainda com mútua vantagem, e
impedir a cólera de ir até o rompi-
mento. Enfim, repartindo suas riquezas
com os amigos e olhando os bens dos
outros como os seus próprios, dirimem
todo pretexto de inveja. Não é, pois,
natural que, galgando os cargos do
Estado, longe de se prejudicarem, se
sirvam mutuamente os homens virtuo-
sos? Os que desejam as honras e a
autoridade em sua pátria, a fim de pi-
lhar livremente os fundos públicos,
violentar os cidadãos e viver na indo-
lência, são corações injustos, perver-
sos, incapazes de qualquer afeição.
Mas o homem que busca as dignidades
para pór-se ao abrigo de toda injustiça
e prestar legitimo apoio aos amigos;
que, feito magistrado, se esforça por
ser útil à pátria, então este homem será
incapaz de entender-se com outro cida-
dão virtuoso como ele? Cercado de ho-
mens virtuosos, ser-lhe-ã menos fácil
servir. aos amigos? Apoiado pelos
cidadãos honestos, será menos pode-
roso para fazer bem à pátria? Evidente
é que, se nos combates gimnicos fosse
permitido aos mais fortes reunir-se
contra os mais fracos, sairiam vence-
dores em todas as lutas e obteriam
todos os prêmios. Ora, isso não se per-
mite. Mas se nas lutas políticas, em
que os virtuosos levam a palma, não se
impede um cidadão de unir seus esfor-
ços aos de outro para o bem da pátria,
como não ser vantajoso, quando se
tem parte no governo, cercar-se de
excelentes amigos e em tudo tê-los
antes por associados e colaboradores
que por antagonistas? Não menos evi-
dente é que se há lutas há mister alia-
dos, e tantos mais quanto se tenha de
combater contra homens de mérito e
virtude. Ora, necessário é fazer bem
aos que queiram tornar-se nossos alia-
dos, a fim de dar-lhes coragem; e antes
beneficiar poucos homens virtuosos
que um exército de maus, desde que os
maus saem muito mais caros que as
pessoas de bem. Fica trangúilo, Crito-
bulo; procura fazer-te bom e, uma vez
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(o)
3!
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33
r
88 XENOFONTE
bom, põe-te à caça dos corações vir-
tuosos. Quem sabe possa eu auxiliar-te
um pouco nessa perseguição, sendo
como sou um coração aberto ao amor.
Não imaginas, quando cóbiço a amiza-
de de alguém, como me empenho em
inspirar-lhe a mesma afeição que por
ele sinto, em fazê-lo comungar comigo
em meu desejo, em fazê-lo amar aque-
les que amo. Sei que quando desejares
travar alguma relação também terás
necessidade dessa ciência; não me
ocultes, pois, os que quiseras ter por
amigos: a diligência com que procuro
agradar quem me agrada, deu-me,
creio, certa experiência da caça dos
homens.
Então Critobulo:
— E, Sócrates, ciência que há
muito tempo anseio por conhecer,
sobretudo se me servir igualmente em
relação às pessoas belas de alma e às
belas de corpo.
— Mas Critobulo — retorquiu Só-
crates — minha ciência não vai a
ponto de bastar estender a mão para
cativar a beleza. Estou persuadido que
os homens fugiam Cila porque usava
de força, ao passo que as sereias, ja-
mais lançando mão de violência, en-
cantavam toda gente, detinham, diz-se,
e seduziam quem quer que as ouvisse.
— Pois bem! — disse Critobulo —
não usarei de coação com ninguém; se,
pois, tens algo a dizer-me sobre como
conquistar amigos, fala.
-— Jamais — disse Sócrates —
porás boca contra boca.
— Tranqúiliza-te. Não mais com-
primirei os lábios aos lábios de nin-
guém, a menos que belo.
— Eis-te logo de saída, Critobulo,
fazendo o contrário do que se deve. Os
que são belos não suportam de bom
grado essas liberdades, conquanto os
tolerem os feios, convencidos de que os
acham belos de alma.
Então Critobulo:
— Pois bem, meus beijos, endere-
çando-se aos que são belos, só elegerão
os que forem bons. Tranquiliza-te,
pois, e dize-me a arte de caçar amigos.
Então Sócrates:
— Quando quiseres ligar-te a al-
guém, permitirás que eu te denuncie a
ele, que lhe diga que o admiras e dese-
jarias ser seu amigo.
— Denuncia-me — disse Critobu-
lo. — Sei que ninguém aborrece o
louvor.
— E, se além disso acusar-te de,
atenta tua admiração, estares benevo-
lamente disposto para com ele, não
crerás que te calunie?
— De forma alguma, pois eu
mesmo sinto inclinação para quem me
pareça senti-la em relação a mim.
— Então poderei dizer tudo isso
aqueles cuja amizade ambicionares; e
se me autorizares a dizer ainda seres
zeloso de teus amigos, que tua maior
felicidade é tê-los virtuosos, que te ufa-
nas de suas boas ações como se fossem
tuas, que te regozijas de sua prosperi-
dade como da tua própria, que a ne-
nhum sacrifício te poupas para assegu-
rar-lhes o bem, que tens por máxima
consistir a virtude em vencer os ami-
gos em benefícios e os inimigos em
ultrajes, — creio muito poder auxi-
lhar-te na caça aos bons amigos.
— Por que, então — replicou Cri-
tobulo — falar-me assim, como se não
pudesses dizer de mim tudo o que
quisesses?
— Não, por Júpiter! não o posso,
pois ouvi dizer um dia Aspásia que as
boas casamenteiras, não falando senão
verdade, são felizes no casar os ho-
mens, ao passo que de nada serviriam
louvores descabidos, pois os esposos
enganados se detestam mutuamente e
maldizem quem os uniu. Ora, estou
convencido que tinha razão e creio não
poder, ao falar de ti, presentear-te com
encômios imerecidos.
Jg
35
Jó
38
MEMORÁVEISJI 89
— Quer dizer, Sócrates, que se eu
os merecer — continuou Critobulo —
assaz me queres para ajudar-me a
encontrar amigos, mas que do contrá-
rio nada imaginarias, nada dirias em
meu interesse?
— Pensas então, Critobulo, que
melhor te serviria fazendo-te elogios
insinceros que instando-te a trabalhar
por ser homem de bem? Se isso não te
é evidente, julga-o pelo que te vou
dizer: suponhamos vá eu fazer de ti um
falso elogio a um piloto de quem deseje
ver-te amigo, lhe diga seres bom timo-
neiro, € que, confiante em mim, esse pi-
loto entregue seus navios em tuas
mãos, que jamais governaram um
leme: terias alguma esperança de não
perder-te ao mesmo tempo que o
navio? Se da mesma forma, por força
de mentiras persuadisse coletivamente
toda a cidade a entregar-se a ti como a
bom general, sábio jurisconsulto, hábil
político, a que males, pensas, não te
exporias a ti e ao Estado? Se, enfim,
convencesse insuladamente alguns ci-
dadãos a te confiarem a gestão de seus
bens, após haver-lhes dito falsamente
seres administrador econômico e zelo-
so, uma vez posto a prova não te
patentearias a um tempo desastrado e
ridículo? Pois bem! Critobulo, tudo
fazer por sê-lo — eis o caminho mais
curto, mais seguro, mais digno, se que-
res ter fama de probo. Tudo o que os
homens chamam virtude — conven-
cer-te-á a reflexão — aumenta pelo es-
tudo e exercício. De minha parte, Cri-
tobulo, penso ser por este lado que há
mister dirigir nossa caçada. Se és de
outra opinião, dize-mo.
Respondeu Critobulo:
— Corariã, Sócrates, de fazer-te
qualquer objeção. Nada diria bem nem
verdadeiro.
39
CarpíruLo VII
Quando, por ignorância, seus ami-
gos se encontravam em apuros, procu-
rava desempeçã-los por meio de conse-
lhos; quando, por pobreza, ensinava-os
a auxiliarem-se mutuamente. Referirei
também o que dele sei a tal propósito.
Vendo um dia Aristarco imerso em
tristeza: a
— Pareces-me, Aristarco — disse-
lhe — ter qualquer coisa que te pesa; é
preciso repartir o fardo com os amigos;
quem sabe possamos aliviar-te.
— Palavra de honra, Sócrates —
respondeu Aristarco — estou em maus
lençóis. Desde que a cidade se insurgiu
e inúmeros cidadãos se retiraram para
o Pireu, minhas irmãs, sobrinhas, pri-
mas, abandonadas, refugiaram-se em
minha casa, de modo que somos cator-
ze pessoas de condição livre. Nada
retiramos da terra, em poder dos inimi-
gos, nem de nossas casas, pois a cidade
está quase deserta. Ninguém compra
móveis, não há quem empreste dinhei-
ro; será mais fácil achar dinheiro na
rua que alguém que o forneça. É muito
triste, Sócrates, ver em torno de si os
parentes na miséria; impossível, em
semelhantes circunstâncias, sustentar
tanta gente.
Ao que Sócrates retorquiu:
-— Como é que Ceramão, também
com um mundo de gente para manter,
não só encontra o bastante para sie os
seus como ainda põe dinheiro de lado e
enriquece, de passo que tu, tendo mui-
tas pessoas que sustentar temes que
morram todos à falta do necessário?
— Caramba! ele mantém escravos,
eu pessoas livres.
— Quem reputas mais dignas de
estima, as pessoas livres que tens em
casa ou os escravos de Ceramão?
— Claro, as pessoas livres que
tenho em casa.
— Então é uma vergonha viver
Ceramão na abundância com homens
de cacaracá, enquanto tu, com pessoas
muito mais dignas de estima, estejas na
miséria?
— Não, por Júpiter! pois ele ali-
menta artesãos e eu pessoas de educa-
ção liberal.
— Artesãos não são os que apren-
deram a fazer alguma coisa útil?
— Sem dúvida.
A farinha não é coisa útil?
— Certamente.
— Eo pão?
-— Também.
E as roupas de homens e mulhe:
res, as túnicas, as clâmides, as exômi-
des??
S Túnica, lit. quitãozinho: túnica curta, sem man-
gas, de uso diário; clâmide: espécie de capa; exômi-
de: espécie de túnica, com mangas, usada pelos
escravos e povo simples. (N. do E.)
92 XENOFONTE
— Tudo isso é muito útil.
— E nada disso saberão fazer as
pessoas que tens em casa?
— Pelo contrário, presumo.
— Então, não sabes que exercendo
uma destas indústrias, fabricando fari-
nha, Nausícides, não só se sustenta a si
e as seus escravos como ainda dá de
comer a grande cópia de porcos e bois,
além de amealhar boas economias com
que a miúdo provê às prestanças públi-
cas? Fazendo pão sustenta Cirebo
toda a sua casa e vive à larga. Deméias
de Cólito fazendo clâmides, Menaão,
clâmides, a maior parte dos megarinos,
exômides, obtêm o com que viver.
— Convenho; mas todos eles com-
" pram escravos bárbaros que jungem ao
trabalho a sua discrição, ao passo que
eu trato com pessoas livres, minhas
parentas.
— Como? Por serem livres e paren-
tas tuas, achas que nada devam fazer
senão comer e dormir? Julgas tenham
melhor existência as outras pessoas li-
vres que vivem em semelhante vciosi-
dade? Senão mais felizes que as que se
ocupam das coisas úteis que sabem?
Pensas que a preguiça e a ociosidade
ajudem os homens a aprenderem o que
precisam saber, a recordar-se do que
aprenderam, a dar ao corpo saúdé e
vigor, a adquirir e conservar tudo o
que à vida é necessário, ao passo que
de nada valham o trabalho e o exerci-
cio? Aprenderam tuas parentas o que
dizes saberem como coisas inúteis à
vida e de que não teriam o que fazer;
ou, pelo contrário, para delas ocupar-
se um dia e auferir proveitos? Quais os
homens mais sábios, os que modorram
na ociosidade ou os que se ocupam das
coisas úteis? Quais os mais justos, os
que trabalham ou os que sem nada
fazerem, sonham com os meios de sub-
sistir? Neste momento, estou certo,
não podes amar tuas parentas nem elas
a ti: tu porque as olhas como peso;
elas porque vêem que te pesam. É de
recear que a frieza se converta em ódio
e se entibie o reconhecimento do pas-
sado. Se porém, lhes impuseres uma
tarefa, tu as amarás, vendo que te são
úteis, elas te amarão por sua vez perce-
bendo que te contentam. Mais agradá-
vel vos será a lembrança do passado,
"subirá de ponto vosso reconhecimento
e assim vos tornareis melhores amigos
e melhores parentes. Se se tratasse de
ação vergonhosa para elas, antes a
morte. Mas ao que dizes, tuas parentas
possuem talentos honrosíssimos, os
que melhor convêm à mulher. Ora, o
que se sabe faz-se com facilidade,
prontidão e prazer. Não hesites, pois,
em propor-lhes partido que te será tão
vantajoso quanto a elas, e que sem dú-
vida aceitarão prazerosas.
-—— Em nome dos deuses, Sócrates
— volveu Aristarçco — teu conselho
parece-me excelente. Não ousava pedir
emprestado, sabendo que após gastar o
que recebesse não teria com que resti-
tuir. Agora, para começar os trabalhos
creio poder decidir-me a fazê-lo.
Dito e feito. Procuraram-se fundos,
comprou-se lã. As mulheres jantavam
trabalhando, ceavam após o trabalho e
a alegria sucedera à tristeza: em vez de
se olharem à esconsa, viam-se com
prazer; elas amavam Aristarco como
protetor. Aristarco queria-lhes por
seus serviços. Por fim, este veio contar
alegremente a aventura a Sócrates,
dizendo-lhe que suas parentas o censu-
ravam por ser o único da casa que
comia sem fazer nada.
— Eh! — disse Sócrates — por
que não lhes contas a fábula do cão? E
fama que, no tempo em que os animais
falavam, disse a ovelha para o dono:
“Estranho que a nós que te fornece-
mos lã, cordeiros, queijo, nada nos dês
10
1
14
MEMORÁVEIS-I 93
que não sejamos obrigadas a arrancar
à terra ao passo que com teu cão, que
nada te dá, com ele repartes teu pró-
prio alimento”.
Retrucou-lhe o cão, que a ouvia:
“Por Júpiter! ele tem razão, pois
sou eu que vos guardo e impeço de ser-
des roubadas dos homens ou arreba-
tadas dos lobos: não velasse eu por vós
e o medo de morrer não vos deixaria
pastar”.
Acrescenta-se que aí consentiram as
ovelhas lhes fosse o cão preferido. Vai,
pois, dizer também a tuas parentas que
as guardas e vigias qual o cão da fábu-
la; que graças a ti de ninguém são
insultadas e podem trabalhar jocundas
e em segurança.
I
CarpíruLo VIII
Um dia, após longa separação,
topou com outro velho camarada.
— De onde vens, Eutério? — im-
quiriu-lhe.
— Ao fim da guerra, Sócrates,
regressei de uma viagem e agora eis-
me aqui. Perdi o que possuía ao de lã
das fronteiras; nada me deixou meu
pai na Ática e hoje, de volta, vejo-me
forçado a trabalhar para viver. Antes
isso que pedir a quem quer que seja,
tanto mais que nada tenho para dar em
penhor.
— E quanto tempo calculas poder
trabalhar pelo pão de cada dia?
— Não muito, está se vendo.
— Entretanto, velho, é evidente que
terás despesas, e ninguém quererá
pagar-te por teus serviços manuais.
— Dizes verdade.
— Então não seria melhor te ocu-
pares desde já de trabalhos que possam
sustentar-te na velhice, dirigires-te a
alguém que possua grandes proprie-
dades e precise de quem as administre,
feitore os trabalhos, o ajude a fazer en-
trar as colheitas, a conservar seu patri-
mônio, prestando-lhe serviço por servi-
ço?
— Seria duro, Sócrates, suportar a
escravidão.
—— Sem embargo, nem por isso os
que governam as cidades e dirigem os
negócios públicos são considerados
mais escravos que os outros homens;
pelo contrário, são tidos por mais
livres.
— Afinal, Sócrates, de forma algu-
ma quero expor-me a censuras.
— Certo Eutério, não é fácil encon-
trar trabalho que não exponha a repro-
ches. O que quer que se empreenda, é
difícil não incorrer em faltas, e ainda
que não se cometam, raro é não encon-
trar juízes ineptos. E muito me admira
que no que dizes hoje fazer fosse fácil
pór-se a forro de exprobrações. Impor-
ta-te, pois, evitar os indivíduos biliosos
e procurar os de espírito bem formado,
encarregares-te de quanto puderes
fazer, não te meteres no que não soube-
res e executares o melhor possível e de
boa vontade tudo o que empreenderes:
creio que assim procedendo, muito
pouco te exporás a censuras, te aperce-
berás contra a miséria e deliciarás
tranquilo, folgado e galhardo o sol-pôr
da existência.
4
CaPíTULO IX
Certo dia, eu presente, ouvi Criton
queixar-se ser a vida difícil em Atenas
para quem quisesse ocupar-se tranqui-
lamente de seus negócios.
— Diariamente — dizia — inten-
tam-me processos. Não que eu atente
contra os direitos de ninguém, mas por
imaginarem que prefira dar dinheiro a
ver-me metido em querelas.
Replicou Sócrates:
— Dize-me, Criton, alimentas cães
para que afastem os lobos de tuas
ovelhas?
— Certamente, e acho-o prudente.
— Não consentirias, então, em
manter também um homem que qui-
sesse e pudesse conservar à distância
os que procurarem prejudicar-te?
— De boa vontade, se não temesse
que ele próprio se voltasse contra mim.
— Quê! não vês ser mais agradável
e vantajoso servir um homem como tu
que dele fazer-se inimigo? Sabes que
aqui não faltam homens ambiciosos de
tua amizade.
Em seguida a esta conversa encon-
traram Arquidemo, cidadão capaz mas
pobre. Longe de ser um aproveitador,
amava o bem e possuia a alma
demasiadamente sobranceira para dei-
xar-se corromper pelo dinheiro dos
sicofantas. Desde logo, sempre que
Críton recebia trigo, azeite, vinho, lã
ou qualquer provisão das coisas neces-
sárias que fornece o campo, dava parte
a Arquidemo. Quando oferecia um
sacrifício convidava-o e não o esquecia
em nenhuma destas ocasiões. Arquide-
mo, que via na casa de Criton um refú-
gio seguro, a ele prendeu-se inteira-
mente. Bem depressa descobriu serem
“os sicofantas que perseguiam Criton
indivíduos cobertos de crimes e terem
numerosos inimigos. Citou um em
Juízo perante o povo para que fosse
condenado a castigo corporal ou
multa. Consciente das próprias malfei-
torias, tudo fez o acusado para desem-
baraçar-se de Arquidemo, porém este
não o largou enquanto o extorsor não
deixou Criton em paz e não lhe deu
algum dinheiro. Da mesma sorte pro-
cedeu Arquidemo em diversas circuns-
tancias semelhantes. Então, assim
como tendo um pastor um bom ca-
chorro se apressam os outros em pôr-
lhe perto seus rebanhos, para que fi-
quem sob a mesma guarda, assim
pediram os amigos de Criton os puses-
se também sob a custódia de Arquide-
mo. Este de bom grado comprazia a
Criton, e não só Criton como todos os
seus amigos viviam em paz. E quando
os inimigos de Arquidemo lhe expro-
bravam o ter-se feito, por interesse,
adulador de Criton:
— Qnde a vergonha — respondia
98. XENOFONTE
Arquidemo — em entreter com ho-
mens virtuosos comércio de serviços
reciprocos, fazê-los amigos e opor-se
aos maus, ou em tudo fazer por preju-
dicar as pessoas de bem e assim
atrair-lhes a inimizade, mancomunar-
; |
se, ao revés, com os maus, procurar-
lhes a amizade e preferir seu trato ao
das pessoas honestas?
Desde então foi Arquidemo sempre.
estimado dos amigos de Criton, que de
sua parte o incluiu em o número deles.
CAPÍTULO X
Sei também que teve esta conversa
com Diodoro, um de seus amigos:
— Dize-me, Diodoro, se um de teus
escravos fugisse procurarias reavé-lo?
— Por Júpiter! e pór-lhe-ia os ou-
tros na pegada, anunciando uma re-
compensa a quem o capturasse.
— Se um de teus escravos caísse
doente não tratarias dele, não chama-
rias médicos para-salvar-lhe a vida?
— Sem dúvida.
— E se um homem de teu'conheci-
mento, muito mais útil que teus escra-
vos corresse o risco de morrer à miín-
gua, não achas seria de teu dever
socorrê-lo? Ora, sabes que Hermó-
genes não é ingrato, que coraria de
receber serviços de ti sem por sua vez
retribuir-te. E um homem que te servi-
ria de bom grado, com devotamento e
constância, sempre pronto não só a
obedecer-te às ordens como a agir de
iniciativa própria, a prevenir e prever
— este homem, creio, valeria uma
legião de escravos. Recomendam os
bons ecônomos que quando uma mer-
cadoria preciosa está a baixo preço se
aproveite a ocasião para comprá-la:
ora, nos tempos que correm, por pouco
custo podem adquirir-se bons amigos.
Respondeu Diodoro:
— Tens razão, Sócrates. Dize a
Hermógenes que venha ver-me.
— Não, essa é boa! nada farei.
Penso que em vez de chamá-lo, melhor
farás indo procurá-lo, que com isto ele
não ganhará mais que tu próprio.
Apressou-se Diodoro em ir ter com
Hermógenes e sem grande custo houve
um amigo que tinha por dever nada
falar nem fazer que não para servi-lo e
comprazer-lhe.
“LIVRO!
to
CAPÍTULO I
Como os que aspiram às dignidades,
encontraram em Sócrates guia valioso
para o fim a que visavam, eis o que ora
referirei. Tendo um dia ouvido dizer
que certo Dionisodoro, recém-chegado
a Atenas, se anunciava professor de
estratégia, disse Sócrates a um de seus
discípulos, que sabia anelar as honras
de general da pátria:
— Vergonhoso para alguém que
quisesse ser estratego em sua terra, ó
Jovem, não seria deixar fugir ocasião
de aprender a arte militar? Não deve-
ria ser punido ainda mais severamente
que alguém que se metesse a fazer está-
tuas sem ter aprendido a estatuária?
Que nos perigos da guerra a cidade
inteira confia no estratego; daí resulta-
rem seus sucessos em grandes vanta-
gens e em grandes males, seus revezes.
Como, pois, não seria justo punir um
homem que após sobreolhar o aprendi-
zado da arte militar tudo fizesse por
ser eleito?
Com estes conselhos Sócrates apres-
sou o jovem a estudar com Dioniso-
doro. Estudado, voltou o discípulo
para junto do mestre, que exclamou
jocoso:
-— Cidadãos, não achais que assim
como a Agamenão titulava Homero
venerável, depois das lições de estra-
tégia não parece este jovem ainda mais
respeitável? Pois se, ainda que não
toque, chama-se citarista a quem
aprendeu a tocar citara; se, ainda que
não exerça, chama-se médico a quem
aprendeu medicina, muito embora nin-
guém o eleja, não deixa este jovem de
ser desde já estratego; e, em'que pesas-
se aos: votos de todos os homens, nem
estratego nem médico seria quem nada
soubesse. Mas, prosseguiu, a fim de
que, se algum dia um de nós vier a ser
oficial sob tuas ordens, esteja melhor
instruído rras coisas da guerra, dize-
nos por onde começou Dionisodoro a
ensinar-te a estratégia.
Respondeu o jovem:
—— Começou por onde terminou.
Ensinou-me a tática e nada mais.
— Entanto — observou Sócrates
— isso é parte mínima da arte do gene-
ral. Cumpre-lhe ainda prover a todo o
material da guerra e de tudo fornecer o
soldado. Ser fecundo de expedientes,
empreendedor, cuidadoso, paciente,
sagaz, indulgente e severo, franco e
astuto, capaz de defender-se e de
surpreender, liberal e rapace, generoso
e cúpido, prudente e audaz. Enfim deve
ter, para ser bom estratego, todas as
demais qualidades que dão a natureza
e a ciência. Glorioso é também conhe-
cer a arte de ordenar as tropas; vai
grande diferença entre um exército
bem alinhado e tropas juntas à gan-
daia. Pedras, tijolos, traves, telhas lan-
104 XENOFONTE
çadas a monte aqui e ali para nada ser-
vem; se, porém, nos fundamentos e nas
sumidades se dispõem os materiais
imputrecíveis e inalteráveis, como as
pedras e as telhas, se de permeio se
ajustam os tijolos €e as traves, ao modo
de edifício, então se tem algo precioso,
uma casa.
— O que acabas de dizer, Sócrates
— respondeu o jovem —, é exata-
mente o mesmo que se pratica na guer-
ra: lá, com efeito, deve colocar-se nas
primeiras e últimas filas os melhores
soldados e no meio os piores, a fim de
serem arrastados e. impedidos pelos
outros.
— Muito bem — obtemperou Só-
crates -—, se te ensinaram a discernir
os bons dos maus soldados. Se não, de
que te serviriam teus conhecimentos?
Houvesse teu mestre te ensinado a dis-
por o dinheiro colocando por cima e
por baixo as melhores peças e no meio
as piores, de nada te valeria isso se não
te tivesse ensinado a distinguir a
moeda boa da mã.
— Pois olha, não mo ensinou. A
nós compete distinguir os bons dos
maus soldados.
— Bem, mas o que nos impede de
examinar como poderemos não nos
enganar?
— De acordo — assentiu o jovem.
— Fosse, então, o caso de pilhar
dinheiro, não faríiamos bem colocando
na frente os soldados mais cúpidos?
— Ássim penso.
— E se se tratasse de correr peri-
gos, não poríamos na primeira linha os
que mais prezam a glória?
— Sem dúvida, pois, de olho na
honra, só querem expor-se. Esses não
são difíceis de descobrir: sempre em
vista, em toda parte estão à mão.
— Ensinou-te ele apenas a dispor
um exército em ordem de batalha, ou
também te ensinou onde e como
importa usar as diversas maneiras de
ordená-lo?
— Quê, ensinou o quê!
— Entretanto, há mil circuns-
tâncias em que não se deve formar nem
conduzir as tropas do mesmo modo.
— Por Júpiter! não me ensinou
nada disso.
— Pois bem, volta e interroga-o: se
souber seu mister e não for impudente,
corará de haver recebido teu dinheiro e
ter-te despedido sem instruir-te.
Ep!
CapítruLO II
Topando de uma feita com um
homem que acabara de ser e feito
estratego, perguntou-lhe:
— Por que, a teu ver, cnama:Ho-
mero a Agamenão pastor dos povos?
Não será porque, semelhante ao pas-
tor que vela pela conservação das ove-
lhas e a tudo provê que lhes seja neces-
sário, deve o general zelar por que seus
soldados gozem boá saúde, tenham
tudo o de que precisem e estejam em
condiçoes de realizar seu escopo? Ora,
o escopo dos soldados é triunfar do ini-
migo para viverem mais felizes. Aliás,
quando Homero louva Agamenão, di-
zendo: Era a um tempo bom príncipe e
bom guerreiro, não é porque era bom
guerreiro batendo-se com valor contra
os inimigos e comunicando sua bravu-
ra a todo o exército, e bom principe
não procurando exclusivamente para si
os bens da vida, senão assegurando a
felicidade daqueles sobre que reinava?
De feito, o rei é eleito para zelar não
por seu exclusivo bem-estar pessoal,
mas pela prosperidade dos que o ele-
gem. Todos os que se fazem soldados
querem viver felizes, e se escolhem
generais é para terem quem os conduza
a essa meta. Ao general, pois, cumpre
procurar o bem-estar dos que o elege-
ram. E que mais glorioso que o cum-
prir e que mais infamante que o olvidar
este dever?
Assim é que, indagando qual deve
ser o mérito do bom general, Sócrates
de tudo o mais prescindia e outro fim
não lhe deputava que felizes fazer seus
comandados.
Ê,
oo
ro
CAPÍTULO HI
Não me esqueceu a conversa que
com um cidadão recém-nomeado hi-
parco!'º teve Sócrates.
— Jovem — interpelou-o — pode-
rias dizer-me por que ambicionaste ser
hiparco? Sem dúvida não seria para
marchar à testa dos ginetes: esta honra
pertence aos arqueiros montados, que
precedem aos próprios hiparcos.
— Tens razão.
— Tão pouco seria para te fazeres
conhecer: os próprios louros são muito
conhecidos.
— Também é verdade.
— Não seria porque esperas melho-
rar a cavalaria da República e, quando
necessários os préstimos dos cavalei-
ros, à sua frente servir o Estado?
— De fato.
— Aí está, por Júpiter! — disse
Sócrates — um alvo glorioso, se fores
capaz de atingi-lo. Enfim te elegeram
para comandar cavalos e.cavaleiros?
— Justamente.
— Ora bem, antes de tudo dize-nos
o que pretendes fazer para melhorar os
cavalos. |
— Mas isso não é coisa que me
incumba. Cada. cavaleiro que trate de
seu cavalo.
— Entanto, se uns te trouxerem
cavalos fracos dos pés ou das pernas,
senão completamente faltos de forças;
1º Hiparco: comandante de cavalaria. (N. do E.)
outros, animais tão mal nutridos que
nem possam andar; estes, cavalga-
duras tão fogosas que não haja mantê-
las quietas; aqueles, alimárias tão res-
pingas que sequer possas dispó-las em
fila, de que te servirá tua cavalaria?
Como, à frente de semelhante corpo,
poderás servir a República?
— Tens razão, olharei o mais que
puder pelos cavalos. |.
— Quê! não te esforçarás também
para melhorar os cavaleiros?
— Está claro que sim.
— Não principiarás por habituá-
los a montarem mais lestamente a
cavalo?
— Naturalmente. Assim quando
algum cair terá mais ensanchas de
salvar-se.
— Na hora do combate ordenarás
aos inimigos que venham à planície
onde estás acostumado a manobrar, ou
procurarás exercitar teus cavaleiros em
toda espécie de terreno onde se possa
encontrar o inimigo?
— Em verdade será melhor exerci-
tá-los em todos os terrenos.
— Não os afarás, outrossim, a lan-
çarem o dardo a-cavalo?
— Também será conveniente.
—— Já pensaste em estimular a cora-
gem dos cavaleiros, incitá-los contra o
inimigo, e assim aumentar-lhes a
força?
108
— Se ainda não o fiz, hei de
fazê-lo.
— Sabes como te fazeres obedecer
dos cavaleiros? Que, sem isso, cavalos
e cavaleiros, excelentes e vigorosos
nada te adiantarão.
— Dizes verdade. Mas qual, Sócra-
tes, o melhor meio de submetê-los à
obediência?
— Notaste, sem dúvida, que em
todas as ocasiões os homens consen-
tem em sujeitar-se aos que reputam
superigres. Numa doença, de bom
grado se submetem ao médico que jul-
gam mais hábil, numa travessia, escu-
tam os que navegam aquele que consi-
deram melhor piloto. Em agricultura, o
que se tiver por agricultor mais experi-
mentado.
— É justo.
— Pois bem, da mesma forma, na
cavalaria obedecem os cavaleiros a
quem lhes pareça melhor saber o que é
preciso.
— Então será suficiente, Sócrates,
mostrar-me o melhor dentre eles para
fazer-me obedecer?
— Sim, de vez que lhes ensines
também que da obediência depende
sua glória e conservação.
— Como ensinar-lho? ”
— Muito mais facilmente, por Júpi-
ter ! que se houvesse de ensinar-lhes ser
o mal preferível ao bem. s
— Decerto queres dizer que, além
das outras qualidades essenciais, deve
o comandante de cavalaria possuir o
talento da palavra”
XENOFONTE
— Então pensavas comandar a ca-
valaria em silêncio? Não refletiste que
os mais belos conhecimentos, os que
nos prescrevem as leis, os que nos
ditam os princípios que devem pautar-
nos a vida e todas às outras ciências
dignas de nota rios foram comunicados
pela palavra? Que os melhores mestres
são também os que melhor se servem
da palavra, os que melhor conhecem as
coisas mais úteis são os que delas me-
lhor sabem falar? Não observaste
igualmente que quando em Atenas se
reúne um coro, qual o enviado a Delos,
nenhum outro se forma alhures que
com o nosso se agermane, cidade algu-
ma é capaz de juntar tão belos ho-
mens?
— É verdade.
-— Contudo, os atenienses não so-
brelevam os outros povos tanto pela
“beleza da voz, corpatura e vigor quan-
to pelo amor da glória, que mais que
tudo excita às coisas belas e honrosas.
— Também ê verdade.
— Não achas, pois, que se se cui-
dasse igualmente de nossa cavalaria,
muito sobrepujaria ela a todas as
outras, assim pela disposição e boa
ordem das armas e cavalos que pela
intrepidez nos perigos, se louvores e
glória assim esperasse reportar?
— É bem possível.
— Então o que esperas? Faze por
incutir em teus homens hábitos que em
teu próprio bem reverterão e, por ti, ao
dos outros cidadãos.
— Por Júpiter ! hei de tentá-lo!
CapíTULO IV
Vendo um dia Nicomáquides, que
voltava do congresso popular, inqui-
riu-lhe:
— Quais são, Nicomáquides, os
estrategos eleitos?
— Ah, Sócrates — respondeu o
interpelado — não achas que os ate-
nienses foram injustos? Em lugar de
eleger-me a mim, que encaneci no ser-
viço da milícia, fui lócago!! e taxiar-
ca!2, recebi tantos ferimentos dos ini-
migos (e ao mesmo tempo descobria e
mostrava as cicatrizes), escolheram
um Antístenes que jamais serviu. como
hoplita, nunca se distinguiu na cavala-
ria e só sabe amontoar dinheiro.
— Mas — retorquiu Sócrates —
não é qualidade excelente, se lhe serve
para obter o necessário aos soldados?
— Os comerciantes — disse Nico-
máquides — também são bons amea-
lhadores, o que não quer dizer que pos-
sam comandar um exército.
Tornou Sócrates:
— Mas Antiístenes é também apai-
xonado da glória, qualidade necessária
ao general. Não viste que todas as
vezes que foi corego a todos os demais
levou a palma?
— Por Júpiter ! Uma coisa é estar à
1 Lócago: entre os gregos, o comandante de com-
panhia de cem homens. (N. do E.)
12 Taxiarca: comandante de uma divisão de infan-
taria. (N. do E.)
testa de um coro e outra à frente de um
exército.
— No entanto, muito embora não
saiba cantar nem instruir coros, teve
Antistenes o talento de escolher os
melhores artistas.
— Encontrará também no exército
quem por ele ponha as tropas em
ordem de batalha e combata em seu
lugar?
— Se souber — respondeu Sócra-
tes — encontrar e escolher os melhores
em questões bélicas como o fez com os
coristas, bem poderá levar também a
palma guerreira. E com certeza terá
mais prazer em gastar para vencer na
guerra com toda a República do que
nos coros tão-somente com sua tribo.
— Então, Sócrates, dizes poder o
mesmo homem ser a um tempo bom
corego e bom estratego?
— Digo que o homem que, na dire-
ção seja do que for, souber fazer e faça
o que seja de mister, será excelente
diretor, ponham-no à cabeça de um
coro, casa, cidade, ou exército.
— Por Júpiter! Sócrates — retor-
quiu Nicomáquides — nunca espera-
ria ouvir-te afirmar poder um bom ecô-
nomo ser bom general.
— Pois bem, examinemos os deve-
res de um € outro e vejamos se são os
mesmos ou diferentes.
— Vejamos.
E
Ho XENOFONTE
— Cercar-se de subordinados, obe-
dientes e dóceis não é o primeiro dever
de um e outro?
— Certamente.
— Não devem ambos impor a cada
um as funções que melhor lhe qua-
drem?
— Sem dúvida.
— Tenho comigo que um e outro
devem castigar os relaxados e recom-
pensar os diligentes.
— Decerto.
-— Ambos não farão bem em con-
graçar-se com seus subordinados?
— Está claro. :
— Não têm igualmente interesse:
em angariar aliados e auxiliares?
— Têm.
— Não devem os dois zelar pelos
bens presentes?
-—— Nada de melhor aviso.
— Enfim, não devem ser igual-
mente laboriosos e diligentes em suas
diversas atribuições? Todos esses de-
veres são-lhes comuns. Não assim,
porém, o combater; sem embargo,
ambos não têm inimigos?
— Não resta a menor dúvida:
— Então não têm o mesmo inte-
resse em vencê-los?
— Certamente. Mas o que não me
dizes é a que lhes servirá, quando for
preciso bater-se, a ciência econômica.
— Até aí lhes sera da maior utilida-
de. Sabendo o bom ecônomo nada
haver mais útil, mais vantajoso que
vencer o inimigo, nada mais prejudi-
cial, mais ruinoso que ser vencido, será
todo zelo em tudo procurar e poupar
que possa contribuir para a vitória,
todo atenção em desconfiar e preser-
var-se de tudo'o que possa levar à der-
rota. todo energia em atacar se se sou-
ber possuidor de todos os truntos da
vitória. todo prudência na defensiva se
falto de recursos. Não desgabes, pois,
Nicomáquides, os bons ecônomos.
Unicamente em número diferem os
negócios particulares dos negócios pú-
blicos: em tudo o mais se equiparam.
O essencial é que uns e outros, só ho-
mens podem tratá-los. Que não há tais
homens encarregados dos negócios
particulares e tais outros, dos negócios
públicos. Que os que dirigem os negó-
cios públicos não empregam certos
indivíduos e o mesmo fazem os que
administram os negócios privados.
Ora, quando bem se sabe empregar os
homens, gerem-se tão bem os negócios
privados quanto os públicos. Quando
não, nuns e noutros só se descamba em
erros.
ty
CAPÍTULO V
Teve um dia com Péricles, filho do
grande Péricles, a palestra do teor que
segue.
— De mim — disse Sócrates —
choco a esperança, Péricles, que se
fores estratego a cidade se fará mais
gloriosa pelas armas e triunfará dos
inimigos.
Respondeu Péricles:
— Quisera eu, Sócrates, fosse
como dizes. Mas de que jeito conse-
gui-lo, é com que não atino. |
— Queres — volveu Sócrates —
relanceemos os fatores que desde já
possibilitam esse resultado?
— Com todo o gosto.
— Não ignoras que a população de
Atenas não é menos numerosa que a
da Beócia?
— Não.
— Onde julgas poder levantarem-se
as melhores tropas, entre os atenienses
ou entre os beócios?
— Não creio lhes fiquemos atrás a
“este respeito.
— Entre quem, em tua opinião, me-
lhor reina a concórdia?
— Entre os atenienses. Porquanto
bom número de beócios, oprimidos
pelos tebanos, estão mal dispostos
para com eles, e nada disso vejo em
Atenas. .
— Mas os beócios são os mais
ambiciosos e peremptórios dos ho-
mens, qualidades que excitam viva-
mente fazer rosto aos perigos pela gló-
ria e pela pátria.
— Quanto a isso, OS atenienses são
irreprocháveis.
— E, certo, não há povo que com
maiores € mais numerosas façanhas se
apresente que os atenienses: sua lem-
brança enaltece o espirito, incita à vir-
tude e alenta a coragem.
— Tudo o que dizes é verdade, Só-
crates. Mas bem sabes que desde a der-
rota dos mil atenienses de Tolmidas
nos pertos de Lebadia e de Hipócrates
em Délio, a glória de Atenas se abateu
ante os beócios e de tal forma subiu de
ponto a audácia dos tebanos para com
os atenienses, que, se outrora não
ousavam medir-se conosco sem os
lacedemônios e mais povos do Pelopo-
neso, hoje ameaçam cair sem aliados
sobre a Ática, de passo que os atenien-
ses, que antigamente, quando os beó-
cios estavam sós, assolavam a Beócia,
ora temem que os beócios devastem a
Ática.
— Bem sei — concordou Sócrates.
— E por isso mesmo quero crer que
hoje a República se mostrasse mais
dócil para com um general digno. Por-
que a confiança gera a incúria, indo-
lência e indisciplina. O temor torna os
homens mais vigilantes, submissos,
disciplinados. Prova estã no que suce-
112
de a bordo dos navios. Enquanto nada
há que temer, anda tudo à zanguizarra.
Mas teme-se a tempestade ou o inimi-
go, e não só se obedece a todas as or-
dens como se atendem em silêncio às
instruções do comandante, tal qual
entre os coristas.
— Suposto — disse Péricles — que
os atenienses obedeçam, remanesce
saber como restituí-los à virtude, glória
e prosperidade de antanho.
— Se quiséssemos que recupe-
rassem riquezas passadas a outras
mãos, não lhes provaríiamos terem per-
tencido a seus pais e, pois, serem suas,
exortando-os assim a reavê-las? Dese-
jando que se esforcem por ser os pri-
meiros em virtude, devemos mostrar-
lhes que de tempos imemoriais lhes
pertenceu este posto e que, fazendo por
reconquistá-lo, se avantajarão a todos
Os povos.
— Como mostrar-lho?
— Recordando-lhes os grandes fei-
tos de seus primeiros avós, cujas virtu-
des ouvem celebrar.
— Quererás falar daquela pendên-
cia dos deuses, em que por sua virtude
serviram de árbitros os contempo-
râneos de Cecrops?
-— Sim, e também do nascimento e
educação de Erecteu, da guerra sob seu
reinado declarada aos atenienses por
todo o continente, da que ao tempo dos
Heráclidas tiveram com as gentes do
Peloponeso e de quantas sustentaram
sob Teseu, nas quais se revelaram
superiores a todos os coevos. Se quise-
res, lembra-lhes também os feitos da
idade subsequente, não muito distante
da nossa: as guerras que sozinhos
mantiveram contra os povos senhores
da Ásia inteira e Europa até a Macedô-
nia, herdeiros de vasto império e pode-
rosos recursos e laureados das mais
gloriosas façanhas. As vitórias que
mais os filhos do Peloponeso alcança-
ram tanto em terra como no mar, feitos
XENOFONTE
que lhes valeram a fama de superiores
aos de seu tempo.
— De fato têm esse renome.
— Por outra, enquanto numerosas
emigrações se faziam na Grécia, eles
permaneceram em sua terra. Muitos
povos litigantes submetiam-se-lhes ao
arbítrio e outros, oprimidos de mais
fortes, refugiavarn-se junto deles.
— Admira-me, Sócrates, como a
cidade decaiu.
— Penso que, assim como certos
atletas, vencendo longe os outros pela
superioridade de suas forças, se largam
à incúria e cedem a palma aos adversá-
rios, assim também os atenienses,
sentindo-se padrasto dos outros
povos, desleixaram-se e degeneraram.
— Que fazer agora para restituir-se
da antiga virtude?
— Muito simples: readquiram os
costumes pretéritos e a eles se aferrem
como se aferravam seus antepassados,
e não lhes ficarão atrás. Senão, ao
menos acaudalem os povos capitães de
hoje, adotem-lhes as instituições e a
elas se apeguem e deixarão de ser-lhes
inferiores. Tenham mais emulação, e
logo lhes tomarão a dianteira.
— Quer dizer que durante muito
tempo ainda a República viverá tres-
malhada da virtude. Quando, a exem-
plo dos espartanos, saberão os atenien-
ses respeitar a velhice, eles que
começam por desprezar os próprios
pais? Quando se exercitarão como os
espartanos, eles que, não contentes de
descurar as próprias forças, metem à
bulha os que procuram desenvolvê-
las? Quando, corno os espartanos, aca-
tarão os magistrados, eles que se glo-
riam de menoscabá-los? Quando se
penetrarão do mesmo espírito de con-
córdia, eles que, às avessas de traba-
lhar pelo interesse comum, só curam
de prejudicar-se mutuamente e invejam
mais aos próprios concidadãos que aos
estrangeiros? Eles que, mais que nin-
14
15
20
MEMORÁVEIS-III [13
guém, se dividem nas reuniões particu-
lares como nos congressos públicos e
se processam uns aos outros mais que
em nenhuma outra parte, preferem ga-
nhar uns em detrimento dos. outros a
ajudar-se reciprocamente, tratam os
negócios do Estado como se lhes fos-
sem estranhos e os tornam motivo de
brigas, nas quais se empenham com o
maior ardor? Daí essa malignidade
que eivam a República. Daí essas
dissertações e esse Ódio entre os cida-
dãos. Flagelos que me fazem temer
não se embarranque um dia Atenas em
males que lhe faleceriam forças para
sobrelevar.
-—— Oh! não, Péricles — replicou
Sócrates — não suponhas os atenien-
ses possessos de perversidade incurá-
vel. Não vês a boa ordem reinante
entre os marinheiros, a obediência dos
mestres nos jogos gínicos e a mesma
submissão da parte dos coristas para
com os coregos?
— Verdadeiramente maravilhoso é
ver pessoas desse jaez obedecerem aos
que as dirigem, ao passo que os hopli-
tas e cavaleiros, que se diriam o escol
dos bons cidadãos, são os mais indisci-
plinados de todos.
— Mas, Péricles, não se compõe o
Areópago de homens escolhidos e de
comprovado mérito?
— Sem dúvida.
— Conheces tribunal mais digno,
integro, grave e equânime?
— Nada lhe acoimo.
— Então não é preciso desesperar
dos atenienses como infensos à disci-
plina.
— Mas é precisamente na guerra,
onde mais necessárias são a esperança,
ordem e submissão, que não mostram
nenhuma destas virtudes.
— Quem sabe — tornou Sócrates
— sejam comandados por indivíduos
incapazes. Não vês que sem o neces-
sário talento ninguém se propõe dirigir
os tocadores de cítara, cantores, dan-
çarinos, lutadores e pancratiastas!3?
Todos os que os dirigem poderão dizer
onde beberam os princípios de sua
arte, enquanto a mor parte dos gene-
rais se fazem da noite para o dia.
Longe de mim agermanar-te a eles. Ao
contrário, penso que tão: bem poderás
dizer quando te iniciaste na arte da
guerra como quando aprendeste a luta.
Demais estou convencido que conser-
vaste os princípios de estratégia que te
transmitiu teu pai e que, onde quer que
os houvesse, colheste os conheci-
mentos que um dia pudessem servir-te
à frente dos exércitos. Tampouco duvi-
do que para não ignorares nenhuma
das práticas úteis à guerra as meditas
fundamente e, se percebes faltar-te al-
guma coisa, buscas os que sabem e não
poupas presentes nem favores para
deles aprender o que desconheces e
granjear bons auxiliares.
— Compreendo muito bem, Sócra-
tes, que se assim me falas não é na
convicção de que eu não negligencie
nenhum desses cuidados. Procuras,
sim, ensinar-me que o homem que de-
seje comandar precisa atender a tudo
isso: estou de pleno acordo contigo.
— Já reparaste, Péricles, que para
as bandas da Beócia altas montanhas
se estendem ao comprido de nossas
fronteiras, as quais não deixam entrar
em nosso território senão por estreitos
e escarpados desfiladeiros, e que to-
chas inacessíveis resguardam o cora-
ção do país?
— Certamente.
— Não ouviste dizer que os mísios
e pisídios ocupam na Pérsia regiões de
todo ponto inacessíveis e que armados
à ligeira não só conservam a própria
liberdade como, em suas incursões,
'* Pancratiasta: o que pratica os combates gínicos
que compreendem a luta (pale) e o pugilato
(pygmé). (N. do E.)
22
23
26
27
114
causam enorme dano à nação do gran-
de rei?
— Ouvi.
— Não achas então que se a destra |
juventude ateniense se armasse tam-
bém à ligeira e se senhoreasse das
montanhas limítrofes de sua terra
poderia castigar nossos inimigos e
assegurar poderoso baluarte a nossos
concidadãos?
XENOFONTE
— Em verdade, Sócrates, seria
magnífico.
— Pois bem — rematou Sócrates
— já que te agradam tais planos, meu
caro, trabalha de levá-los a obra. O
que conseguires será glorioso para ti e
útil à pátria. Se falhares, não prejudi-
carás a República nem te envergonha-
rás.
28
1
ty
CarpíTuLO VI
Olhos fitos no governo do Estado,
Glauco, filho de Aristão, posto não
contasse ainda vinte anos, queria ser
orador popular. E embora arrancado
da tribuna, vaiado embora, nem paren-
tes nem amigos conseguiram dissuadi-
lo de semelhante loucura. Sócrates,
que em razão de sua amizade a Cármi-
des, filho de Glauco, e a Platão, lhe
queria bem, logrou só por só fazê-lo
renunciar a tais pretensões. Encontran-
do-o um dia e querendo fazer-se ouvir,
reteve-o e com ele entabulou conversa
da seguinte maneira:
— Glauco — disse-lhe — então
pretendes governar a cidade?
— É verdade, Sócrates.
— Por Júpiter ! é o mais belo proje-
to que se possa arquitetar. Se atingires
teu escopo, estarás em condições de
obter tudo o que desejares, servir teus
amigos, exalçar a casa de teus pais,
engrandecer tua pátria. Começarás por
criar nome em tua terra, depois em
toda a Grécia e quem sabe, como
Temistocles, até entre os bárbaros.
Enfim, aonde quer que fores, chamarás
os olhares sobre tua pessoa.
Ouvindo estas palavras, Glauco en-
tesava de orgulho e deixava-se ficar,
todo gozoso. Prosseguiu Sócrates:
— Não é evidente que se queres
honras deves servir a República?
-— Claro.
— Em nome dos deuses, nada me
escondas, dize-me qual o primeiro ser-
viço que esperas prestar-lhe.
Glauco guardava silêncio, procu-
rando por onde começar.
-—— Não te esforçarás de enriquecer
a cidade? — disse Sócrates — como
se se tratasse de enriquecer a casa de
um amigo?
— Sim.
— Excogitar maiores rendas não
será o meio de torná-la mais rica?
— Evidentemente.
— Diga-me, pois, de onde se reti-
ram hoje as rendas do Estado e qual o
seu montante. Certamente fizeste teus
estudos, a fim de suprir com os produ-
tos que escassearem e prover aos que
vierem a faltar.
— Por Júpiter ! — respondeu Glau-
co — nunca pensei nisso.
— De vez que não pensaste neste
ponto, dize-me, ao menos, quais são as
despesas da cidade: porque não resta
dúvida que tens intenção de abater as
supérfluas.
— Palavra! tãopouco pensei nisso.
-—— Pois bem, deixemos para depois
o projeto de enriquecer o Estado.
Como, com efeito, pensar em tal antes
de conhecer as despesas e as rendas?
— Mas Sócrates — disse Glauco
— também pode enriquecer-se a Repú-
blica com o despojo dos inimigos.
10
116 XENOFONTE
— Sim, sem duvida, se formos mais
fortes que eles. Se formos mais fracos,
nós é que seremos despojados. ..
— De fato.
*«— Quem desejar empreender uma
guerra precisa, pois, conhecer a força
de sua nação e a dos inimigos, a fim
de, se sua pátria for mais forte, poder
abrir as hostilidades, se mais fraca,
manter-se na defensiva.
— Tens razão.
— Dize-me, primeiro, quais são as
forças de nossa cidade em terra e mar,
depois as dos inimigos.
— Ora, assim de improviso não
posso responder-te !
— Se tens em casa algum escrito
sobre o assunto, esperarei com o maior
prazer.
— Não, nada tenho.
— Pois muito bem, espaçaremos
igualmente nossa primeira déliberação
acerca da guerra. A matéria é vasta, €
como só agora te inicias na adminis-
tração talvez inda não pudeste estudá-
la. Mas sei que já te ocupaste da defesa
do país. Sabes quais as guarnições
necessárias e quais as desnecessárias,
em que pontos os guardas são mais
numerosos, onde são insuficientes.
Aconselharás a que se reforcem as
guamições necessárias e se suprimam
as supérfluas.
— Por Júpiter! — disse Glauco —
sou de parecer que se suprimam logo
todas, pois guardam o país tão bem
que tudo roubam os inimigos.
— Mas não achas que suprimir as
guarnições seria entregar a nação à
mercê dos pilhantes? Demais, visitaste
pessoalmente as guarnições? Como
sabes que não cumprem seu dever?
-— Suponho-o.
— Então, quando tivermos algo
mais que suposições, aí deliberaremos
sobre o assunto.
— Talvez seja melhor.
-— Sei, Glauco — ajuntou Sócrates
— que não estivestes nas minas de
prata, de sorte que não podes dizer por
que produzem menos que outrora.
— Efetivamente inda não estive lá.
— Diz-se que o ar lá é malsão: aí
tens boa escusa para quando se vier a
deliberar a respeito.
— Estás mofando de mim, Sócra-
tes.
— Mas tenho certeza de que pelo
menos examinaste cuidadosamente
quanto tempo pode o trigo colhido no
' país alimentar a nação, quanto se con-
some mais cada ano, a fim de que ja-
mais te surpreenda a escassez e possas,
com tua previdência, preconizar as
medidas necessárias ao suprimento e
salvação da cidade.
— Falas-me — disse Glauco — de
tarefa para lá de árdua, se for preciso
ter olhos para tantas minudências.
— Sem embargo — retorquiu Só-
crates — nem a própria casa será
capaz de governar quem não lhe
conhecer todas as necessidades nem
souber satisfazê-las, visto contar a ci-
dade mais de dez mil casas e não ser
facil ocupar-se de tantas famílias ao
mesmo tempo, por que não ensaiaste
engrandecer primeiro uma apenas, a de
teu tio? Ela necessita-o. Se desses
conta da tarefa, então meterias ombros
a empresa de maior monta. Mas se não
sabes ser prestadio a um indivíduo
sequer, como poderias sei útil a todo
um povo? Não é manifesto que, se
alguém não tern forças para levantar
um talento, nem deve tentar carregar
mais de um?
— Ah! certo — exclamou Glauco
— bons serviços prestara eu à casa de
meu tio se quisesse dar-me ouvidos!
— Como! — replicou Sócrates —
não foste capaz de persuadir teu tio e
esperas fazer-te ouvir de todos os
atenienses, teu tio entre eles? Veja lá,
Glauco, que não vás, de olho na glória,
ver-te barba a barba, com coisa muito
e MEMORÁVEIS-III
diferente. Não vês como é perigoso
dizer ou fazer o que não se saiba?
Pensa em todos os homens de teu.
conhecimento que falam e procedem
sem saber: aquistam louvores ou cen-
suras? São admirados ou desprezados?
Olha, ao contrário, os homens que
sabem o que dizem, o que fazem, e
verás que em todas as circunstâncias
os que reúnem os sufrágios e atraem a
117
admiração são precisamente os que
sabem, enquanto opróbrio e desdém é
o quinhão dos ignorantes. Se amas a
glória e queres fazer-te admirar da pá-
tria, procura bem saber o que desejas
pôr por obra: que se te avantajares aos
outros e houveres as rédeas do Estado,
não me admira que muito facilmente
alcances o que ambicionas.
18
CarpíTuLO VII
Vendo que Cármides, filho de Glau-
co, homem de grande mérito e muito
superior a todos os políticos do tempo,
não ousava aparecer em público nem
ocupar-se dos negócios do Estado:
— Dize-me, Cármides — inda-
gou-lhe Sócrates —, que dirias de um
homem que, posto capaz de obter as
coroas nos jogos e assim adquirir terra
na Grécia, recusasse combater?
— Claro que seria um efeminado e
um covarde.
— E se um cidadão capaz, em se
dando aos negócios públicos, de en-
grandecer a pátria e cobrir-se de glória,
entretanto recusasse fazê-lo, não se
estaria no direito de chamar-lhe covar-
de?
— Talvez. Mas por que mo pergun-
tas?
— Porque me parece que, mal-
grado teu mérito, hesitas diante dos
negócios, e isso quando, em tua quali-
dade de cidadão, deles tens obrigação
de compartir.
— Quando, diabo, desencavaste em
mim esse mérito?
— Em tuas palestras com nossos
políticos. Se te comunicam um negó-
cio, vejo que lhes dás bons conselhos.
Se cometem erros, tu os repreendes
justamente.
— Uma coisa, Sócrates, é conver-
sar em particular, outra discutir em
público.
— Todavia, os que sabem calcular
calculam tão bem em público quanto
sozinhos, os que a sós tocam a citara
com perfeição, em público demons-
tram a mesma habilidade.
— Pois não. Mas não vês serem a
vergonha e a timidez inatas em certos
homens e se manifestarem muito mais
nos congressos tumultuosos que nas
reuniões privadas?
— Quero mostrar-te não serem os
mais sábios que te envergonham nem
os mais poderosos que te amedrontam,
mas que coras de falar perante os
menos esclarecidos e os mais fracos.
De feito, não é ante pisoeiros, sapatei-
ros, pedreiros, caldeireiros, agriculto-
res, negociantes, cambistas de praça
pública, pessoas que procuram reven-
der o que compraram a vil preço que te
sentes timido? Eis aí de que se compõe
o congresso do povo. Em que, pois,
acreditas diferir teu procedimento do
de um homem que, superior aos artis-
tas, tivesse medo dos ignorantes? Não
é verdade que, a despeito de tua facili-
dade em exprimir-te na presença dos
cidadãos mais ilustres, alguns dos
quais te desdenham, e tua superiori-
dade manifesta aos que se metem a
falar em público, hesitas em tomar a
palavra ante uma multidão que jamais
cuidou dos negócios e nenhum desdém
te vota, de medo que te ridiculizem?
— Mas não vês, Sócrates, que bas-
$
120 XENOFONTE
tas vezes se escarnesse nos congressos
“dos que falam bem?
— O mesmo fazem teus cidadãos
ilustres. E assombra-me que tu, que tão
bem sabes levá-los de vencida quando
tentam meter-te a ridículo, receies não
poder arrastar-te com a turba. Não te
ignores a ti mesmo, meu caro. Não
caias no erro em que cabeceia a maio-
ria dos humanos: quase todos têm os
olhos constantemente fitos no que
fazem os outros, sem nunca volvê-los
para o que fazem eles próprios. Defen-
de-te de semelhante indolência. Con-
centra todos os teus esforços sobre ti
mesmo e, se puderes ser-lhe útil, não
esqueças o Estado. Com a prosperi-
dade da coisa pública, imenso serviço
terás prestado não somente aos cida-
dãos em geral como a teus amigos e a
ti próprio.
!
CapíruLO VIII
Por Sócrates confundido, Aristipo
esgorjava por confundi-lo. Mas Sócra-
tes, desejando ser útil a seus ouvintes,
não respondia à luz de quem traz o
olho sobre o ombro e receia lhe refer-
tem as palavras, porém, como homem
convicto de que cumpre seus deveres.
Perguntou-lhe Aristipo se conhecia
algo bom, a fim de que, se Sócrates
dissesse o alimento, a bebida, a rique-
za, a saúde, a força, a coragem,
demonstrar-lhe que por vezes são
males. Considerando que antes de tudo
procuramos livrar-nos do que nos faz
padecer, deu-lhe Sócrates a melhor res-
posta possível: |
— Perguntas-me se conheço algu-
ma coisa boa para febre?
— Não.
— Para a oftalmia?
— Tampouco.
— Para a fome?
—. Muito menos.
— Se me perguntas se conheço algo
bom que não seja bom para nada, não
o conheço nem tenho necessidade de
conhecer.
Outra vez, inquirindo-lhe Aristipo
se conhecia alguma coisa bela:
— Sim, conheço muitas
belas — respondeu.
— Serão todas semelhantes?
— Tanto quanto possível, hã as que
diferem essencialmente.
coisas
— Como pode ser belo o que do
belo difere?
— Por Júpiter! como de um bom
lutador difere um bom corredor, como”
da beleza de um venábulo, feito para
voar com força e velocidade, difere a
beleza de um escudo, feito para a
defensiva.
— Tua resposta é exatamente a
mesma que quando te perguntei se
conhecias algo bom.
— Pensas que uma coisa é o bom,
outra o belo? Não sabes que tudo o
que por uma razão é belo, pela mesma
razão é bom? A virtude não é boa em
uma ocasião e bela em outra. Assim
também se diz dos homens serem bons
e belos pelos mesmos motivos: o que
no corpo humano constitui a beleza
aparente constitui também a bondade.
Enfim, tudo o que aos homens for útil
será belo e bom relativamente ao uso
que disso puder fazer-se.
— Como! então é belo um cesto de
lixo?
— Sim, por Júpiter ! e feio um escu-
do de ouro, já que um foi conveniente-
mente feito para seu uso e o outro não.
— Dizes, pois, poderem os mesmos
objetos ser belos e feios!
— Como não! E podem também
ser bons e maus: muitas vezes o que é
bom para a fome para a febre é mau, o
que para a febre é bom é mau para a
122 XENOFONTE
fome; o que é belo para a corrida não o
é para a luta, o que para a luta é belo
não o é para a corrida. Em suma, as
coisas são belas e boas para o uso a
que se destinam. Feias e más para usos
a que não convenham.
Da mesma forma, quando Sócrates
dizia que a beleza de um edifício con-
siste em sua utilidade, parecia-me ensi-
nar o melhor princípio de construção.
Eis como raciocinava:
— Quando se quer construir uma
casa — dizia — não se engenham
meios de fazê-la o mais agradável e cô-
moda possível? — Uma vez admitido
esse princípio: — Não é de desejar
seja fresca no verão e quente no inver-
“no? — Acordado este segundo ponto:
— Pois bem, quando as casas olham
para o meio-dia, o sol não penetra, no
inverno, sob as galerias exteriores, e
passando, no verão, por cima de nos-
sas cabeças e dos tetos, não nos deixa
na sombra? Portanto, para receberem
sol no inverno não hão mister mais
altos os tetos das galerias voltadas
para o meio-dia e mais baixos os dos
aposentos voltados para o setentrião, a
fim de ficarem menos expostos aos
ventos frios? Em uma palavra, o pré-
dio que em qualquer estação propor-
cionar o mais aprazível retiro e o depó-
sito mais seguro para O que se possua,
não pode deixar de ser o melhor e o
mais belo: pinturas e outros ornamen-
tos mais desprazem que aprazem.
Dizia ainda ser um sítio descoberto e
completamente insulado o melhor
local para os templos e altares. Que
grato, ao orar, é não ter a vista atran-
cada e aproxirnar-se dos altares sem
sujar-se.
CAPÍTULO IX
Perguntaram-lhe um dia se a cora-
gem é qualidade adquirida ou natural:
— Creio — disse — que assim
como há corpos que melhor que outros
resistem à fadiga, almas há de natureza
mais enérgica que outras em face das
“dificuldades: pois vejo homens cresci-
dos sob as mesmas leis e costumes
muito diferirem entre si pela coragem.
Sou de opinião, todavia, poder desen-
volver-se o valor natural pela instrução
e o exercício. Certo, não se afoitariam
os citas e trácios, com a lança e o escu-
do, a acometer os lacedemônios, nem
tentariam os lacedemônios, com o es-
cudo ligeiro e o venábulo, resistir aos
trácios ou, armados de flechas, fazer
cara aos citas. Observo que em tudo
naturalmente se diferenciam os ho-
mens uns dos outros, que em tudo pro-
gridem por via do exercício. Evidente,
pois, é deverem, assim os homens mais
maltratados que os melhores dotados
da natureza, quando em alguma coisa
quiserem exceler, tomar lições e exerci-
tar-se.
Segundo ele, a sabedoria impres-
cinde da temperança. Sábio e repor-
tado considerava aquele que, conhe-
cendo o bem e o belo, os pratica e,
conhecedor do mal, dele sabe guardar-
se. Perguntando-se-lhe se tinha na
conta de sábio e reportados os que
sabem o que deve fazer-se e, não obs-
tante, fazem o contrário: — Reputo-os
— respondeu — não menos despro-
vidos de sabedoria que de temperança.
Porque me parece que entre todos os
partidos possíveis não há homem que
não escolha o mais vantajoso. Nem sá-
bios nem prudentes, pois, acho os que
não se hão com direiteza.
Na sabedoria dizia cifrar-se a justi-
ça e todas as outras virtudes: que a um
tempo belas e boas são todas as ações
justas e virtuosas. Os que as conhecem
nada podem preferir-lhes. Os que não
as conhecem não somente não podem
praticá-las como, se o tentam, só
cometem erros. Assim praticam os sá-
bios atos belos e bons enquanto os que
não o são só podem descambar em fal-
tas. E se nada se faz justo, belo e bom
que não pela virtude, claro é que na
sabedoria se resumem a justiça e todas
as mais virtudes.
Reputava a loucura contrária à
sabedoria. Mas não considerava a
ignorância como loucura, dissesse em-
bora vizinhar a demência o não conhe-
cer-se a Si mesmo e acreditar se saiba o
que se ignore. Aditava não olhar a
multidão como insensatos os que se
equivocam em matérias inconhecidas
da maior parte dos homens, ao passo
que trata de doidos os que se enganam
em coisas de toda gente conhecidas.
Exemplo: Creia-se um homem assaz
124
grande para não poder passar sem
abaixar-se sob as portas de uma mura-
lha, assaz forte para querer carregar
casas ou empreender coisas cuja im-
possibilidade todos reconhecem, cha-
mam-lhe louco varrido. Se só comete
faltas ligeiras, não o trata de louco a
multidão. E como não se dá o nome de
amor senao a intensa afeição, assim
não se chama loucura senão a demên-
cia.
Examinando qual a natureza da
inveja, não a dizia esse sentimento
doloroso causado pelas desgraças de
nossos amigos ou pela prosperidade de
nossos inimigos, só apelidando invejo-
sos os que se afligem com a felicidade
dos amigos. Estranhando algumas pes-
soas que se pudesse ter amizade a
alguém e padecesse de sua felicidade,
observava-lhes muita gente existir in-
capaz de abandonar os amigos na des-
graça e que os socorre no infortúnio;
porém se aflige de sua prosperidade.
Acrescentava, todavia, que esse senti-
mento jamais encontra guarida no
coração do sábio, hóspede ordinário
que é dos espíritos néscios.
Refletindo sobre a ociosidade, dizia
ver a maioria dos homens sempre ocu-
pados em alguma coisa. Que, ao cabo
de contas, até os jogadores de dados e
os bufões se ocupam de algo. Tacha-
va-os, porém, de ociosos, pois pode-
riam fazer coisa melhor. Quando se faz
o melhor, não há lazer para o pior e
digno de censura é quem aquele deixa
por este, pois só o faz quem não tem o
que fazer.
Reis e chefes — diria — não são os
que carregam cetro, elegeu a multidão
ou favoreceu a sorte, nem os que pela
violência ou fraude usurparam o
poder, mas os que sabem mandar.
Posto seja o dever do chefe ordenar e o
do súdito, obedecer, dizia que, se tiver
num navio um homem experimentado
XENOFONTE
no comando, piloto e todos os outros
marinheiros lhe obedecerão. Que assim
é na agricultura para os que possuem
campos. Na doença, para os doentes.
Na ginástica, para os que exercitam o
corpo. Que, enfim, em tudo o que exige
indústria, se se sabe como haver-se,
muito bem, mãos à obra. Senão, recor-
re-se e obedece-se aos que sabem. Que
na arte de fiar as próprias mulheres
dirigem os homens, pois a conhecem, e
disso os homens nada entendem.
Se lhe objetavam ser um tirano se-
nhor de não seguir os bons avisos que
lhe dêem:
— Como! -— retorquia — se o cas-
tigo nunca falha? Que em faltas incor-
re quem a bom conselho faz ouvidos
moucos, e faltas querem punição.
Se lhe diziam estar nas mãos do tira-
no matar o conselheiro sábio:
— Pensais -— respondia — que em
dando morte a seus mais valiosos
esteios não seria punido e duramente
punido? Não vedes que, longe de tra-
zer-lhe segurança, tal procedimento só
faria apressar-lhe a própria ruína?
Perguntou-lhe alguém qual era, a
seu ver, a mais bela ocupação do
homem:
— Bem fazer — respondeu.
Ajuntou-se:
— Haverá processo para bem fazer
as coisas?
— Não — disse. — Acho que for-
tuna e ação são coisas opostas. Trope-'
çar com o fortúnio sem procurá-lo, eis
o que chamo ter sorte. Alcançar o
sucesso pelo próprio mérito e diligên-
cia, eis o que chamo haver-se às direi-
tas, e vitoriosos me parecem os que
assim procedem. Estimáveis e caros
aos deuses dizia os lavradores que bem
trabalham a terra, os médicos que bem
exercem a medicina, os homens de Es-
tado que bem dirigem a política. E inú-
teis aos homers e malqueridos dos
deuses os que nada fazem bem.
14
15
1
CAPÍTULO X
Útil era também seu trato aos artis-
tas que vivem do próprio trabalho.
Entrando certo dia em casa do pintor
Parrásio, com ele entreteve a seguinte
prática:
— Dize-me, Parrásio, não é a pin
tura ' representação dos objetos visi-
veis? Não imitais, com cores, os
entrantes e salientes, o claro e o escu-
ro, a dureza e a moleza, a rudeza e o
lustre, o vigor da idade e a decrepi-
tude?
— Assim é!
— Se quiserdes representar formas
de beleza perfeita, como não é fácil
encontrar homem isento de toda im-
perfeição, não reunireis vários modelos
e de cada um tomareis o que de mais
formoso possuir, compondo destart
um todo de perfeita beleza? :
— Éo que fazemos.
— E aquilo que mais atrai, enleva
e, seduz a expressão moral da alma,
não o imitais? Ou será inimitável?
— Como imitá-lo, Sócrates, se não
tem proporção nem cor nem nenhum
dos atributos que individuaste? Se, em
uma palavra, é invisivel?
— Quê! não se nota nos olhos ora
afeição, ora ódio?
-— Nota-se.
— Portanto, não há mister retratar
estas expressões dos olhos?
— Há!
— Será a mesma fisionomia de
quem se interessa e a de quem não se
interessa na felicidade ou desgraça dos
amigos?
-— Não, está claro. Na felicidade
dos amigos brilha a-alegria no olhar,
na desgraça mareia-o a tristeza.
— Quer dizer que podem represen-
tar-se também estes sentimentos?
— Certamente.
— Pela fisionomia e gestos dos
homens, parados ou em movimento, é
que se exteriorizam altaneria e inde-
pendência, humildade e baixeza, tem-
perança e razão, insolência e grosseria.
— Dizes verdade.
— Porque conseguiste não é preci-
so reproduzi-los?
— De acordo.
— E a quem achar agradável de
ver, o indivíduo cujo exterior espelha
sentimentos elevados, honestos, simpá-
ticos ou o que só deixa ver inclinações
nefandas, perversas e odiosas?
— Por Júpiter! Sócrates, nem há
compará-los.
Foi um dia à casa de Cliton, o esta-
tuário, e conversando com ele:
— Vejo e sei, Cliton — disse-lhe
— que modelas na pedra o atleta na
carreira, o lutador, o pugilista, o
pancratiasta. Mas o que mais encanta
os olhos, a chama da vida, como :a
transmites a tuas estátuas?
126 XENOFONTE
E como Clíton, embaraçado, hesi-
tasse em responder:
— Não é modelando tuas obras por
seres vivos — disse Sócrates — que
fazes tuas estátuas parecerem anima-
das?
— Exatamente.
— Já que as diferentes posturas nos
fazem elevar ou baixar certos múscu-
los do corpo, contraí-los ou distendê-
los, fazê-los tensos e lassos, não é
exprimindo tais efeitos que dás a tuas
obras mais verossimilitude e naturali-
dade?
— Precisamente.
— Não proporciona esta imitação
mesma da ação corporal certo prazer
aos espectadores?
— Assim penso.
-—— Não importa, pois, pintas a
ameaça nos olhos dos combatentes, a
alegria na visagem dos vencedores?
-—— Sem dúvida.
— Ao estatuário, portanto, cumpre
exprimir por formas todas as impres-
soes da alma.
Outra ocasião foi Sócrates à oficina
do armeiro Pistias, que lhe mostrou
couraças muito bem feitas.
— Por Juno! — exclamou — eis
um magnífico invento! Esta couraça
protege as partes que necessitam defe-
sa e não obsta ao movimento dos bra-
ços. Mas dize-me, Pistias, por que
motivo, não sendo tuas couraças nem
mais sólidas nem mais custosas a ti
que as dos outros fabricantes, as ven-
des muito mais caras?
— Porque, Sócrates, as minhas são
mais bem proporcionadas.
— Mas essa proporção será con-
forme a medida ou a balança que fazes
pagá-la mais caro? Porque penso não
poderes fazê-las todas absolutamente
iguais nem de todo ponto semelhantes,
se quiseres que assentem bem.
— Por Júpiter ! é com o tento nisso
que as faço. Do contrário não servi-
riam.
— Como fazes para que uma cou-
raça bem proporcionada assente a
corpo que não o seja?
— Trato de fazê-la assentar. Desde
que assente está bem proporcionada.
— Pareces-me — observou Sócra-
tes — não . entender o termo
“proporcionado” em senso absoluto,
mas relativo ao uso do objeto. Como
se dissesses que um escudo é bem
proporcionado desde que convenha a
quem dele se sirva. O mesmo poderias
dizer de uma clâmide ou de outro obje-
to qualquer. Mas talvez haja nesta
conformidade outra vantagem nada
desprezível.
— Ensina-ma então, Sócrates, se é
que sabes alguma.
— Entre duas armaduras . do
mesmo peso, a que -assentar fatigará
menos que a que não assentar. Esta,
seja por pesar exclusivamente sobre os
ombros, seja por comprimir fortemente
alguma outra parte do corpo, será
incômoda e dificil de carregar. A
outra, distribuindo o peso pelas clavi-
culas, espalda, peito, dorso e estôma-
go, não será, por assim dizer, um
fardo, mas parte do próprio corpo.
— Acabas de dizer justamente por
que vendo tão caras minhas obras. Sei,
contudo, muita gente haver que prefere
comprar couraças cinzeladas ou dou-
radas.
— Se compram couraças que não
lhes vão com o corpo, parece-me com-
prarem uma incomodidade cinzelada
ou dourada. Mas de vez que o corpo
não permanece sempre imóvel, ora se
inclina, ora se apruma, como poderão
assentar couraças demasiadamente
justas?
— Não é possivel.
-— Dizes, pois, que as couraças vão
bem não quando são justas, mas quan-
do não incomodam?
— É o que digo, Sócrates, e com-
preendeste-me muito bem.
o
CapíTULO XI
Havia nesse tempo, em Atenas, uma
mulher de rara formosura, chamada
Teódota, que não fazia cerimônias em
seguir quem quer que soubesse reques-
tá-la. Certo dia alguém falava dela.e
dizia não existirem palavras capazes
de exprimir a beleza dessa mulher, que
os pintores iam visitá-la a fim de
tomá-la por modelo e ela não fazia
mistério de seus encantos.
— Caramba! só vendo! — excla-
mou Sócrates. — Não será ouvindo
que se há de ter idéia do que não Epi:
me a palavra.
— Não percamos tempo:. acompa-
nha-me, — disse o narrador.
Dirigiram-se à casa de Teódota e,
encontrando-a com um pintor que lhe
estudava as formas, puseram-se a
observá-la. Quando o pintor terminou:
— Amigos meus — disse Sócrates
— " agradeceremos nós a Teódota o
haver-nos deixado admirar sua beleza,
ou deverá agradecer-nos ela o termo-la
contemplado? Se mais prazer teve ela
exibindo-se, agradeça-nos ela. Se mais
gozamos nós admirando-a, Artddeças
mos-lhe nós.
Tendo-lhe alguém dado razão:
— Convenho — disse — que dé
nós não ganha ela senão elogios. Mas
como os publicaremos à boca grande,
ser-lhe-ão utilíssimos. Quanto: a nós,
presas do desejo de: tocar o que
contemplamos, ir-nos-emos mordidos
no coração, tomados de arrependi-
mento. Depende, sermos nós escravos
e ela soberana.
— Por Júpiter! — disse Teódota
— se é assim, cumpre-me agradecer-
vos por vos ter oferecido o espetáculo.
A este ponto, vendo-a Sócrates
soberbamente paramentada e, perto,
sua mãe, vestida de maneira pouco
comum, depois um sem-conta de gra-
ciosas e ataviadas escravas, por fim
uma casa abundantemente provida de
todo o necessário:
—. Uma coisa, Teódota — disse-lhe
—, possuis terras? .
— Nenhuma.
— Então tens alguma casa que te.
forneça rendas?
— Também não.
— Possuirás escravos?
— Nenhum.
— De que diabo, então, vives?
— Do que me dão os amigos.
— Por Juno! cara Teódota, um
amigo é uma aquisição e tanto, e mais
-vale uma penca de amigos que um
rebanho de ovelhas, bois e cabras!
Mas largas-te à fortuna, esperando qué
OS amigos apareçam como as moscas,
ou empregas alguns artifícios?
— Como queres que empregue arti-
fício?
— Muito mais facilmente que as
128
aranhas. Sabes como elas caçam a
presa: tecem uma teia sutil e tudo o
que nela cai lhes serve de alimento.
— Aconselhas-me, pois, a também
tecer uma teia?
— Não penses que sem arte pos-
sam caçar-se amigos, a mais preciosa
das presas. Não vês quanta astúcia
empregam os caçadores para caçar as
lebres, presa muito menos prestante?
Como as lebres pastem de noite, aper-
cebem-se eles de cães que enxerguem
no escuro e póem-se na pista da caça.
De dia as lebres pôem sebo nas cane-
las, e então se munem eles de outros
cães que, ao se recolherem elas do
pasto para as tocas, as, farejam e
desemboscam. Tão boas pernas têm as
lebres, que mal as acompanha a vista:
arranjam-se cães, assaz ligeiros para
alcançã-las na carreira. Contudo algu-
mas há que escapam: armam-se laços
nas sendas por onde fogem para que
neles caiam e sejam colhidas.
— Mas qué meio usarei para caçar
amigos?
— Em vez de cão é preciso ter
alguém que rasteie os ricaços aprecia- |
dores da beleza e, uma vez encontra-
dos, engenhe meios de os atrair a teus
laços.
— Que laços tenho eu?
— Um único, é verdade, mas o
mais inextrincável de todos: teu corpo,
e nesse corpo uma alma que te inspira
o feitiço do olhar, a sedução da pala-
vra, te ensina a receber quem te reques-
ta, repélir quem te desdenha, visitar
solicita um amigo doente, felicitar com
calór quem bem se haja portado, reco-
nhecer de toda a alma as homenagens
que te rendem. Sei que um amante te
demonstra tanta ternura quanto bene-
volência. E se tens amantes ilustres,
menos não os encantam tuas ações que
tuas palavras.
— Juro-te — exclamou Teódota —
XENOFONTE
que não lanço mão de nenhum desses
meios.
— Entanto, não é indiferente saber
tratar cada um consoante seu caráter,
pois não é pela força que se careia ou
conserva um amigo: benevolência e
prazer são o visgo que apresa e retém
essa caça.
— Dizes a verdade.
— À uma, não peças aos que te
solicitam mais do que poderiam dar. A
outra, paga-os na mesma moeda.
Assim te amarão mais, permanecereis
unidos por mais tempo e far-te-ão
maiores larguezas. Para comprazê-los,
nada melhor que conceder-lhes apenas
o que desejam ardentemente. Vês que,
servidos a quem não tenha apetite, ne-
nhum sabor apresentam os mais deli-
cados manjares e inspiram desgosto a
convivas fartos enquanto deliciosos
sabem os alimentos mais simples a
quem tem fome.
— Como excitar o apetite dos que
me visitam?
— Nada mais lhes oferecendo
quando estiverem saciados, não os
chamando segunda vez ao repasto
antes que, termiriada a digestão, se
haja reacendido a necessidade. Depois,
reavivado o desejo, dando-lhes a énten-
der ser tua cativante familiaridade e
teu assentimento um favor todo volun-
tário e por vezes até fugindo-os para a
necessidade tocar o extremo. Muito
perdem os favores de preço quando
precedem o desejo.
— Pois bem, Sócrates — disse :
Teódota — por que não me auxilias a
caçar amigos?
— Por Júpiter! Com todo o prazer,
se a tanto me decidires.
— Decidir-te de que jeito?
— Busca-o tu mesma, e se-necessi-
tas de mim o encontrarás.
— Vem, pois, ver-me a miúdo.
— Não será fácil achar tempo —
respondeu Sócrates, zombando a pro-
13
15
MEMORÁVEIS-III 129
pósito de seus quefazeres — meus
numerosos negócios particulares e pú-
blicos não me deixam vagares. Depois,
tenho amantes que, graças aos filtros e
feitiços que lhes ensinei, não me permi-
tem deixá-las nem de dia nem de noite.
— Quê! Sócrates, sabes confec-
cionar filtros?
— Por que, pensas, Apolodoro e
Antístenes não me largam um instan-
te? Como julgas que Cebes e Símias
abalam de Tebas para ver-me? Fica
sabendo que isso não se consegue sem
filtros, encantamentos, “pastorinhas”.
-—— Empresta-me então uma “pas-
torinha” para conquistar-te.
— Essa é boa! Não quero ser
conquistado: prefiro conquistar-te.
— Então irei ter contigo, mas hás
de réceber-me.
— Receber-te-ia se não tivesses em
casa alguém a quem amo mais que a ti.
CapíTULO XII
Reparando que Epígenes, um de
seus jovens discípulos, era de má
compleição:
— Quão plebeu és de físico, Epíge-
nes ! — disse-lhe.
-— Sei, também não sou mais que
um plebeu ! — trocadilhou o outro.
— Não o são menos os que comba-
tem nos jogos olimpicos. Então não
será nada o combate cujo prêmio é a
vida, caso venham a propô-lo os
atenienses? Quantos os homens que,
por causa de má constituição fisica,
morrem nos campos de batalha, quan-
do não compram a vida ao preço da
desonra! Pelo mesmo motivo muitos
são feitos prisioneiros e passam o resto
de seus dias na mais dura escravidão.
Ou, pagando resgate superior a suas
fortunas, vêem-se reduzidos às mais
tristes necessidades e arrastam o resto
da existência na dor e na miséria. Ou-
tros enfim adquirem má reputação por
sua fraqueza física, passando por co-
vardes. Desdenhas destes castigos re-
servados à fraqueza? Serias capaz de
sofrê-los facilmente? Por mim acho
muito mais suaves as fadigas a que
deve submeter-se quem se propõe for-
talecer o corpo. Ou reputas a fraqueza
para todos os efeitos mais vantajosa
que a robustez? Entretanto as coisas
correm muito diferentes para os que
possuam bom ou mau físico. Saúde e
vigor é o galardão dos bem consti-
tuídos de corpo. Muitos por fortes, sal-
vam-se com honra dos azares da guer-
ra, sobrelevam todos os perigos,
socorrem os amigos, prestam serviços
à pátria e por esses feitos tornam-se
dignos de reconhecimento, ganham
fama, alcançam as primeiras honras e
passam o resto da vida ditosos e consi-
derados, herdando aos filhos preciosos
meios de existência. Não ordene o Es-
tado praticar publicamente os exerci-
cios militares, isso não é razão para os
descurarem os particulares, que a eles
não devem aplicar-se com menor assi-
duidade. Convence-te que, empenhes-
te no que te empenhares, faças o que
fizeres, nunca te arrependerás de haver
exercitado o corpo. Em todos os atos
tem o corpo sua utilidade; e no que
quer que o empreguemos, essencial: é
que seja bem constituído. Mais: até nas
funções em que o julgas de somenos
importância, quero dizer as da inteli-
gência, quem não sabe cometer o cére-
bro erros frequentes, em virtude da mã
constituição física? Falta de memória,
morosidade de espirito, preguiça, a
própria loucura, não raro, são conse-
quências de disposição viciosa dos ór-
gãos, a qual ataca a inteligência a
ponto de fazer-nos esquecer o que
sabemos. Ao contrário, são O corpo, o
7
132 XENOFONTE
homem está seguro de todos esses
males, e frutos de todo opostos, certo,
produzirá sua compleição vigorosa.
Que não fará um homem de bom senso
para evitar tamanhos males e alcançar
s tamanhos bens? Ademais, ignominioso
é envelhecer nessa indolência, sem
saber o quanto não se poderia acres-
centar à própria força e beleza. Ora,
isto só se consegue mediante o exerci-
cio, que tais presentes não nos caem do
céu.
CAPÍTULO XIII
Encolerizando-se alguém certo dia,
por haver saudado uma pessoa que
não lhe retribuiu o nun: dis-
se-lhe Sócrates:
— Simplesmente risível é não inco-
modar-te o encontro com um doente e
tanto te agastares de topar com um
grosseiro. -
Outro queixava-se de comer sem
vontade:
— Ensina Asmeno — disse- lhe —
bom remédio para isso.
— Qualé?
— Comer menos. Diz que com esta
abstinência ganham o PaRceo a bolsa
e a saúde.
Terceiro dizia só ter em casa, para
beber, água quente.
— Não precisarás RR quan-
do quiseres banhar-te — respondeu.
— É muito fria para o banho.
— Queixam-se teus criados de be-
bê-la ecom ela banhar-se?
— Não, por Júpiter ! nem me admi-
ra que o façam, com prazer.
— "Qual a água mais quente, a tua
ou a do templo de Esculápio?
— A de Esculápio.
— Qual a mais fria, a tua ou a do
templo de Anfiarau?
— A de Anfiarau.
— Vês, pois, seres mais dificil con-
tentar que os criados e os enfermos.
Um amo maltratara rudemente seu
servidor. Perguntou-lhe Sócrates a
razão:
— É o sujeito mais comilão e
madraço que já vi. Só quer saber de
dinheiro e de vadiar.
— Já examinaste quem merece
mais ser castigado, se tu, se teu
escravo?
Assombrando-se alguém de ter de
viajar a Olímpia:
— Por que — inquiriu Sócrates —
te assombra essa viagem? Não passas
quase o dia inteiro trançando de um
lado para outro em tua casa? Viajando
passearás, depois almoçarás. Passea-
rás outra vez, jantarás e repousarás.
Não sabes que somando-se os passeios
que deres em cinco ou seis dias facil-
mente irás de Atenas a Olímpia? E me-
lhor farás partindo um dia antes que
em deferindo a viagem. Que molesto é
ter-se de fazer jornadas muito longas e -
agradável levar um dia de vantagem
sobre os próprios planos. Antes apres-
sar a partida que depois ter de dar tra-
tos às canelas.
Outro dizia-se fatigado de longa
caminhada que acabara de fazer. Inda-
gou-lhe Sócrates se carregava algum
peso:
— Não é verdade, nada trazia além
do manto.
-—— Viajavas só ou acompanhado de
algum servidor?
6
134 XENOFONTE
— Tinha um servidor.
— Vinha ele de mãos abanando ou
trazia alguma coisa?
— Carregava minha roupa e o
resto da bagagem.
— FE como foi de viagem?
— Melhor que eu, suponho.
-—— Se tivesses de carregar o fardo
que carregava teu criado, como te:
arranjarias?
— Nem sei. Talvez não o pudesse.
— (Como! achas digno de homem
livre e exercitado na ginástica suportar
a fadiga menos que um escravo?
CapíTuLO XIV
Quando seus amigos iam cear em
sua casa e uns levavam pouco, outros
muito, Sócrates mandava o criado pôr
em comum o prato mais pequeno ou
reparti-lo fraternalmente entre os con-
vivas. Os que levavam mais teriam ver-
gonha de não servir-se do que era
posto em comum e em comum pór
também o próprio prato, sendo assim
constrangidos a fazê-lo. E como nada
tinham que lucrar mais que os que
levavam menos, deixaram de levar pra-
tos custosos.
Tendo notado que um dos convivas
não comia pão e só se servia de carne,
e encaminhando-se casualmente a con-
versa para a propriedade dos termos, a
que gênero de ações deve aplicar-se
cada epíteto:
— Poderíamos examinar, amigos
meus — propôs Sócrates — por que
sói chamarem-se certos homens de
carnívoros? Toda gente come carne
com pão, desde que a tenha. Mas pare-
ce-me não ser este o motivo por que se
chamam certas pessoas de carnívoras.
— Claro que não — disse um dos
comensais.
— E quem come carne sem pão,
não por necessidade, como os atletas,
mas por prazer, será carnívoro, sim ou
não?
— Quem mais havia de sê-lo?
— E quem com pouco pão come
muita carne? perguntou outro.
— Acho — opinou Sócrates —
que também deve chamar-se carnívoro.
E quando os outros pedirem aos deu-
ses abundância de frutos, ele deverá
pedir abundância de carne.
Enquanto assim falava Sócrates, o
Jovem, percebendo-se o alvo da con-
versação, começou a servir-se de pão,
mas sem deixar de atafulhar a boca de
carne. Advertindo-o, disse Sócrates:
— Atentai nesse jovem, vós que es-
tais perto dele; serve-se de pão para
comer carne ou de carne para comer
pão?
Notou, outra feita, que a cada boca-
do de pão um dos convivas debicava
diversos pratos.
—— Haverá — perguntou Sócrates
— cozinha mais dispendiosa e prejudi-
cial aos alimentos que a de homem que
coma não sei quantas iguarias e use
não sei quantos molhos ao mesmo
tempo? Misturando assim mais ali-
mentos do que fazem os cozinheiros,
não só gasta mais, como, encambu-
lhando ao reverso do uso, muitas subs-
tâncias que não se casam e razão têm
os cozinheiros de não mesclar, vai de
encontro à arte culinária. Não é ridi-
culo procurar os mais hábeis cozi-
nheiros e, não entendendo patavina do
ofício, pôr a perder o que fizeram?
Outra inconveniência acarretada pelo
7
136
vezo de comer muitas viandas juntas é
supor-se a gente na miséria quando
menor é o número de pratos e lamen-
tar-se o cardápio costumado. Ao con-
trário, estando-se habituado a um
único prato, faltando os outros não se
lastimará de só ter um.
Observava expressarem ós atenien-
XENOFONTE
ses o ato de comer por termo que signi-
fica “bem comer”, acrescentando que
o vocábulo “bem” junto a “comer” in-
dica que o alimento não deve ser
nocente ao corpo nem ao espírito, nem
de difícil obtenção. Em uma palavra,
por “bem comer”, entendia “viver com
moderação”.
CAPÍTULO I
Tão útil era Sócrates em todas as
ocasiões e de todas as maneiras, que
até as inteligências medíocres facil-
mente compreendiam nada haver mais
vantajoso que seu comércio e freguen-
tação. À sua ausência, bastava a sua
só lembrança para muito edificar seus
discípulos habituais e aqueles que inda
hoje o têm por mestre. Não instruía
menos pelos brincos que pelas lições
sérias. Dizia de cotio amar a todos,
mas bem era de ver que, longe de ater-
se à beleza do corpo, só se prendia às
almas virtuosas. Considerava índice de
natural bondoso a prontidão no apren-
der e reter, o amor de todas as ciências
que ensinam a bem administrar uma
casa ou uma cidade, em suma, a tirar
provento dos homens e das coisas.
Assim formado, dizia, o homem não só
é feliz, capaz de gerir sabiamente sua
casa, como felizes pode tornar outros
homens e cidades. Não tratava todos
do mesmo modo. Aos que, acreditan-
do-se favorecidos da natureza, despre-
zavam o estudo, ensinava que mais
ainda que os outros hão mister cultiva-
dos os caracteres aparentemente mais
felizes. Em abono do quê, dizia que os
potros mais generosos, vivazes e fogo-
sos dão as melhores cavalgaduras
quando domados desde novos, mas
que, se se descuida de amestrá-los, tor-
nam-se respingões e imprestáveis. Se-
melhantemente os cães da melhor raça,
infatigáveis e ardentes na perseguição
dos animais, se adestrados a preceito,
tornam-se os melhores caçadores,
porém, se mal ensinados, tornam-se
estúpidos, furiosos e obstinados. Da
mesma forma, se recebem educação
adequada e aprendem o que devem
fazer, os melhor dotados dos homens,
os mais bem temperados e enérgicos de
ânimo em tudo que empreendem, tor-
nam-se excelentes, utilíssimos e reali-
zam grandes coisas. Porém, se não
recebem educação nem instrução, tor-
nam-se malíssimos e perigosíssimos.
Incapazes de discernir o que devem
fazer, vezes muitas tentam empresas
criminosas e fazem-se altaneiros e vio-
lentos, recalcitrantes e bravios, cau-
sando assim os maiores males. Quanto
aos que, orgulhosos de suas riquezas,
nenhuma necessidade pensavam ter de
instrução e imaginavam bastar-lhes
serem ricos para realizar todos os seus
desígnios e fazer-se honrar dos ho-
mens, chamava-os à razão dizendo-
lhes ser estupidez acreditar que sem es-
tudo se possa distinguir o útil do
nocivo. Estupidez, quando não se
departe o útil do prejudicial, crer-se
capaz de alguma coisa útil por ter-se
dinheiro para comprar o que quiser.
Estupidez, quando nada sabemos
fazer, julgamos poder ser felizes e viver
honestamente. Estupidez, nada saben-
do, presumirmos que a riqueza nos
faça passar por sábios ou que, inúteis,
nos granjeie estima.
e gonero
CapíruLO TI
Contarei agora como Sócrates ata-
cava os que presumiam ter recebido
ótima educação e se vangloriavam de
sua sabença. Sabia haver o belo Euti-
demo reunido copiosa coleção de
obras dos mais afamados poetas e filó-
sofos e que só por isso se jactava de
campear em sabedoria aos de sua
idade, a todos esperando exceler em
eloguência e feitos. Sem embargo,
muito jovem ainda para ter mão no
congresso, quando se interessava em
alguma questão, sentava-se na tenda
de um freieiro, vizinha à praça. Para lá
se dirigiu Sócrates com alguns amigos.
Vai daí lhe perguntou um deles se era
ao comércio de algum sábio ou à natu-
reza só por só que devia Temístocles
tal superioridade a seus concidadãos,
que sempre que necessitava de um
homem de mérito para ele volvia os
olhos a República. Sócrates, que que-
ria picar Eutidemo, respondeu que
necedade é acreditar impossível tor-
nar-se hábil nas artes mais vulgares
sem as lições de bom mestre, e crer
brotar espontaneamente no espírito a
mais importante de todas as ciências, a
do governo.
Outra vez, advertindo Sócrates que,
rêéceoso de passar por admirador de
sua sabedoria, Eutidemo evitava sen-
tar-se perto dele, disse:
-— Quando tiver idade e propuser à
República alguma deliberação, certa-
mente Eutidemo não deixará de dar
sua opinião. E já que não quer parecer
nada ter aprendido de ninguém, decer-
to tem pronto algum magnífico exórdio
para seus discursos. Eis, sem dúvida,
como principiará: “Jamais, atenienses,
nada aprendi de ninguém. Jamais,
quando ouvi falar de homens elo-
quentes e versados nos negócios, lhes
procurei a sociedade. Jamais me dei ao
“trabalho de tomar professor entre os
cidadãos esclarecidos. Ao contrário,
tive sempre o maior cuidado em evitar
não só receber lições como parecer que
as recebia. Não obstante, dar-vos-ei o
conselho que me sugeriram as mos-
cas”. Exórdio desta laia conviria igual-
mente muito bem a quem desejasse
obter o emprego de médico público.
Começaria assim: “Ninguém, atenien-
ses, me ensinou a medicina. Nunca
procurei as lições de nenhum de nossos
médicos e não só mê guardei de com
eles aprender o que quer que fosse,
como ainda não quis parecer haver
estudado esta profissão. Não vacileis,
todavia, em confiar-me o emprego de
médico. Diligenciarei instruir-me fa-
zendo experimentos em vós”.
Todos os assistentes desandaram a
rir do exórdio. Então Eutidemo entrou
a prestar atenção às palavras de Sócra-
tes. Mas se abstinha de falar, ciente de
142 XENOFONTE
que seu silêncio passaria por modéstia.
Desejando curá-lo desta idéia, disse
Sócrates:
— É simplesmente de espantar que
os que desejam tocar citara ou flauta,
montar a cavalo ou adquirir outra
habilidade qualquer busquem a tanto
tornar-se aptos mediante contínuo
exercício, tomando por juízes não a si
próprios, mas os melhores mestres,
tudo façam e sofram que lhes impo-
nham estes, enquanto os que preten-
dem ser bons oradores e bons políticos
Julgam poder consegui-lo por si mes-
mos e de momento para outro, sem
preparação e sem exercício. No entan-
to, tal escopo parece muito-mais dificil
de atingir que o primeiro, tanto que
muitos a ele visam e pouquíssimos o
alcançam. Evidente é, portanto, reque-
rer a política muito maior aplicação
que qualquer outra carreira.
Tais eram de começo, as falas que
em presença de Eutidemo, simples
ouvinte, proferia Sócrates. Mas logo
que percebeu a boa disposição, e pra-
zer com que o escutava o jovem, foi
“sozinho à oficina do seleiro, sentando-
se Eutidemo a seu lado:
— Dize-me, Eutidemo — falou-lhe
Sócrates —, é certo, como ouço dizer,
haveres coligido grande cópia de obras
de homens famigerados pelo saber?
— Sim, Sócrates. E continuarei a
" colecioná-las até reunir o maior núme-
ro possível.
— Por Juno! Admiro-te por have-
res preferido ao ouro e à prata Os
tesouros da sabedoria. Indubitavel-
mente sabes que a prata e O ouro não
tornam os homens melhores, de passo
que milionários de virtude fazem as
sentenças dos sábios aqueles que as
possuam.
Eutidemo regozijava-se com tais
palavras, persuadido de que aos olhos
de Sócrates estava no vero caminho da
sabedoria. Advertindo-o sensível ao
elogio, prosseguiu Sócrates:
— Em que, pois, Eutidemo, preten-
des abalizar-te reunindo tantas obras?
Como Eutidemo guardasse silêncio,
à caça de resposta, sugeriu Sócrates:
— Não queres ser um grande médi-
co? Há muitas obras escritas por
médicos.
— Que esperança!
— Então queres ser arquiteto? A
arquitetura também exige instrução.
— Tampouco.
— Não desejas ser bom geômetra,
como Teodoro?
— Quê, geômetra o quê!
— Quererás ser astrólogo?
Tendo Eutidemo respondido que
não:
— Ah! Já sei, queres ser rapsodo?
Pois dizem teres todos os poemas de
Homero.
— Menos ainda. Não ignoro que os
rapsodos sabem os versos de memória,
mas nem por isso são menos idiotas.
— Não almejas, Eutidemo — con-
tinuou Sócrates —, essa ciência que
torna'os homens aptos a governar as
casas e o Estado, mandar, ser útil a si
mesmos e aos demais?
— Sim — respondeu Eutidemo —,
eis o mérito que ambiciono.
— Por Júpiter! — exclamou Só-
crates — visas à maior e mais emi-
nente das ciências. É a ciência dos reis,
e por isso se chama ciência real. Mas
examinaste se é possível, sem ser justo,
nela brilhar?
— Sim, e creio impossível, sem jus-
tiça, ser bom cidadão.
— Como buscar ser justo?
— Em questão de justiça, Sócrates,
penso que ninguém me leva as lampas.
— Terão os homens justos suas
funções, como os artesãos?
— Claro.
— Assim como os artesãos expõem
32
MEMORÁVEIS-IV
suas obras, não podem os justos dizer
quais são as suas?
— Como não! — disse Eutidemo.
— Que mais fácil que enumerar as coi-
sas justas? O mesmo poderia fazer
com as injustas: haverá coisa mais
comum?
Queres, pois, escrevamos aqui
um “J”? e ali um “P?? Em seguida colo-
caremos de baixo do “J” o que nos
parecer justo e o injusto de baixo do
RE figa
— Seo achas necessário...
Após escrever como dissera, prosse-
guiu Sócrates:
— Não existe, entre os homens a
mentira?
Sem dúvida.
De que lado a colocaremos?
Evidentemente do lado da injus-
E o embuste, também não exis-
Certamente.
De que lado colocá-lo?
Também do lado da injustiça.
E os maus tratos?
Igualmente.
A escravidão?
Sempre do lado da injustiça.
Mas então nada poremos do
lado da justiça, Eutidemo?
— Seriaestranho.
— Como! se um homem eleito
general escravizar uma cidade injusta e
inimiga, di-lo-emos injusto?
Não, por certo.
Então procederá justamente?
Sem dúvida.
E se enganar os inimigos na
guerra?
— Ainda será justiça.
— Se talar, pilhar os bens dos ini-
migos, não procederá ainda com justi-
ça?
— Seguramente. Mas pensei que
tuas palavras só se referissem aos
amigos.
143
— Então não cumpre colocar
igualmente do lado da justiça tudo o
que pusermos do outro lado?
— É o que me parece.
— Queres que, colocando todas
estas ações do lado que designas, esta-
beleçamos por princípio serem justas
contra inimigos, porém injustas contra
amigos, e que em relação a estes deve-
mos proceder com toda a direitura?
— Com todo o gosto — anuiu
Eutidemo.
— Pois bem — prosseguiu Sócra-
tes —, se, vendo suas tropas desanima-
das, anuncia-lhe falsamente um gene-
ral que lhes chegam auxílios e destarte
logra devolver-lhes a coragem, de que
lado colocaremos esta peta?
— Do lado da justiça, creio.
— E se necessitando uma criança
de remédio e não querendo tomá-lo,
seus pais a enganam, impingindo-lhe o
remédio de mistura com os alimentos,
e assim a restituem à saúde, onde colo-
caremos este logro?
— Do mesmo lado.
— Enfim, se vejo um amigo presa
do desespero e recear de que atente
contra a vida, tomo-lhe a espada e
todas as demais armas, de que lado
colocas semelhante ato?
— Por Júpiter ! do lado da justiça.
— Então dizes que devemos proce-
der com toda a retidão no que respeita
aos amigos?
— Não, e, se me for permitido, reti-
TO O que disse.
— Ânfes isso que perseverar no
erro. Mas, para não deixar este ponto
sem exame, dos homens cujas mentiras
prejudicam os amigos, qual o mais
injusto, o que engana voluntariamente
ou o que faz sem querer?
— Sócrates, já não tenho confiança
em minhas respostas. Tudo o que exa-
minamos parece-me agora inteira-
mente diverso do que o imaginava.
Todavia, seja-me permitido dizer que
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2!
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144
mais injusto que quem engana sem
querer é quem o faz de propósito.
-— Pensas haver uma ciência do
justo como a há da escritura?
— Sim.
— Quem, a teu ver, melhor conhece
as letras, o que escreve ou lê mal
voluntariamente ou o que assim proce-
da involuntariamente?
— O primeiro, pois, desde que o
queira poderá fazê-lo bem.
— Então, quem escreve mal volun-
tariamente sabe escrever, e quem o faz
involuntariamente não?
— Como poderia
forma?
— Quem, pois, conhece a justiça:
quem mente e engana por querer ou
quem o faz sem querer?
— O primeiro, evidentemente.
— Então dizes o que sabe escrever
mais letrado que o que não o sabe?
— Pois é.
— E o que conhece as regras da
Justiça mais justo que o que não as
conhece?
— Penso que sim, mas nem eu
mesmo já me entendo.
— Que dirias, Eutidemo, de alguém
que quisesse dizer verdade e contudo
jamais se explicasse da mesma forma
sobre as mesmas coisas? Que, falando
do mesmo caminho, ora dissesse que
leva ao Oriente, ora ao Ocidente?
Fazendo o mesmo cálculo, já obtivesse
mais, já obtivesse menos?
— Evidentemente não saberia .o
que presumia saber.
— Conheces pessoas a que se cha-
mam servis?
— Conheço.
— Será por causa de sua sabedoria
ou de sua ignorância?
— Claro que por causa de sua
ignorância.
— Chamá-las-ão assim por não
saberem trabalhar os metais?
— Não.
ser de outra
XENOFONTE
— Por não saberem construir?
— Também não.
— Então porque não sabem talhar
o couro?
— Não é por nada disso. Antes
pelo contrário, porquanto a maioria
dos que exercem! tais misteres são pes-
soas servis.
— Dá-se este nome, pois, aos que
ignoram o que seja o belo, o bom e o
justo?
— Assim creio.
— Então cuidado ! que não nos vão
chamar servis.
— Ah! pelos deuses, Sócrates, jul-
gava-me muito adiantado em filosofia
e no verdadeiro caminho da virtude.
Imagina qual não seja minha desilu-
são, depois de tanto trabalho, vendo-
me engasgar com perguntas sobre o
que mais importa saber e sem atinar
como fazer-me melhor !
— Dize-me, Eutidemo, já estiveste
em Delfos?
— Duas vezes, por Júpiter !
— Então leste a inscrição gravada
no templo: Conhece-te a ti mesmo?
— Li.
— Não deste importância ao con-
selho ou o aceitaste e diligenciaste
saber quem és?
— Por Júpiter! então não havia de
conhecer-me a mim mesmo?! Difícil
me fora aprender outra coisa, se a mim
próprio me ignorasse.
— Então pensas que conhecer-se a
si mesmo seja saber como se chama?
Assim como não crêem os compra-
dores de cavalos conhecer o animal
que desejam comprar antes de verifi-
carem se é dócil ou empacador, forte
ou fraco, ligeiro ou lerdo, enfim, todas
as boas ou más qualidades de uma
cavalgadura, não deve pesar-se a pró-.
pria capacidade para se saber quanto
se vale?
— Efetivamente, parece-me que
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MEMORÁVEIS-IV
não conhecer o próprio valor é igno-
rar-se a si mesmo.
— Não é evidente ser esse conheci-
mento de si mesmo fonte de infinidade
de bens, enquanto milhares de males
acarreta a visão zarolha das próprias
possibilidades? Os que se conhecem a
si mesmos sabem o que lhes é útil e
distinguem o que podem do que não
podem fazer. Realizando o que está em
seu poder, obtêm o necessário e vivem
felizes. Abstendo-se do que vai além de
suas forças não resvalam no erro e
esquivam o insucesso. Enfim, estando
em melhores condições de julgar os
homens, podem, empregando-os pro-
veitosamente, angariar grandes bens e
poupar grandes males. Ao contrário,
os que não se conhecem a si mesmos e
ignoram o próprio valor não julgam
melhor os homens que as coisas huma-
nas. Não sabem nem o que lhes cum-
pre fazer, nem como o fazem. À res-
peito de tudo iludidos, deixam escapar
a felicidade e esbarrondam-se na ruína.
Os que obram com conhecimento de
causa atingem o fim colimado e gran-
jeiam honra e consideração. Seus
iguais comprazem-se de sua sociedade.
Nos reveses procuram seus conselhos,
entregam-se-lhes nas maos, neles fun-
dam suas esperanças de bom êxito e
por tudo isso os estimam mais que a
ninguém. Já os que vivem às cegas
metem-se a fazer o que não deviam,
malogram em todos os empreendi-
mentos e, sobre castigados pelo mau
sucesso, tornam-se em objeto de des-
prezo e ridículo, vivendo escarnecidos
e desconsiderados. Podes ver igual-
mente que dentre as cidades que, igno-
rando as próprias forças, movem guer-
ras a Estados mais poderosos, umas
são destruídas, outras trocam a liber-
dade pela escravidão.
— Estou plenamente de acordo,
Sócrates — conveio Eutidemo — ser
da máxima importância o conhecer-se
145
a si próprio. Mas por onde começas o
exame? Serei todo ouvidos se quiseres
ensinar-mo.
— Sabes — perguntou Sócrates —
quais são os bens e quais são os
males?
— Ora essa! se não soubesse isso
estaria abaixo dos escravos.
— Pois bem, enumera-mos.
— Nada mais fácil. Primeiro, repu-
to a saúde um bem e a doença um mal.
Depois, considerando as causas desses
dois estados, creio as bebidas, os ali-
mentos € as ocupações — bens quando
trazem saúde, males quando trazem
doença.
— Em consequência, saúde e doen-
ça serão elas próprias bens se vierem
para bem, males se vierem para mal.
— Corno poderia a saúde vir para
male a doença para bem?
— Quantas não são as pessoas
robustas que, tomando parte em sua
expedição inglória, uma viagem funes-
ta, embarcam para a cidade dos pês
Juntos ao passo que as fracas voltam
sas e salvas?
— É verdade, mas os fortes fazem-
se úteis, enquanto os fracos ficam de
banda.
— Por outra, o que já é útil, já inú-
til, não será antes bem que mal?
Assim me parece, pelo menos de
acordo com este raciocínio. Mas não
resta dúvida ser a ciência um bem: em
que não se sairá o homem instruído
melhor que o ignorante?
— Como! não ouviste contar que
por causa de sua indústria Dédalo foi
aprisionado por Minos, coagido a ser-
vi-lo e privado ao mesmo tempo da pá-
tria e da liberdade? Que, tentando
fugir com o filho, perdeu-o e não con-
seguiu salvar-se, indo dar com os cos-
tados em plagas de bárbaros que de
novo o fizeram escravo?
— De fato é o que dizem.
— E Palamedes? Não ouviste falar
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Jó
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146
de suas desventuras? É voz geral que
Ulisses, invejoso de sua sabedoria, fê-
lo perecer.
— Assim dizem.
— E quantos outros homens, não é
verdade?, notáveis pelos talentos,
foram aprisionados pelo grande rei e
convertidos em escravos?
-—— Pelo menos, Sócrates, não pade-
ce a menor dúvida que a felicidade é
um bem.
— Sim, Eutidemo, a menos que a
façam consistir em bens equívocos.
— Que pode haver de equívoco no
que constitui a felicidade?
— Nada, contanto que não a po-
nham em beleza, força, riqueza, glória
e o mais que segue.
— Por Júpiter! se: é justamente
nisso que a ciframos! Como ser feliz
sem esses bens?
— Confundis a felicidade com van-
tagens não raro funestas. Quantos, por
belos, não são corrompidos por infa-
mes sedutores da juventude! Quantos,
por fortes, não empreendem coisas
sobre-humanas e se tornam infelicis-
simos! Quantos, vítimas da riqueza
que os amolenta e expõe a ciladas onde
encontram a ruína! Quantos, enfim,
não alcançam a glória e o poder senão
para padecer de forma atroz !
—— Se me enganei louvando a felici-
dade, confesso já não saber o que pedir
aos deuses.
— Talvez não refletiste nestas coi-
sas por te Julgares cansado de sabê-las.
Mas já que pretendes governar um Es-
tado democrático, decerto sabes o que
seja democracia.
— Sem dúvida.
— Achas possível conhecer a de-
mocracia sem conhecer o povo?
— Não, por Júpiter !
— Que chamas o povo?
XENOFONTE.
-— Os cidadãos pobres.
-—— Sabes, então, quais são os cida-
dãos pobres?
— Como não havia de sabê-lo?
— Sabes também quais são os
ricos?
— Tão bem quanto os pobres.
— À quem chamas pobres e a
quem chamas ricos?
— Pobres chamo os que não têm
com que pagar os impostos, ricos os
que possuem mais do com que pagar
Os impostos.
— Jã notaste que, embora com
pouco, indivíduos há que possuem o
bastante e 'atê fazem economias, ao
passo que outros, com muito, sequer
têm o necessário?
— Sim, e foi bom mo recordares,
sei de soberanos a quem, como aos
mais pobres cidadãos, a necessidade
obriga a cometer injustiças.
— Se é assim, não fazemos bem em
arrolar os soberanos entre o povo e
colocar na classe dos ricos os que têm
pouco mas sabem economizar?
— Minha ignorância obriga-me a
convir, e acho melhor calar-me. Do
contrário correrei o risco de não saber
absolutamente nada! Com isso Euti-
demo retirou-se todo -acabrunhado,
cheio de desprezo de si próprio e já
não se considerando senão como um
escravo.
A maioria dos que Sócrates metia à
bulha fugiam-no, e com isso só lhe
pareciam mais insensatos. Porém Euti-
demo sentiu: que, se quisesse ser gente,
imprescindia do trato de Sócrates. Pas-
sou a frequentá-lo assiduamente e até
imitar-lhe certos hábitos. Sócrates,
vendo-o com tais disposições, cessou
de atormentá-lo e ministrou-lhe as
noções mais simples e claras das coi-
sas que julgava riecessário saber e hon-
rOso praticar.
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“40
CAapíTULO III
Não se apressava em fazer seus
discípulos' hábeis no falar, haver-se e
excogitar-se expedientes. Antes de tudo
cria necessário tangê-los à trilha da
sabedoria. Sem a sabedoria — dizia
— os que possuem esses talentos só
podem ser mais injustos, mais podero-
sos para o mal. Em primeiro lugar pro-
curava incutir-lhes idéias sábias no
concernente aos deuses. Outros já nar-
raram as conversações que em sua pre-
sença teve a esse respeito.
Por mim assisti à palestra seguinte
que entreteve com Eutidemo:
-— Dize-me, Eutidemo, já refletiste
com que carinho nos proporcionam os
deuses o de que necessitamos?
— Não, confesso-te.
— Mas pelo menos sabes que antes
de mais nada necessitamos da luz que
nos fornecem?
— Por júpiter! Não a tivéssemos e
seríamos como os cegos.
— Necessitamos, outrossim, de re-
pouso, e os deuses dão-nos a noite, o
mais doce dos lazeres.
— Também é presente digno de
reconhecimento.
— Graças à luz do Sol, distin-
guimos as horas e os objetos. A noite,
com sua obscuridade, tiranos a visão
-das coisas: mas não é que acenderam
os deuses em meio às trevas esses as-
tros que nos dizem as horas da noite,
permitindo-nos assim atendermos a
certos quefazeres?
— E verdade.
— Acresce que a Lua não indica
somente as partes da noite, mas tam-
bém as do mês.
-— De fato. é
— Como temos precisão de alimen-
tos, dão-nos frutos da terra. Para isto
criaram as estações próprias que nos
fornecem com abundância e variedade
.não só o necessário como ainda Oo
agradável.
— Efetivamente é muita bondade
da parte deles.
— Não nos deram a àgua, esse ele-
mento precioso que ajuda a terra e as
estações a fazerem nascer tudo o que
nos é necessário ou útil, contribui para
“sustentar-nos e, misturada a todos os
nossos alimentos, os torna mais fáceis
de preparar, mais salutares e agradá-
veis? e como a necessitamos em abun-
dância, não no-la concedem com pro-
fusão?
— Outra prova de sua providência.
— Não nos deram o fogo, que nos
preserva de frio, alumia na obscuri-
dade, coadjuva em todas as artes e tra-
balhos cujo fim é o nosso bem-estar?
Para tudo dizer em uma palavra, sem o
fogo nada fariam os: homens de belo
nem de útil.
10
148
— Novo testemunho de sua infinita
bondade.
— E o ar espalhado em torno de
nós com profusão sem limites, o ar que
não somente nos entretém e medra a
vida como nos auxilia a vencer os
mares para ir buscar mil produtos
diversos em mil regiões diferentes, não
é um bem inestimável?
— Certamente.
— E o Sol! Ganho o solstício de
inverno, arrepia caminho, amadure-
cendo certos produtos, dessecando ou-
tros já sazonados. Depois deste duplo
benefício, em vez de aproximar-se
demasiadamente, volta por detrás a
fim de não prejudicar-nos com exces-
sivo calor. De novo atingindo um
ponto além do qual nos mataria de
frio, retorna para nós, avizinha-se-nos
e volta à região do céu onde mais nos
pode benfazer.
— Por Júpiter! parece que todas
essas maravilhas foram feitas especial-
mente para o homem.
— Demais, já que não poderíamos
suportar o calor nem o frio, se viessem
inopinadamente, não se aproxima O
Sol manso e manso e a pouco e pouco
se afasta, de sorte que insensivelmente
passamos de um extremo a outro de
temperatura?
— Estou a perguntar a meus botões
— disse Eutidemo — se velar pelo
homem não seria a única ocupação
dos deuses. Mas uma coisa me atrapa-
lha — quinhoarem todos os animais
de seus favores.
— Ora essa! — retrucou Sócrates
— não é manifesto que até esses ani-
mais nascem e são alimentados para o
homem? Que outro animal tira tão
grande proveito das cabras, ovelhas,
cavalos, bois, asnos, etc., como o
homem? Antolham-se-me até mais
úteis que os vegetais. Não nos alimen-
tamos e enriquecemos menos de uns
que outros. Muitas raças humanas hã
XENOFONTE
que não se alimentam dos produtos da
terra, mas do leite, queijo, carne que
lhes fornecem os rebanhos. Todas
domesticam, domam os animais úteis e
neles encontram auxiliares para a guer-
ra e muitos trabalhos.
— Convenho contigo, pois vejo que
até os animais muito mais fortes que
nós se nos submetem ao império e se
prestam ao que deles exigimos.
— Outrossim, como infinita é a
variedade de formas que assumem o
belo e o útil, não nos deram os deuses
sentidos apropriados às diferentes per-
cepções, mediante os quais fruímos
todos os deleites? Não nos outorgaram
a inteligência, que com o raciocinio e a
memória nos permite apreciar as sen-
sações, julgar da utilidade de cada
objeto, inventar mil coisas, já para
maior bem-estar nosso, já para nos
preservarmos dos males? Não nos con-
cederam o dom da palavra por meio da
qual trocamos benefícios instruindo-
nos comum e reciprocamente, estabele-
cemos leis, fundamos Estados?
— Não há dúvida, Sócrates, que os
deuses olham por nós com o maior
desvelo.
— E quando não podemos prever o
que nos será útil no porvir, ainda aqui
não vêm em nossa ajuda, não revelam
pela adivinhação os que os consultam
o que sucederá de futuro e lhes ensi-
nam como proceder?
-— Quer parecer-me, Sócrates, que
te foram mais generosos que ao resto
dos mortais, se é verdade que sem os
interrogares te indicam de antemão o
que deves ou não fazer.
— Reconhecerás tu também a ver-
dade de minhas palavras, se não espe-
rares que os deuses se te apresentem
sob forma real, contentando-te em ver
suas obras para vrar-lhes e honrá-los.
Pensa bem: é assim que os deuses se
manifestam. As deidades menores, de
quem recebemos as graças, não se nos
|
|
Et pa ant E SCSI SS SAE 1 2 PP NS
MEMORÁVEIS-IV
deparam aos olhos para semear seus
benefícios. E aquele que dispõe e impe-
ra no universo — congregação de
todas as bondades e bens — aquele
que, por amor nosso, o mantém em
eterna pujança e juventude eterna, o
submete a obediência infalível e mais
pronta que o pensamento, este deus se
manifesta no cumprimento de suas
obras mais sublimes, mas tudo o mais
rege invisível. Vê como o Sol, que
todos os olhos ilumina, não permite
aos homens o fitá-lo: a quem se põe a
olhá-lo de fito, rouba-lhe a vista. Invi-
síveis são também os ministros dos
deuses. O raio vem do alto, certo, e ful-
mina tudo o que encontra: porém não
há vê-lo, nem quando cai, nem quando
fere, nem quando desaparece. Invisi-
veis são os ventos, porém lhes vemos
os efeitos, lhes sentimos a presença.
Enfim, mais que tudo o humano, parti-
cipa da divindade a alma humana.
Reina em nós, é incontestável, mas não
a vemos. Refletindo em tudo isso, não
se devem desprezar as forças invisí-
veis, mas, por seus efeitos, reconhecer-
lhes o poder e honrar a deidade.
— Jamais, Sócrates — respondeu
149
Eutidemo — me permitirei o menor
descaso para com ela, estou certo.
Aflige-me, contudo, pensar que nunca
homem nenhum poderá agradecer-lhe
suficientemente tantos benefícios.
— Não seja por isso, Eutidemo.
Sabes responder o deus de Delfos a
quem lhe pergunta o meio de ser grato
aos deuses: “Segue a lei de teu país”.
Ora, em toda parte ordenam as leis que
cada um honre os deuses consoante
suas posses. Haverá culto mais subli-
me e piedoso que o que prescreve a
própria divindade? Mas é preciso nada
omitir do que se possa fazer. Do
contrário, seria manifesto pouco caso.
Importa, pois, tudo fazer por preitear
os deuses, segundo suas posses, ter
neles confiança e deles esperar as
maiores mercês. Loucura, com efeito,
seria esperar mais de outro qualquer
que daqueles que mais podem servir-
nos. E como esperar ser atendido
senão buscando comprazer-lhes? E
como melhor comprazer-lhes que obe-
decendo-os sem reserva? Com tais
conselhos, tanto quanto pelo exemplo,
fazia Sócrates mais pios e mais sábios
os que com ele se versavam.
18
CapíTULO IV
Quanto. à justiça, longe de rebuçar
sua opinião, patenteava-a por atos: no
particular de sua casa era todo equi-
dade e benevolência; como. cidadão,
todo obediência aos magistrados em
tudo o que manda a lei, quer na cidade,
quer nos exércitos, onde o abalizava
seu espírito de disciplina. Presidindo,
na qualidade de epistata, aos congres-
sos populares, impediu o povo de votar
contra as leis e, nelas arrimado, resis-
tiu à fúria do populacho que nenhum
outro teria coragem de enfrentar.
Quando os Trinta lhe davam ordens
avessas às leis, não as acatava. Assim,
quando lhe proibiram o palestrar com
OS Jovens e o encarregaram, junta-
mente com outros cidadãos, de condu-
zir um homem que intentavam assassi-
nar, só ele se recusou de obedecer,
porque tais ordens eram ilegais. Cha-
mado por Meleto perante os tribunais,
longe de seguir o costume dos acusa-
dos, que, malgrado o proibirem as leis,
tomam da palavra para ganhar o favor
dos juízes, adulá-los e dirigir-lhes sú-
plicas, e assim muitas vezes se fazem
absolver, não quis de tal guisa infringir
as leis: posto facílimo lhe fora lograr a
absolvição, preferiu morrer dentro da
lei a transgredi-la para viver. Foi o que
mais de uma vez disse a muita gente, e
acordo-me da conversa que sobre a
Justiça teve com Hiípias de Eléia.
Regresso a Atenas após longa au-
sência, Hípias encontrou Sócrates pa-
lestrando com alguns discípulos. Ex-
primia Sócrates sua admiração de ver
que, sé se deseja fazer de alguém sapa-
teiro, mação, ferreiro, estribeiro, é só
enviá-lo a um bom mestre; diz-se atê
que em qualquer parte se encontram
individuos habilitados para domar ca-
valos e bois; mas se alguém quer
aprender a. justiça ou fazê-la aprender
a um filho ou criado, não sabe onde
desencavar quem lha ensine. Hípias,
que escutava, disse-lhe escarninho:
— Corno é isso, Sócrates, estás a
repetir o que te ouvi dizer há tanto
tempo?
— Sim — retorquiu Sócrates — e.
o mais estranho, Hípias, é que, não
contente de repetir as mesmas pala-
vras, repito-as sobre os mesmos assun-
tos. Ao passo que tu, sabichão como
és, talvez nem sempre digas as mesmas
palavras sobre as mesmas coisas.
— Claro, procuro dizer sempre coi-
sas novas.
— Quer dizer que se te interrogam
a respeito de algo que saiba, sobre as
letras, por exemplo, e te perguntam
quantas tem o nome “Sócrates” e quais
são, procuras responder, ora de uma
maneira, ora de outra? Se, a propósito
de aritmética, te perguntam se duas
152
vezes cinco são dez, não respondes
hoje como respondeste outrora?
— Nessas questões, Sócrates, faço
como tu, respondo sempre o mesmo.
Porém, sobre a justiça creio poder
dizer neste momento coisas a que nem
tu nem ninguém nada podereis objetar.
— Por Juno! falas de grande des-
coberta. Só assim os juízes cessarão de
dividir seus sufrágios, os cidadãos de
contestar por amor de seus direitos, de
processar-se uns aos outros, de promo-
ver sedições: as próprias nações já não
terão querelas a propósito de seus
direitos nem se guerrearão. Não, não te
deixarei enquanto não me desembu-
chares tão admirável intento.
— Por Júpiter! nada saberás antes
de me dizeres o que pensas tu próprio
da justiça. Há muito que zombas dos
outros, interrogando e refutando sem-
pre, sem jamais querer prestar contas a
ninguém nem sobre nada expor tua
opinião.
-— Como! Hípias, não vês que não
cesso de mostrar o que periso ser o
justo?
— Mas afinal como defines a justi-
ça?
— Se não por palavras defino-a por
atos. E não achas a ação mais convin-
cente que a palavra?
— Muito mais, por Júpiter! Muita
gente diz coisas justas e comete injusti-
ças, ao passo que, arrimado na justiça,
não há possibilidade de ser injusto.
— Pois bem: já ouviste dizer que eu
haja prestado falso testemunho, calu-
niado, semeado cizânia entre amigos
ou concidadãos ou cometido outra
injustiça qualquer?
— Não, nunca.
— Não achas que abster-se da
injustiça é ser justo?
-— Pareces-me, Sócrates, evitar
dizer o que opinas da justiça. Pois não
do que fazem os justos mas do que
não fazem é que te ouço falar.
XENOFONTE
— Pois olha, supunha que não que-
rer ser injusto fosse prova suficiente de
justiça. Se não és do mesmo parecer,
vê se isto te satisfaz: digo que justo é o
que é legal.
— Queres dizer, Sócrates, que legal
e justo sejam uma só e mesma coisa?
— Sim.
— Então não sei o que entendes
por legal e justo.
Conheces as leis do Estado?
— Conheço-as.
Que são elas?
O que de comum acordo decre-
tam os cidadãos estatuindo o que deve
e o que não deve fazer-se.
— Portanto, legal é o que se con-
forma com esses regulamentos políti-
cos, ilegal o que os transgride.
— Muito bem.
— Ser justo é obedecer-lhes, injusto
desobedecer-lhes.
— Sem dúvida.
— Consequentemente, justo não é
quem procede justamente, injusto
quem procede injustamente?
— Poderia ser de outra forma?
— Logo, justo é quem vive dentro
da lei, injusto quem da lei aberra.
— Mas como, Sócrates, emprestar
valor ou crer que se deva obedecer às
leis, quando muitas vezes aqueles mes-
mos que as elaboraram as condenam e
derrogam?
— A miúdo também as cidades en-
tram em guerra e depois firmam a paz.
— É verdade.
— Censurar os que obedecem as
leis porque podem ser revogadas não é
o mesmo que condenar os soldados
que bem se portam na guerra porque
pode concluir-se a paz? Desgabas os
cidadãos que, nas guerras, defendem
corajosamente a pátria?
— Não, por Júpiter!
—— Não achas que se não houvesse
inspirado a Esparta o mais fundo res-
peito às leis, não a teria o lacedemônio
f
|
12
MEMORÁVEISIV 153
Licurgo tornado diferente das outras
cidades? Não sabes que dentre os
magistrados de uma cidade, em todos
os termos melhores são aqueles que
mais inspiram aos cidadãos a obe-
diência às leis? Que o Estado onde os
cidadãos são mais subrnissos às leis é
também o mais venturoso na paz e
invencível na guerra? A concórdia é
para as cidades o maior dos bens.
Diariamente a recomendam aos cida-
dãos os senadores e homens mais emi-
nentes da República. Lei existe em
toda a Grécia que manda os cidadãos
Jurarem viver em harmonia, e em toda
parte prestam este juramento. Não
creio que tal se faça para que os cida-
dãos comunguem no mesmo juízo
sobre os-coros, aplaudam os mesmos
tocadores de flauta, elejam os mesmos
poetas, tenham os mesmos gostos, mas
sim para que obedeçam às leis: que
enquanto se lhes mantiverem fiéis as
cidades serão poderosíssimas e felicis-
simas. Sem concórdia não há cidade
bem governada nem casa bem admi-
nistrada. Na vida privada, qual o meio
mais seguro de não incorrer castigos
públicos, qual o caminho mais curto
para as honras do que a obediência às
leis? Qual o meio mais certo de não ser
vencido nos tribunais e ganhar os pro-
cessos? A quem se confiará com mais
gosto fortuna, filhos, filhas? Quem a
todos preferirã a confiança do próprio
Estado, senão aquele que respeita as
leis? De quem esperarão mais equi-
dade nossos pais, parentes, servidores,
amigos, concidadãos e os estrangei-
ros? Com quem preferirão os inimigos
negociar uma suspensão de armas,
uma trégua, condições de paz? Quem
granjearã mais aliados? A quem man-
darão com mais gosto esses mesmos
aliados seus oficiais e suas tropas? De
quem esperaráã um benfeitor mais grati-
dão do que daquele que respeita as
leis? A quem obsequiaremos de melhor
grado que aquele que, estamos certos,
saberá agradecer-nos? De quem mais
amaríamos ser amigo e menos ser ini-
migo? Qual o homem a que mais teme-
riamos atacar que aquele de que mais
amariamos ser amigo e menos ser ini-
migo, cuja amizade fosse de todos
requestada e cujo ódio e inimizade nin-
guém quisesse incorrer? Eis-te prova-
do, Hípias, ser o legal e o justo uma
única e mesma coisa. Se não estás de
acordo, dize-mo.
— Por Júpiter! Sócrates, como po-
deria eu discrepar do que acabas de
dizer da justiça?
— Conheces,
critas?
— Sim, aquelas que em toda parte
vogam e têm o mesmo objeto.
— Di-las-ás estabelecidas pelos ho-
mens?
— Como, se nem todos os povos
vizinham nem falam a mesma língua?
— Quem imaginas, então, formu-
lou tais leis?
— Acho que foram os deuses que
as inspiraram aos homens. Porque
entre todos os povos a primeira lei é
respeitar os deuses.
—. O respeito aos pais não é tam-
bém lei universal?
— Sem dúvida.
— Não proíbem as mesmas leis a
promiscuidade de pais com filhos e se
filhos com. pais?
— Quanto a essa lei, Sócrates, es
a creso emanada de um deus.
— Por quê?
— Porque povos há que a transgri-
dem.
— Transgridem-se muitas outras.
Mas os que violam as leis estabele-
cidas pelos deuses são fatalmente puni-
dos, enquanto os que pisam aos pés as
leis humanas às vezes esquivam a
pena, seja foragindo-se, seja usando de
violência.
— Qual,
Hiípias, leis não-es-
pois, o castigo que não
154
podem iludir os pais que vivem de
promiscuidade com os filhos, os filhos
que vivem com os pais?
— O maior de todos, por Júpiter!
Pois que haverá mais triste que dar ao
mundo filhos doentes?
— Por que serão seus filhos doen-
tes? Nada impede, se forem sadios, que
os filhos também o sejam.
— É que não basta o par gerador
ser são, é preciso estar no vigor da
idade. Pensas que o licor prolífico seja
o mesmo nos que se acham na força da
idade e nos que ainda não atingiram ou
já passaram a mocidade?
— Está visto que não pode ser o
mesmo.
— Qual, pois, a idade mais propí-
cia?
— Evidentemente a do pleno vigor.
-— Não estarão em condição desfa-
. vorâvel, pois, os que não se acharem
nessa idade?
— Claro..
— E não será bom que não cogitem
de procriar?
— Certamente.
— Se o fizerem, não irão de encon-
tro à natureza?
— Assim penso.
— A que chamaremos filhos doen-
tes, pois, senão aos frutos dessas
uniões defesas?
XENOFONTE
— Ainda aqui estou de acordo
contigo.
— Dize-me, em toda parte não quer
a lei que se testemunhe reconheci-
mento aos benfeitores?
— Sim, porém a transgridem.
— Os que a transgridem não são
punidos, abandonados que se vêem de
bons amigos e obrigados a recorrer a
quem os detesta? Pois não são bons
amigos os que beneficiam quem os
procura? Se não se retribuem os servi-
ços que deles se receberam, esta ingra-
tidão não provoca seu ódio? E não faz
o grande interesse que se tem de
frequentá-los que se cesse de persegui-
los?
— Por Júpiter! Sócrates, tudo isso
me parece vir dos deuses. Obra de
legislador superior aos homens se me
afiguram estas leis que trazem consigo
a punição dos que as infringem.
— Crês, pois, Hípias, que os deuses
estatuem leis justas ou que possam
instituí-las contrárias à justiça?
— Não estabelecessem os deuses
leis justas e ninguém as estabeleceria.
— Logo, Hípias, os próprios deuses
querem que o justo seja o mesmo que o
legal.
Assim é que, por palavras e atos,
fazia Sócrates mais justos aqueles que
o tratavam. É
24
CAPÍTULO V
Direi agora como Sócrates induzia
seus discípulos à prática do bem. Per-
suadido de que quem deseje fazer o
bem imprescinde da temperança, sobre
fazê-la assunto constante de suas pa-
lestras, mostrava-se ele próprio modelo
acabado de sobriedade. Tinha sempre
presente no espírito os caminhos que
conduzem à virtude e não se cansava
de lembrá-los a quantos o frequen-
tavam.
Sei que teve um dia com Eutidemo
esta prática sobre a temperança:
— Dize-me, Eutidemo, não reputas
a liberdade bem inestimável e honroso
tanto para o particular como para o
Estado?
— É o mais precioso dos bens.
— Terãs por livre o homem que se
deixe dominar pelos prazeres do corpo
e assim se veja na impossibilidade. de
praticar o bem?
— De forma alguma.
— Não chamas liberdade ao poder
de praticar o bem, servidão à impossi-
bilidade de praticá-lo?
— Justamente.
— Quer dizer que a teus olhos os
intemperantes não passam de escra-
vos?
— Sim, e com razão.
— Crês que os intemperantes sejam
somente impedidos de fazer o melhor
“ou que sejam também forçados a fazer
o pior?
-— Creio-os de todo ponto impeli-
dos para o mal e desviados do bem.
— Que pensas então desses senho-
res que impedem de fazer o bem e obri-
gam a fazer o mal?
— Por Júpiter ! é a pior raça.
— FE qual a pior das servidões?
— Em minha opinião, a que nos |
sujeita aos piores senhores.
— Então os intemperantes pade-
cem a pior das servidões?
— Assim acho.
— A intemperança não afasta os
homens da sabedoria, o maior dos
“bens para precipitá-los nos piores
males? achas que, arrastando-os para
os prazeres, os impede de se aplicarem
ao estudo dos conhecimentos úteis e,
não raro,.discirnam embora o bem do
mal, os obriga a preferirem o pior ao
melhor?
— É verdade.
— Quem menos prudente que o
intemperante? Pois nada tão avesso
aos atos da prudência quanto os da
ntemperança.
— De fato.
— Que nos apartará mais de nos-
sos deveres que a intemperança?
— Nada.
— Quando um vício nos faz prefe-
rir o prejudicial ao útil, procurar um e
negligenciar o outro e em tudo nos
haver-mos ao reverso dos sábios, não é
de todos o mais funesto?
8
156
-— Seguramente.
— Natural não é produzir a tempe-
rança efeitos contrários aos da intem-
perança?
— Sem dúvida.
— Igualmente claro não é ser exce-
lente a causa desses efeitos contrários?
— Certamente.
— Então força é crer, Eutidemo,
ser a temperança o mais valioso dos
bens.
— Não ná duvidá-lo, Sócrates.
— Já observaste uma coisa, Eutide-
mo?
— Quê?
— Que, pareça embora poder con-
duzir-nos exclusivamente ao agradá-
vel, de tanto é incapaz a intemperança,
ao passo que a temperança nos propor-
ciona OS mais VIVOS prazeres.
— Como assim?
— Porque a intemperança, não nos
permitindo suportar a fome, a sede, os
desejos amorosos, a insônia, necessi-
dades que só elas nos fazem experi-
mentar, deleite em comer, beber, amar,
repousar, dormir e que com a espera e
a privação não fazem senão aumentar
o prazer, a intemperança, digo, impe-
de-nos de sentir verdadeira doçura no
satisfazer estes apetites necessários e
contínuos. A temperança, ao contrário,
única capaz de fazer-nos suportar as
privações, é também a única que nos
permite gozar até pela memória dos
prazeres de que falei.
XENOFONTE
-— Nada do que dizes admite dúvi-
das.
— Demais, aprender a conhecer o
belo e o bem, a governar o próprio
corpo, a bem dirigir sua casa, a ser
prestadio aos amigos e à pátria e a
vencer os inimigos, todas qualidades
que não somente são úteis como
proporcionam os maiores prazeres:
tais as vantagens práticas que colhem
os homens temperantes e de que os
intemperantes são excluídos. De feito,
quem menos digno delas que aquele
que, consagrado aos prazeres fáceis,
nenhuns sacrifícios fez à virtude?
— Parece-me, Sócrates, conside-
rares o homem dominado por prazeres
dos sentidos incapaz de qualquer virtu-
de.
— Qual a diferença, Eutidemo,
entre o homem intemperante e a besta
mais estúpida? Jim que difere dos bru-
tos quem jamais toma o bem por norte
e só vive para o prazer? Só os tempe-
rantes podem examinar o que há de
melhor em todas as coisas, distribui-
las por gênero na prática e em teoria,
joeirar o bem e refugar o mal.
Este — dizia Sócrates — o meio de
tornar os homens melhores, mais feli-
zes e mais hábeis na dialética. Ajun-
tava vir o nome de “dialético” do hábi-
to de dialogar em comum e distribuir
os objetos por gêneros; que mister
havia, pois, dar-se com afinco a este
exercício, de vez que tal estudo forma
os melhores homens, os mais hábeis
políticos e os mais fortes dialéticos.
CarpíTULO VI
Farei também por contar como Só-
crates formava seus discípulos na
dialética. Achava que, quando se co-
nhece bem o que seja cada coisa em
particular, pode-se explicá-la aos ou-
tros; mas que, se se ignora, não admira
que se engane a si mesmo e consigo
aos outros. Também não cessava de
investigar com seus discípulos o que é
cada coisa em particular. Trabalhosa
empresa seria reproduzir todas as suas
definições: contentar-me-ei de referir
as que, a meu ver, melhor caracterizam
seus sistemas.
Primeiramente vejamos como enca-
rava a piedade:
— Dize-me, Eutidemo, que achas
da piedade?
— Por Júpiter! é a mais formosa
das virtudes.
— Poderias
homem piedoso?
— Aquele, penso, que honra os
deuses.
— Pode cada um honrar os deuses
à sua fantasia?
— Não, há leis que regulam o
culto.
— Saberá quem essas leis conheça
como adorar os deuses?
— Penso que sim.
— Julgará quem saiba honrar os
deuses dever honrá-los de outro modo?
— Não, certamente.
dizer-me qual o
— Honraríiamos os deuses diferen-
temente do que cremos de mister?
— Não o creio.
— Portanto, não cultuará os deuses
legitimamente quem conhecer as leis
do culto?
— Sim.
— Quem cultuar os deuses legiti-
mamente não os honrará como deve?
— Seguramente.
— Quem honrar os deuses como
deve não será piedoso?
— Sem dúvida.
— Então não podemos definir o
piedoso como aquele que conhece o
culto legitimo?
— De pleno acordo.
—— Passemos aos homens. Poderá
cada qual tratar seus semelhantes a seu
bel-prazer?
— Não. Só procederá legitima-
mente com respeito a seus semelhantes
quem conhecer as leis reguladoras das
relações entre os homens.
— Então os que se tratarem reci-
procamente segundo essas leis tratar-
se-ão como de dever?
— Sim.
— Não se tratarão bem os que se
tratarem como de dever?
— Claro.
— Quem tratar bem seu semelhante
não cumprirá seu dever de homem?
— Sim.
158
— Por conseguinte não procederão
consoante a justiça, os que obedecerem
às leis?
— É evidente.
— E a justiça, sabes o que é a
Justiça?
— O que ordenam as leis.
— Portanto não procederão con-
“forme a justiça e o dever os que fize-
rem o que mandam as leis?
— Poderia ser de outro modo?
— Não serão justos os que se pau-
tam pela justiça?
— Serão.
— Crês que se. possa obedecer às
leis sem saber o que ordenam?
— Não.
— E, sabendo-se o que se deva
fazer, Julgar-se-á não precisar fazê-lo?
— Não creio.
— Conheces homens que se hajam
diferentemente do que creiam de mis-
ter?
— Não.
— Portanto não serão justos os que
conhecerem as leis prescritas Telativa-
mente aos homens?
— Entra pelos olhos.
— Então serão justos os que .se
pautarem pela justiça?
— Poderia deixar de ser assim?
— Logo, não podemos definir o
justo como aquele que conhece as leis
prescritas relativamente aos homens?
— Éo que penso.
— E a sabedoria, como a define:
mos? Dize-me, serão os sábios somen-
te sábios no que sabem ou também no
que não sabem?
— Claro que a gente é sábio no que
sabe. Como sê-lo no que não se sabe?
— Serã pela ciência que os sábios
são sábios?
-— Como ser sábio senão pela ciên-
cia?!
— Então não PER que os sábios
possam ser sábios por outra coisa que
não a ciência?
XENOFONTE
— Não.
Logo, a ciência é a sabedoria?
Ássim me parece.
Julgas que o homem possa tudo
saber?
— De maneira alguma: penso que
só pode saber muito pouco.
— . Então um homem não pode ser
sábio em tudo?
— Está claro que não.
— Mas naquilo que sabe, cada um
é realmente sábio?
— De acordo.
— Queres, Eutidemo, que analise-
mos do mesmo modo a natureza do
bem?
— Como?
— Crês que a mesma coisa seja útil
a todos?
— Não.
— O que é útil a um, por vezes é
prejudicial a outro?
— Decerto.
Julgas o bem distinto do útil?
Não.
para quem for útil?
— Sim.
— O mesmo não se dá com o belo?
Quando falas da beleza de um corpo,
de um vaso ou outro objeto qualquer,
Julgas que tal objeto seja belo para
todos os usos?
— Não, certo.
— Quer dizer que cada objeto só é
belo para o uso a que deve servir ?
— Exatamente.
— Pode um objeto belo ser belo
sob outro aspecto que não o do uso
que dele possa fazer-se?
— Não.
— Então uma coisa só será bela
para quem for útil?
— Assim penso.
— Colocas a coragem, Eutidemo,
entre as coisas belas?
— Entre as que:mais o são.
— Quer dizer que não a consideras
útil somente para -as pequenas coisas?
|
Logo, uma coisa só será um bem -
1
12
MEMORÁVEISIV
— Considero-a útil para o que hã
grande.
— Achas vantajoso, estando-se em
presença de perigos terríveis, não ter-se
noção da ventura que se corre?
— De forma alguma.
— Então não são corajosos os que
sem o saber arrastam perigos?
— Não, claro; do contrário haveria
passar atestado de valor a muitos lou-
cos e covardes.
— E os que temem até o que nada
tem de terrível?
— São piores que aqueles.
— Chamas corajosos, pois, aos que
não têm medo nos perigos iminentes, e
covardes aos que o têm?
— Precisamente.
— Chamarás corajosos a outros
que não aqueles que se portam com,
valor em face dos perigos?
— Não.
— E covardes, aos que se portam
mal?
— A quem mais dar esse nome?
— Entretanto, cada um deles não
se porta como julga dever fazê-lo?
— Necessariamente.
— Saberão os que se portam mal
como deveriam portar-se?
— Não.
— Poderão portar-se como devem
os que o souberem?
— Sim, e eles somente.
— Portar-se-ão mal em face dos
perigos os que souberem como devem
haver-se?
— Não o creio.
— Logo, os que se portam mal não
sabem como deveriam haver-se?
— É evidente.
— Por conseglência, corajosos não
são os que sabem como é mister
haver-se nos perigos iminentes e covar-
des os que não o sabem?
— De acordo.
Considerava a realeza e a tirania,
duas autoridades, com esta diferença:
realeza chamava um poder aceito
159
pelos homens e conforme as leis do
Estado; tirania, um poder imposto e
sem outras leis que os caprichos do
chefe. Aristocracia chamava a repú-
blica dirigida por cidadãos amigos das
leis. Plutocracia, aquela onde domi-
nam os ricos. Democracia, aquela
onde todo o povo é soberano.
Se o contradiziam sem apresentar
provas terminantes, se afirmavam, sem
demonstrá-lo, ser tal cidadão mais:
sábio, mais hábil político, mais corajo-
so, etc. que aquele de que falava,
reportava-se ao fulcro da questão:
— Dizes ser o homem que louvas
melhor cidadão que o que elogio?
— Sim.
— Por que não começarmos, então,
por examinar qual o próprio do bom
cidadão?
— Façamo-lo.
— Na administração das riquezas,
não ganha por mão o que enriquece a
pátria?
— Sem dúvida.
— Em tempo de guerra, não leva a
palma quem a avantaja dos adversá-
r1OS?
— Certamente.
— Numa embaixada, não excele
quem de inimigos faz amigos?
— Não o nego. nas
— No congresso do povo, não leva
as lampas quem apazigua as sedições e
instaura a concórdia?
— Ássim O creio.
Deste modo, resumindo a questão,
tornava a verdade sensível aos contra-
ditores. Quando discorria sobre um
assunto, procedia pelos princípios
mais geralmente reconhecidos, tendo
por infalível este método de raciocínio.
Também não conheci quem o sobrepu-
jasse no fazer competir sua opinião aos
que o ouviam. Dizia que Homero
chama Ulisses de orador seguro da
própria causa porque sabia deduzir
suas razões das idéias que todos
admitem.
4
CapítuLO VII
Tenho para mim que do que hei dito
transluz claramente a simplicidade
com que Sócrates expunha suas opi-
niões a seus ouvintes. Ora direi como
se aplicava a tornar seus discípulos
capazes de bastar-se a si mesmos em
suas respectivas funções. De quantos
homens tenho conhecido, nenhum
como ele se daria ao trabalho de
conhecer as qualidades de seus amigos.
Tudo o que sabia convir ao homem
perfeito e que ele próprio conhecesse,
apressava-se a ensinar-lhes, e, para
fazê-los aprender o que ignorava, re-
metia-os a mestres competentes. Ensi-
nava-lhes também até que ponto deve
o homem bem educado versar-se em
cada ciência. Assim, dizia dever apren-
der-se de geometria o necessário para,
em caso de precisão, medir-se exata-
mente um terreno que se queira com-
prar, vender, dividir ou lavrar. O que é
tão fácil — acrescentava — que por
pouco que se dedique à agrimensura
pode conhecer-se a grandeza da terra e
a maneira de medi-la. Mas que se
levasse o estudo da geometria aos pro-
blemas mais dificeis, eis o que desapro-
vava: dizia não ver a utilidade disso.
Nao que os ignorasse, mas achava que
a perquisição de tais problemas pode
consumir a vida de um homem e des-
viá-lo de um sem número de outros
estudos úteis. Recomendava aprender-
se de astrologia o bastante paia,
viajando-se por terra, por mar ou,
estando-se de guarda, reconhecer as
divisões da noite, mês e ano e ter pon-
tos de referência para tudo o que se
faça na noite, no mês ou no ano.
Acrescentava ser fácil aprender estes
pontos com os caçadores noturnos,
pilotos e todos aqueles que têm inte-
resse em sabê-los. Quanto à astrono-
mia e às indagações tangentes aos glo-
bos que não consoam com a rotação
do nosso céu, a saber, os astros erra-
bundos e sem regra, sua distância da
Terra, revoluções e origem, reprova-
va-as energicamente, dizendo nenhuma
utilidade ver em tais especulações.
Não era estranho a esses conheci-
mentos, mas repetia que podem consu-
mir a vida de um homem e apartá-lo de
um sem número de estudos úteis. Em
geral interdizia o preocupar-se excessi-
vamente dos corpos celestes e das leis
segundo as quais os dirige a divindade.
Havia esses segredos por impene-
tráveis aos homens e considerava ofen-
sa aos deuses sondar os mistérios que
não lhes aprouve revelar-nos. Aditava
que, enfronhando-se em tais especula-
ções, corria-se o risco de perder a
razão, como a perdera Anaxágoras
com suas cerebrações para explicar os
mecanismos divinos. De feito, quando
pretendia que o Sol não passa de fogo
162
se esquecia Anaxágoras que os homens
olham facilmente o fogo, enquanto não
podem olhar o Sol de frente, além de
os raios do Sol escurecerem a pele, o
que não faz o fogo. Esquecia-se ser o,
calor do Sol necessário à vida e ao
crescimento das produções da terra, ao
passo que o do fogo as mata. Quando
dizia ser o Sol uma pedra inflamada
ignorava que a pedra, exposta ao fogo,
não produz chama nem lhe resiste
muito tempo, de passo: que o Sol é de
todos os tempos o mais brilhante dos
corpos. .Aconselhava o estúdo dos nú-
meros.- Mas, como para as outras ciên-
cias, recomendava não perder-se em
indagações vas e examinava e discutia
com seus discípulos até que ponto
todos os conhecimentos podem ser
XENOFONTE
úteis. Instava-os vivamente a não des-
cuidarem da saúde, consultarem os
entendidos sobre o regime que deviam
seguir, estudarem eles próprios durante
todo o curso da vida quais os alimen-
tos, bebidas e exercícios que melhor
lhes convinham e como usá-los para
gozar de perfeita saúde. Afirmava que
difícil seria a homem avezado a estu-
dar-se assim encontrar médico que me-
lhor que ele discernisse o que lhe con-
vinha à saúde. Se alguém queria
elevar-se acima dos conhecimentos
humanos, aconselhava-lhe vacar à adi-
vinhação, assegurando que, quando se
sabe por que sinais dão os deuses a
conhecer ao hornem sua vontade, ja-
mais se carece de suas advertências.
1
CapíruLo VIII
Se se acreditar que a asserção de Só-
crates relativa ao demônio que o
advertia do que devia ou não fazer cai
diante da condenação capital pronun-
ciada por seus juízes e o convence de
embuste no que respeita esse gênio
familiar, que se reflita nisto: a uma,
Sócrates ia assaz avançado em anos
para não ter mais que pouquíssimo
tempo de vida; a outra, não perdeu
senão o trato mais penoso da existên-
cia, o do ocaso do espírito. A ele
renunciando demonstrou todo o vigor
de sua alma, cobrindo-se de glória
tanto pela verdade, despejo e justiça de
sua defesa quanto pela doçura e cora-
gem com que recebeu a sentença de
morte. É opinião unânime que, ao que
haja memória, homem nenhum enfren-
tou a morte com mais valor que ele.
Foi obrigado a viver ainda trinta dias
após o julgamento, porque precisa-
mente nesse mês se realizavam as fes-
tas de Delos e proíbe a lei executar
qualquer condenado antes do regresso
“da teoria délia" *. Como até então vive-
ra, durante todo esse tempo viveu sob
os olhos dos amigos. Já granjeara
admiração pouco comum pela calma e
serenidade de sua vida. E qual a morte'
mais bela que a sua? Haverá morte
mais bela que a do homem que melhor
saiba morrer? Haverá morte mais feliz
que a mais bela? Haverá morte mais
grata aos deuses que a mais feliz?
Vou referir o que ouvi da boca de
Hermógenes, filho de Hipônico. Já
Meleto fizera sua acusação. Vendo Só-
crates discorrer sobre tudo menos
sobre o processo, disse-lhe Hermó-
genes que devia pensar em sua apolo-
gia.
Respondeu-lhe Sócrates:
— Não te parece que lhe consagrei
toda a minha vida?
Perguntando-lhe Hermógenes de
que maneira, disse-lhe Sócrates que,
vivendo sempre a considerar o que seja
Justo ou injusto, praticando a justiça e
evitando a inigúidade, cria haver pre-
parado a mais bela apologia.
“ Tornou Hermógenes:
— Não vês, Sócrates, que, choca-
dos com a defesa, fizeram os juízes de
Atenas morrer muitos inocentes, assim
como absolveram muitos culpados?
— Tentei, Hermógenes, preparar
uma apologia para apresentar a meus
Juízes, porém a tanto se opôs meu
demônio.
— Espanta-me o que dizes.
— Por que, se julgam os deuses
mais vantájoso para mim deixar a vida
desde já? Não sabes que, até o presen-
te, humano algum viveu melhor e mais
ditosamente que eu? Parece-me não
14 Teoria délia: era a delegação das cidades gregas
às festas solenes no templo de Apolo de Delos. (N.
do E.)
to
164
poder viver-se melhor que diligen-
ciando fazer-se melhor; nem mais dito- -
samente que sentindo tornar-se real-
mente melhor. Este efeito tenho-o até
aqui experimentado em mim mesmo,
vivendo entre os outros homens e a
eles comparando-me. Nunca tive de
mim próprio outra opinião, e esta opi-
nião perfilham meus amigos, não por
gostarem de mim (se assim fosse todos
diriam o mesmo daqueles que esti-
mam), mas por verem que em me
frequentando se tornavam melhores.
Se vivesse mais, seria forçosamente
obrigado a pagar meu tributo à velhi-
ce. Veria e ouviria menos, a inteli-
gência se me turbaria, mais custoso
ser-me-ia aprender, mais fácil esquecer
e assistiria ao definhamento de todas
as minhas prerrogativas. Se não tivesse
o sentimento de todas essas perdas,
viver já não seria viver. Se o tivesse,
como não se me tornaria a vida triste e
desgraçada? Morrendo injustamente, a
vergonha cairá sobre os que injusta-
mente me mataram: se a injustiça é
vergonhosa, como não seria vergo-
nhoso um ato injusto? A mim, qual o
opróbrio que me pesará de não me
terem reconhecido nem feito justiça?
Vejo que a reputação dos que me pre-
cederam passa à posteridade muito
diferente, segundo tenham sido autores
XENOFONTE
ou vítimas da injustiça. Estou certo
que, morrendo hoje, os sentimentos
que inspirarei aos homens não serão os
mesmos que inspirarão os que me
matam. Render-me-ão, tenho certeza,
o testemunho de que nunca fiz mal a
ninguém, e, longe de corromper meus
amigos, sempre forcejei por torná-los
melhores.
-Eis o teor das palestras de Sócrates
com Hermógenes e outros. Dentre
quantos o conheceram, todos os que
amam a virtude não cessam de lamen-
tá-lo qual o melhor auxiliar à prática
do bem. Quanto a mim, que o vi tal
qual o pintei: piedoso, de nada fazer
sem o assentimento dos deuses; justo,
de nunca por nurica fazer o menor mal
a ninguém, ao contrário prestar os
maiores serviços aos que o freguen-
tavam; morigerado, de jamais preferir
o agradável ao honesto; prudente, de
nunca enganar-se na apreciação do
bem e do mal, capaz de penetrar todas
estas noções, explicá-las e defini-las,
hábil no julgar os homens, apontar-
lhes suas faltas, encaminhá-los à virtu-
de e ao bem — figurava-se-me fadado
a ser o melhor e o mais ditoso dos
humanos. Se alguém houver que comi-
go não concorde, compare o que foi
Sócrates com o que são os outros ho-
mens e julgue!
XENOFONTE
APOLOGIA
DE SOCRATES
Tradução de LÍBERO RANGEL
Dentre os fatos concernentes a Só-
crates, um hã que me pareceu digno de
transmitir-se à memória: sua determi-
nação, quando submetido a julga-
mento, no tangente a sua apologia e
sua morte. Outros, é verdade, trataram
do assunto e disseram da nobre altivez
de sua linguagem, de sorte que não há
questionar este ponto. Mas por que Só-
crates preferiu a morte, eis o que não
fizeram ver claramente, parecendo
haver certa desrazão na altura de suas
palavras. Porém Hermógenes, filho de
Hipônico e amigo de Sócrates, deu a
seu respeito pormenores que mostram
que a altura de sua linguagem se acor-
dava plenamente com a de suas idéias.
Contava que, vendo-o discorrer sobre
assuntos completamente alheios a seu
processo, lhe dissera:
-—— Não deverias, Sócrates, pensar
em tua apologia?
Ao que lhe respondeu Sócrates:
-— Não te parece que lhe consagrei
toda a minha vida?
Perguntando-lhe Hermógenes de
que maneira:
— Vivendo sem cometer a menor
injustiça, O que é, a méu ver, o melhor
meio de preparar uma defesa.
Tornara Hermógenes:
— Não vês que, chocados com a
defesa, fizeram os juízes de Atenas
morrer muitos inocentes e absolveram
muitos culpados cuja linguagem lhes
despertara a piedade ou lhes lisonjeara
os ouvidos?
— Por duas vezes — dissera Só-
cratés — tentei preparar uma apolo-
gia, porém, a tanto se opôs meu
demônio.
Estranhando-lhe Hermógenes a lin-
guagem, respondera Sócrates:
— Por que te espantas, se julgam
os deuses mais vantajoso para mim
deixar a vida desde já? Não sabes que,
até o presente, humano algum viveu
melhor queeu? É-me agradável ter
vivido toda a minha vida na pie-
dade e na justiça. E, experimentando
viva admiração de mim próprio,
verifiquei que os mesmos sentimentos
nutriam para comigo todos os
meus amigos. Mas já agora, se
for além, sei que terei forçosamente
de pagar meu tributo à velhice. A vista
se me enfraquecerá, ouvirei menos,
minha inteligência se turbará e esque-
cerei mais depressa o que aprender. Se
perceber a perda de minhas faculdades
e sentir-me mal comigo mesmo, como
aprazer-me da vida? Talvez seja por
benevolência que me concede a deida-
de, como dom especial, terminar a vida
não só na época mais conveniente
como do modo menos penoso. Porque,
sendo condenado hoje, certo ser-me-ã
permitido firmar pelo gênero de morte
que os homens que se ocuparam desta
questão consideram a mais suave, a
que menos faz padecer tanto o moritu-
ro, como os seus amigos. Verdadeira-
mente digno de inveja não é morrer
sem deixar nenhuma impressão penosa
170
e desagradável no espírito dos assisten-
tes, são de corpo, alma em paz?
Razão, pois, tiveram os deuses dissua-
dindo-me de preparar minha defesa,
quando todos vós acháveis que deveria
por todos os meios buscar subterfú-
gios. Fizesse-o eu, e teria refugido o
morrer hoje para, sem nenhum conso-
lo, vir a findar atormentado de doenças
ou então dé velhice, para a qual ver-
Assim resolvido, atesta Hermóge-
nes, quando seus inimigos o acusaram
de não reconhecer os deuses do Esta-
do, introduzir extravagâncias demo-
níacas e corromper os jovens, Sócrates
adiantou-se e disse:
— O que mais me surpreende no
acusatório de Meleto, cidadãos, é afir-
mar ele que eu não reconheça os deu-
ses do Estado, quando todos vós, Me-
leto convosco, se o quis, tivestes
ocasião de ver-me sacrificar nas festas
solenes e altares públicos. E como pre-
tender que eu introduza extravagâncias
demoníacas, quando digo advertir-me
a voz de um deus do que deva fázer?
Não se guiam por vozes os que tiram
presságios do canto das aves e das
palavras dos homens? Ninguém nega-
rá seja voz o trovão, e até o maior dos
augúrios. Pela voz não manifesta a
sacerdotisa de Pito, na trípode, a von-
tade do deus? Que esse deus possui o
conhecimento do futuro e o revela a
quem lhe apraz, eis o que digo e comi-
go dizem e pensam todos. Somente que
a isso chamam augúrios, vozes, simbo-
los, presságios, eu lhe chamo demônio.
Com esta denominação creio usar de
XENOFONTE
gem todas as enfermidades. Por Júpi-
ter! Hermógenes, sequer cogitarei
disso. E se, expondo sem refolhos
todas as vantagens que creio haver dos
deuses e dos homens, bem como a opi-
nião que faço de mim mesmo, tiver
pesar aos juízes, preferirei morrer a
mendigar servilmente a vida e fazer-me
outorgar uma existência mil vezes pior
que a morte.
l
linguagem mais veraz e mais piedosa
que os que atribuem às aves o poder
dos deuses. À prova de que não minto
contra a divindade, ei-la: jamais, ao
anunciar a bom número de amigos os
desígnios do deus, fui apanhado em de-
lito de impostura.
Em ouvindo tais palavras os juízes
murmuraram, uns de incrédulo, outros
de invejoso das preferências que lhe
concediam os deuses. Continuou Só-
crates:
— Ouvi mais isto, a fim de que os
. que o desejam tenham mais um motivo
para não crer no favor com que me
honraram as divindades. Um dia em
que, em presença de numerosa assis-
tência, Querefonte interrogava a meu
respeito o oráculo de Delfos, respon-
deu Apolo inexistir homem mais sen-
sato, independente, justo e sábio que
eu. Como era de esperar, a estas pala-
vras Os juízes fizeram ouvir murmúrio
maior ainda.
Prosseguiu Sócrates: — Entretanto,
cidadãos, em termos mais magníficos
ainda se expressou o deus em relação a
Licurgo, o legislador dos lacedemô-
nios. É fama que, no momento em que
16
17
APOLOGIA DE SÓCRATES
Licurgo entrava no templo, disse-lhe a.
divindade: “Chamar-te-ei homem ou
deus?” A mim não me comparou a
deus, mas disse que em muito sobre-
pujo os outros homens. Não creiais
levianamente o que disse a deidade:
pesai bem cada uma de suas palavras.
Sabeis de homem menos escravo dos
apetites do corpo que eu? Mais inde-
pendente que eu, que de ninguém rece-
bo presentes nem salário? Quem pode-
reis, em boa fé, considerar mais justo
que um homem tão acomodado com o
que tenha que jamais precise do
alheio? Quanto à sabedoria, como por
outro acima de mim, que desde que
comecei a compreender a língua ja-
mais cessei de inquirir e aprender tudo
o que podia de bem? A prova de que
meu labor não foi estéril, não a vedes
na preferência que a meu trato dão
numerosos concidadãos e estrangeiros
amigos da virtude? Por que motivo
tanta gente, saiba-me embora demasia-
damente pobre para retribuir, faz tim-
bre de enviar-me presentes? Ninguém
poderá dizer que lhe haja pedido um
serviço: entanto qual o motivo de tanta
gente declarar dever-me gratidão? Por
que, durante o sítio da cidade, jeremia-
vam meus concidadãos sua miséria,
enquanto eu não padecia mais priva-
ções que nos dias de maior prosperi-
dade da República? Por que, quando
os outros compram a altos preços, no
mercado, fruo gratuitamente os delei-
tes do espírito, mais puros que os seus?
Se nada podeis negar do que acabo de
dizer, como não ter eu direitos legiti-
mos ao beneplácito dos deuses e dos
homens? Entretanto dizes, Meleto, que
assim procedendo corrompo a juventu- -
de? Sabemos, sem dúvida, em que con-
siste a corrupção. Ora, dize-me, conhe-
ces uh único jovem tornado ímpio; de
moderado, violento; de poupado, pró-
digo; de sóbrio, dado &0 vinho; de
Nil
trabalhador, preguiçoso ou escravo de
outra qualquer má paixão?
— Sim, por Júpiter! — disse Mele-
to-— conheço a quem seduziste a
. ponto de depositarem mais confiança
em tique nos próprios pais!
— Concordo — respondeu Sócra-
tes — no que respeita à instrução, por-
que sabem que meditei profundamente
essa matéria. Quando se trata da
saúde, os homens têm mais confiança
nos médicos que em seus pais. Nos
congressos, prefere. a generalidade dos
atenienses ater-se aos que falam com
mais sabedoria aqueles a que se acham
unidos pelos laços do sangue. Com
efeito, não escolheis para estrategos de
preferência a vossos pais e irmãos e,
por Júpiter ! de preferência a vós mes-
mos, aqueles que sabem mais experi-
mentados na arte da guerra?
— É o uso, Sócrates — replicou
Meleto — e esse uso tem sua utilidade.
— Pois bem — ripostou Sócrates
— não te parece estranho que em tudo
os melhores sejam considerados não
somente iguais como superiores aos
outros, enquanto a mim por causa da
superioridade que me concedem alguns
no tocante ao maior dos bens huma-
nos, a instrução, me carregues com
uma acusação capital?
E de crer que tanto Sócrates como
aqueles de seus amigos que falaram em
sua defesa dissessem ainda muitas ou-
tras coisas. Mas não me propus desfiar
todos os pormenores do processo; bas-
ta-me ter feito ver que Sócrates tomara
por ponto demonstrar que jamais fora
impio para com os deuses nem injusto
para com os homens, mas que longe
dele pensar rebaixar-se a súplicas para
escapar à morte: ao contrário, desde
logo se persuadira haver chegado a
hora de morrer. Estes sentimentos me-
lhor se patentearam ao pronunciar-se a
condenação. Primeiro convidado a
20
2!
22
24
25
192
fixar a taxa da multa, declinou-o e não
o permitiu aos amigos, dizendo-lhes
que tal fazer seria confessar-se culpa-
do. Depois, querendo seus amigos
subtraí-lo à morte, recusou-o e, chas-
queando, perguntou-lhes se conheciam
fora da Ática algum lugar inacessível à
morte.
Enfim, proferida a sentença, disse:
— Cidadãos! Tanto aqueles dentre
vós que induzistes as testemunhas a
perjurarem, levantando falso testemu-
nho contra mim, quanto os que vos
deixastes subornar, deveis, de força,
sentir-vos culpados de grande impie-
dade e injustiça. Mas eu, por que have-
ria de crer-me empequenecido se nada
se comprovou do que me acoimam?
Jamais ofereci sacrifícios a outras
divindades que não Júpiter, Juno e os
demais deuses. Nunca jurei senão por
eles. Jamais nomeei outras deidades.
Quanto aos jovens, seria corrompê-los,
habituá-los à paciência e à frugali-
dade? Atos contra os quais a lei pro-
XENOFONTE
nuncia a morte, como a profanação
dos templos, o roubo com efração, a
venda de homenis livres, a traição à pá-
tria, meus próprios acusadores não
ousam dizer que os haja cometido.
Surpreso, pois, pergunto a mim mesmo
qual o crime por que me condenais à
morte. Nem por morrer injustamente
devo ter-me em menor estima: não
sobre mim, mas sobre os que me con-
denam cairá a ignomínia. Demais,
consolo-me com Palamedes que findou
quase como eu. Até hoje ainda lhe can-
tam hinos mais magníficos que a Ulis-
ses, que o fez perecer injustamente.
Estou certo que tanto quanto o passa-
do, me renderá o porvir o testemunho
de que nunca fiz mal a ninguém, ja-
mais tornei ninguém mais vicioso, mas
servia OS que comigo privavam ensi-
nando-lhes sem retribuição tudo o que
podia de bem.
Após assim falar retirou-se sem que
nada lhe desmentisse a linguagem:
olhos, atitude, andar conservavam a
mesma serenidade.
UI
Reparando que os que o acompa-
nhavam se desfaziam em lágrimas,
disse-lhes:
— Que é isto! Agora é que achais
de chorar? Não sabeis há muito que no
instante mesmo de meu nascimento
pronunciara a natureza a sentença de
minha morte? Se morresse antes da
idade, rodeado de todos os gozos, certo
seria o caso de nos afligirmos tanto eu
como os que me prezam. Mas se chego
ao termo da carreira, quando nada
senão males posso esperar, minha
morte deve ser motivo de alegria para
todos vós.
Acompanhava-o certo Apolodoro,'
alma simples e extremamente afei-
çoada a Sócrates, que lhe disse:
— Não posso suportar, Sócrates,
ver-te morrer injustamente.
Então se diz que, passando-lhe de
leve a mão pela cabeça, Sócrates
respondeu:
— Como! Meu caro Apolodoro
27
29
30
33
APOLOGIA DE SÓCRATES
então preferias ver-me morrer justa-
mente?
E ao mesmo tempo sorria.
É voz ainda que, vendo passar
Ânito, disse:
— Vejam só como vai ufano aquele
homem: crê ter realizado bela façanha
em me matando, por haver-lhe eu dito
certo dia que, uma vez que fora levado
às primeiras dignidades da República,
não ficava bem elevar o filho ao mister
de tanoeiro. Miserável ! Parece ignorar
que, de nós dois, verdadeiro vencedor é
aquele que durante toda a vida não
cessou de praticar ações úteis e hones-
tas. E já que Homero atribui a alguns
de seus heróis, à hora da morte, o
conhecimento antecipado do futuro,
173
quero fazer também uma predição.
Faz tempo, encontrei-me alguns mo-
mentos com o filho de Ânito, e pare-
ceu-me não carecer de energia de cará-
ter. Pois predigo que não permanecerá
na condição servil em que o colocou o
pai. Mas, por falta de guia esclarecido,
será presa de alguma paixão vergo-
nhosa e se esbarrocará na perversi-
dade.
E assim falando Sócrates não se
enganou. Avezando-se ao vinho, o
rapaz não parava de beber dia e noite e
acabou incapacitado de fazer o que
quer que fosse de útil à pátria, aos ami-
gos e a si mesmo. Quanto a Ânito, a
má educação que dera ao filho e sua
própria ignorância tornaram, até hoje
que já não vive, odiosa sua lembrança.
IV
À verdade, falando de si mesmo
com tamanha sobranceria perante o
tribunal, Sócrates ateou o ciúme € con-
tiçou a disposição em que se achavam
os juízes a condená-lo. Mas estou que,
com afortunado destino, o amercearam
os deuses. Deixou da vida a parte mais
penosa e morreu a morte menos dolo-
rosa. Ademais, pôs plenamente de
manifesto seu vigor de ânimo. Reco-
nhecendo ser-lhe mais vantajoso mor-
rer que viver, assim como jamais
recuara diante dos outros bens, assim
não fraquejou à barba da morte e sere-
namente a recebeu e sofreu. Quando
reflito na sabedoria e grandeza de alma
deste homem, não posso deixar de
acordar-lhe a memória e a esta lem-
brança juntar meus elogios. E se dentre
os enamorados da virtude alguém hou-
ver que haja privado com homem mais
prestante que Sócrates, reputo-o o
mais venturoso dos mortais.
31
34
ARISTÓFANES
AS NUVENS
Tradução e notas de GLDA MARIA REALE STARZYNSKI
PERSONAGENS
ESTREPSÍADES
FIDÍPIDES
Escravo de Estrepsiades
DiscípuLoO de Sócrates
SOCRATES
Coro das Nuvens
Raciocínio JusTO
Raciocínio INJUSTO
CREDOR I
CREDOR II
“Dois DiscíPuLOS de Sócrates
Cenário — É noite. Uma praça; no
centro uma estátua de Hermes. Duas
casas; uma, paupérrima, de porta
fechada, é a de Sócrates. Na outra, de
portas abertas, vêem-se duas camas.
Numa, o velho Estrepsíades se agita;
na outra, um rapaz dorme profunda-
mente, coberto até as orelhas. Armá-
rios, bancos, lamparinas, vasos, etc. À
um canto dois escravos roncam. Ouve-
seo canto do galo.
ESTREPSÍADES
(Senta-se no leito e começa
a resmungar.)!
Ai, ai! Ó Zeus soberano ! Como são
compridas as noites! Uma coisa inter-
minável!. .. Nunca mais será dia? E,
no entanto, já faz muito tempo que
ouvi o canto do galo... Os escravos
roncam.-.. Mas não roncariam nos
tempos de outrora... Maldiçoada
guerra, e por muitas razões, pois não
posso nem castigar os meus escra-
vos...? (Apontando para o filho.) E
1 Prólogo, vv. 1-274.
2 No início da Guerra do Peloponeso (431 a.C.),
na perspectiva da invasão da Ática pelas tropas
lacedemônias, muitos proprietários deixaram suas
terras, refugiando-se dentro dos Grandes Muros. Os
trabalhos nos campos foram abandonados e os
escravos, que deviam acordar com o canto do galo,
podiam dormir sossegados. Os senhores absti-
nham-se de castigá-los e de enviá-los a trabalhar
fora da cidade, temendo que desertassem. Apesar
disso, as deserções eram frequentes. Cav., vv. 20 ss.;
Tuc. II, 2, 27.
nem esse “belo” rapaz que aí está não
acorda durante a noite, mas fica pei-
dando, encolhido debaixo de cinco
mantas... (Volta-se para os especta-
dores.) Com sua licença, vamos roncar
bem cobertos... (Deita-se. Pausa. De
repente, salta do leito, jogando longe
os cobertores.) Pobre de mim, não
posso dormir, mordido pela despesa,
pela estrebaria e pelas dívidas! Tudo
por causa desse filho aí; e ele usa cabe-
los compridos, cavalga, guia uma pare-
lha e sonha com cavalos... Eu, eu
morro, vendo que a Lua vai carre-
gando o dia vinte; pois os juros cor-
rem...? (Desperta um escravo.) Es-
cravo, acenda a lamparina e traga-me
o livro de contas para eu ver a quantas
pessoas estou devendo e calcular os
juros. (O escravo traz um livro, que
Estrepsíades consulta com cuidado.)
Vamos ver o que é que devo? Doze
minas a Pásias. Mas por que doze
minas a Pásias? Para que as usei?
(Pausa.) Foi quando comprei o cavalo
de raça. ..º* Ai de mim, antes tivesse
3 O mês era lunar, dividido em três décadas. O
velho teme os dias após o dia vinte, início da ter-
ceira década, porque no fim do mês se faziam os
acertos de juros ou se saldavam as dívidas. Cf. vv.
1134-1222.
* Lit. o “koppatias”, isto é, o cavalo marcado com
a letra “koppa”. Era hábito marcar os cavalos de
raça com letras do alfabeto, ou para indicar-lhes o
preço ou para assinalar vitórias. Assim também
havia o cavalo marcado com a letra “san”. Cf. v.
122. Estrepsíades que não entende nada de equita-
ção emprega a esmo as palavras que ouve nas con-
versas do filho. Cf. vv. 120 ss.
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30
35
180
roçado o olho com uma pedra...*
FIDÍPIDES
(Mexe-se no leito e sonha
em voz alta.)
Filão, você estã trapaceando ! Siga a
suaraia...
ESTREPSÍADES
É esse, é esse mesmo o mal que
acaba comigo! Até quando dorme, ele
sonha com cavalos...
FIDÍPIDES
Quantas carreiras correm os carros
de guerra? ...8
ESTREPSÍADES
A mim, o seu pai, é que você faz
correr por muitas carreiras... Mas
então, que dívida me espera depois de
Pásias? Três minas a Amínias por uma
boleiazinha e um par de rodas...
FIDÍPIDES
Leve o cavalo para a cocheira, de-
"pois de fazê-lo espojar-se. ..”
ESTREPSÍADES
Mas, meu caro, a mim pelo menos
você já me despojou dos meus
bens!... Já fui condenado a pagar as
dívidas, e outros credores afirmam que
vão processar-me por causa dos juros!
FIDÍPIDES
(Acorda, impaciente.)
Verdadeiramente, meu pai, por que
você se aborrece e se mexe a noite
inteira?
ESTREPSÍADES
8 Um dos recursos cômicos de Aristófanes são os
trocadilhos, que procuramos adaptar na medida do
possível. Assim aqui ““raça/roçar” e adiante
“espojar-se/despojar”. Vv. 33-34.
8 Carros que concorriam nos jogos públicos, arma-
dos como para a guerra.
? Depois da corrida, levavam-se os cavalos para
secar o suor, fazendo-os espojarem-se na areia,
antes de recolhê-los. Cf. Xen., Econ., XI, 18.
ARISTÓFANES
Morde-me um meirinho?, saído das
cobertas...
FIDÍPIDES
Homem, deixe-me dormir um
pouco !
ESTREPSÍADES
(Acena para o filho, mono-
logando.)
Então durma, mas quanto a essas
dívidas, fique sabendo que se voltarão
todas contra a sua cabeça. ..
Irra! Antes tivesse morrido desgra-
çadamente a casamenteira que me deu
fumos de casar com a mãe dele! Eu le-
vava uma vida rústica, agradabi-
líssima, embolorado, sujo e à vontade,
regurgitando de abelhas, de rebanhos e
de bagaços de azeitona. ..º Depois,
casei-me com uma sobrinha de Méga-
cles, filho de Mêgacles!º; eu um cam-
ponês, ela, da cidade, orgulhosa, de-
lambida, uma perfeita “gra-fina”1.
No dia do casarnento, quando me dei-
tei ao seu lado, eu cheirava a vinho
novo, cirandas de figos, lã, fartura; ela,
por sua vez, rescendia a perfume, aça-
frão, beijos de língua, despesas, gulodi-
8 Lit. O “demarco”, a quem competia convocar as
assembléias, zelar pelo patrimônio do demo, conser-
var os livros de registros e cadastros e, além disso,
citar os devedores que: não liquidavam as dívidas no
prazo estipulado.
º Estrepsiades lembra-se com saudades da vida dos
campos, sem peias e farta. Aristófanes gostava de
idealizar a vida simples do meio rural, em contraste
com os gastos e defeitos das cidades, mas, apesar
disso, os seus camponeses são retratados como indi-
víduos broncos, sujos e desleixados, o que corres-
ponde bem aos sentimentos dos atenienses do século
Va. C. Cf. Acar., vv. 32 ss.; Cav., vv. 805 ss.
1º Não se trata de nenhum personagem histórico.
O poeta procura fazer graça, citando um nome
comum na importante família dos Alcmeônidas, a
«que pertencia o próprio Péricles pelo lado materno.
Foram célebres o Mégacles que chefiou a expedição
contra a revolta de Cilão (612 a. C.) e o filho do
legislador Clístenes, várias vezes vencedor em jogos
atléticos. Cf. v. 70; Pind., Pit., VII.
w Lit. “toda encesirada” — -reterência a Cesira,
mulher muito conhecida da família dos Alcmeôni-
das, considerada o protótipo da grande dama, rica,
elegante e pretensiosa. Cf. v. 800; Acar., v. 614.
40
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60
AS NUVENS
ces e outras luxúrias de Afrodite. ..!2
Por certo não direi que era preguiçosa,
mas esbanjava... (Com a mão debai-
xo do manto faz um gesto obsceno.) E
eu, mostrava-lhe este manto aqui, e, a
propósito, costumava dizer-lhe: “Mu-
lher, você desperdiça muita lã...”
ESCRAVO
(Trazendo a lamparina quase apagada.)
Não temos mais óleo na lampari-
na...
ESTREPSÍADES
Ai! Por que você me acendeu essa
lamparina bebedora?'3 Vamos, venha
cá apanhar...
ESCRAVO
(Lamentando-se.)
Mas por que vou apanhar?
ESTREPSÍADES
Porque pôs na lamparina um desses
pavios muito grossos...
(O escravo sai. Estrepsíades
continua o monólogo.)
Depois disso, quando nós dois tive-
mos esse filho aí (aponta o filho), eu e
minha boa mulher, desde logo brigá-
vamos por causa do nome...!“ Ela
12 Lit. “Colíada e Genetílide”, dois epítetos de
Afrodite que lembram o membro viril e a união
sexual, sugerindo, portanto, excessos de sensuali-
dade, o que explica o gesto do velho e a exclamação
“Mulher, você desperdiça muita lã”, v. 55.
13 Durante a Guerra do Peloponeso o preço do
óleo subira muito, pois muitas oliveiras haviam sido
cortadas pelos invasores. Além disso, era impos-
sível a colheita da azeitona em regiões circunvizi-
nhas. Por economia, evitavam-se as lamparinas de
pavio grosso, que consumiam muito óleo.
14 Em geral, o filho mais velho recebia o nome do
avô paterno. As famílias nobres gostavam de dar
aos filhos nomes compostos. Eram comuns os com-
postos em que intervinha o elemento “hippos”, ou
para celebrar alguma vitória dos antepassados ou
para expressar esperanças no futuro da criança,
tanto mais que havia, logicamente, uma associação
de idéias entre “hippos” (cavalo) e “hippeis”
(cavaleiros), os nobres que lutavam na Cavalaria. O
nome do pai de Estrepsíades sugere poupança, eco-
nomia, em contraste com o luxo e as grandezas dos
Alomeônidas. Quando o casal chega a um acordo
escolhe um nome cômico: Fidípides, “o poupa-ca-
valos”.
181
lhe ajuntava um “hipo”: Xantipo,
Caripo, ou Calípides. Eu escolhia o
nome do avô, Fidônides. E discu-
tiamos sem cessar! Depois, com o
tempo, fizemos as pazes e, de comum
acordo, escolhemos Fidipides. Com o
filho ao colo, ela o acalentava: “Ah,
quando você for grande e conduzir um
carro até a cidade, como Mégacles,
com a túnica de vencedor!”... E eu
dizia: “Não! Ah, quando você condu-
zir as cabras, vindo do monte Feleu"*,
como o seu pai, coberto com uma
pele!”... Mas ele nem sequer deu
atenção às minhas palavras e derra-
mou uma “cavalite” sobre os meus
bens... Pois agora, pensando a noite
inteira sobre um caminho, achei uma
única vereda, diabolicamente excelen-
te. Se eu persuadir esse daí a segui-la,
estarei salvo! Mas antes quero acor-
dá-lo. Então, como é que poderia acor-
dá-lo de maneira mais suave? (Vai
para junto do filho.) Fidipides!? Fidi-
pidesinho?!
FIDÍPIDES
(Meio acordado.)
Que é, meu pai?
ESTREPSÍADES
Beije-me e dê-me a sua mão direita.
FIDÍPIDES
Ei-la. Que há?
ESTREPSÍADES
Diga-me, você gosta de mim?
FIDÍPIDES
Sim, por este Posidão, o deus hípi-
(676
15 Região da Ática, cheia de pedras. Com o tempo,
o nome se tornou comum, passando a designar
qualquer terreno escarpado, onde se apascentavam
cabras.
18 A “jeunesse dorée” de Atenas costumava jurar
por Posidão (Netuno), deus inventor e protetor da
equitação. Já no Hino Homérico Posidão aparece
com a ampla atribuição de domar cavalos e salvar
navios.
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ESTREPSÍADES
Não, de modo algum, nem me fale
nesse hípico ! Esse deus é o causador
das minhas desgraças! Mas, se por
acaso você gosta de mim de verdade,
do fundo do coração, meu filho,
obedeça!
FIDÍPIDES
Mas precisamente em que devo
obedecer-lhe?
ESTREPSÍADES
Mude logo os seus hábitos e vá
aprender o que eu aconselhar.
FIDÍPIDES
Então fale, que ordena?
ESTREPSÍADES
E você obedecerá um pouquinho?
FIDÍPEDES
Sim, por Dioniso! ?, obedecerei.
ESTREPSÍADES
Olhe ali (aponta a casa de Sócrates).
Você estã vendo aquela portinha e
aquele casebre?! 8
FIDÍPIDES
Estou vendo. Papai, de fato o que é
aquilo?
ESTREPSÍADES
(Declamando.)
De almas sábias é aquilo um
“pensatório”...1º Lá moram homens
que, quando falam do céu, querem
17 Atendendo aos protestos do pai, o rapaz invoca
o deus Dioniso, muito estimado pelo povo.
18 Aristófanes ridiculariza a pobreza e a insignifi-
cância da casa de Sócrates. O próprio Sócrates ava-
liava toda a sua fortuna, inclusive a casa, em cinco
minas (500 dracmas). Cf. Xen., Econ., 11, 3.
1º É evidente a intenção de parodiar o linguajar so-
lene e complicado dos sofistas. A palavra “psyché”
(alma) sugere a idéia de “fantasmas e almas do
outro mundo” e é uma alusão à linguagem socrá-
tica. Cf. Plat., Rep., I, 353 E. De outro lado,
“phrontisterion”, que traduzimos por “pensatório”,
é palavra. cômica, talvez forjada por Aristófanes.
Depois, o termo perdeu o sentido ridículo e foi
empregado por Ésquines para designar a escola de
retórica de Rodes.
ARISTÓFANES
convencer de que é um abafador?º,
que está ao nosso redor, e nós...
somos os carvões!2! Se a gente lhes
der algum dinheiro, eles ensinam a
vencer com discursos nas causas justas
e injustas? 2.
FIDÍPIDES
Mas quem são eles?
ESTREPSÍADES
Não sei ao certo seu nome?:.
(Solenemente.) São pensadores medita-
bundos, gente de bem!
FIDÍPIDES
Ah! Já sei, uns coitados! Você está
falando desses charlatães? 4, pálidos e
descalços? *, entre os quais o funesto
Sócrates e Querefonte. ..28
20 Comparação ora atribuída ao filósofo Hipão,
cf. Cratino, Onividentes (Panoptai), ora ao matemá-
tico Metão, Aves, v. 1001, ora a outros. Provável
lugar-comum na critica da comédia antiga aos que
se preocupavam com assuntos de astronomia.
21 Se o céu envolve a terra como um abafador de
brasas, nós, os homens, somos os carvões!... A.
confusão se justifica, porque filósofos havia, como
Xenófanes, que julgavam que os astros brilhavam
como carvões. Cf. Aécio, II, 13, 14; (Diels-Kranz I,
124,30).
22 Era notória a venalidade dos sofistas, principal-
mente de Protágoras, que se tornou famoso pelas
importâncias recebidas de Evatlo. Cf. Plat., Prot,
328-B, 348-E; Apol., 19-E. Todavia, Sócrates .não
aceitava nenhum pagamento e censurava os que o
faziam.
23 Tanto o pai como o filho e o público sabem
perfeitamente de quem. se trata, todavia o autor quer
criar um ambiente de expectativa cômica, enquanto
o velho procura captar as simpatias do filho, citan-
do os “Kaloi kagathoi”, isto é, os nobres, “gente de
bem”. Aliás, muitos amigos de Sócrates pertenciam
à aristocracia.
24 Os sofistas eram ridicularizados porque se pro-
punham a discorrer sobre qualquer assunto, inclu-
sive sobre as coisas que desconheciam. Eup., /T.
159. Aliás, a crítica da comédia coincidia com a
constante advertência de Sócrates contra os “que
aparentam saber o que não sabem”.
25 Sócrates costumava andar descalço, adotando
um costume espartano. Plat., Banq., 220-B; Xen.,
Mem., 1,6,2.
26 Amigo de infância de Sócrates que trouxe de
Delfos o célebre oráculo que afirmava que Sócrates
era o mais sábio dos homens. Vítima constante dos
poetas cômicos que lhe ridicularizavam a palidez,
chamando-o “morcego”, “filho da noite”. Vesp.,vv.
1408-1412; Aves, v. 1554. Eup., 7. 155, Crat., ..
201. |
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105
no
JS
120
AS NUVENS
ESTREPSÍADES
Eh! silêncio! Não diga tolices! Mas
se você se preocupa um pouco com o
pão de seu pai, por favor, renuncie à
equitação e torne-se um deles.
FIDÍPIDES
Não, por Dioniso, não poderia, nem
que você me desse os faisões de
Leógoras? ”.
ESTREPSÍADES
Vá, eu imploro ! Você, a mais queri-
da das criaturas, vá aprender !
FIDÍPIDES
E que irei aprender para o seu bem?
ESTREPSÍADES
Dizem que no meio deles os racioci-
nios são dois: o forte, seja ele qual for,
e O fraco?8. Eles afirmam que o segun-
do raciocinio, isto é, o fraco, discur-
sando, vence nas causas mais injus-
tas... Ora, se você me aprender esse
raciocínio injusto, do dinheiro que
agora estou devendo por sua culpa,
dessas dívidas eu não pagaria nem um
óbolo a ninguém...
FIDÍPIDES
Não poderia obedecer-lhe. Pois não
suportaria olhar para os Cavaleiros,
com as minhas cores raspadas...
ESTREPSÍADES
Ah, é assim? Por Deméter, então
você não há de comer dos meus bens,
nem você, nem o cavalo de trela, nem o
puro sangue...?º Vou expulsá-lo
2? Pai do orador Andócides, amigo do luxo e da
boa mesa.
28 Estrepsíiades, como grande parte do povo, enten-
de mal o princípio retórico segundo o qual há sem-
pre, em qualquer causa, duas teses contraditórias,
uma fraca e outra forte, e acredita que os sofistas
possam dispor de dois raciocínios, um forte, que
tem valor por si mesmo, € o outro fraco, que se deve
à habilidade e é reservado às causas injustas. Cf.,
Plat. Fedro, 272-D; Apol., 19-A; Cic., Brut., VIII,
30.
2º O cavalo de raça, marcado com a letra “san”,
veja nota, v. 23.
183
para fora desta casa... para o infer-
no!
FIDÍPIDES
Mas meu tio Mégacles não há de
deixar-me... sem cavalos...3º Ora,
vou entrar! Você pouco me impor-
ta... (Fidípides entra. O velho sozi-
nho encaminha-se para a casa de
Sócrates.)
ESTREPSÍADES
Bem, mas não é por ter caído que
ficarei no chão: ..3! Vou invocar os
deuses e instruir-me eu mesmo, fre-
quentando o “pensatório”. (Pára)
Então como é que eu, um velho esque-
cido e bronco aprenderei as sutilezas
das palavras precisas? (Põe-se a
andar.) Devo ir. Por que razão todas
essas delongas, e não bato à porta?
(Afinal, decide-se.) Filho, filhinho !
DISCÍPULO
(Fala de dentro da casa.)
Vá para o infeno! Quem bateu à
porta?
ESTREPSÍADES
(Solene e apavorado.)
O filho de Fidão, Estrepsitades de
Cicina!32
DISCÍPULO
(Abre-se o “pensatório” e
sai um discípulo, pálido e
irritado, deixando a porta
entreaberta.)
Por Zeus, só pode ser um ignorante,
você que deu um pontapé na porta,
assim tão estupidamente, e fez abortar
um pensamento já encontrado. ..33
30 Chiste; esperava-se “sem casa”.
31 Expressão da linguagem da palestra. O lutador
tentava sempre levantar-se ao ser derrubado, pois se
fosse atirado três vezes ao chão seria eliminado. Cf.
Esq., Eum., v. 589.
32 A sucessão de nomes próprios é cômica, pois só
nos tribunais se nomeavam os indivíduos citando os
nomes do pai e do demo. Cf. Dem., Cor., 54.
125
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140.
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184
ESTREPSÍADES
Desculpe-me, eu moro longe, nos
campos. Mas fale-me desse negócio
que estã abortado. ..
DISCÍPULO
Não é lícito dizê-lo, só aos discípu-
los? 4
ESTREPSIÁDES
Então fale, coragem! Pois eu aqui
vim ao “pensatório” para ser um
discípulo...
DISCÍPULO
Vou dizê-lo. Mas deve-se conside-
rálo um mistério... Há pouco, Só-
crates interrogava Querefonte sobre
uma pulga. Indagava quantas vezes ela
pode saltar o tamanho dos seus pró-
prios pés, porque ela mordeu a sobran-
celha de Querefonte e pulou para a ca-
beça de Sócrates...
ESTREPSÍADES
Então, como foi que ele mediu?
DISCÍPULO
Com a maior habilidade. Dissolveu
cera; depois, tomou a pulga e mergu-
lhou os seus pés na cera. A seguir,
quando a pulga esfriou, ficou com
umas botinhas à moda pérsica; ele
descalçou-as e mediu a distância? *.
ESTREPSÍADES
Ó Zeus soberano, que sutileza de
pensamento !
33 O susto provoca um aborto mental, como pode
fazê-lo fisicamente... Pilhéria que visa direta-
mente à pessoa de Sócrates, filho da parteira Fena-
rete, de quem se dizia herdeiro na arte de assistir ao
nascimento de novas idéias (maiêutica). Cf. Plat.,
Teet., 149-A.
3º A solenidade da linguagem contrasta com a
puerilidade dos pensamentos e indagações em curso
no “pensatório”.
35 A pulga é considerada um ser humano, com
dois pés, em que é possível calçar e descalçar botas.
É provável. que haja um chiste com o preceito de
Protágoras “O homem é a medida de todas as
coisas”,
ARISTÓFANES
| DISCÍPULO
De fato, que diria você se soubesse
de um outro raciocínio de Sócrates?
ESTREPSÍADES
Qual? Conte-me, eu suplico. ..38
DISCÍPULO
Querefónté de Esfétio perguntou-lhe
qual a sua opinião, se os mosquitos
cantam pela boca ou pela rabadilha.
ESTREPSÍADES
E que foi que ele disse a respeito do
mosquito?
DISCÍPULO
Ele dizia que o intestino do mos-
quito é estreito; como é apertado, o ar
passa por ele com violência e se enca-
minha diretamente para a rabadilha.
Ora, como é oco e ligado a esse lugar
estreito, o buracó ressoa por causa da
violência do sopro.? 7
ESTREPSÍADES
Ah, então o rabisteco do mosquito é
uma trombeta! Seja ele três vezes
bem-aventurado, só por essa
e: EEE) 38.
intestigação”... De fato, numa
defesa, facilmente seria absolvido
quem conhece a fundo o intestino dos
mosquitos...
DISCÍPULO
Sim, mas há pouco ele foi despojado
de um grande pensamento por uma
lagartixa...
ESTREPSÍADES
De que maneira? Conte-me.
DISCÍPULO |
Ele investigava os caminhos da Lua
38 Essas questões cleviam ser objeto de discussões
dos filósofos desse tempo. O próprio Aristóteles
preocupava-se com a explicação do canto dos inse-
tos. Ar. Hist. An., 1 V.9sss.
37 Note-se o tom dogmático de explicação socrá-
tica, com suas etapas bem precisas e bem imagina-
das.
38 Palavra cômica que lembra “investigação”.
|
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AS NUVENS
e suas evoluções?º. Então, como esta-
va de boca aberta, de noite, olhando
para cima, uma lagartixa cagou lá do
alto do teto... *º
ESTREPSÍADES
Gozado que uma lagartixa tivesse
cagado em Sócrates!...
DISCÍPULO
Ontem mesmo, à tarde, não tínha-
mos o que cear...
ESTREPSÍADES
Puxa! Então que é que ele mano-
brou para conseguir comida?
DISCÍPULO
Espargiu sobre a mesa uma cinza
fina, dobrou o espeto e, depois, usan-
do-o como um compasso... surripiou
o manto da palestra... *1
ESTREPSÍADES :
Por que então admiramos aquele fa-
moso Tales?*2 Depressa, abra, abra o
“pensatório”, e mostre-me logo esse
Sócrates, pois tenho vontade de apren-
der! Mas, abra a porta! (Abre-se a
porta. Véem-se os discípulos de Sócra-
tes, em atitudes estranhas, olhando
para o chão. No fundo, um leito
estreito e uma mesa com mapas,
esquadros, réguas, etc... Do alto do
teto um cesto dependurado.) Por Héra-
cles, de onde vieram esses bichos?
38 Referência à tradição segundo a qual o sábio
Tales de Mileto caíra num poço, enquanto obser-
vava Os astros. ;
“0 Lit. lagarto malhado, tradicionalmente conside-
rado um animalzinho malicioso. Cf. lat. Stelio.
“1 A passagem não é bem clara. Várias hipóteses
procuram explicá-la: a) Sócrates teria comparecido
à palestra e, enquanto distraíia os que o rodeavam,
surripiara a vítima que se sacrificava a Hermes; b)
enquanto explicava questões científicas, habilmente
conseguira roubar alguma peça de vestuário; c)
teria distraído a atenção e a fome dos discípulos
discorrendo sobre questões geométricas. Parece-nos
a explicação mais razoável.
“2 Tales de Mileto, um dos Sete Sábios, conside- .
rado o fundador da filosofia, o primeiro a preocu-
par-se com assuntos matemáticos e astronômicos
(século VIT).
185
DISCÍPULO
Por que você se espanta? Em sua
opinião, com que se parecem?
ESTREPSÍADES
Com os lacedemônios capturados
em Pilos*3. Mas por que razão esses
fulanos olham para a terra? 44
DISCÍPULO
Procuram o que está debaixo da
terra.
ESTREPSÍADES
Ah, com toda certeza estão procu-
rando cebolas... Então, não procu-
rem mais isso, pois eu sei onde as há
grandes e bonitas... Pois esses ou-
tros, que estão fazendo, tão inclina-
dos?
DISCÍPULO
Esses sondam o EFrebo, até debaixo
do Tártaro **.
ESTREPSÍADES
Por que é que o rabo está olhando
para o céu?
DISCÍPULO
' Está aprendendo astronomia por
sua própria conta. ..*º (Aos discí-
*3 Nobres espartanos que, depois de resistirem a
um demorado assédio, foram obrigados a entregar-
se na ilha de Esfactéria, 425 a.C. Os discípulos, pá-
lidos, macilentos e de cabeça baixa, lembram o esta-
do lastimável e a vergonha daqueles infelizes
prisioneiros.
“4 Platão relembra que os poetas cômicos foram os
primeiros a caluniar Sócrates, acusando-o de pes-
quisar as coisas subterrâneas e celestes, Apol., 19-B.
No entanto, o mesmo Platão nos apresenta Sócrates
indagando a respeito da localização e natureza do
Hades, Fed., 113-F.
*5 Aristófanes ridiculariza as pesquisas profundas
que penetravam até o Érebo, debaixo do Tártaro,
onde não devia existir absolutamente nada.
*8 Conforme o testemunho de Xenofonte, Sócrates
condenava as investigações abstratas sobre os fenô-
menos naturais e só admitia os estudos de geometria
e astronomia tendo em vista objetivos práticos. Cf.
Mem., 1, 1, 11; IV, 7, 2, 6. Plat., Apol. 19-D. Toda-
via, ao fazer sua biografia intelectual, o próprio Só-
crates afirma que até atingir a maturidade se entre-
gara a “esse gênero de saber a que se dá o nome de
conhecimento da natureza”. Plat., Fed., 96-A, 99-D.
185
190
195
200
186
pulos que se aproximaram da porta.)
Vamos, entrem, para que “ele” não
encontre vocês.
ESTREPSÍADES
Não, ainda não! Fiquem, para eu
conversar com eles sobre um meu
negocinho...
DISCÍPULO
Mas, eles não podem ficar por muito
tempo ao ar livre...
(Entram todos. Estrepsia-
des aproxima-se
da mesa e aponta.)
ESTREPSÍADES
Pelos deuses, que é isso? Diga-me.
DISCÍPULO
Isto é astronomia.
ESTREPSÍADES
E isto?
DISCÍPULO
Geometria.
ESTREPSÍADES
(Toma uma régua.)
E isto então para que serve?
DISCÍPULO
Para medir a Terra...
ESTREPSÍADES
Será por acaso a terra
dae Rue
lotea-
DISCÍPULO
Não, toda ela!
ESTREPSÍADES
Você diz uma coisa inteligente. Com
efeito, a idéia é democrática e útil...
“7 No governo de Péricles as terras dos Estados
vencidos foram medidas com a colaboração de dez
geômetras e distribuídas aos pobres, reservando-se
um décimo para os deuses, Tuc., HI, 50. Estrep-
stades entende que se pretende medir a terra para
distribui-la ao povo, daí a alusão do v. 205.
ARISTÓFANES
DISCÍPULO
(Tomando um mapa.)
Este é o circulo da Terra“. Está
vendo? Eis aqui Atenas.
ESTREPSÍADES
Que diz? Não acredito, pois não
vejo os juízes sentados no tribu-
pal ss
DISCÍPULO
Afirmo que este é verdadeiramente o
território da Ática.
ESTREPSÍADES
E onde estão os Cicinotas, meus
companheiros de bairro?
DISCÍPULO
Ei-los aqui. Esta é a Eubéia *º, como
você vê, estendendo-se ao longo, com-
prida, bem a distância.
ESTREPSÍADES
Sei, pois foi bem esticada por nós e
por Péricles... E a Lacedemônia,
onde está?
DISCÍPULO
Onde está? Ei-la aqui!
ESTREPSÍADES
Como está perto de nós! Pensem
bem nisso: afastá-la para bem lon-
Be
DISCÍPULO
Mas não é possível !...
ESTREPSÍADES
Por Zeus, vocês se arrependerão. ..
(Estrepsíades olha para cima e vê o
cesto" dependurado.) Ora vejam só!
“8 (Os mapas-múndi e cartas geográficas já deviam
ser comuns em Atenas.
“sS Crítica à mania judiciária dos atenienses. Aliás,
logo depois das Nuvens, Aristófanes dedicou uma
comédia a esse assunto: As Vespas.
Sº Eubéia, a maior ilha do mar Egeu. Depois das
guerras pérsicas ingressou na Confederação de
Delos, da qual pretendeu afastar-se em 446, numa
rebelião esmagada por Péricles. Cf. Tuc., I, 114.
)
!
215
AS NUVENS
Quem é esse homem dependurado num
cesto, lá em cima?
DISCÍPULO
“Ele”, em pessoa! 81
ESTREPSÍADES
“Ele”? quem?
DISCÍPULO
Sócrates.
ESTREPSÍADES
220 Sócrates!? — Vá chamá-lo para
mim, e bem alto.
DISCÍPULO
Não, chame-o você; eu não tenho
tempo. (O discípulo desaparece.)
ESTREPSÍADES
Sócrates ! Socratesinho !
SÓCRATES
(Do alto.)
Por que me chama, ó efêmero º?
ESTREPSÍADES
Em primeiro lugar, eu lhe peço,
explique-me o que está fazendo.
SÓCRATES
225 Ando pelos ares e de cima olho o
Sol 3.
ESTREPSÍADES
Ah, então você olha os deuses aí de
cima, do alto de uma peneira * * e não
daqui da terra, se é que se pode...
51 Aristófanes associa o filósofo aos pitagóricos,
daí a expressão “ele em pessoa”, isto é, o “Mestre”.
s2 Sócrates aparece lá do alto como um “deus ex
machina” e por isso pode usar de linguagem apro-
priada a uma divindade em seu trato com seres
humanos.
83 O filósofo afirma que está meditando sobre o
Sol e Estrepsiades, que entende tudo às avessas,
pensa tratar-se do deus Hélio (Febo Apolo) e inter-
preta as palavras de Sócrates como uma ofensa,
desprezo à divindade e, por conseguinte, prova de
ateismo.
54 Na verdade, “ciranda, caniçada”; traduzimos
“peneira”, vocábulo mais conhecido, mais cômico.
187
SÓCRATES
Pois nunca teria encontrado, de
modo exato, as coisas celestes se não
tivesse suspendido a inteligência e não
tivesse misturado o pensamento sutil
com o ar, o seu semelhante '*. Se,
estando no chão, observasse de baixo o
que está em cima, jamais o encontra-
ria. Pois de fato a terra, com violência
atrai para si a seiva do pensamento * 8.
Padece desse mesmo mal até o
ABTIidO «e
ESTREPSÍADES
(Muito espantado.)
Que diz? O pensamento puxa a
seiva para o agrião? Então venha, meu
Socratesinho, desça aqui para ensinar-
me aquilo que vim procurar...
SÓCRATES
(Descendo .)
Mas a que veio você?
ESTREPSÍADES
Porque desejo aprender a falar. Com
efeito, estou sendo saqueado, pilhado e
penhorado nos meus bens, por credo-
res e juros muito cacetes...
SÓCRATES
E como você não percebeu que se
endividava?
ESTREPSÍADES
Foi uma doença de cavalos que me
55 Referência aos filósofos, como Anaximenes,
Anaximandro e Diógenes de Apolônia, que identifi-
cavam a alma com o ar, um sopro.
868 Assim como o vapor de água 'é novamente
atraído pela terra voltando sob a forma de chuva
(Diog. Apol., Diels-Kranz II, 54, 28), a terra teria o
poder de atrair para si a seiva do pensamento,
perturbando a reflexão. A propósito 'do efeito que
essas teorias irão produzir no espirito de Estrep-
siades, veja vv. 1279 ss.
57 Aristófanes critica o método socrático de ir bus-
car comparações em fatos corriqueiros da vida diá-
ria: a associação de idéias com o agrião surge natu-
ralmente, por tratar-se de uma planta rasteira e
aquática, que vive em meio úmido e sofre bem de
perto a influência dessa atração para baixo, ainda
não definida.
240
245
250
188
arruinou, terrível, devoradora. .. Mas
ensine-me o outro dos seus dois racio-
cínios, aquele que não devolve nada.
Pelos deuses, juro pagar-lhe qualquer
salário º8 que você cobrar !...
SÓCRATES
(Em terra.)
Por quais deuses você pretende
Jurar? Para começar, em nosso meio
os deuses são moeda fora de circula-
CÃO aos
ESTREPSÍADES
Como é que vocês juram? Acaso
serã por peças de ferro, como em
Bizâncio? 8º
SÓCRATES
Você quer conhecer claramente as
coisas divinas e exatamente o que elas
são?
ESTREPSÍADES
Sim, por Zeus, se é possível...
SÓCRATES
E travar relações com as Nuvens, as
nossas divindades*!, para conversar
com elas?
ESTREPSÍADES
Sim, demais!
SÓCRATES
Então sente-se no leito sagrado.
ESTREPSÍADES
Pronto; estou sentado.
SÓCRATES
uma coroa
mãos.)
(Com
nas
ss Contradição hilariante, pois o velho matreiro
quer justamente um meio de não pagar nada.
8º Alusão ao ateismo e impiedade de muitos filóso-
fos, como Hipão, cognominado “o ateu”. Anaxá-
goras sofreu processo por crime de impiedade e
Protágoras afirmava que “nada sei.acerca dos deu-
ses, se existem ou se não existem” (Diels-Kranz I,
317-318).
8º Mencionando as moedas de Bizâncio, de baixo
teor metálico, Aristófanes lembra a falsidade dessa
colônia e suas tentativas de defecção.
81 A atribuição de divindade às Nuvens é invenção
de Aristófanes.
ARISTÓFANES
Pois tome aqui esta coroa... 82
ESTREPSÍADES
- Para que uma coroa? Ai de mim,
Sócrates, contanto que vocês não me
sacrifiquem como ao pobre Ataman-
te a
SÓCRATES |
Não, mas fazemos tudo isso aos que
se vão iniciar.
ESTREPSÍADES
O que é que ganho eu com isso?
SÓCRATES
Tornar-se-á escovado na fala, char-
latão, uma flor de farinha! (Sócrates,
enguanto fala, esfrega as costas de
Estrepsíades e esparge farinha sobre a
sua cabeça.) Mas, fique quieto !
ESTREPSÍADES
Por Zeus, você não me vai enganar:
de fato, polvilhado, serei uma flor de
farinha...
E SÓCRATES
E preciso que o velho fique calado e
- preste atenção à prece! (Solenemente.)
Senhor soberanoº*, Ar incomensu-
rável, que sustentas a Terra suspensa
«2 Paródia das cerimônias de iniciação dos rituais
órficos-pitagóricos ou eleusinos. A partir de certa
época, essas cerimônias tornaram-se comuns em
Atenas, associadas com elementos oriundos de cul-
tos estrangeiros, frigios e egípcios. Era habitual a
coroação dos neófitos; como as vítimas dos sacrifi-
cios também eram coroadas, Estrepsiades fica
apavorado.
s3 Rei da Beócia, salvo graças à intervenção de
Hércules, no- momento em que ia ser sacrificado por
instigação de sua primeira esposa, a deusa Nefele.
Muitas tragédias inspiraram-se nessa lenda, inclu-
sive o Atamante Coroado de Sófocles. Observe-se a
" mudança de tom nesta cena preparatória do párodo
(vv. 263-274).
8* Sócrates invoca três divindades próximas umas
das outras: Ar, Éter e Nuvens. Era comum associar
três divindades, tanto nas preces como nos juramen-
tos. A divindade do Ar foi sustentada, entre outros,
por Orfeu (Diels-Kranz I, 5, 6), Diógenes de Apolô-
nia (Diels-Kranz II, 61, 7) e Demócrito fr. 6. Os
órficos-pitagóricos consideravam o Éter um deus e
muitas vezes o identificavam com Zeus. Cf. Orfeu:
“O Éter é tudo” (Diels-Kranz 1, 46, 18) e também
Eur. fr. 869.
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AS NUVENS
no espaço !*S Éter brilhante e venerá-
veis deusas, Nuvens, portadoras do
trovão e do raio!ºê Levantai-vos,
Senhoras, mostrai-vos ao pensador,
suspensas no ar!
ESTREPSÍADES
Não, ainda não! (Procura cobrir a
cabeça com uma ponta do manto.)
Antes vou cobrir-me com isto, para
não me encharcar... 8? Desgraçado
de mim... Sair de casa sem nenhum
bonezinho!...
SÓCRATES
Então vinde, Nuvens augustíssimas,
para mostrar-vos a este homem 8.
Quer vos assenteis nas sagradas cu-
meeiras do Olimpo *º, batidas pelas
neves, ou estejais nos jardins do vosso
pai Oceano 'º, compondo um coro
sagrado para as Ninfas; quer por
acaso, nas cabeceiras do Nilo, despe-
jeis de suas águas com jarros de ouro,
ou habiteis o lago Meótis”! ou o
85 Segundo o testemunho de Plutarco, Mor., 869,
Anaximenes fora o primeiro a afirmar que a Terra
estava suspensa e era amparada pelo Ar. Posterior-
mente essa teoria se tornou muito comum. E
88 Epiteto das Nuvens, forjado por Aristófanes
com a inversão da ordem dos elementos de um epi-
teto muito conhecido de Zeus. Essa delegação de
qualificativos corresponde, poeticamente, às novas
teorias de explicação física dos fenômenos naturais,
antes atribuídos aos poderes de Zeus. Cf. vv.
375-411,
87 Estrepsiades logo associa a idéia de Nuvens
com a de chuva e procura proteger-se.
68 Sócrates menciona os quatro cantos do globo: o
Olimpo representa o norte; Oceano, o oeste; as
cabeceiras do Nilo simbolizam o sul e o lago Meótis
e o Mimante, o leste.
8º Olimpo da Tessália, ponto culminante da penín-
sula grega: o seu pico, sempre coberto de neve, era
considerado a morada dos deuses.
7º Da deificação das Nuvens resulta a necessidade
* de dar-lhes uma ascendência divina: são invocadas
como filhas de Oceano, personificação das águas
que envolvem o mundo. Oceano estendia-se de leste
a oeste e do norte ao sul da Terra. No extremo
oeste, situavam-se os seus jardins, muitas vezes
identificados com os Jardins das Hespérides, as nin-
fas do poente. ;
71 Lago da Jônia, nos limites da Europa e Ásia,
hoje mar de Azov.
189
rochedo nevoso do Mimante?2. Rece-
bei o sacrifício, atendei à prece, con-
tentes com as cerimônias sagradas.
(Ouve-se ao longe o Coro
das Nuvens. Troam trovões.)
CORO
(Estrofe)73 Nuvens inesgotáveis” *,
levantemo-nos, visíveis em nossa natu-
reza orvalhada e brilhante! Longe do
pai, o ribombante Oceano” *, vamos
aos cimos nas altas montanhas, enca-
belados de árvores. Contemplemos a
distância os picos longínquos, as sea-
ras, a Terra sacrossanta e irrigada,
veneráveis, fragorosos rios, e o mar
que geme com surdos ruídos. Incan-
sável brilha o olho do Éter? em
esplêndidos raios !... Eia, dissipemos
a chuvosa névoa de nossa forma imor-
tal e, com um olho que de longe vê,
contemplemos a Terra.
SÓCRATES
Nuvens muito veneráveis, é evidente
que me ouvistes a chamar-vos! (A
Estrepsíades.) Você percebeu a sua voz
junto com os gemidos do trovão,
respeitável como um deus?
ESTREPSÍADES
Sim, eu vos venero, ó augustíssimas,
tanto que desejo responder com peidos
aos vossos trovões... Como treme-
lico diante delas e tenho medo! E quer
seja lícito, quer não seja lícito ? 7, tenho
vontade de aliviar-me agora mes-
mo...
72 Promontório da Ásia Menor, nas proximidades
de Esmirna.
73 Inicia-se o párodo que se compõe de partes líri-
cas, cantadas pelo coro (estrofe e antistrofe), e de
partes dialogadas, com algumas intervenções do
Corifeu (vv. 275-475).
74 Epiteto adequado às Nuvens, mães das águas.
75 Epíteto comum de Oceano, para representar os
estrondos do mar.
78 Expressão poética para designar o Sol. Cf. Eur.,
If. Taur., v. 194; Esq. fr. 158.
77 O efeito cômico deriva do contraste entre a sole-
nidade das palavras e a grosseira e incontrolável
necessidade de Estrepsiades.
275
280
285
290
295
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190
SÓCRATES
(Impaciente.)
Chega de fazer graça e de agir como
esses pobres poetas de borra!78 Mas
fique quieto, pois um grande enxame
de deusas se movimenta, cantando.
CORO
(Antistrofe)7º Virgens portadoras
da chuva, vamos ver a brilhante cidade
de Palas*º, terra de heróis, de Cécro-
pe*º?, amável país! É lá que existe a
veneração de inefáveis mistérios*?, e,
nas cerimônias sagradas, um santuário
aberto aos iniciados, com dádivas aos
deuses do céu*3; altivos templos, está-
tuas, sacratíssimas procissões aos
bem-aventurados, sacrifícios cheios de
coroas, festins em todas as estações? *,
e, ao chegar a primavera, a festa de
Bromo**, a exaltação melodiosa dos
coros e o canto das flautas de surdos
ressõos.
ESTREPSÍADES
Por Zeus, Sócrates, eu lhe peço,
diga-me quem são essas que proferi-
ram esse canto venerável? Serão por
acaso alguma assombração?
78 Trocadilho. Aristófanes refere-se aos poetas cô-
micos, que ainda conservavam vestígios dos tempos
em que se cobria o rosto de borra de vinho para ati-
rar invectivas contra os participantes e assistentes
do “komos”. Traduzimos “poetas de borra”, expres-
são que na linguagem popular portuguesa tem senti-
do depreciativo: “poetas sem nenhum valor, ordiná-
rios”.
79 Os elementos do coro já aparecem a distância,
mas Estrepsíades só irá vê-los no v. 326.
8o Atenas, cuja protetora era a deusa Palas Atena.
81 Personagem mítico, primeiro rei de Atenas.
sz Santuários de Deméter e Core, em Elêusis, que
atraíam peregrinos de toda a Grécia e onde se cele-
bravam, anualmente, os Grandes e Pequenos Misté-
rios.
83 Antítese às deusas subterrâneas, cujo culto
acaba de ser mencionado.
8* Os atenienses vangloriavam-se de sua piedade;
durante o ano todos celebravam os deuses com fes-
tas, em que as procissões eram um capítulo muito
importante. Cf. Sof., E. €., 250; Isocr., Paneg., 45.
8s As Antestérias, festas dionisíacas da primavera.
Dioniso era invocado com o epíteto de Brômio, “o
que estrondeia”.
ARISTÓFANES
SÓCRATES
De modo algum! São as Nuvens
celestes, deusas grandiosas dos ho-
mens ociososf8. São elas que nos
proporcionam pensamento, argumen-
tação e entendimento, narrativas mira-
bolantes e circunlóquios e a arte de
impressionar € de fascinar*”.
ESTREPSÍADES
Ah, então é por isso que, depois de
ouvir o seu canto, minha alma esvoa-
ça, já procura falar com sutileza e di-
vaga na fumaça esbarrando uma sen-
tença numa sentencinha para refutar
com outro argumento. ..88
condições, se acaso é possível, agora
quero vê-las claramente.
SÓCRATES
Então olhe para lá, para o Parnesº*º.
Já vejo que elas vêm descendo calma-
mente...
ESTREPSÍADES
Deixe ver, onde? Mostre-me!
SÓCRATES
São essas que avançam em grande
número pelas cavernas e bosques, ali,
de lado...
ESTREPSÍADES
Que negócio é esse, que não vejo...
SÓCRATES
Ao lado da entrada... .º0
86 Referência àqueles que podem dispor de tempo
para as especulações do espírito, i.e., os filósofos e
poetas.
87 Note-se que o próprio Sócrates fala irônica-
“mente acerca da habilidade de seus pretensos coie-
gas (os sofistas), que apelavam a todos os recursos
para impressionar e enganar.
88 Estrepsiades já está contagiado pelos sofis-
tas... Nos Acarnianos, Aristófanes usa de frases
semelhantes, para ridicularizar Eurípides. Cf. vv.
444 ss.
8º Monte de Atenas, geralmente nublado. Sócrates
devia apontar para uma direção qualquer, já que o
Pares, oculto por um canto da Acrópole, não
podia ser visto do teatro.
so A entrada da orquestra, por onde devia penetrar
o coro. Cf. Av., v. 296.
|
|
Nessas:
320
325
330
AS NUVENS
ESTREPSÍADES
Até que enfim ! E assim mesmo com
dificuldade...
(Entram as Nuvens, mulhe-
res com vestes esvoaçantes
e grandes narizes.)
SÓCRATES
Agora pelo menos você está vendo,
a não ser que tenha umas remelas do
tamanho de abóboras !º!
ESTREPSÍADES |
Sim, por Zeus, eu vejo, ó augustis-
simas, pois já ocupam todo o espa-
Cones
SÓCRATES
E, no entanto, você não sabia que
são deusas, não acreditava nelas?
ESTREPSÍADES
Não, por Zeus, mas pensava que
fossem vapor, orvalho e fumaça. ..
SÓCRATES
Por Zeus, nada disso !º2 É que você
não sabia que elas sustentam a maior
parte dos sofistasº?, adivinhos de
Túrio?*, artistas da medicinaº*,
“vadios de longos cabelos que só tra-
tam de anéis e unhas”º 8, torneadores
91 Expressão proverbial.
82 Note-se que Sócrates invoca um deus cuja exis-
tência daqui a pouco vai negar. Essas invocações
haviam perdido toda consistência, reduzidas a sim-
ples exclamações.
83 De modo genérico são designados os vários gru-
pos que constituem a classe dos sofistas, Platão
também faz Protágoras chamar de ''sofistas” todos
os poetas, músicos, ginastas etc... Cf. Prot.,
316-D.
ss Referência a Lampão, amigo de Péricles, cola-
borador na fundação e colonização de Túrio (443
a.C.), considerada durante muito tempo a Eldorado
dos atenienses.
ss Particularmente Hipócrates de Cós (469-399),
contemporâneo de Sócrates, que visitava Atenas
com frequência e que, em suas obras, admitia as
influências dos ventos e das Nuvens sobre a saúde e
também as relações da astronomia com a arte de
curar.
s6 Aristófanes forja uma longa palavra cômica, ou
para criticar a vaidade do sofista Hípias de Élis
(veja Plat., Hip. Men., 368-D), ou então para ridicu-
larizar o luxo e os atavios dos citaredos.
191
de coros cíclicos* 7, homens charlatães
de coisas celestes?8. Sustentam esses
vadios que não fazem nada, porque
eles costumam cantá-las em suas
obras.
ESTREPSÍADES
(Declamando.)
Ah, então é por isso que canta-
vam? 9
“de úmidas Nuvens de redemoinhos de
luz a hostil arremetida”,
“as tranças de Tifeu!ºº de cem cabe-
ças”,
“dos furacões o violento sopro”
e ainda “aéreos úmidos”,
“aduncos que nadam nos ares” e
“aquosas chuvas de orvalhadas Nu-
vens”.
E ainda, em troca de tudo isso,
engoliam
“fatias de bons e grandes murgens e
carnes voláteis de tordos” "01.
SÓCRATES
Sim, é por causa delas. E não é
Justo?
ESTREPSÍADES
Diga-me, então, se realmente são
nuvens, que lhes sucedeu, por que
parecem mulheres? (Aponta para o
céu.) Aquelas lã pelo menos não são
assim. ..192
s7 Censura aos novos hábitos musicais e rítmicos
dos poetas líricos, principalmente nos coros cicli-
cos. Cf. vv. 970 ss (Frinis); Tesmof., v. 53 (Agatão);
Ras, v. 153 (Cinésias).
ss Anaxágoras, Metão, Hípias de Élis, Diógenes
de Apolônia e muitos outros.
sº Paródia do estilo mirabolante da poesia lírica
do século V.
100 Monstro de cem cabeças de dragão, filho da
Terra e do Tártaro, derrotado pelos Titãs. Cf. Hes,,
Teog., 820 ss.
101 Alusão às grandes despesas da “coregia”,
contribuição voluntária que consistia no preparo
duma representação dramática. Aristófanes cita
duas iguarias caras e apreciadas para lembrar que
ao “corego” competia sustentar os coreutas, os mú-
sicos, e atê o próprio poeta.
102 Examinando o coro, Estrepsiades observa que
as Nuvens são representadas por mulheres bem
narigudas e aponta para o céu, onde vê as verda-
deiras nuvens (cirros) que se parecem com flocos de
la.
335
340
345
350
192
| SÓCRATES
Vamos ver, como são?
ESTREPSÍADES
Não sei bem, mas é certo que têm
aparência de flocos de lã desenrolada e
não de mulheres. Não, por Zeus, nem
um pouquinho!... Estas aqui têm
narizes...
SÓCRATES
Então responda ao que eu pergun-
tar” 03 y
ESTREPSÍADES
Pois diga logo o que quer.
SÓCRATES
Alguma vez, olhando para o céu,
você já não viu uma nuvem semelhante
a um centauro, a um leopardo, a um
lobo ou a um touro?
ESTREPSÍADES
Sim, por Zeus, já vi. E que quer
dizer isso?
SÓCRATES
Elas se transformam em tudo o que
desejam!º 4. Se vêem um fulano de
longa cabeleira, um desses selvagens
peludos, como o filho de Xenofan-
to!º5, para ridicularizar a “mania”
dele, tomam forma de centauros.
ESTREPSÍADES
Pois-se vêem lá de cima um ladrão
dos bens públicos, como Simão!º 8, o
que é que elas fazem?
SÓCRATES
Para representar a natureza dele,
logo viram lobos...
103 Sócrates inicia a prática das perguntas e res-
postas, levando o interlocutor às suas próprias
conclusões.
104 Cúmulos, nuvens acinzentadas que tomam for-
mas variadas, conforme a nossa imaginação.
105 Hierônimo, poeta ditirâmbico, acusado de
pederastia. É comparado aos centauros que tinham
a parte inferior de um animal (cavalo), eram pelu-
dos e lascivos. Cf. Sof., Traquínias.
to 6 Desconhecido historicamente. Todavia é criti-
cado também por Eúpolis. f7. 220.
ARISTÓFANES
ESTREPSÍADES
Ah, então foi por isso que ontem, .
quando viram Cleônimo!º?, aquele
covarde que jogou fora o escudo,
quando viram esse superpoltrão, logo
se tornaram veados
SÓCRATES
E agora, você está vendo, viram
Clístenes!º8 e por causa disso muda-
ram-se em mulheres
ESTREPSÍADES
Então viva, minhas senhoras! E,
agora, se alguma vez já-o fizestes a
algum outro, solta à mim também
essa voz que cobre os céus, ó todo-so-
beranas!
CORO
Salve, velho dos antigos tempos,
admirador de palavras queridas das
Musas. (Voltando-se para Sócrates.) E
você, sacerdote de tolices sutilíssimas,
conte-nos o de que está precisando,
pois não atenderíamos a nenhum outro
dos atuais sofistas de coisas celestes,
com exceção: de Pródico'º*S. A este
por causa da ciência e saber e a você
porque se pavoneia pelas estradas,
lança os olhos de lado, anda descalço,
suporta muitos males, e, por nossa
causa, finge importância. ..110
E ESTREPSÍADES |.
O Terra, que voz! Como é sagrada,
solene e formidável!
197 Vítima constante de Aristófanes. Cf. Acar,,
844, Paz, 446, 1295, Vesp., 19-20 etc. O veado é o
Simbolo da covardia. Cf, Hom., IL, 1,225.
108 Pederasta, devasso, frequentemente criticado
— Acar., 118; Lís., 122; Av. 831; Cav. 1374;
Vesp., 1187, etc. Não é absolutamente necessário
que estivesse assistindo à representação, embora se
tratasse, como em outras passagens, de pessoa bas-
tante conhecida que o público podia apontar com o
dedo.
109 Pródico de Céos, célebre sofista, contempo-
râneo de Sócrates.
1º No Banquete (221-B), Platão rememora esta
passagem, interpretando- -a de maneira favorável à
Sócrates, que viveria atento a tudo o que se passava
ao seu redor. Cf. Fed., 117-B.
|
355
360
365
370
AS NUVENS
SÓCRATES
Pois de fato só elas é que são deu-
sas, todo o resto são lorotas!
ESTREPSÍADES
(Assustado.)
Epa! E Zeus, em nome da Terra!
Para vocês o Olímpio não é um deus?
SÓCRATES
Que Zeus? Não diga tolices! Nem
sequer existe um Zeus!
ESTREPSÍADES
Que diz? Mas quem é que
chove?"11 Explique-me isto antes de
mais nada.
SÓCRATES
Elas, é claro!t12 Mas eu vou
demonstrá-lo com sólidas provas. Ve-
jamos, pois onde, alguma vez, você já
viu Zeus chover sem Nuvens? E, no
entanto, ele deveria chover num céu
límpido, sem a presença das Nu-.
vens a
ESTREPSÍADES
(Confuso.)
Sim, por Apolo, de fato você o com-
provou muito bem com esse raciocínio.
E, no entanto, antes eu acreditava
verdadeiramente que era Zeus que uri-
nava através de um crivo... Mas,
diga-me, quem é que troveja, coisa que
me faz estremecer?
41.0O nome de Zeus estava intimamente relacio-
nado com os fenômenos da natureza, tais como o
vento, as chuvas, os raios e os trovões. Zeus era
invocado nas secas, como o reunidor das nuvens e
protetor das chuvas. Assim se explicam a expressão
“Zeus chove” e a correspondente invocação dos
atenienses: “Chove, chove, ó caro Zeus”.
112 Vários físicos já haviam procurado explicação
racional da chuva. Cf. Anaxágoras (Diels-Kranz, fr.
19, II, 41, 11); Hipócrates, Ar. 533; e principal-
mente Anaximenes (Diels-Kranz I, 94, 8); Plut.,
Mor., 894-A: “Quando o ar se torna muito espesso,
formam-se as nuvens, e quando ainda mais se con-
densa, arrebentam as chuvas.”
13 Veja Lucrécio VI, v. 400: “Pois então, por que
Zeus nunca atira o raio sobre a terra com um céu
limpido?”
193
SÓCRATES
Elas é que trovejam, quando são
roladas...
ESTREPSÍADES
(Muito espantado.)
De que jeito, homem de todas as
audácias...
SÓCRATES
Quando se enchem de muita água e
são obrigadas a mover-se, cheias de
chuva, forçosamente, ficam dependu-
radas para baixo, e, a seguir, pesadas,
caem umas sobre as outras, arreben-
tam e estrondeiam.
ESTREPSÍADES
Mas quem é que as obriga a mover-
se; por acaso não é Zeus?
SÓCRATES
Absolutamente. É o turbilhão eté-
1.576
ESTREPSÍADES
(Estupefato.)
Turbilhão? Isso me tinha escapa-
do... Zeus não existe, e no lugar dele
agora reina o Turbilhão !... Mas você
anda não me ensinou nada a respeito
do estrondo e do trovão...
SÓCRATES
Então você não me ouviu dizer que
as Nuvens, cheias de água, quando
caem umas sobre as outras, estron-
deiam por causa da densidade?
14 Aristófanes cria uma situação cômica, a partir
de um quiproquó com a palavra “turbilhão” (dinos),
que tanto podia significar o movimento que dera
origem ao universo (cf. Plat., Fed., 99-B; Aristóte-
les, Do Céu, II, 13, 295-A), como o movimento da
rotação do céu ao redor da Terra ou ainda “vórtice,
voragem”. Eurípides popularizou o termo, aplican-
do-o ao movimento das nuvens, e é êsse o sentido
das palavras de Sócrates. Como a mesma palavra
grega, dinos, também pode significar qualquer obje-
to torneado, um vaso, surge um mal entendido que
terã sequência no fim da peça, vv. 1471 ss.
375
380
385 *
390
395
194
ESTREPSÍADES
Está bem, mas como acreditar
nisso?
SÓCRATES
Vou explicar-lhe partindo de você
mesmo. Nas Panatenéias!! 8, quando
você se encheu de caldo, depois nunca
ficou com o ventre desarranjado? E, de
repente, um reboliço não o fez crepi-
tar?
ESTREPSÍADES
Sim, por Apolo, e logo ele me faz
um alvoroço terrível e se desarran-
ja... O caldinho estrondeia como um
trovão e berra terrivelmente. Primeiro
devagar, “pa-pa, pa-pa”, depois conti-
nuando, “pa-pa-pa, pa-pa-pa”, e, quan-
do eu me desaperto, ele troveja de uma
“pa-pa-pa-pa-pa”, assim como as
Nuvens.
SÓCRATES
Bem, pense bem como você peidou
por causa desse ventrezinho tão peque-
nino... E este ar, incomensurável,
não é razoável que troveje intensa-
mente?
ESTREPSIÁDES
Ah! Então é por isso que até os
nomes são parecidos, trovão e pei-
dao. ..'18 Mas, ensine-me isto, de
onde provêm o raio relampeando fogo,
ele que, quando nos fere, fulmina al-
guns e por outros passa de raspão,
deixando-os viver? Pois esse raio, por
certo é Zeus quem o atira contra os
perjuros. ..!17
115 Um dos mais importantes festivais de Atenas.
Realizado anualmente no dia 28 do Hecatombeu
Gulho-agosto) e de quatro em quatro anos com
maior pompa (Grandes Panatenéias). Dedicada a
Atena, a festa comportava procissão, sacrifícios e
jogos. A carne das vítimas era distribuída ao povo
que se regalava com esse alimento, caro e pouco
acessível. E
118 Trocadilho forçado, talvez uma pilhéria com
os gramáticos (Rima).
117 Zeus também era invocado como “protetor dos
juramentos”; por conseguinte, Sócrates está des-
pindo a divindade de mais uma das s suas atribui-
ções.
ARISTÓFANES
SÓCRATES
Mas como, insensato, velho tonto,
cheirando a mofo! 18, seu arcaico !'1º
Se atira nos- perjuros, como é que não
fulminou nem Simão nem Cleôni-
mo'?2º nem Teoro? E, no entanto, bem
que são perjuros... Mas Zeus atira
sobre o seu próprio templo, sobre o
“Sunio!2!, promontório de Atenas”, e
sobre os altos carvalhos! Por quê?
Pois de fato um carvalho não pode
Jurar falso...
ESTREPSÍADES
(Hesitante.)
Não sei, mas apesar de tudo você
parece ter razão. . . Pois, afinal, que é
o raio?
SÓCRATES
Quando um vento seco, alçado nos
ares, fica preso nas Nuvens, lá de den-
tro fá-las inchar como uma bexiga, e
depois, arrebenta-as à força e se preci-
pita para fora, cheio de ímpeto por
causa da densidade. Em vista do ruído
e da velocidade, ele se incendeia por
própria conta! 22,
ESTREPSÍADES
Sim, por Zeus, sem saber eu mesmo
já padeci desse mal, certa vez, nas Diá-
sias. Ao assar um bucho para minha
família, distraído não lhe fiz uma
fenda; então ele inchou, depois, de
repente, estourou, emporcalhando-me
118 Entenda-se “velho tonto que cheira aos tempos
de Crono”. O antigo deus Crono muitas vezes é
simbolo de “velho, bobo, gagá”.
118 Aristófanes emprega uma palavra intraduzivel,
mais ou menos equivalente ao | nosso
“antediluviano”.
120 Criticado em muitas passagens, ora como
impostor, ora como ímpio ou adulador. Cf. Acar.,
134 ss., 1608; Vesp., 42, 47,418, 519 etc.
Va Cf Hom., Od., 2” 78. Promontório no extremo
sul da Ática, onde havia as ruínas de um templo jô-
nico de Atena e um templo de Posidão.
122 Paródia de alguma explicação dos físicos. Cf.
Anaxágoras (Diels-Kranz II, 25, 21): “Quando o
quente cai no frio, com. o ruído, produz o trovão, e,
com o pêso e grandeza da luz, o raio.”
405
410
415
420
425
AS NUVENS
até os olhos e queimando-me o ros-
TOME
CORIFEU
(A Estrepsíades.)
Ó homem que deseja em nosso con-
vívio a grande sabedoria! Como você
será feliz em Atenas e na Grécia, se
tem memória, sabe pensar, tem a des-
graça na alma e não se cansa, nem de
pé, nem parado! Se não se irrita exces-
sivamente com o frio, não deseja almo-
çar e se abstém de vinho, de exercícios
e de outras bobagens! 23, e se pensa
que o melhor, como convém a um
homem correto, é vencer, agindo, deli-
berando e combatendo com a lin-
gua!'24
ESTREPSÍADES
Mas se se trata de uma alma dura,
de uma preocupação de tirar o sono €
de um estômago parco, acostumado às
privações e que só janta manjericão!?2
não vos preocupeis, porque, se é por
isso, corajosamente poderia oferecer-
me como bigorna...
SÓCRATES
Não é verdade que você, agora, não
aceitará nenhum outro deus a não ser
os nossos, o'Caos, as Nuvens e a Lin-
gua!28, só estes três?
ESTREPSÍADES
Realmente, nem sequer conversaria
com os outros, ainda que os encontras-
423 Exigia-se dos iniciados, notadamente entre os
órficos e pitagóricos, a renúncia ao conforto físico
como condição do aperfeiçoamento do espírito.
Sobre Sócrates, cf. Xen., Mem., II, 1, e IV, 1,2.
124 A essência do ensinamento sofístico, isto é, a
capacidade de falar diante do povo, nas assem-
bléias, nos tribunais.
125 Lit. Segurelha (Satureia hortensis), que pelo
sabor acre serve como condimento. Trata-se pois de
um jantar muito pobre, feito só de ervas amargas.
126 Quanto à invocação de três divindades, veja
nota v. 264. Caos segundo Hes., Teog., 116, é o es-
paço vácuo que tudo pode conter e que a tudo pre-
cedeu. A divinização da Língua corresponde bem
ao preceito sofístico: procurar sempre vencer com
palavras. Cf. v. 419.
195
se... Nem faria sacrifícios, libações,
ou ofertaria incenso !
CORIFEU
Então, coragem! Diga-nos o que lhe
devemos fazer, pois você não há de
falhar, se nos honrar e admirar e pro-
curar ser correto.
ESTREPSÍADES
Bem, minhas senhoras, eu vos peço
esta coisinha bem pequenina; que eu
seja, no meio dos gregos, o mais hábil
no falar, com cem milhas de vanta-
gem!!27
CORIFEU
Mas vai consegui-lo de nós! Tanto
assim que, daqui em diante, nas deci-
sões da Assembléia ninguém terá mais
vitórias do que você...
ESTREPSÍADES
Não, não me faleis de decisões
importantes; pois não as ambiciono,
mas só quanto me baste para virar a
Justiça para o meu lado e escapar dos
credores!..
CORIFEU
Então encontrará o que almeja, pois
não quer grandes coisas. Coragem,
entregue-se aos nossos ministros !128
ESTREPSÍADES
Vou fazê-lo, porque confio em vós;
pois a necessidade me aperta, por
causa dos cavalos de raça e desse casa-
mento que me arruinou. (Declamando
enfático.)'2º
127 Estrepsíades considera a eloquência uma coisa
concreta, avaliando-a com medida itinerária. Cf.
Ras, 91. A mesma pilhéria aparece em Eúpolis. Fr.
94, referindo-se a Péricles. Lit. “cem estádios”. O
estádio media 600 pés gregos, 1. e., 177,6 metros.
128 Os sacerdotes que servem às deusas Nuvens,
aqui evidentemente identificados com Sócrates e
seus discípulos.
12º Inicia-se o “pnigos”, trecho que devia ser
pronunciado num só fôlego. Estrepsíades, constran-
gido pela necessidade, entrega-se de mãos atadas ao
destino. Tudo fará, contanto que não seja obrigado
a pagar as dívidas (vv. 439-456).
430
435
440
445
450
455
196
Agora então façam
exatamente o que desejam.
Este corpo que é meu
eu lhes entrego,
para apanhar, sofrer fome ou sede,
ficar sujo,
enregelado ou esfolado,
se é verdade
que vou escapar das dívidas
e, diante do mundo,
parecer atrevido,
linguarudo, ousado, resoluto,
velhaco, colâdor de mentiras,
paroleiro,
superescovado nos tribunais,
tábua de leis'3º0,
charlatão, raposa,
afiado em chicanas, macio na fala,
dissimulador, viscoso e fanfarrão,
digno do chicote,
canalha, retorcido,
chato e fila-bóia.
Se me chamam assim
os que se encontram comigo,
façam exatamente
o que lhes apraz
e, se querem,
sim, por Deméter,
ofereçam-me aos pensadores,
como um prato de tripas. ..131
CORIFEU
A resolução deste homem não é sem
audácia, mas audaciosa. Fique saben-
do, quando você aprender comigo, terá
entre os mortais uma glória que se
eleva aos céus!
130 As leis de Sólon foram originalmente inscritas
em placas móveis de madeira, que desapareceram
durante a invasão dos persas. Preservaram-se as có-
pias gravadas em lajes de pedra, que permaneciam
expostas na Acrópole, embora incompletas e muti-
ladas.
131 As enumerações são um recurso cômico que já
aparece em Epicarmo, /rs. 42, 94. Aristófanes com-
praz-se em citar todos os nomes que poderiam
caracterizar os amantes de chicanas e processos.
ARISTÓFANES
ESTREPSÍADES
Que será de mim?!32
CORIFEU
Eternamente em minha companhia,
você passará a mais invejável das
vidas humanas.
ESTREPSÍADES |
Então, acaso verei isso um dia?
CORIFEU
Muita gente sempre se assentará à
sua porta, querendo fazer-lhe confidên-
cias, conversar sobre processos e defe-
sas de grande valor, para pedir conse-
lho sobre assuntos à altura do seu
intelecto...
(A Sócrates)
Mãos à obra, trate de praticar o que
vai ensinar ao velho em primeiro lugar.
Movimente-lhe o intelecto e experi-
mente o seu pensamento.
SÓCRATES
Vamos, revele-me o seu caráter,
para que eu saiba como ele é, e, além
disso, já faça avançar contra você
novos “engenhos” 33.
ESTREPSÍADES
(Espantado .)
Quê?! Pelos deuses, você pretende
tomar-me de assalto?
SÓCRATES
Não, mas quero fazer-lhe umas
perguntinhas. Por acaso você tem boa
memória? .
132 Esta cena sugere uma paródia de tragédia ou
de rituais de iniciação em mistérios religiosos. To-
mada a resolução, vêm as dúvidas, o pavor do
desconhecido (vv. 461-471).
133 Cena de transição. Exame inicial do novo can-
didato ao “pensatório” (vv. 478-509). Note-se o qui-
proquó. Sócrates fala dos novos expedientes da edu-
cação sofística e o velho pensa em máquinas de
guerra.
460
465
470
475
480
485
490
495
AS NUVENS
ESTREPSÍADES
Sim, por Zeus, de dois jeitos. Quan-
do me devem alguma coisa, tenho
muito boa memória, mas, ai de mim,
quando devo, sou completamente des-
memoriado. ..
SÓCRATES
Bem, você tem aptidões naturais
para falar?
ESTREPSÍADES
Para falar, não, mas para fa... .lhar
Si oo
SÓCRATES
Então como será capaz de apren-
der?
ESTREPSÍADES
Sossegue, muito bem !
SÓCRATES
Bem, quando eu lhe propuser algu-
ma questão erudita sobre as coisas
celestes, trate de surripiá-la bem de-
pressa...
ESTREPSÍADES
Quê? Vou comer sabedoria, como
um cachorro?
SÓCRATES
Esse daí é um homem ignorante, um
bárbaro! Eu témo, meu velho, que
você precise dumas pancadas... Ora
vejamos, que faz quando alguém lhe
bate?
ESTREPSÍADES
Apanho. Depois espero um pouco e
chamo testemunhas; depois, deixo pas-
sar ainda mais um momentinho e vou
aos tribunais! * *.
134 Alusão à mania judiciária dos atenienses. Com
esse argumento, Estrepsíades acaba convencendo
Sócrates a aceitá-lo como discípulo.
197
SÓCRATES
Está bem. Então, tire o manto !'3 5
| ESTREPSÍADES
Fiz algum crime?
SÓCRATES
Não, mas a lei é que se entre sem
manto.
ESTREPSÍADES
Mas não vou entrar para procurar
coisas roubadas...
SÓCRATES
Tire! Por que tagarela? .
ESTREPSÍADES
(Obedecendo.)
Então pelo menos diga-me o seguin-
te: se eu for diligente e aprender com
vontade, com que discípulo ficarei
parecido?
500
SÓCRATES
No aspecto, você será igualzinho a
Querefonte...
ESTREPSÍADES
Ai, infeliz de mim! Ficarei meio
morto !
SÓCRATES
Chega de tagarelices! Mas trate de sos
seguir-me. Vamos, logo, depressa, por
aqui...
ESTREPSÍADES
Então antes dê-me aqui nas mãos ao
menos um bolinho de mel... Como
tenho medo, descendo aí dentro... É
135 Prática habitual nas cerimônias de iniciação.
Como a vitima de um roubo, para procurar objetos
roubados nas casas dos suspeitos, devia apresentar-
se “sem manto”, nasce novo mal-entendido.
sI10
S15
s20
198
como se fosse à caverna de Trofô-
NO OS
SÓCRATES
Vamos, ande. Por que você fica per-
dendo tempo ao redor da porta”?
(Entram ambos no
“ “pensatório ”)
CORO
Então!3 7 vá, seja bem sucedido por
sua coragem! Boa sorte a este homem,
que já bem avançado nos limites da
idade, pinta a própria natureza com
ações juvenis e cultiva a sabedoria!
CORIFEU
(Ao público.)'38
Espectadores, vou dizer-vos a verda-
de sem rebuços. Sim, em nome de
Dioniso'3º, o que me criou. Tomara
eu possa vencer e ser considerado um
bom poeta, assim como é verdade que
vos julguei espectadores sagazes e esta
a mais engenhosa de minhas comédias
e achei conveniente fazer-vos prová-la
em primeiro lugar, esta peça que me
deu o maior dos trabalhos! *º. Mas,
138 Filho de Ergino, rei de Orcômeno. Segundo a
lenda, foi tragado por uma fenda do solo e, de sua
morada subterrânea, em Leobadéia da Beócia, pas-
sou a proferir oráculos. O consulente, vestindo ape-
nas uma túnica, após vários ritos de purificação,
penetrava na caverna e descia por uma abertura
afunilada por onde só podia passar um corpo huma-
no, levando em cada mão um bolinho de mel a fim
de apaziguar as serpentes e outros animais selva-
gens.
137 Inicia-se a Parábase, o intermezzo não dramá-
tico em que o poeta fala diretamente aos espectado-
res. À parâbase tinha uma estrutura mais ou menos
rígida e o seu primeiro movimento eram esses pou-
cos versos que serviam de elemento de ligação com
a cena anterior (vv. 510-517).
138 Parábase propriamente dita.
138 É perfeitamente natural a invocação a Dioniso,
deus protetor da arte dramática, e, portanto, dos
poetas cômicos.
14º Referência ao insucesso das Nuvens em sua
primeira representação, quando Aristófanes só lo-
grou obter o terceiro lugar. O poeta não pôde ocul-
tar o desapontamento, pois esperava melhor aco-
lhida em' vista dos novos recursos cômicos que
havia criado: originalidade do assunto, citações e
pastichos de doutrinas filosóficas, etc.
ARISTÓFANES
depois, bati em retirada, vencido por
homens grosseiros, eu que não o mere-
cia! 41, É isso que vos censuro, a vós
que sois inteligentes, em cuja homena-
gem tanto me esforcei. Mas nem
mesmo assim, espontaneamente, nunca
hei de trair os espertos. Desde que,
neste mesmo lugar o Virtuoso e o
Pervertido! “2 receberam os maiores
elogios de homens aos quais é até doce
falar, e eu — por ser ainda virgem e
não ter o direito de parir — expus a
minha criança, que uma outra donzela
recolheu e adotou! 3 e vós generosa-
mente nutristes e educastes; desde esse
tempo, tenho penhores sinceros da
vossa opinião. Agora então, como
aquela famosa Electra! 44, esta comé-
dia veio ver se poderá encontrar em
algum lugar espectadores tão inteligen-
tes. De fato, quando vir, hã de reconhe-
cer os cachos do seu irmão... Obser-
vai como esta comédia é naturalmente
sensata; pela primeira vez não se apre-
sentou depois de costurar diante de si
um penduricalho de couro grosso e de
ponta vermelha! *º para provocar o
141 Os rivais premiados: Amípsias (Conos) e Cra-
tino (Garrafa).
"42 Alusão à sua primeira comédia Convivas,
representada em 427 a.C., com a segunda classifica-
ção. Nessa peça já era abordado o problema da edu-
cação contemporânea, de suas afinidades com as
Nuvens (cf. vv. 534-535).
143 Muito jovem, Aristófanes não quis desde logo
enfrentar rivais mais velhos e de grande fama; por
isso produziu :a peça com o nome de Calistrato ou
de Fidônides. A tradição de uma lei que exigia a
idade mínima de trinta anos para o poeta cômico
parece-nos sem consistência. Embora a exposição
de crianças fosse condenada pelo povo como uma
ofensa a Zeus, protetor das famílias, não era proi-
bida por lei e era comum em Atenas, tendo-se torna-
do ainda mais frequente no IV século a.C., con-
forme se pode verificar na Comédia Nova.
144 Reminiscência das Coéforas de Ésquilo (vv.
168 ss.) em que Electra reconhece o irmão por uma
mecha de cabelos. Eurípedes na Electra faz uma cri-
tica dessa passagem esquiliana (vv. 590 ss.)
145 Os atores de comédia apresentavam simula-
cros de falos dependurados debaixo da túnica curta.
O próprio Aristófanes não aboliu esse hábito, mas
provavelmente limitou a um ou dois os atores qué
usavam o falo. Cf. v. 734 e também Acar., pp. 158,
592; Vesp., 1343; Lis., 991, 1077. |
|
525
530
535
540
545
550
AS NUVENS
riso das crianças. Não ridiculariza os
carecas" CP. ce não dança «o
“kórdax”! 7: nem se trata de um velho
que recita os versos e bate com o bas-
tão no parceiro, disfarçando gracejos
indecentes! 48 nem se precipita em
cena carregando tochas, nem grita uh!,
uh!...14º Mas veio confiada em si
mesma e nos seus versos. E eu, sendo
um poeta dessa categoria, não me
envaideço nem procuro enganar-vos
representando duas ou três vezes os
mesmos assuntos, mas sempre me
adestro com habilidade, introduzindo
novos recursos, totalmente diversos
uns dos outros e todos engenhosos. Eu,
quando Cleão! 8º era poderoso, gol-
peei-o no ventre, mas não tive a audá-
cia de pisoteá-lo de novo, quando se
achava prostrado no chão... Mas os
outros, porque Hipérbolo! *! uma vez
recebeu um golpe, sempre espezinham
o coitado e a sua mãe... Primeiro Êu-
polis, o perverso, puxou para cena o
seu Maricas" º2 depois de estropiar os
146 Era hábito zombar da calvície; além disso, o
próprio Aristófanes era calvo (cf. Paz, 767).
147 Dança provavelmente originária do Pelopo-
neso, impregnada de elementos licenciosos e burles-
cos. O próprio Aristófanes faz Filocleão dançar o
“kórdax”, nas Vespas, vv. 1516 ss.
148 Provável alusão ao ator Hermão.
149 Crítica das grosserias da farsa megariana.
Nota-se que Aristófanes apelou para esse recurso
nesta mesma peça: cf. cena final do incêndio da
casa de Sócrates (vv. 1485 ss.).
30 Demagogo que sucedera a Péricles e adquirira
grande prestígio após a captura de Esfactéria (cf.
nota v. 186) — Cf. Tuc. Il e HI, passim. Aristófanes
atacara-o violentamente já nos Babilónios e depois
nos Cavaleiros (424 a.C).
151 Demagogo ateniense que começou a vida
como fabricânte de lâmpadas, tendo conquistado
grandes posições entre os populistas. É criticado
nos Cavaleirôs (vv. 734 e 1315) e condenado em
termos violentos por Tucídides, VIII, 13. O próprio
Aristófanes ridiculariza a mãe de Hipérbolo, tida
como usurária. Cf. Tesmof., vv. 842 ss.
152 FEupolis, um dos três grandes da comédia, sati-
rizou Hipérbolo, chamando-o “Maricas”, assim
como Aristófanes atacara Cleão como
“Paflagônio”. É possível que houvesse grandes
semelhanças entre as duas peças. Todavia, nos Bap-
tas, Eupolis, refuta essa acusação, afirmando que
havia colabôrado na composição dos Cavaleiros.
199
meus Cavaleiros, acrescentando uma
velha bêbada por causa do “kórdax”,
aquela que Frínico! 8º tinha apresen-
tado outrora, aquela que a baleia ia
comer... Depois Hermipo! 5º fez
novamente uma peça contra Hipérbolo
e já todos se encamiçam contra Hipér-
bolo, imitando as minhas imagens das
enguias...!ººS Nessas condições,
quem ri desses gracejos que continue
não se divertindo com os meus. Mas se
achais alguma graça em mim e nas mi-
nhas invenções, para o futuro haveis de
parecer homens de bom senso! 8 8.
PRIMEIRO SEMICORO
(Estrofe)' º? Zeus, senhor dos céus,
poderoso, soberano dos deuses, neste
coro eu invoco em primeiro lugar; e o
possante guardião do tridente! 88, sel-
vagem sacudidor da Terra e do mar
salgado; e o nosso pai famosíssimo,
venerando Éter" 5º, nutridor de tudo; e
o condutor de cavalos! 8º, que, com
raios multiluminosos, envolve a planí-
cie da Terra, poderosa divindade entre
deuses e mortais.
153 Poeta cômico que estreou em 429 a.C.
154 Poeta cômico que teve a primeira vitória em
435. Na peça Vendedoras de Pão, atacou direta- .
mente Hipérbolo e sua mãe.
185 Cf. Cav., vv. B64 ss.
156 Na parábase eram comuns os elogios aos
espectadores (cf. vv. 520 ss.) e as promessas de feli-
cidade (cf. vv. 1115 ss.).
157 Ode, cantada pelo primeiro semicoro: versos
líricos (vv. 563-574). Observe-se que tanto na ode
como na antode são as próprias Nuvens que invo-
cam os deuses olímpicos. Como a parábase emitia a
opinião pessoal do poeta, este se julga na obrigação
de retratar-se de uma possível acusação de impie-
dade após as censuras dirigidas aos deuses, muitas
das quais haviam ficado sem resposta.
158 Posidão (Netuno), deus dos terremotos e das
águas.
159 Identificado com o Ar. É a única divindade
sofistica invocada pelo coro.
160 Hélio, personificação da divindade do Sol,
venerado também como o condutor da carruagem
que diariamente percorria o céu, de leste a oeste,
portadora da luz. As vezes identificado com Apolo
(cf. vv. 225 ss.).
555
560
565
570
575
580
585
590
200
CORIFEU? 81
Espectadores sapientissimos, volvei
a atenção para cá. Injustiçadas, nós
vos censuramos, aqui em vossa presen-
ça. Pois embora prestemos à cidade
mais serviços do que todos os outros
deuses, só a nós, dentre as divindades,
nem ofereceis sacrifícios nem fazeis
“libações, nós que velamos por vós. De
fato se houver alguma expedição total-
mente sem juízo, logo, ou trovejamos
ou chuviscamos" 82. No momento em
que elegieis estratego o curtidor Pafla-
gônto, odioso aos deuses, nós fran-
ziamos as sobrancelhas e protestá-
vamos: “o trovão irrompeu em meio
aos relâmpagos”! 83, a Lua abandonou
os seus caminhos, o Sol logo puxou
para si a sua centelha e dizia que não
se mostraria diante de vós, se Cleão
fosse estratego! 8 4. E, apesar disso, vós
o elegestes. Dizem que as más resolu-
ções são próprias desta cidade! 85, e
que, no entanto, os deuses convertem
no melhor todas essas bobagens que
fazeis. .. Facilmente demonstraremos
como mais este erro vos poderá ser
útil. Se condenardes Cleão, o gavião,
por roubo e corrupção e amordaçardes
o pescoço dele com o afogador' 88,
novamente, como de costume, embora
cometêsseis um erro, o negócio há de
reverter no melhor para a cidade!
161 Epirrema: — o coro dirige-se novamente aos
espectadores. Agora fala em nome das Nuvens (vv.
575-594).
162 Referência à superstição de que trovoadas e
chuvas eram sinal do desagrado de Zeus, determi-
nando o adiamento das reuniões da Assembléia. Cf.
Acar., v. 171.
163 Paródia de versos do Teucro de Sófocles.
184 Houve um eclipse da Lua em 425 (outubro) e
um do Sol em 424 (março), por conseguinte durante
o governo de Cleão.
165 Fra proverbial a insensatez ateniense, todavia
sempre favorecida pela boa vontade dos deuses. Cf.
Cav., 1055, Ass., 473.
188 Referência ao hábito de prender o pescoço dos
ladrões com o afogador ou golilha, para impedir
que engolissem objetos de valor. Aristófanes insiste .
nas críticas dos Cavaleiros, em que acusava Cleão
de peculato e concussão. Cf. Cav., v. 956, passim.
ARISTÓFANES | |
SEGUNDO SEMICORO
(Antístrofe) E tu também ao meu
lado, Senhor Délio! 87, que habitas a
Cíntia, rochedo de altos cornos; e tu,
bem-aventurada, que moras em
Éfeso! 88 numa casa toda feita de ouro,
onde as donzelas da Lídia te veneram
com grandeza; e a nossa deusa nacio-
nal, regente da égide" 8º, Atena prote-
tora da cidade; e o senhor da rocha do
Parnaso! ?º, reluzente com as suas
tochas, notável entre as Bacantes de
Delfos" 7*, amigo do komos! 72, Dio-
niso.
CORIFEU
Quando estávamos prontas para vir
para cá, a Lua encontrou-se conosco é
pediu-nos que vos disséssemos, inicial-
mente, que saúda os atenienses e os
seus aliados! 73. Depois, disse-nos que
estã irritada, pois sofreu tratamentos
indignos, embora vos auxilie a todos,
não com palavras, mas de modo claro.
Em primeiro lugar, porque vos faz eco-
nomizar todos os meses não menos de
uma dracma de tochas, tanto que todos
dizem, quando saem à noite: “Escravo,
não compre a tocha! 74, pois é bela a
luz do luar”. Ela diz ainda que vos faz
187 Apolo, que possuía na planície de Delos, lugar
de seu nascimento, um templo famoso, ao pé do
monte Cinto.
168 Ártemis, a quem fora consagrado um grande
templo em Éfeso, região da Ásia Menor, às vezes
confundida com a Lídia.
169 Epíteto de Atena usado só nesta passagem.
17º Ponto extremo da cadeia de montanhas que se
situa ao norte de Delfos. Era consagrado a Apolo e
também a Dioniso, desde tempos muito antigos.
171 As mênades, mulheres acompanhantes do sé-
quito de Dioniso.
172 Lembramos que os “komoi” eram as festas
agrárias que deram origem à comédia.
173 Crítica à saudação usada por Cleão em seus
documentos oficiais, e, especialmente, na carta em
que comunicava a vitória de Esfactéria — cf.
Escol., v. 612 — Eup., fr. 322. A saudação é exten-
siva aos aliados que normalmente assistiam as
Grandes Dionisíacas (mas não às Lenéias. Cf.
Acar., vv. 505 ss.).
174 Tochas resinosas, utensílio indispensável nas
viagens e saídas noturnas para alumiar os cami-
nhos.
z
595
600
605
610
615
620
625
AS NUVENS
outros benefícios, e vós contais os dias
de modo totalmente errado e fazeis
uma atrapalhada de alto a baixo. Nes-
sas condições, ela afirma que os deuses
a ameaçam, quando são esquecidos
num banquete, e voltam para casa sem
ter encontrado a sua festa, de acordo
com o cálculo dos dias!?7*. Assim,
quando deveis fazer sacrifícios, tortu-
rais e julgais! 7 8. Muitas vezes, quando
nós, os deuses, jJejuamos! 77, lamen-
tando Memnão ou Sarpedão! 78, vós
fazeis libações e dais risadas; e foi por
isso que Hipérbolo, sorteado para ser
deputado em Delfos! 7º, depois foi des-
pojado de sua coroa por nós, os deu-
ses, pois assim saberá melhor que é
preciso contar os dias da vida de acor-
do com a Lua!8º.
SÓCRATES
(Saindo do “pensatório ”)
Não, pela Respiração! Não, não,
pelo Caos e pelo Ar!!'81? Nunca vi um
homem tão bronco, cheio de embara-
175 Crítica à confusão em que redundou a reforma
do calendário, baseada em estudos do matemático
Metão, que procurava adaptar os meses lunares ao
ano solar. Essa reforma começou a ser adotada a
partir do verão de 432 a.C.
176 Em dias santificados não havia sessões no tri-
bunal. Referência ao hábito de submeter os escravos
à tortura a fim de obter testemunhos.
177 Parece que o jejum era de praxe entre os parti-
cipantes de certas festividades religiosas. Nas
Tesmofórias havia um dia de Nestéia.
178 Heróis que colaboraram com Priamo na defesa
de Tróia. Memnão era o rei mítico da Etiópia,
morto por Aquiles e imortalizado por Zeus, Od., IV,
188. Sarpedão, comandante dos lícios, morto por
Pátroclo e pranteado por Zeus, foi levado a Lícia,
onde Sono e Morte o sepultaram, II, XVI, 426 ss.;
677 ss.
179 “Hieromnémon”, um dos magistrados religio-
sos que constituíam as deputações das cidades à
Anfictiônia de Delfos, federação jurídico-religiosa
que reunia vários Estados gregos. Não há confirma-
ção histórica das relações de Hipérbolo com esse
organismo.
180 Segundo o testemunho de Diógenes Laércio,
Sólon recomendara aos atenienses que contassem os
dias de acordo com a Lua.
181 Sócrates invoca uma nova trindade divina,
aliás, os seus deuses variam sempre... Cf. vv.
264-5; 242; 773 e 814.
201
ços, desajeitado e esquecido ! Um indi-
víduo que, quando estuda algumas
bagatelas escolhidas, já se esquece
delas ainda antes de aprendê-las. Não
importa, vou chaniá-lo aqui para a luz
do dia, para fora da porta. Onde está
Estrepsiades”? Trate de sair com o leito
sagrado !182
ESTREPSÍADES
(Vem carregando um ban-
quinho.)
Mas os percevejos não me deixam
levá-lo para fora!
SÓCRATES
Rápido, ponha isso no chão e preste
atenção.
ESTREPSÍADES
SÓCRATES
Então vamos, o que é que você dese-
Ja aprender agora mesmo, em primeiro
lugar, daquelas coisas que nunca lhe
ensnaram.?'83 Diga-me, serão por
acaso as medidas, os versos ou os
ritmos?18 4
ESTREPSÍADES
As medidas, eu sim! Pois há pouco
fui tapeado por um mercador de fari-
nha numa medida dupla...
SÓCRATES
Não: é isso que lhe pergunto, mas
que medida você julga mais bela, o tri-
metro ou o tetrâmetro”?
182 Após a parábase, sucedem-se as cenas cômi-
cas, alternadas com estrofes líricas. Prosseguimento
e fim da educação de Estrepsíades (vv. 627-888).
183 Note-se o tom pedante de Sócrates, coinci-
dindo com a arrogância de Protágoras em relação
aos seus discípulos. Cf. Plat., Prot., 318-D.E.
184 Provável referência a Protágoras (cf. Plat.,
Prot., 391), já que Sócrates não tratava desses
assuntos. O mestre fala das medidas rítmicas dos
versos, e Estrepstades entende mal, pensando em
medidas de capacidade.
630
635
640
645
650
202
ESTREPSÍADES
Nada me parece superior ao quarti-
oe a
SÓCRATES
Você diz tolices!
ESTREPSÍADES
Então aposte comigo que o quarti-
lho não tem quatro medidas. ..
SÓCRATES
Vá pro inferno ! Como você é bron-
co e totalmente ignorante! Hum, tal-
vez possa aprender os ritmos mais
depressa!...
ESTREPSÍADES
De que me servirão os ritmos para o
pão de cada dia?
SÓCRATES
Antes de tudo, para ser um homem
de espírito na sociedade, alguém que é
capaz de perceber dentre os ritmos
qual o enóplio!ê * e, ao contrário, qual
o dátilo.
ESTREPSÍADES
O dátilo? Por Zeus, mas eu sei!
SÓCRATES
Então diga... (apontando o indica-
dor.) Qual é o outro “dátilo” além
deste dedo aqui?! 8 &
ESTREPSÍADES y
(Erguendo o dedo médio.)
Outrora, quando criança, eu usava
este aqui. ..!8?
SÓCRATES
Você é um imbecil, um desajeita-
dota,
185 Ritmo adequado às danças guerreiras.
185 Trocadilho, pois dátilo tanto é dedo como “pé”
(medida rítmica —i H)).
187 O gesto de erguer o dedo médio, apontando-o a
alguém, significava que se considerava essa pessoa
como um devasso, habituado a práticas contra a
natureza.
ARISTÓFANES
ESTREPSÍADES
Coitado! Fois não é nada disso que
desejo aprender...
SÓCRATES
O quê?
ESTREPSÍADES
Aquilo, aquilo, o discurso mais
injusto... 188
SÓCRATES
Mas antes disso você deve aprender
outras coisas. Quais são exatamente os
quadmápedes machos”
ESTREPSÍADES
Mas eu conheço perfeitamente os
machos, se é que não estou louco...
Carneiro, bode, touro, pássaro. ..!8º
SÓCRATES
Vê o que lhe está acontecendo?
Você chama a fêmea de “pássaro”,
com o mesmo nome do macho.
ESTREPSÍADES
Como então? Diga-me!
SÓCRATES
Como? “Pássaro” e “pássaro”...
ESTREPSÍADES
Sim, por Posidão! E agora como
devo chamá-los?
SÓCRATES
“Pássara” e o outro “passarão”.
ESTREPSÍADES
“Pássara”. Está bem; pelo
Ar!...190º Nessas condições, só por
188 Note-se a impaciência de Estrepsiades, que só
quer aprender uma coisa, o Discurso Injusto.
189 Critica às teorias de Protágoras, principal-
mente sobre a “Orioépia”. Cf. Arist., Ret., II, 5,
1407; Plat., Crat., 391-B. Sócrates, preocupado
com as sutilezas gramaticais, não percebe que
Estrepsíades incluiu uma ave entre os quadrúpedes.
Fomos obrigados a alterar o original a fim de man-
ter o jogo de cena e de palavras, o que seria impos-
siível com as palavras “galo e galinha”. Cf. vv. 874
ss.
190 Observem-se os progressos de Estrepsíades,
que já invoca uma divindade sofística. Cf. v. 814.
|
t
1
655
660
665
670
675
680
AS NUVENS
este único ensinamento eu vou encher
de farinha toda a sua gamelão!º1.
SÓCRATES
Vê? De novo ainda mais essa! Você
diz “gamelão”, masculino, quando é
feminina.
ESTREPSÍADES
Como? Eu chamo o “gamelão” de
macho?
SÓCRATES
Perfeitamente, como se dissesse
Cleônimo.
ESTREPSÍADES
Mas de que jeito? Explique-me!
SÓCRATES
Para você, meu caro, “gamelão”
vale a mesma coisa que Cleôni-
HO ie
ESTREPSÍADES
Mas, meu bem, Cleônimo não tinha
“gamelão”; ele costumava amassar
num pilãozinho redondo...!93 E
daqui por diante como devo-dizer?
SÓCRATES
Como? “A gamela”, como você diz
“a Sóstrata”.
ESTREPSÍADES
“A gamela”?? Feminina?
SÓCRATES
Está certo.
ESTREPSÍADES
Mas isso seria, a gamela, a Cleôni-
ma...
'91 A pilhéria desenvolve-se em torno do uso de
uma palavra feminina da 2.º declinação que, por
conseguinte, tem a desinência o que, teoricamente, é
própria de masculinos.
192 (Vv. 674-680). Sócrates refere-se ao gênero
gramatical; Estrepsíades pensa no sexo e nos modos
efeminados de Cleônimo e provavelmente também
de um Sóstrato qualquer.
193 Alusão à pobreza ou à devassidão de Cleôni-
mo.
SÓCRATES
Você ainda deve aprender mais
sobre os nomes próprios; quais são Os
masculinos e quais os femininos?
ESTREPSÍADES
Mas bem que eu sei quais são os
femininos...
SÓCRATES
Então diga.
ESTREPSÍADES
Luzila, Filina, Clitágora, Demétria.
SÓCRATES
Quais são os nomes masculinos?
ESTREPSÍADES
Milhares... Filóxeno,
Amínia...!194
Milésias,
SÓCRATES
Coitado ! Mas esses não são mascu-
linos!
ESTREPSÍADES
Para vocês não são masculinos?
SÓCRATES
De modo algum! Encontrando-se
com Amínia como você lhe chama-
ria?!98
ESTREPSÍADES
Como? Assim: “Aqui, aqui, Amí-
nia”!
SÓCRATES
Vê? Você chama Amínia de mu-
lher!
ESTREPSÍADES
Pois não é justo, se ela não faz o ser-
viço militar!?... (Impaciente) Mas
por que aprendo o que todos nós
sabemos?
184 Indivíduos efeminados: Filóxeno é mencio-
nado também nas Vespas, 84.
185 Maliciosamente Sócrates pede o vocativo que
nos masculinos da 1.º declinação termina em a,
como nos femininos.
203
690
695
700
705
204
SÓCRATES
Por Zeus, não é isso. (Aponta o
leito.) Mas deite-se aquie...
ESTREPSÍADES
Que vou fazer?
SÓCRATES
. . Imagine algum expediente a res-
peito dos seus negócios.
ESTREPSÍADES
Não, lá não, eu lhe imploro ! Mas se
é preciso, deixe-me pensar nessas coi-
sas deitado no chão. ..!º96
SÓCRATES
Não é possível de outra maneira.
ESTREPSÍADES
Ai, desgraçado de mim! Que pena
hoje vou pagar aos percevejos!
CORO
(Estrofe)'º?7 Pense, examine, con-
centre-se, revirando-se de todas as
maneiras! Rápido, se cair num emba-
raço'º8, salte para outro pensamento
do seu intelecto... Que o doce sono
dos seus olhos se afaste!
(Pausa. Estrepsíades geme e revi-
ra-se no leito.)
ESTREPSÍADES
Ai, al!'99
| CORO
Que você estã padecendo? Por que
se consome?
196 Note-se a comicidade da cena. A princípio
tem-se a impressão de que Estrepsíades não quer
pensar nos seus negócios, mas depois percebe-se
que as lamentações resultam da sujeira da casa de
Sócrates, cheia de insetos importunos (cf. v. 699).
197 Ode — O coro movimenta a ação; Estrep-
siades deve pensar e pôr em prática os seus
conhecimentos.
188 Referência ao método socrático de procurar
repentinamente um novo rumo de investigações, ao
deparar com alguma dificuldade grave ou insucesso.
Cf. v. 743.
19º Inicia-se um diálogo lírico de tonalidade paté-
tico-cômica que sugere uma paródia de cena trági-
ca, possivelmente de Eurípides. Cf. Hécuba, vv.
160-161. São as dores do parto intelectual de
Estrepsiades.
ARISTÓFANES
ESTREPSÍADES
(Em tom patético.)
Eu morro, infeliz de mim ! Saídos do
leito sagrado mordem-me os
per...sianos!2ºº Dilaceram-me o
peito, devoram-me a alma, arrancam-
me os testículos, perfuram-me o rabo e
acabam comigo!...
CORIFEU
Ora vamos, não se desespere tan-
LOS
ESTREPSÍADES
E como não? Se meus bens sumi-
ram, Sumiu o meu corpo, sumiu a
minha alma, sumiram os sapatos... E
- além disso, além desses males, can-
tando de sentinela?!
sumo também !
quase que eu
SÓCRATES
Eh, você aí! Que faz, não está
pensando?
ESTREPSÍADES.
Eu, sim, por Posidão !
SÓCRATES
E, então, em que pensou?
ESTREPSÍADES
Se alguma coisa minha vai escapar
dos percevejos...
| SÓCRATES
Você vai perecer miserávelmente !
(Sai, impaciente.)
ESTREPSÍADES
Mas, meu bem, eu já estou morto!
CORIFEU
Não se deve afrouxar e sim prote-
ger-se2º2, Pois é preciso achar mente
espoliadora e meios de enganar.
200 Pilhéria, pois clevia esperar-se o nome de um
inseto como percevejos.
201 Nas vipílias, as sentinelas costumavam cantar
para afastar o sono. Cf. Esq., Agam., vv. 15-16.
202 Para subtrair a mente das influências e impres-
sões do exterior, cf. v. 740. Cf. Plat., Fedro, 237-A:
710
715
720
725
730
735
740
AS NUVENS
ESTREPSÍADES
(A parte.)
Ai de mim, quem é que poderia
arranjar-me uma idéia espoliativa,
feita de peles de carneiro?
SÓCRATES
(De volta.)
Vejamos, em primeiro lugar, vou
observar o que faz esse fulano... Eh,
você está dormindo?
ESTREPSÍADES
Não, por Apolo, eu não!
SÓCRATES
Tem alguma coisa?
ESTREPSÍADES
Não, por Zeus, eu é que não !
SÓCRATES
Nada mesmo?
ESTREPSÍADES
(Erguendo a mão debaixo
do manto.)
Nada, exceto este “pau” na mão
dureitas AOS
SÓCRATES
Você não vai cobrir-se e pensar
depressa nalguma coisa?
ESTREPSÍADES
No quê? O Sócrates, diga-me!
SÓCRATES
Trate primeiro de achar o que deseja
e diga-me.
ESTREPSÍADES
Você já ouviu milhares de vezes o
que eu quero, é acerca dos juros...
Como não pagar a ninguém...
SÓCRATES
Então cubra-se, relaxe aos poucos o
pensamento sutil e reflita sobre os seus
203 Veja nota v. 538.
205
negócios, distinguindo bem e obser-
vando.
ESTREPSÍADES
Ai de mim! (Salta do leito.)
SÓCRATES
Fique quieto! E se tiver alguma difi-
culdade nos seus raciocínios, deixe-a e
passe adiante. Depois, movimente-a de
novo com o pensamento e pondere?º 4.
E ESTREPSÍADES
O Socratesinho querido !
| SÓCRATES
Que é, velho?
ESTREPSÍADES
Tenho um pensamento espoliador de
Juros!
SÓCRATES
Mostre-o.
ESTREPSÍADES
Diga-me agora...
SÓCRATES
Quê?
ESTREPSÍADES
E se eu comprasse uma mulher feiti-
ceira da Tessália?ºº, e, de noite,
puxasse a Lua para baixo, e, a seguir, a
fechasse num cofrezinho redondo,
como se fosse um espelho, e depois a
conservasse bem guardada?
SÓCRATES
Mas então de que isso lhe serviria?
ESTREPSÍADES
Para quê? Se a Lua nunca mais apa-
204 Nova alusão aos métodos do raciocínio socrá-
tico. Cf. v. 700 ss.
205 (Os tessálios apregoavam que Medéia havia
perdido a caixa de drogas em seu território, cujas
ervas, desde então, se tornaram dotadas de poderes
mágicos. As mulheres da Tessália tinham fama de
espertas em artes de bruxarias, gabando-se até da
habilidade de puxar a Lua para baixo do céu. Cf.
Plat., Górg., 513-A, Verg., Buc. VIII, 6.
743
750
755
760
765
206
recesse em parte alguma, eu não paga-
ria OS juros...
SÓCRATES
E por que motivo?
ESTREPSÍADES
Porque .o dinheiro se empresta ao
INES Ae
SÓCRATES.
Está bem. Mas agora vou propor-lhe
uma outra engenhosa questão. Se al-
guém processasse você numa causa de
cinco talentos?º 7, diga-me, como po-
deria anulá-la?
ESTREPSÍADES
Como, como? Não sei, mas devo
procurá-lo.
SÓCRATES
Então não enrole sempre o pensa-
mento à sua volta2º8, Solte a inteli-
gência para o ar, como um besouro
amarrado pelo pé2ºº.
ESTREPSÍADES
Já encontrei uma anulação muito
engenhosa para esse processo, tanto
que você mesmo há de concordar
comigo.
SÓCRATES
Qual é?
ESTREPSÍADES
Você já viu nas lojas dos droguis-
tas?1º aquela pedra, bonita, transpa-
206 Veja nota v. 17.
207 Quantia que, segundo Aristófanes, Cleão havia
recebido das cidades aliadas de Atenas. Cf. Babiló-
nios, Acar., v. 6, Paz, v. 171.
208 Sócrates incita Estrepsíades a não ficar preso a
um único método, sem refletir sobre outras possibi-
idades.
209 () besouro dourado (Melolontha vulgaris), in-
seto muito comum nas regiões temperadas do sul da
Europa. Ás crianças costumavam usá-lo como
brinquedo.
210 (Os remédios eram preparados e vendidos pelos:
próprios médicos. Geralmente os droguistas ven-
diam poções e toda sorte de amuletos e quinqui-
lharias que os curandeiros e charlatães recomenda-
vam.
ARISTÓFANES
E
rente,-com-a qual se acende o fogo?
SÓCRATES
Está falando do cristal?211
ESTREPSÍADES
Sim. Ora, que aconteceria se eu a
tomasse no momento em que o escri-
vão estivesse anotando a queixa, de
longe, assim, parado diante do Sol, e
fizesse derreter os documentos?"? do
meu processo?
SÓCRATES
Você fala com sabedoria. Sim, pelas.
Graças !?13
ESTREPSÍADES
(bxultante.)
Ih, como estou contente! Consegui
anular um processo de cinco talen-
LOS aa
SÓCRATES
Vamos depressa, então, agarre is-
TOx cadoo eo
ESTREPSÍADES
Quê?
SÓCRATES
Como você escaparia, se durante a
defesa de um processo estivesse na imi-
nência de ser condenado por falta de
testemunhas?
ESTREPSÍADES .
De modo muito fácil e simples.
| SÓCRATES
Então diga.
ESTREPSÍADES
Pois já digo. Quando não houvesse
mais do que um único processo antes
211 Vidro ou espelho ustório, muito raro, e consi-
derado uma preciosidade.
212 As tabuinhas cobertas de cera em que se regis-
travam as queixas.
213 Divindades que personificavam o encanto, a
graça e a beleza.
214 Cf.v.490ss.
i
770
775
780
785
AS NUVENS
de chamarem o meu?" 8, eu iria cor-
rendo enforcar-me...
SÓCRATES
Você diz tolices!
ESTREPSÍADES
Não, pelos deuses, eu não ! Pois nin-
guém apresentará uma queixa contra
mim, se eu estiver morto...
SÓCRATES
(Impaciente.)
Você está sonhando. Vá-se embora,
não poderia ensiná-lo mais!
ESTREPSÍADES
(Desesperado.)
Por quê? Não, Sócrates, pelos deu-
ses!
SÓCRATES
Mas logo você se esquece até das
menores coisinhas que aprendeu em
primeiro lugar !21 6
ESTREPSÍADES
Vou ver... (Hesitando.) Qual foi a
primeira coisa? Qual foi a primeira?
Que era, aquela em que costumamos
amassar os alimentos?2! 7 Ai de mim,
o que era mesmo?
SÓCRATES
Você não vai sumir e arrebentar no
inferno? Velhote mais esquecido e
imbecil!
ESTREPSÍADES
As, desgraçado de mim! Então que
será de mim? Pois vou morrer, porque
não aprendi a virar a língua!2'8 Ó
215 A ordem do dia nos tribunais era fixa e prepa-
rada de antemão. O arauto' chamava sucessiva-
mente as várias partes interessadas. Cf. Vesp., v.
1441. :
216 Cf.vv. 640 ss.
217 FEstrepsíiades só consegue lembrar-se de que se
tratava de um nome feminino e, vagamente, de um
utensílio. :
218 Alusão às sutilezas da linguagem sofística.
207
Nuvens, aconselhai-me alguma coisa
de útil!
CORIFEU
Velho, nós lhe damos um conselho;
se você tem um filho já criado, man-
de-o aprender no seu lugar.
ESTREPSÍADES
Mas, sim, eu tenho um filho, pessoa
de bem. Mas não quer aprender...
Que será de mim?
CORIFEU
E você consente?
ESTREPSÍADES
Pois é bem feito de corpo, cheio de
vida, e nasceu duma dessas mulheres
de alto vôo, uma gra-fina? 1º. Pois sim,
irei procurá-lo. Se não quiser, de qual-
quer forma hei de expulsá-lo para fora
de casa. (4 Sócrates.) Entre e espere-
me um pouco?2º. (Sai.)
| CORO
“(A Sócrates )221
(Antistrofe) Percebe quantos bene-
fiícios vai receber de nós, só de nós den-
tre os deuses? Ele está disposto a fazer
tudo que você ordena! E agora que o
homem está bobo e visivelmente agita-
do, sabendo-o, você vai engoli-lo tanto
quanto puder! Depressa, essas coisas
costumam virar...
(Sócrates sai. Aparece Es-
trepsíades arrastando o fi-
lho pelo braço.)2?22
ESTREPSÍADES
Não, pelo Vapor !223 Você não fica-
218 Veja com. v. 48
220 Verso em correspondência com v. 843.
221 A correspondência com a Ode (700-705) não é
perfeita, na Antode há dois versos a mais (vv.
811-812). Novamente o coro movimenta a ação.
Terminada a educação de Estrepsíades prepara-se
ambiente para a educação de Fidípides.
222 Cena cômica de transição (vv. 814-889). Apre-
sentação do novo aluno.
223 Estrepstades jura pelo Vapor, recusando as
divindades tradicionais.
795
800
803
810
Sc
820
825
208
rá mais aqui. Vá comer as colunas de
Mégacles!22 4
FIDÍPIDES
Ó Senhor, que é que você tem, meu
pai? Sim, você perdeu o juízo, por
Zeus Olímpio !
ESTREPSÍADES
Está aí, tá aí! Zeus Olímpio. ..225
Que bobagem! Esse daí, com essa
idade, acreditar em Zeus!
FIDÍPIDES
Mas afinal por que você achou
graça nisso?
ESTREPSÍADES
Porque percebi que você é uma
criancinha e pensa de modo antiquado.
Mas aproxime-se para saber mais.
(Sussurrando.) E eu direi uma coisa
que se você aprender, será um homem!
Mas cuidado para não ensiná-la a
ninguém!...
FIDÍPIDES
Sim. Que é?
ESTREPSÍADES
Agora mesmo você jurou por
Zeus...
FIDÍPIDES
Sim.
ESTREPSÍADES
(Com ênfase.)
Então você vê como é belo apren-
der? Fidípides, Zeus não existe !22 8
224 Fidípides provavelmente ameaçara de novo ir
para casa do tio Mégacles (cf. v. 124). O velho ridi-
culariza a prosápia da família da esposa e lembra
que na casa dos parentes só se podiam comer as
colunas do palácio, restos do antigo fausto.
225 É a tradicional oposição entre as idéias antigas
e as novas. Todavia é interessante que seja o pai o
“adepto das novidades, aprendidas dos sofistas. Cf.
vv. 367-380 ss.
226 É a confidência essencial o princípio de tudo,
“Zeus não existe!” Cf. vv. 367 ss., 380 ss.
ARISTÓFANES
FIDÍPIDES
Mas quem?!..
ESTREPSÍADES
Quem reina é o Turbilhão, depois de
ter expulsado Zeus!
FIDÍPIDES
Puxa, por que você diz tolices?
ESTREPSÍADES
Fique sabendo que é isso mesmo.
FIDÍPIDES
Quem é que o afirma?
ESTREPSÍADES
Sócrates de Melos227 e Querefon-
te?28, que conhece as pegadas das
pulgas.
FIDÍPIDES
Mas você chegou a tal loucura que
acredita em homens malucos?
"ESTREPSÍADES
Cuidado! Não diga nenhuma insen-
satez contra homens direitos, e de
juízo. No meio deles, por' economia,
ninguém corta o cabelo, nem se unta
com óleos ou vai ao balneário para
lavar-se. E você “deslava” a minha
vida, como se eu estivesse morto !229
Vá bem depressa.e aprenda em meu
lugar.
FIDÍPIDES
Mas, afinal, que coisa útil se poderia
aprender, no meio desses indivíduos?
ESTREPSÍADES
Ora, sim senhor! Toda a sabedoria
que os homens têm. Você se conhecerá
a si mesmo?ºº, aprenderá como é
227 Pilhéria, pois Sócrates era ateniense. 'Alusão a
Diágoras de Melos, processado por impiedade e
expulso de Atenas.
228 Veja nota vv. 144 ss.
229 Fra hábito lavar os cadáveres antes de colocã-
los na mortalha.
230 Alusão à máxima de Delfos, “Conhece-te a ti
mesmo” — “Gnothi Sautón”,
Ea PED pen Re e
830
835
840
845
850
855
AS NUVENS
ignorante e grosseiro. Mas, fique aqui e
espere-me um pouco... (Estrepsíades
entra.)
FIDÍPIDES
(Sozinho)
Puxa! Que hei de fazer, se meu pai
enlouqueceu? Devo agarrá-lo e levá-lo
aos tribunais por demência, ou decla-
rar a sua loucura aos fabricantes de
caixões de defuntos?...
ESTREPSÍADES
(Reaparece com uma ave
em cada mão.)
Vejamos como é que você chama
este aqui? Diga-me!
FIDÍPIDES
Pássaro.
ESTREPSÍADES
. E esta aqui?
FIDÍPIDES
Pássaro.
ESTREPSÍADES
(Triunfante.)
Ambos do mesmo jeito? Como você
'é ridículo ! Daqui por diante não faça
mais isso, mas chame esta aqui de
“pássara” e este de “passarão”.
FIDÍPIDES
“Pássara”? Foram estas as habili-
dades que você aprendeu lá dentro, na
companhia daqueles terrigenos??2?
ESTREPSÍADES
E muitas outras... Mas cada vez
que aprendia alguma coisa logo me
esquecia dela, por causa da longa
idades 242
231 Os gigantes e titãs, em oposição aos Olímpios.
Aqui é usado ironicamente, como se equivalesse a
“âatheoi”, referindo-se à impiedade dos filósofos.
232 Cf.vyv. 530ss., 785 ss.
209
FIDÍPIDES
Então é por isso que você perdeu até
“o manto?
ESTREPSÍADES
Não, não perdi, dispenseio-o. ..
FIDÍPIDES
Insensato, e os sapatos, para onde
você os desviou?
ESTREPSÍADES
Como Péricles, “despendi no que
era necessário:”'233 (Empurrando o
filho.) Eia, ande, vamos! Então erre,
mas obedeça ao seu pai! Eu também
outrora lhe obedeci, bem me lembro,
quando você tinha seis anos e ainda
balbuciava...
Nas Diásias,2?4 com o primeiro
óbolo de heliasta2? S que recebi, com
esse dinheiro comprei um carrinho
para você...
FIDÍPIDES
(De má vontade.)
De acordo. Mas com o tempo você
se arrependerá de tudo isso.
ESTREPSÍADES
Ainda bem que você me obedeceu!
(Chamando) Aqui, aqui, ó Sócrates!
Saia! Trago-lhe este meu filho, depois
de convencê-lo, embora contra a von-
tade dele...
233 Pilhéria com a resposta de Péricles, quando
interrogado sobre o destino dado aos dez talentos
com os quais teria comprado o general Cleandridas,
comandante das tropas espartanas que haviam inva-
dido a Ática (446 a.C.).
234 Nas Diásias era hábito presentear as crianças
com brinquedos e doces. Veja nota v. 408.
235 Todo cidadão de mais de trinta anos tinha
direito de participar das sessões do tribunal da
Heliéia. Os heliastas eram simples jurados e por
isso não necessitavam de conhecimentos especiais;
de início, recebiam um óbolo (sexta parte da drac-
ma) por sessão, depois, receberam dois, e a partir de
425, graças a Cleão, três, o famoso “trióbolo” tão
criticado por Aristófanes. Cf. Cav., vv. SO ss.
860
865
870
875
880
885
210
SÓCRATES
Mas é quase uma criança, ainda não
“escovado” nos nossos cestos depen-
durados...
FIDÍPIDES
Você também seria escovado se o
enforcassem...236
ESTREPSÍADES
Vá pro infeno! Você ousa rogar
pragas no seu mestre?
SÓCRATES
(Com desprezo.)
Vejam só! Se o enforcassem!237
Como ele pronunciou de modo estúpi-.
do, com a boca escancarada. .. Como
é que esse moço poderia aprender a
escapar duma condenação, fazer uma
citação ou adoçar a voz de modo,
persuasivo? E, no entanto, Hipérbo-
lo?º8 aprendeu-o por um talento...
ESTREPSÍADES
Não se preocupe. Ensine-o. É um
rapaz esperto por natureza. Desde
criancinha, quando era deste tamanhi-
nho, modelava casas, esculpia navios,
fabricava carrinhos de tiras de couro e
fazia sapos de miolo de pão. Que lhe
parece? Contanto que ele aprenda
aqueles dois raciocínios, o forte, seja
ele qual for, e O fraco, aquele que com .
palavras faz virar o que é injusto no
mais forte. E se não, pelo menos que
aprenda o raciocinio injusto, a todo
custo.
SÓCRATES
Ele mesmo há de aprender com os
dois raciocínios em pessoa. Eu vou-me
embora (Sai.)
ESTREPSÍADES
236 As palavras de Sócrates referem-se a todas as
cenas anteriores, desde o verso 218. Ignorando o
que se havia passado, Fidípides supõe tratar-se de
instrumento de tortura, o que explica a resposta do
v. 870.
237 Ignora-se qual o defeito de pronúncia que pro-
voca as críticas de Sócrates.
238 Veja nota v. 551.
ARISTÓFANES
(A Sócrates.)
Então lembre-se disto, ele deverá
falar contra tudo o que é justo.
CESOAOO
DE casa de Sócrates saem em duas
gaiolas, como dois galos de briga?*º,o
Raciocínio Justo e o Raciócínio Injus-
to. Ambos ameaçam atracar-se? 41.)
JUSTO
Venha cá, mostre-se aos espectado-
res, você que é um atrevido !
INJUSTO
Vá para onde quiser !2 42 Pois muito
mais facilmente, falando diante do
povo, acabarei com você !2 43
JUSTO
Acabará comigo? E quem é você?
INJUSTO
Um raciocínio...
JUSTO
O fraco...
INJUSTO
Mas eu vou vencê-lo a você que afir-
ma que é mais forte do que eu...
JUSTO
Com que habilidades?
INJUSTO
Encontrando idéias novas? 4 4
JUSTO
Sim, isso floresce, por causa desses
239 Segundo a indicação de vários manuscritos
falta um trecho coral.
240 Sugestão do Escolista.
241 Cena preparatória do agon. É o pro-agon (vv.
889-948). É caso único nas comédias de Aristófa-
nes, explicável, talvez, pela “mise-en-scêne”, já que
se introduzem duas novas personagens, O Justo e o
Injusto.
242 Paródia de Eurípides, Télefo, fr. 721.
243 E possível que o Raciocínio Injusto usasse a
máscara de um sofista conhecido, talvez Protágo-
ras. De fato, se Anaxágoras era conhecido como “A -
Mente” (Nous) e Demócrito “A Sabedoria”
(Sophia), Protágoras era chamado “Raciocínio”
(Logos). Cf. Diels-Kranz JI, 8, 4;13, 85,3.
244 Ea grande censura: achar idéias novas.
890
895
AS NUVENS
insensatos que andam por aí... .245.
INJUSTO
Insensatos não, sábios.
JUSTO
Acabarei com você, miseravelmente.
INJUSTO
Fazendo o quê, diga-me?
JUSTO
Dizendo o que é justo.
INJUSTO
900 Mas vou responder e virar tudo de
pernas para o ar... Pois afirmo que
nem sequer existe justiça.
JUSTO
Afirma que não existe?
| INJUSTO
' Pois bem, e onde está ela?2 46
JUSTO
Com os deuses!
INJUSTO
Pois então, se existe justiça, como é
que Zeus não pereceu, depois de ter
acorrentado o seu próprio pai?2 47
JUSTO
905 Fu! Eis a maldade em marcha!...
Dêem-me uma bacia...
INJUSTO
Você é um velho tonto, um desequi-
librado...
JUSTO
E você um fresco, um sem-vergo-
nha
245 (Os espectadores, os atenienses, que se deixam
enganar pelos sofistas.
246 O Injusto nega a existência da Justiça e, com
habilidade, faz o Justo falar de uma abstração
personificada: “Dike”, a filha de Zeus e Têmis. Cf.
Hes., Teog., vv. 900 ss.
247 Referência à revolta de Zeus e seus irmãos
contra o pai Crono, que, expulso do céu, foi acor-
rentado no Tártaro. Esse gênero de críticas já apare-
ce em Xenófanes — fr. 1, vv. 21 ss. (Diels), e em
Eurípides. Aristófanes, um tradicionalista, retoma
as mesmas censuras para mostrar os erros da nova
geração. Cf. também Plat., Eutifrão, 5; Rep. JJ,
378-B; Esq., Eum. v. 641.
211
INJUSTO
Você me diz rosas!
JUSTO
es paliaços
INJUSTO
Coroa-me de lírios...
JUSTO
-. .parricida. ...
INJUSTO
Você não percebe que me polvilha
de ouro?
JUSTO
Não, antes não era com ouro, era
com chumbo...
INJUSTO
Mas agora isso me servirá de enfei-
Ee a
JUSTO
" Que grande atrevido !
INJUSTO" 915
E vócê, um antiquado !
JUSTO
Por sua culpa nenhum rapaz quer
ira à escola. E os atenienses hão de
saber um dia o que você ensina a esses
insensatos...
INJUSTO
Você fenece vergonhosamente !
JUSTO
E você é bem sucedido. E, no entan-
to, antes mendigava, afirmava que era
Télefo da Mísia? “8 e roíia uma idéias sx»
248 Muitas eram as lendas que envolviam o nome
de Télefo, filho de Hércules e Augé e rei da Mísia.
Ferido por Aquiles, quando os gregos invadiram
seu país a caminho de Tróia, foi informado pelo
oráculo de Delfos de que só o próprio autor do feri-
mento poderia curá-lo. Na versão euripidiana, Téle-
fo dirigia-se a Micenas disfarçado de mendigo, e,
em suas arengas, revelava-se um perfeito sofista.
Aristófanes critica bastante essa tragédia de Eurípi-
des. Cf. Acar., 430 ss.; Ras, 855, 864. Outrora, por
conseguinte, o raciocínio sofístico não tinha sucesso
e agora, vitorioso, usava de suas argúcias na defesa
das causas injustas.
925
930
935
Paio
de Pandeleteu? *º, tiradas duma sacoli-
nha:
INJUSTO
Ah! Que sabedoria...
JUSTO
Ah! Que loucura...
INJUSTO
- . de que você se lembrou.
JUSTO
.. . à sua, € a cidade que o sustenta,
enquanto você corrompe a juventude!
INJUSTO
Você não há de instruir esse rapaz,
por mais que seja um velho Crono !2 30
JUSTO
Hei sim, se é verdade que se deve
salvá-lo, e não exercitâ-lo apenas em
tagarelices !
INJUSTO
(A Fidípides.)
Venha cá, deixe-o com as suas
loucuras...
JUSTO
Você há de arrepender-se, se lhe
puser a mão !2 81
CORIFEU
Chega de luta e de insultos! (Ão
Justo.) Mas demonstre o que ensinava
aos antigos, (Ão Injusto) e você, a
nova educação, para que ele ouça a
ambos em suas controvérsias, faça a
escolha e freguente a escola.
JUSTO
Quero fazê-lo.
INJUSTO
E eu também quero.
CORIFEU
248 Sofista, citado também por Cratino, fr. 242,
como sicofanta e amigo de processos judiciários.
250 Veja nota v. 398.
251 Intervém o coro pondo fim ao conflito.
ARISTÓFANES
Então, vamos! Qual dos dois falará
primeiro?
INJUSTO
Dou-lhe a palavra! Depois, toman-
do como base tudo que ele disser, vou
dardejá-lo com palavrinhas novas e
raciocínios? º2. E, afinal, se emitir um
grunhido, com os dois olhos e o rosto
inteirinho inchado, como se estivesse
picado de vespas, perecerá sob o efeito
de minhas sentenças.
CORO
(Estrofe.)2º3 Agora ambos vão
demonstrar, confiados em raciocínios
habilíssimos, pensamentos e reflexões
sentenciosas, qual dos dois parece o
melhor orador. . . Aqui se arrisca toda
a sorte da sabedoria, pela qual os meus
dois amigos? ** travam o combate
supremo.
CORIFEU
(Voltando-se para o Justo.)
Mas você que coroou os antigos
com tantos costurnes honrados, diga as
palavras que lhe agradam e fale sobre
a sua natureza? 8 5,
* JUSTO
Então vou contar como era a educa-
ção antiga? º8, quando eu florescia
dizendo o que é justo, e a prudência
era considerada. Em primeiro lugar,
não se devia ouvir um menino cochi-
252 Referindo-se a Eurípides, Aristófanes usa de
expressões semelhantes, Cf. Acar., 444 ss.; Paz,
534.
283 Inicia-se O agon que apresenta a seguinte
subdivisão: Ode (vv. 949-958); Epirrema (vv.
959-1008); Pnigos (vv. 1009-1023); Antode (vv.
1024-1033); Antepirrema (vv. 1034-1084); Antipni-
gos (vv. 1085-1104). A primeira parte, em que faia
o Justo, compõe-se de versos solenes (vv.
959-1008); já a segunda parte, com o discurso do
Injusto, brejeiro e despudorado, compõe-se de ver-
sos mais cheios de vivacidade (vv. 1034-1084).
254 Note-se que o coro se refere ao Justo e ao
Injusto chamando-os “amigos”.
255 O coro incita o Justo e movimenta a ação.
256 A propósito dos ideais da antiga educação veja
H. Marrou, Histoire de lIEducation dans
VAntiguité, Paris, Du Seuil, 1955, Cap. IV; cf. K.
Freeman, Schools of FHellas, London, Macmillan,
1908, pp. 72 ss.
940
945
955
960
965
970
AS NUVENS
char nem um “a”2 8 7: depois, os mora-
dores de um mesmo bairro andavam
pelas ruas, bem disciplinados? º8 indo
à casa do professor de citara? 5º, sem
mantos e em fila, ainda que nevasse
neve farinhenta. O professor, por sua
vez, começava ensinando-os a cantar,
com as coxas bem apartadas, ou? 8º
“Palas terrível, destruidora de ci-
dades + e!
ou
“um som longifero”2 82,
sustentando os acordes? 83 transmi-
tidos pelos pais. E, se algum deles se
fazia de bobo ou modulava uma modu-
lação de voz, como essas de hoje, à
moda de Frínis?º4, tão dificeis de
modular, era moido de muitas panca-
das, como se estivesse prejudicando as
Musas. Na casa do professor de ginás-
tica, os meninos? *º deviam sentar-se
com as pernas esticadas para a frente,
257 Cf. Xenof., Bang., III, 12 ss.; Luc., Amor., 44.
258 Certamente vigiadns pelo pedagogo. Segundo
o testemunho de Aléxis, ff. 262, andar pelas ruas
ordenadamente era próprio dos homens livres.
259 A educação dos jovens atenienses comportava
três partes: a) primeiras letras. a cargo do
“gramatista”; b) poesia é música, com o “citarista”;
c) exercícios físicos. Aristófanes só se refere aos
estudos dos adolescentes, e por isso ignora o ensino
das primeiras letras que, obviamente, pouco devia
ressentir-se da influência dos sofistas.
280 A respeito da preocupação com o aspecto
moral na educação ateniense. Cf. Plat., Prot., 325;
H. Marrou, op. cit. p. 77; K. Freeman, op. cit., pp.
7lss.
261 Verso inicial de um canto muito conhecido,
provavelmente da autoria de Lâmprocles, poeta diti-
râmbico, que floresceu em Atenas em 500 a.C.
262 Verso atribuído ao poeta ditirâmbico Cidides
de Hermione.
263 O “modo” dórico, considerado o mais viril.
Havia também os modos jônio, eólio e frígio, cada
qual com o “ethos” particular da tribo originária.
Essas diversas harmonias eram obtidas pela combi-
nação de escalas e notas da lira. Cf. K. Freeman,
op. cit. pp. 240 ss. Quanto à importância que os
gregos emprestavam à ação moralizadora da músi-
ca, veja Plat., Prot., 326 A-B; Rep., HI, 399-A;
Leis, 11, 673-A..
264 GCitareda de Mitilene, que revolucionou o
acompanhamento musical com suas inovações.
Veja nota v. 333.
265 Entenda-se como “menino” o jovem púbere, já
sexualmente maduro.
213
para não mostrar nenhuma indecência
aos estranhos; de outro lado ainda,
quem se levantava, devia aplainar a
areia, tomando a precaução de não
deixar aos amantes nenhum vestígio de
sua mocidade? * 8. Naquele tempo, ne-
nhum menino costumava untar-se de-
baixo do umbigo, e, assim, sobre os
genitais florescia uma penugem orva-
lhada, como num fruto, e ninguém
molhava e amolecia a voz para aproxi-
mar-se do amante, prostituindo-se a si
mesmo com os olhos? 8 ?. Nos jantares,
não era permitido servir-se da cabeça
do rabanete, nem roubar a erva-doce
ou selino dos velhos? 88, nem se devia
comer gulodices, dar gargalhadas ou
ficar de pernas cruzadas...
INJUSTO
Xi! São velharias do tempo das
Dipolias, coisas cheias de cigarras, de
Cecides e de Bufônias...?2 8º
2668 Durante os exercícios físicos, os jovens apre-
sentavam-se completamente nus; a presença de
estranhos era proibida por uma lei de Sólon, mas no
século V tornaram-se comum os abusos (cf. Esquin.,
Tim., 12) e as palestras e ginásios foram conside-
rados ambientes de corrupção. Veja K. Freeman,
op. cit., pp. 68 ss.; R. Flaceliêre, [Amour en Grêce,
Paris, Hachette, 1960, pp. 62 ss.
267 Sobre a prostituição masculina veja R. Flace-
ligre, op cit., pp. 78-ss.; Hans Licht, Sexual Life in
Ancient Greece, London, Routledge, 1932, pp. 411
ss.; Aristófanes sempre se revela adversário con-
victo do amor homossexual, não perdendo ocasião
de ridicularizar qualquer inversão ou efeminação.
Cf. vv. 355, 673 ss.; 1095, Tesmof., vv. 130, ss.
ELE.
268 (O rabanete era apreciado pelas virtudes afrodi-
síacas, sendo a cabeça a porção preferida. O aneto
ou funcho, além de usado em poções medicinais era
comido cru ou cozido (cf. ital. finocchi —
“erva-doce”?). Quanto ao selino, acreditava-se que
tinha o poder de reanimar os mortos, e, é claro, que
devia ser muito apreciado pelos velhos.
269 Coisas arcaicas, fora de moda. As Dipolias
eram festas muito antigas celebradas em honra de
Zeus, protetor da cidade. Em meio a rituais estra-
nhos e arcaicos, havia o episódio das Bufônias, ou
sacrifícios dos bois. Nestas ocasiões, Os atenienses,
amigos de tradições, apresentavam-se com as famo-
sas cigarras de ouro nos cabelos, costume que vinha
da época das guerras médicas, cf. Tuc., IJ, 6. Ceci-
des, um antigo poeta ditirâmbico, citado por Crati-
no nos Onividentes. .
975
980
985
990
995
214
JUSTO
Mas, na realidade, foi com essas coi-
sas que a minha educação criou os ho-
mens guerreiros de Maratona? 7º. Mas
você, desde logo, ensina as crianças de
hoje a se embrulharem em mantos, e eu
sufoco de raiva quando alguém, preci-
sando dançar nas Panatenéias, segura
o escudo diante do sexo, sem respeitar
a Tritogenéia? 71º (Voltando-se para
Fidípides) Em vista disso, coragem
meu rapaz! Escolha-me a mim, Oo
raciocínio forte. E você aprenderá a
detestar a ágora? 72, a abster-se dos
balneários? 73, a ter vergonha do que é
vergonhoso e a pegar fogo se alguém o
insultar. Aprenderá também a erguer-
se da cadeira, quando se aproximam os
velhos, a não ser estúpido com os seus
pais e a não fazer nenhuma outra ação
vergonhosa, porque procura realizar a
imagem do pudor? 7*. E não irá cor-
rendo à casa de uma dançarina, fican-
do de boca aberta diante do espetá-
culo, para receber uma maça? 78 de
alguma rameirinha e ter a sua boa
reputação despedaçada... Também
não retrucará ao seu pai, chamando-o
de velho Jápeto?7º e censurando-o
- pela sua velhice, graças à qual você foi
criado como um filhotinho. ..
270 Vencedores das tropas de Dario, comandadas
por Dátis em Maratona.
271 Nas Panatenéias os meninos dançavam a pírri-
ca, armados e completamente nus, em honra de Ate-
nas Tritogenéia. A etimologia desse epíteto de
Atena tem sido bastante discutida, podendo inter-
pretar-se: “nascida do mar” ou “nascida ao lado do
Triton” (lago ou riacho). Cf. Lis., Da acusação de
suborno, 1 e 4.
272 Cf. Isocr., Áreop., 149 C.D.
273 O hábito de fregientar os balneários e o uso de
banhos quentes em certa época foram considerados
um luxo, causa de efeminação. Cf. 1044, Plat., Leis,
VI, 761.
274 Exemplo dessa imagem do pudor é o jovem
Autólico, Xenof., Banquete, II. Cf. também Xenof.,
Memor., H,3, 16.
275 A maçã, fruto de Afrodite, era considerada o
símbolo do amor. Cf. Escol., v. 997; Cat. LXV, 19;
Verg., Buc., II, 64.
276 Titã, irmão de Crono e pai de Prometeu.
ARISTÓFANES
INJUSTO
(A Fidípides.)
Meu rapaz, se você lhe obedecer
nisso, sim, por Dioniso, parecerá aque-
les porcos-filhos de Hipócrates? 77 e
vão chamá-lo de. “filhinho da ma-
mãe”. ,
JUSTO
Mas então, esplêndido como uma
flor, você passará o tempo nos giná-
sios; não ficará parolando pela ágora a
respeito de argúcias espinhosas, como
a mocidade de hoje, arrastado aos tri-
bunais por um negocinho cheio de chi-
canas e contradições capciosas. Des-
cendo à Academia?78, apostará
corrida, debaixo das oliveiras Sagra-
-das, com um rapaz ajuizado e da
mesma idade, coroado com uma verde
cana? 7º, rescendendo a hera, sereni-
dade e choupo branco?8º no cair das
borbulhas, alegre na estação primave-
ril quando o plátano troca doces mur-
múrios com o olmo. ..281:
Se fizer o que eu digo? 82
e atentar nesses conselhos,
terá sempre peito robusto,
cores brilhantes,
277 Sobrinho de Péricles, cujos filhos Telesipo,
Demofão e Péricles eram ridicularizados pela pouca
inteligência. Cf. Tesm,, 273; Eupol., fr. 127. Troca-
dilho: os porcos eram simbolo da estupidez. Cf.
Aten., II, 96-E.
278 Os jardins de Academo, nas cercanias de Ate-*
nas, onde havia um ginásio e pistas de corrida.
Entre as suas numerosas árvores, eram célebres as
doze oliveiras, que, segundo se acreditava, provi-
nham dos rebentos daquelas que Atena fizera brotar
na Acrópole, quando de sua disputa com Posidão.
278 Guirlandas, usadas pelos jovens durante as
competições atléticas, em homenagem aos Dióscu-
ros (Castor e Pólux).
280 Hércules tomara um ramo de choupo branco e
com “ele se havia coroado, antes de atravessar o
Aqueronte. Esta ârvore lhe era consagrada e servia
de adorno nas competições atléticas.
281 A contradição ê apenas aparente, pois.o chou-
po branco, como a nogueira, tem borbulhas preco-
ces e perde-as antes da folhadura, por conseguinte
bem antes do outono.
282 Pnigos — Falando num só fôlego, o Justo
apregoa as vantagens cla educação antiga.
|
1000
1005
1010
1015
1020
1025
1030
1035
AS NUVENS
ombros largos, lingua curta,
quadris grandes
e membro pequeno?*3.
Mas se praticar os hábitos de hoje,
logo terá pele pálida?28*,
ombros estreitos, peito acanhado,
língua grande, quadris pequenos,
membro comprido
elongos decretos... 28
E ele persuadirá você
a pensar que tudo
que é vergonhoso é belo
e o belo, vergonhoso.
E além disso, vai sujá-lo
com a devassidão de
Fofo pd
Antíma-
CORO?8”
(Antistrofe.) Cultor
da gloriosa sabedoria de altivas tor-
res288, que doce e prudente flor repou-
sa em suas palavras! Felizes, sim, Os
que viviam nos tempos de outrora! Em
resposta, você que possui uma arte de
fina elegância, algo de novo deve dizer,
pois o homem se saiu muito bem!
CORIFEU
(Mo Injusto.)
Parece que contra ele você precisa
de resoluções terríveis, se pretende ven-
cer o rival sem expor-se ao ridículo.
INJUSTO?8º
E, no entanto, há bem tempo eu é
283 Sinal de sensatez, segundo o Escoliasta.
284 Em decorrência da falta de exercícios.
285 Não hã perfeita correspondência na antítese.
Segundo a opinião de Meineke antes do v. 1015
deve faltar algum verso, representando a oposição
aos “longos decretos”, numa crítica aos oradores,
eternos donos de decretos à disposição de cada
freguês. -
286 Personagem desconhecida, acusado de práticas
homossexuais.
287 Antode — Terminada a preleção do Justo, o
coro precede à apresentação do novo contendor (vv.
1024-1033).
288 Comumente usado como epíteto de cidades.
Eur., Bac., 1202; Supl., 618.
289 Antipirrema — Num diálogo malicioso, o
Injusto refuta, com habilidade, as vantagens da edu-
cação antiga (vv. 1036-1084).
PARE
que sufocava até as entranhas2ºº e
desejava revirar tudo isso com argu-
mentos contrários... Pois, no meio
dos pensadores, chamaram-me “o ra-
ciocínio fraco”, por isso mesmo, por-
que fui o primeiro a pensar em contra-
dizer as leis e a justiça. Eis aí o que
vale muito dinheiro?º1: escolher os
raciocínios fracos e, apesar disso, ven-
cer! (4 Fidípides) Observe como
vou refutar essa educação em que, ele
acredita, ele que afirma em primeiro
lugar que você não terá licença de
tomar banho quente. ..2º2 (Volta-se
para o Justo.) Mas, com que funda-
mento você censura os banhos quen-
tes?
JUSTO
Porque são uma coisa péssima e tor-
nam o homem covarde!
INJUSTO
Páre! Pois já o agarrei pela cintura
e não o deixo escapar. ..2º3 Diga-me,
dentre os filhos de Zeus, qual é o
homem que você julga de alma mais
valorosa? Diga-me, quem suportou as
maiores fadigas?
JUSTO
Não julgo nenhum homem superior
a Hércules.
INJUSTO
Pois então, você já viu alguma vez
banhos de Hércules, que sejam
frios?2º* Ora, quem era mais corajo-
so?
299 Em correspondência com vv. 988 ss.
281 Lit. “mais do que dez mil estateros””: moeda de
prata que, em Atenas, valia aproximadamente 4
dracmas; o estatero de ouro valia 20 dracmas.
292 Veja nota v. 991.
293 Metáfora extraída da linguagem da palestra: o
lutador agarrado pela cintura era virtualmente
considerado fora de combate.
284 Fontes termominerais. Segundo a lenda, a pró-
pria deusa Atena fizera brotar, nas Termópilas, fon-
tes sulforosas para que Hércules recuperasse as
energias, depois de banhar-se em suas tépidas
aguas.
1040
1045
1050
1055
1060
1065
216
JUSTO
É isso, é isso mesmo que enche os
balneários de jovens que tagarelam
sem cessar o dia inteiro, enquanto as
palestras ficam vazias...
INJUSTO
E, depois, você censura a discussão
na ágora, e eu a elogio. Se houvesse
- algum mal, Homero nunca teria feito
de Nestor um “discurseiro”2º 5, nem
de todos os sábios?º 8. Daí então passo
para a língua: esse fulano diz que os
jovens não devem exercitá-la, e eu digo
que sim. De outro lado, ele diz que se
deve: ser modesto??'. Dois grandes
males! Você já viu alguém ganhar al-
guma coisa com a modéstia? Fale,
refute-me com palavras!
JUSTO
Muita gente... Pois não foi por
isso que Peleu recebeu o seu cute-
lo?2º8
INJUSTO
Cutelo?! Grande lucro teve o des-
graçado!... Hipérbolo, aquele das
lamparinas?ºº, ganhou com a sua falta
de vergonha mais do que muitos talen-
tos... enão um cutelo, por Zeus!
JUSTO
E Peleu, graças à sua modéstia, des-
posou Tétis.
295 Em toda esta passagem observe-se a argumen-
tação sofística. Nestor, rei de Pilos, aparece na Jlía-
da e na Odisséia como um velho prudente, ainda
corajoso no campo de batalha, mas amigo de longos
discursos. Lit. “agoreta”, ii. e., falador na ágora.
28% Qdisseus, Calcas e outros.
287 No texto grego “sophronein”, palavra rica de
sentido moral e que encerrava as idéias de modéstia,
prudência, sensatez, castidade e comedimento.
288 Não desejando corresponder aos anseios amo-
rosos de Hipólita (ou Astidamia) esposa de Acasto,
Peleu quase perdeu a vida, após as intrigas da rai-
nha. Como recompensa, recebeu dos deuses um cu-
telo para defender-se e, mais tarde, a mão da ninfa
Tétis. :
299 Hipérbolo é acusado de misturar chumbo no
bronze com o qual fabricava lâmpadas.
ARISTÓFANES
INJUSTO
E logo ela passou-o. para trás e foi-se
embora, pois ele não era nem fogoso e
nem agradável para festejar as noites,
debaixo das cobertas. ..ººº E uma
mulher gosta de sofrer violências...
Você é um velho sendeiro... (4 Fidí-
pides) Meu rapaz, observe tudo o que
existe na modéstia e de quantos praze-
res você deve privar-se: meninos, mu-
lheres, jogos de cótabo3º?, alimentos,
bebidas, gargalhadas... Ora, de que
lhe valerá a vida se for privado de tudo
isso? Bem, passarei as necessidades
naturais. Você agiu mal, ficou apaixo-
nado e praticou um adultério?º2, mas
foi apanhado. Você estã perdido, pois
não é capaz de falar... Conviva co-
migo e goze a vida, salte, ria e não
ache nada vergonhoso... Pois se
acaso for apanhado em flagrante adul-
tério, você dirá ao marido o seguinte:
que não tem culpa nenhuma. Depois
trate de jogar a culpa em Zeus, porque
ele também é mais fraco do que o amor
e que as mulheres. ..3º3 Ora, como é
que você, um mortal, poderia ser mais
forte do que um deus?. ..3º4
300 O Raciocínio Injusto falseia a lenda para justi-
ficar-se. Tétis, segundo uma predição, daria à luz
um filho mais poderoso que o próprio pai. Nessas
condições, os deuses obrigaram-na a desposar
Peleu, um mortal. C casamento não foi feliz, e a
ninfa passava a maior parte do tempo nas profun-
dezas do mar, nos palácios de seu pai Nereu. Cf.
Hom., /L., XVIII, 432. ss.
301 Jogo muito popular, principalmente após o
Jantar. Numa de suas variedades, o participante,
deitado sobre o braço esquerdo, devia tomar a taça
com a mão direita e derramar suas últimas gotas em
outra taça, que flutuava numa bacia.
302 Embora as mulheres vivessem mais ou menos
reclusas, o adultério não era raro. Cf. Lis., Sobre a
Morte de Eratóstenes; H. Licht, op. cit., p. 63.
303 Alusão às muitas aventuras amorosas-de Zeus.
Depois de certa época, tornou-se hábito procurar
desculpas nos mitos. Cf. Xen., Cir., VI, 1; Plat.,
Rep., 377 etc., K. Freeman, op. cit., pp. 203 ss.
304 Cf. Ter., Eun., II, 5, 40 “deum sese in homi-
nem convortisse at quem deum quia templa caeli
summa sonitu concutit./ Ego Homuncio hoc non
facerem?”
1070
1075
1080
1085
1090
AS NUVENS
JUSTO
Quê?! E se por ter acreditado em
você lhe enfiarem um rabanete no rabo
e o esfolarem com cinza?3º º Ele terá
algum argumento para afirmar que
não é um esculhambado?*º 8
INJUSTO *º”
E se for um esculhambado, que
haverá de mal?
JUSTO
Pois que desgraça ainda maior do
que essa ele poderia sofrer um dia?
INJUSTO
E então que dirá você se for derro-
tado por mim nesse particular?
JUSTO
Calarei a boca! Que mais?
INJUSTO
Então diga-me, vamos, os advoga-
dos públicos?º8, onde é que vamos
buscá-los?
JUSTO
Nos esculhambados...
INJUSTO
Acredito! E os trágicos*ºº, onde?
JUSTO
Nos esculhambados. ..
305 () marido ofendido, segundo uma lei de Sólon,
podia vingar-se do adúltero como bem lhe aprou-
vesse. Além de processos legais, cobranças de
indenizações, podia infligir esse castigo físico.
306 Aristófanes associa duas idéias diferentes: a
consequência do castigo brutal recém-mencionado e
a perversão sexual, usando de um adjetivo expres-
sivo, mas que traduzido literalmente seria de uma
vulgaridade intolerável. Procuramos adaptâ-lo, em-
pregando uma palavra que traduzisse as idéias de
afronta física, falta de pudor e de vergonha.
307 Antipnigos — Numa rápida troca de palavras,
o Injusto ratifica a sua vitória definitiva apelando
para mais um argumento sofístico: o costume, a
força da maioria, vv. 1085-1104. E bem cruel o
juízo do poeta a respeito da sociedade ateniense.
308 (Os advogados e oradores eram muito satiriza-
dos. Cf. Cav., 880.
309 Provável alusão a Eurípides e principalmente a
Agatão. Cf. Tesmof., 200; R. Flaceliêre, op. cit.,
cap. HI.
217
INJUSTO
Tem razão. E os oradores?
JUSTO
Nos esculhambados...
INJUSTO
Está aí, então não reconhece que diz
tolices? Observe no meio dos especta-
dores, qual é a maioria?
JUSTO
Sim, estou observando...
INJUSTO
E então, que vê?
JUSTO
Pelos deuses, os esculhambados são
mais numerosos. (Mostrando ao
acaso.) Eis ali um, bem o conheço, e
aquele ali, e aquele cabeludo que lá
Gota qapoao
INJUSTO
E então, que diz você?
JUSTO
(Resignado.)
Fomos vencidos. Ó prostituídos!
Pelos deuses, recebam o meu
manto?!1, que eu passo para o seu
lado. (Entra no “pensatório ”)
INJUSTO
(A Estrepsíades.)3 12
E então, você prefere apanhar o séu
filho e levá-lo de volta, ou vou ensiná-
lo a falar em seu benefício?313
310 Eis a triste realidade: todos os individuos à
testa de cargos públicos e a maioria dos próprios
espectadores são prostituídos. É a derrota total dos
antigos ideais.
311 Atira fora o manto para correr com mais faci-
lidade. Cf. Xen., Anab., I, 10.
312 Provavelmente alusão ao cerimonial que prece-
dera o ingresso de Estrepsíades na escola de Sócra-
tes. Cf. v. 497.
313 Pausa, correspondendo a um trecho coral. Ini-
cia-se depois uma rápida cena cômica de transição.
Consumada a escolha, Fidípides será discípulo do
Injusto (vv. 1105-1113).
1095
1100
ttOs
Ho
us
1120
218
ESTREPSÍADES
Ensine-o, castigue-o e lembre-se de
que me deve afiá-lo bem; de um lado,
para os pequenos processos e de outro
lado, afie os seus maxilares para as
causas mais importantes...
INJUSTO
Não se preocupe. Você há de achá-
lo um hábil sofista.
FIDÍPIDES
A meu ver ficarei pálido e infe-
DIZ E
CORIFEUS!S
Então saiam. (A Estrepsíades.)
Penso que você há de arrepender-se
disso.
- (Ão público.)
* O lucro que os juízes hão de obter,
se prestarem algum serviço a este coro,
conforme o que é justo?! 8, eis o que
desejamos expor. Em primeiro lugar,
se desejarem arar os campos na esta-
ção adequada, choveremos primeiro
para eles, depois para os outros. Além
disso, protegeremos as searas e as
videiras, de modo que não as molestem
nem as secas nem as chuvas excessi-
vas... Mas se alguém, sendo mortal,
ofender-nos 2 nós que somos deusas,
preste bem atenção aos males que
padecerá por nossa causa, não co-
lhendo nem vinho nem qualquer outro
produto de sua propriedade. De fato,
assim que florescerem, as oliveiras e as
videiras serão cortadas, pois havere-
mos de atirar pedras enormes. Se o vir-
314 Em correspondência com o v. 504.
315 Segunda Parábase (vv. 1115-1130).
316 O Corifeu fala aos espectadores. A mesma
advertência aparece também em outras comédias,
prometendo aos juízes recompensas ou castigos. Cf.
Av. 1101 ss.; Ass., 1154. O povo podia aplaudir,
vaiar ou pedir bis, todavia a decisão final cabia aos ,
juízes. Note-se que Aristófanes se dirige à parte do
público que corresponde aos agricultores, direta-
mente interessados nessas questões de chuvas,
secas, etc.
ARISTÓFANES
mos fabricar tijolos, choveremos e
arrebentaremos as telhas do seu telha-
do com granizos redondos. E, se algum
dia se casar ou ele próprio ou um
parente ou amigo, choveremos a noite
inteira?! 7 e, provavelmente, há de pre-
ferir estar até no Egito a ter feito um
Julgamento errado...
ESTREPSÍADES?' 8
(Sai de casa contando os
dedos.)
Quinto, quarto, terceiro, depois
desse, o segundo??º. E depois, o dia
que mais temo de todos, que me põe a
tremer e que abomino; logo depois dele
vem o dia da lua velha e nova... .320
Pois cada sujeito, a quem por acaso
estou devendo, jura e afirma que depo-
sitará a caução32! para arruinar-me,
destruir-me, embora eu peça coisas
justas e moderadas... “Ó. homem,
não receba esse dinheiro agora, dê-me
mais um prazo, deixe passar”... E
dizem que assim nunca receberão o
dinheiro, e insultam-me, “que eu sou
culpado, que pretendem processar-me.
Pois, então, processem agora!...
Pouco me importa!... Se é verdade
que Fidípides aprendeu a falar bem .-.
Mas vou sabê-lo agora mesmo, baten-
317 As chuvas estragariam toda a festa de bodas,
com o cortejo luminoso que, ao anoitecer, saía da
casa da noiva, e se dirigia à casa do noivo.
318 Cenas cômicas, episódicas, vv. 1131-1302,
com intermezzos líricos, vv. 1154-1169 e
1206-1213. Consequências boas e más da decisão
de Estrepsíades.
313 Os meses eram divididos em três décadas: Os 9
ou 10 dias da última década eram contados às aves-
sas, ou também a partir do vigésimo.
"820 O 1.º dia de cada mês, dia da lua nova, não
coincidia com a conjunção do Sol e da Lua, a lua
nova astronômica. Havia, pois, um intervalo de
tempo entre a conjunção e o começo da lua nova:
era o “dia da lua velha e nova”, quando se salda-
vam as dívidas ou sz pagavam os juros. Cf. Diog.
Laer., Sólon, 58; Plut., Sol., XXV,3.
321 Ao iniciar uma causa de dívidas, as partes inte-
ressadas deviam depositar uma caução cujo mon-
tante variava, correspondendo mais ou menos a
10% da quantia reclamada. Essas cauções, pagas a
título de custas, eram reembolsadas aos vencedores
pelas partes vencidas. |
1130
(1135
Ho
AS NUVENS
do à porta do “pensatório”?. (Bate à
porta.) O moço, digo, moço, moço !
SÓCRATES
(Saindo.)
a Saúdo Estrepsiades*22.
ESTREPSÍADES
E eu saúdo você. Mas antes receba
isto aqui? 23. (Oferece-lhe algo.) Pois é
preciso retribuir ao mestre com algu-
ma coisa. E o meu filho, o rapaz que
há pouco você levou lã para dentro,
diga-me, ele aprendeu aquele tal racio-
cinio?
SÓCRATES
Aprendeu !
ESTREPSÍADES |
Es Muito bem! Viva a Fraude, rainha
do mundo !
SÓCRATES
Tanto: que você poderia livrar-se de.
qualquer processo que desejar...
ESTREPSÍADES
"Embora houvesse testemunhas
quando tomei o dinheiro emprestado?
SÓCRATES
Tanto melhor. Ainda que sejam mil!
ESTREPSÍADES
(Declamando.)*? *
1155 Clamarei então o altissimo??8 cla-
mor! Ai, ai, usurários do óbolo3268,
então chorem, vocês, seus capitais e os
322 Crítica à nova maneira de saudar, que, prova-
velmente, vinha substituindo a tradicional, conside-
rada antiquada pelas classes abastadas. Cf. PL, vv.
322 ss.; Av. v. 1377; Y. Ehrenberg, The People of
Aristophanes, 2.2 ed., Oxford, Blackwell, 1955, p.
209.
323 Dinheiro ou um saco de farinha. Cf. v. 669.
324 Intermezzo lírico; paródia do estilo trágico.
325 Paródia de Eur., Peleu, fr. 1. Aliás esses versos
já haviam sido imitados por Frínico.
326 Usurários que emprestavam pequenas quantias
a juros altíssimos. Era comum a taxa de um óbolo
diário por mina, o que correspondia a juros de 60%
ao ano! j
219
Juros dos juros! Dano algum já pode-
rão fazer-me. ..
Tal é o filho que eu tenho
nestes palácios,
reluzente com
gumes,
meu baluarte, salvador do lar, ruína
dos inimigos,
solvente dos grandes males paternos!
(A Sócrates.)
Vá correndo lã: dentro chamá-lo
para junto de mim. Meu filho, meu
pequeno, saia de casa, ouça o seu
pai!327
1160
sua língua de dois
1165
| SÓCRATES
(Saindo com Fidípides.)
Eis o nosso homem.
ESTREPSÍADES
(Abraçando o filho.)
Meu querido ! Querido !
SÓCRATES
Vá-se embora e leve-o com você.
ESTREPSÍADES
Oh, meu filho! Viva o meu “mo
filho!:28 (Observando Fidípides.)
Como estou contente, primeiro por ver
a cor de sua pele. .. Agora sim, logo à
primeira vista, você é um negaceiro €
contraditor! Com toda a certeza flo-
resce em você aquela nossa pergunta .
nacional: “que diz?”,32º para parecer
ofendido quando é você quem ofende e 7
age mal, bem o sei... E no seu rosto
mora o tal “olhar da Ática”. ..330
Contanto que agora você me salve, de-
pois que me arruinou!...
FIDÍPIDES
Mas o que é que você teme?
327 Paródia de Eur., Hec., vv. 172. ss. ev. 181.
s28 Volta ao diálogo habitual, vv. 1171-1205.
329 Alusão ao hábito das perguntas à queima-
roupa, para intimidar o contendor.
330 Eram notórias a impudência e sem-vergonhice
dos atenienses.
1180
1185
220
| ESTREPSÍADES
O dia da “lua velha e nova”.
FIDÍPIDES
Pois há um dia da “lua velha e
nova”?
ESTREPSÍADES
Sim, aquele em que dizem que vão
depositar uma caução contra mim.
FIDÍPIDES
Então os depositantes vão perdê-
la331 pois não seria possível que um só
dia fossem dois...
SÓCRATES
Não seria possível?
FIDÍPIDES
De que jeito? A não ser que uma
mesma mulher fosse ao mesmo tempo
velha e jovem.
SÓCRATES
E, no entanto, é a lei.
FIDÍPIDES
Pois em minha opinião eles não.
sabem ao certo o que significa a lej332,
ESTREPSÍADES
E que significa?
FIDÍPIDES
(Exclamando.)
Bem que o velho Sólon era amigo do
DOMO Le ABS
ESTREPSÍADES
Mas isso nada tem que ver com a
“lua velha e nova”...
FIDÍPIDES
Pois bem, ele estabeleceu a citação
331 Vão perder a causa, pois não conseguirão pro-
var que um dia possam ser dois. É evidente que
Fidípides sabe muito bem do que se trata, mas finge
ignorá-lo para encaminhar o raciocínio sofístico.
332 Processo normal de refutação, a partir do
“espírito da lei”.
333 Sólon era apreciado pelos sentimentos demo-
cráticos e frequentemente citado pelos oradores. Cf.
Esquin., Tim., 6; Isocr., 4reop., 16; Dem., Cor., 6.
ARISTÓFANES
em dois dias, o da lua velha e o da
nova, para que as cauções fossem
depositadas na lua nova?3 4.
ESTREPSÍADES
Para que então acrescentou a lua
velha?
FIDÍPIDES
Meu caro, para que os acusados,
apresentando-se um dia antes pudes-
sem livrar-se espontaneamente33 8;
caso contrário, que tivessem aborreci-
mentos com o raiar da lua nova.
ESTREPSÍADES
Mas então como é que as autori-
dades não recebem as cauções no dia
da lua nova, e sim no da “lua velha e
nova”?
FIDÍPIDES
Acho que fazem a mesma coisa que
os provadores oficiais?? 8: para surri-
pilar as cauções bem depressa, provam.
com um dia de antecedência.
ESTREPSÍADES
Muito bem! (4o público.) Ô infeli-
zes, por que vocês ficam sentados, seus
bobos? O lucro é nosso, dos sábios;
vocês são umas pedras, um número,
uns carneiros inúteis, um monte de
ânforas!337 Assim, a mim e a este
meu filho devo entoar um canto de
334 O legislador designara o dia da lua nova para
o depósito das cauções, tendo em vista o caráter
incerto desse dia da “lua velha e nova”. Todavia,
suas boas intenções foram prejudicadas pelas auto-
ridades que costumavam receber as cauções com
um dia de antecedência. Cf. v. 1109 ss. A propósito
convém lembrar que esse dinheiro servia para pagar
os magistrados, os quais, por conseguinte, teriam
maior pressa de arrecadlá-lo. ;
335 Saldando as dívidas ou pagando os juros.
358 Comissão apontada por lei e encarregada de
provar de antemão a carne dos sacrifícios antes de
distribuí-la ao povo. Provavelmente alusão ao jan-
tar celebrado no primeiro dia das Apatúrias, em que
a referida comissão comemorava a data um dia
antes do resto da população.
337 Expressões comuns para designar seres inertes,
mudos como pedras, coisas sem valor, amontoadas
em depósitos.
1190
1195
1200
1205
1210
1215
AS NUVENS
triunfo em honra de nossa prosperi-
dade! Bem-aventurado Estrepsia-
des338,
Você já-nasceu sábio,
e que filho está criando...
(Ao Filho.)
Eis o que dirão os amigos e compa-
nheiros de bairro, cheios de inveja,
quando você vencer os processos com
os seus discursos! Mas vou levá-lo
para casa, quero oferecer-lhe um ban-
quete. (Entram pai e filho.)
(Chega um credor com uma
testemunha.)
CREDOR I
Então, um homem deve desistir do
que é seu?33º Não, nunca! Mas teria
sido melhor perder a vergonha desde
logo naquela ocasião, do que ter essas
preocupações... (4 testemunha.)
Agora, por causa do meu próprio
dinheiro, eu arrasto você para servir de
testemunha, e, ainda, além disso, vou
tornar-me inimigo de um homem do
meu bairro. Mas, enquanto viver, Ja-
mais envergonharei a minha pá-
tria!3 4º Vou citá-lo3 “1 em voz alta:
(Gritando.) Estrepsiades. ..
ESTREPSÍADES
(Saindo de casa).
Quem é esse?
CREDOR I
-. para a “lua velha e nova”...
ESTREPSÍADES
(A testemunha.)
Você é testemunha de que ele se
338 Intermezzo lírico.
33º Cena cômica: Estrepsíades e os seus credores:
a) primeiro credor, vv. 1214-1258; b) segundo cre-
dor, vv. 1259-1302. O primeiro credor provavel-
mente é Pásias, citado nos vv. 21 ss.
3*0 Aljusão à mania judiciária dos atenienses.
321 Antes de apresentar a queixa por escrito ao tri-
bunal, depositando a respectiva caução, o deman-
dante devia citar pessoalmente o demandado, em
presença de testemunhas. Cf. Av., v. 147, Vesp., v.
1416.
221
referiu a dois dias. Por que dinheiro?
CREDOR I
Pelas doze minas, que você tomou
emprestadas para comprar o cavalo
LOGO a
ESTREPSÍADES
Cavalo? Vocês ouviram? Se todos
sabem que eu detesto a equitação !...
CREDOR 1
Por Zeus, você jurou pelos deuses
que pagaria!
ESTREPSÍADES
Sim, por Zeus, mas naquela ocasião
Fidípides ainda não me tinha apren-
dido o raciocínio irrefutável...
CREDOR I
Mas agora por esse motivo você pre-
tende negar a dívida?
ESTREPSÍADES
Pois que outra vantagem poderia
tirar desse conhecimento?
CREDOR I
Será que você pretende renegar o
juramento, em nome dos deuses e no
lugar em que eu mandar?
ESTREPSÍADES
(Com desprezo.)
Que deuses?
CREDOR I
Zeus, Hermes, Posidão !3 42
ESTREPSÍADES
Sim, por Zeus, e até depositaria
mais três óbolos para jurar... .3 43
CREDOR I
Está bem, tomara você pereça! E
342 Fra tradicional o juramento tríplice. Aqui os
três deuses invocados correspondem muito bem à
natureza da transação: Zeus é o deus dos juramen-
tos; Hermes, o protetor dos lucros; e Posidão, o
deus dos cavalos.
3*3 Estrepsíades acrescentaria à caução mais três
óbolos, em sinal de desprezo pelo juramento feito.
1230
1235
1240
1245
222
ainda mais pela sua-impudência!
ESTREPSÍADES
Enxaguado em salmoura este fulano
serviria para alguma coisa. ..344
CREDOR I
Como você caçoa de mim!
ESTREPSÍADES
Nele caberão seis medidas...
CREDOR 1
Não, por Zeus poderoso e pelos deu-
ses, você há de pagar-me!
ESTREPSÍADES
Você me diverte admiravelmente,
com os seus deuses !... Para os enten-
didos, o Zeus dos seus juramentos é
ridículo !3 45
CREDOR 1
Sim, está bem, com o tempo você há
de ser castigado por ele. .. Mas vai ou
não vai pagar o meu dinheiro? Res-
ponda-me e deixe-me ir.
ESTREPSÍADES
Então fique tranquilo, pois já lhe
responderei de maneira clara. (Sai.)
CREDOR I
(4 testemunha.)
Que pensa você que ele vai fazer?
Acha que vai pagar?...
ESTREPSÍADES
(Volta com uma gamela.)
Onde está esse homem que me recla-
ma o dinheiro? (Ao credor.) Diga, que
é isto?
344 Pásias, provavelmente gordo e narigudo, é
comparado com um odre de vinho. Os odres de pele
eram enxaguados com água salgada para maior
elasticidade e também para preservá-los do apodre-
cimento.
345 Os iniciados nas sutilezas da sofística em
comparação com os demais, os ignorantes. Cf.
Plat., Bang., 199. Estrepsíiades sente-se bem escu-
dado na habilidade retórica do filho, e por isso age
com impudência.
ARISTÓFANES
CREDOR I
Que é isso? “Um gamelão”.
ESTREPSÍADES
E ainda reclama dinheiro, sendo
desse jeito? Eu não pagaria nem um 1250
óbolo a ninguém que chame “a game-
la”? de “gamelão” !3 46
CREDOR I
Mas então você não vai pagar?
ESTREPSÍADES
Que eu saiba, não ! Então, depressa,
vá dando o fora de minha porta!
CREDOR I
Vou-me embora, e você fique saben-
do que depositarei minha caução, ou 1255
não seria mais um homem vivo...
ESTREPSÍADES
Está bem; vai jogar fora mais esse
dinheiro, além das doze minas... E,
no entanto, não quero que você sofra
esse prejuízo, só porque disse “o game-
lão” de maneira errada. ..
(Sai o primeiro credor, aproxima-se
um segundo.)3 47"
CREDOR II
Ai, ai! Ai de mim!
" ESTREPSÍADES
Epa! Quem será esse chorão, não : 126
seria talvez alguma divindade de
Carcino? 48 que falou?
CREDOR IH
Quê? Você quer saber quem sou eu?
Um desgraçado!
ESTREPSÍADES
Então siga o seu caminho...
346 Veja vv. 670 ss. Eis a nova sabedoria em
marcha...
347 (O segundo credor, possivelmente Amínias (cf.
v. 31), aproxima-se com lamentos, para despertar
compaixão e conseguir receber o dinheiro.
348 Carcino, poeta trágico, e seus filhos Xénocles,
Xenótimo e Xenarco, frequentemente criticados
pela poesia cômica. Cf. Vesp., vv. 1501 ss.; Paz., v.
782; Ras, v. 86.
AS NUVENS
CREDOR IH
Ó divindade cruel!
quebradora 34º dos carros dos meus
cavalos!
1265 O Palas, tu me arruinaste!
ESTREPSÍADES
Afinal... que mal lhe fez o Tlepóle-
mo?
CREDOR II
Não me censure, meu caro, mas or-
dene ao seu filho que me pague o
dinheiro que recebeu, tanto mais que
estou mesmo sem sorte!
ESTREPSÍADES
Que dinheiro é este?
CREDOR II
eo O que tomou emprestado.
ESTREPSÍADES
Então você anda mesmo azarado,
ao que me parece.
CREDOR II
Sim, pelos deuses, caí quando guia-
va meus cavalos!
ESTREPSÍADES
Por que então tagarela como se
tivesse caído de um burro?3 50
CREDOR II
Tagarelo? Se quero receber o meu
dinheiro?
ESTREPSÍADES
Não é possível que você esteja
são...
CREDOR II
1275 Quê?
349 Paródia de Xénocles, Licínio; nessa tragédia,
narrava-se a morte de Licínio, irmão de Alcmena,
que caíra sob um golpe de Tlepólemo, filho de Hé-
racles; daí a alusão do v. 1266. É evidente que o
credor quer dizer que seus cavalos dispararam, que-
brando o carro.
350 Expressão proverbial, significando “insânia,
perda de juízo”. Plat., Leis, II, 701-C.
Ó fortuna
223
ESTREPSÍADES
Acho que você ficou com o cérebro
abalado...
CREDOR II
E você, por Hermes, será proces-
sado por mim, se não me devolver o
dinheiro.
ESTREPSÍADES
Então diga-me a sua opinião! Zeus
faz chover sempre uma água nova ou o
Sol puxa novamente de baixo para
cima sempre a mesma água?? 81
1280
CREDOR II
Não sei como é, nem me interessa!
ESTREPSÍADES
Como então tem o direito de receber
o dinheiro se não sabe nada sobre as
coisas celestes?
CREDOR IH
Mas se você está sem recursos, 12ss
pague-me os juros do dinheiro...
ESTREPSÍADES
Juros? Que bicho é esse?
CREDOR II
Que mais há de ser senão isto, que
cada mês e cada dia o dinheiro sempre
aumenta mais e mais, com o correr do
tempo?
ESTREPSÍADES
Está bem, você julga por acaso que
o mar é maior do que era antes?3 82
1290
. CREDOR II
Não, por Zeus, é o mesmo. Pois não
é natural que se torne maior... .3 53
351 Problema bastante discutido nessa época. Cf.
Anaxágoras (Diels-Kranz, A, I, 32); Hipocr., Ar.,
VIII; Aristot., Meteor., II, 2, 10; Ibid., 11.
352 Cf. Lucr., VI, 608: “principio mare mirantur
non reddere maius/ naturam, quo sit tantus decur-
sus aquarum,/ omnia quo veniant ex omni flumina
parte”. ;
353 Cf. Heráclito (Diels-Kranz, B, 31-12).
1300
1305
1310
1315
224
ESTREPSÍADES
E, então, se é assim, infeliz, se ele
absolutamente não aumenta, embora
afluam os rios, você pretende aumentar
o seu dinheiro? Não vai perseguir o
seu caminho para longe da minha
casa? (Chama um escravo.) Dê-me a
vara res
CREDOR II.
Eu tomo testemunhas disso...
ESTREPSÍADES
(Cutucando-o com a vara.)
Vá-se embora. Que espera? Ó cava-
lo de raça, você não anda?3 5 5
CREDOR II
Isso não é de fato uma violência?
ESTREPSÍADES
Você não vai correr? Eu me encarre-
go, cutucando-o nas nádegas, seu ca-
valo de tirante. ..358º Foge? Bem que
estava para pô-lo em marcha junto
com as suas rodas e as parelhas!
(Vai-se o credor. Estrepsíades
entra.)3 8?
CORO
(Estrofe 1)3 88 Quanto vale amar as
más ações! Este velho apaixonado
quer negar-se a pagar o dinheiro que
tomou emprestado... É impossível
que ainda hoje não aconteça algo, que
talvez faça este sofista, de repente, so-
frer uma desgraça, em troca de suas
velhacagens!
(Estrofe II) Creio eu, logo ele há de
encontrar o que há tempos procurava:
um filho hábil em sustentar argumen-
354 Aguilhada, vara comprida com um ferro agudo
na ponta, usada para instigar bois ou cavalos.
355 Veja com., v. 122.
356 O cavalo atrelado por uma correia ao lado de
dois cavalos de lança. Cf. lat. funalis equus.
357 Estrepsiades entra a fim de continuar a festejar
a volta do filho. Cf. v. 1213.
358" “Choricon”, vv. 1303-1320; canto coral lírico
(ode e antode). O coro começa a esclarecer sua ver-
dadeira posição. À pausa coral dá tempo a que a
ação se desenvolva numa nova etapa: o castigo de
Estrepsítades.
ARISTÓFANES
tos contrários à justiça, vencendo a
todos com quem negociar, ainda que
diga coisas abomináveis. .. Mas tal-
vez, talvez, há de preferir até que o.
filho seja mudo !
(Estrepsíades sai de casa,
chorando; atrás vem Fidí-
pides.)3 8º
ESTREPSÍADES .
As, ai! Vizinhos, parentes e compa-
nheiros de bairro ! Ajudem-me de qual-
quer maneira, eu apanho! Ai, infeliz de
mim. Ai, a minha cabeça, o meu quei-
xo! Ó canalha, você bate no seu
pai?? 60
FIDÍPIDES
Sim, meu pai.
ESTREPSÍADES
Vocês vêem? Ele concorda que me
bate!
FIDÍPIDES
Por certo!
ESTREPSÍADES
Canalha, parricida, bandido !
FIDÍPIDES
Diga-me de novo essas mesmas coi-
sas e muitas outras... Sabe que até
me divirto bastante ouvindo tantos
insultos?* 81
ESTREPSÍADES
Imundo !
FIDÍPIDES
Você me polvilha. com muitas
rosas !3 82
359 Segundo “Agon" -— Após uma cena introdu-
tória, o “Pro-Agon” (vv. 1321-1344), desenvolve-se
o “Agon” propriamente dito, que apresenta a
seguinte subdivisão: Ode (vv. 1345-1350); Epirrema
(vv. 1351-1385); Pnigos (vv. 1386-1390); Antode
(vv. 1391-1396); Antipirrema (vv. 1397-1444);
Antipnigos (vv. 1445-1451).
360 Crime abominável, passível de “atimia”. Cf.
Andoc.. Mist.. 74: Xenof., Mem., £, 2, 49; Esquim,,
Têm., 28.
381 Cf. vv. 906 ss.; 1330. ;
382 Em correspondência com os vv. 910-9i2. |
1320
1325
1330
Apr) ane a fes
1335
1340
1345
AS NUVENS
ESTREPSÍADES
Você bate no seu pai?
FIDÍPIDES
Por Zeus, vou demonstrar até que
lhe bati justamente...
ESTREPSÍADES
Canalhíssima! E como poderia ser
Justo bater no pai?
FIDÍPIDES
Pois vou provar e vencêlo com
argumentos.
ESTREPSÍADES
Vencerá nesse assunto?
FIDÍPIDES
Inteiramente e com facilidade! Es-
colha com qual dos dois raciocínios
quer falar? 83.
ESTREPSÍADES
Que raciocínios?
FIDÍPIDES
O forte ou o fraco?
ESTREPSÍADES
Sim, por Zeus, Ó infeliz, será que eu
mandei ensiná-lo a contradizer o que é
Justo, se você quer convencer de que é
belo e justo que um pai apanhe de seus
ilhosti +08
FIDÍPIDES
E, no entanto, vou convencê-lo e até
você mesmo, depois de ouvir, não
retrucará nada.
ESTREPSÍADES
De fato, quero ouvir o que você vai
dizer...
CORO
(Estrofe)3 8º Velho, a sua tarefa é
363 Alusão à indiferença dos sofistas a respeito das
causas que deviam defender.
364 Note-se a tardia amargura de Estrepsiades. Só
agora O velho começa a compreender a que desgra-
ças o arrastou a sua própria leviandade.
365 Ode — O coro dirige-se a Estrepsiades, confir-
mando a ameaça já antecipada no “Choricon”,
225
pensar em como sobrepujá-lo. Se em
- algo ele não confiasse, tao atrevido
não haveria de ser. Mas existe algo que
lhe dá coragem. Bem visível é a sua
audácia...
CORIFEU
Mas por que começou a discussão?
É preciso dizê-lo diante do coro. E
você vai fazê-lo de qualquer maneira.
ESTREPSÍADES
Bem, vou contar por que começa-
mos a discutir? 8 8. Pois enquanto ban-
queteávamos, como vocês sabem, pri-
meiro mandei-o apanhar a lira para
cantar? 87 uma poesia de Simôni-
des? 88, sobre Crio e como foi tosquia-
do. Ele disse-me que era antiquado
tocar cítara e cantar, na hora de bebi-
da, como uma mulher moendo ceva-
A e
FIDÍPIDES
Pois nessa hora você não merecia
apanhar e ser pisado por mandar-me
cantar como se tivesse convidado uma
cigarra para jantar?3 70
366 Epirrema. Com a palavra Estrepsíades, agora
transformado em paladino dos ideais da educação
antiga. Cf. o Discurso do Justo no 1 Agon.
3€7 Era a parte mais agradável dos banquetes.
Todo ateniense bem educado devia saber cantar
poesias dos grandes líricos, trechos dos poemas épi-
cos e cantos apropriados a essas reuniões, chama-
dos “escólios”. Cf. Vesp., vv. 1222, 1239; Rãs, v.
1301. Os convidados revezavam-se nos cantos, pas-
sando um ao outro um ramo de mirto ou oliveira.
Cf. v. 1354. Todavia, durante a Guerra do Pelopo-
neso, esse costume passou a ser considerado fora de
moda. Cf. Plat., Prot., 347 C. E.; K. Freeman, op.
.Cit., p. 103.
368 Simônides de Céos (556-468 a.C.), poeta lírico
e elegiaco muito prestigiado graças às poesias que
dedicou aos heróis das Guerras Médicas. Atribui-
se-lhe um epinício contra Crio de Egina, comparado
a um carneiro recém-tosquiado, em virtude de um
trocadilho, entre o nome próprio Crio e a palavra
grega para designar o “carneiro” (criós).
369 Em todas as épocas e lugares, as mulheres
sempre acompanharam os trabalhos manuais com
cantos.. Cf. Ath., Bang. Sof., 618-C, Polux, Ono-
masticon, 53, Plut., Sete Sábios, 14.
370 Os antigos acreditavam que as cigarras po-
diam cantar sem interrupções, contentando-se com
uma simples gota de orvalho. Cf. Plat., Fedro,
259-C; Anacreôntica, 34; Edmonds, Greek Elegy
and Jambus, Anacreontea, Loeb, Londres, Heine-
mann,.1927.
1350
1355
1360
1365
1370
1375
1380
226
ESTREPSÍADES
Ah, eram essas mesmas as palavras
que ele dizia lá dentro, afirmando que
Simônides é mau poeta. Eu, embora a
custo, apesar de tudo, a princípio
contive-me. Depois, mandei-o apanhar
ao menos um galho de mirto e recitar-
me alguma coisa de Ésquilo. E ele logo
disse: “Pois considero Ésquilo o maior
poeta barulhento, .incoerente, empola-
do, criador de palavras escarpa-
das...2371 Pensem então como o
meu coração palpitou de raiva! Toda-
via, depois de engolir a cólera, eu
disse: “Bem, cante alguma coisa desses
modernos, algumas dessas bele-
zas...?2372 E ele jogo cantou uma
passagem de Eurípides — livre-nos
Deus — sobre um irmão que violentou
a própria irmã. ..º73 Não me contive
mais, e logo acometi com muitas pala-
vras más e injuriosas. Daí então, como
era natural, opúnhamos palavra a
palavra. Depois, ele dã um salto, fere-
me, espanca-me, estrangula-me e
acaba comigo!. ..
| FIDÍPIDES
Então não é justo, já que você não
elogia Euripides, o mais sábio?
ESTREPSÍADES
O mais sábio ! O... de que chamar
você? Mas vou apanhar de novo...
FIDÍPIDES
Sim, por Zeus, e será justo.
ESTREPSÍADES
Justo? E como? Sem vergonha, eu
371% Alusão ao estilo grandilogiente de Esquilo. Cf..
Ras, vv. 836 ss.; vv. 924 ss. etc.
372 Crítica ao apreço de que gozava Eurípides
entre os representantes da nova educação.
373 Cf. Eur., Éolo, referência a Macateu, filho de
Éolo, que seduziu a própria irmã, Canace. O casa-
mento de meios-irmãos era permitido em Atenas,
nunca porém quando se tratava de filhos da mesma
mãe. Cf. Escol., v. 1371; Andoc., Alcibíades., 33;
Aristóf., Rãs, vv. 849 ss.
ARISTÓFANES
que o criei,é 74 percebendo tudo que
você queria dizer, quando balbuciava!
Se você dizia “bru” eu entendia e lhe
oferecia de beber. Quando pedia
“mamá? aproximava-me para dar-lhe
comida. Nem bem você dizia
“caca?3 75 eu levava-o para fora da
porta e segurava-o diante de mim...
Mas você agora me estrangulava
enquanto eu gritava e berrava que
tinha vontade de aliviar-me! Canalha,
nem pensou em levar-me para fora, e,
sufocado, eu fiz: a “caca” al
mesmo !3 7 8
CORO |
(Antistrofe)3 77 Creio eu, dão saltos
os corações dos jovens, à espera do
que ele vai dizer... E se ele, que prati-
cou esses crimes, convencer o pai com
suas tagarelices, em troca da pele dos
velhos, eu não daria nem um grão de
DIGO see
CORIFEU
(A Fidípides.)
Movimentador e sacudidor de pala-
vras novas, a sua tarefa é procurar um
meio de convencer de que parece dizer
o que é justo? 7º.
FIDÍPIDES
Como é doce conviver com idéias
novas e engenhosas, e poder desprezar
374 As crianças eram atendidas ou pela mãe ou
pela ama. Como a esposa de Estrepsítades, vaidosa e
cheia de luxos, pouco devia importar-se com as
necessidades do filhinho, o próprio pai, provavel-
mente para poupar as despesas duma ama, tomava
conta da criança. É visível o tom de paródia. Cf.
Hom., Jl., IX, 486-492 (palavras de Fênix a
Aquiles).
375 Expressão técnica da linguagem das amas. Cf.
Escol., v. 1384.
378 Pnigos — Desespero e suprema humilhação de
Estrepsíades.
377 Antode — Confirmada a impudência de Fidi-
pides, treme o coro na expectativa de novas injusti-
ças (vv. 1391-1396).
378 Expressão de sentido obsceno.
379 Mais uma vez cabe ao coro movimentar a
ação, dando a palavra a Fidípides.
1385
1390
1395
1400
1405
1410
1415
AS NUVENS
as leis estabelecidas !$8º Quando eu
preocupava o meu espírito só com a
equitação*8?, não era capaz de dizer
nem três palavras sem errar?82. Mas,
agora, depois que “ele em pessoa”383
acabou com isso, eu convivo com há-
beis sentenças, palavras e pensamen-
tos, e creio que posso provar que é
justo castigar o pai.
ESTREPSÍADES
Pois então, por Zeus, trate de andar
a cavalo !384 Que para mim é melhor
sustentar uma quadriga de cavalos do
que apanhar e ser moido de panca-
DAS Su
FIDÍPIDES
Volto ao ponto em que você me cor-
tou a palavra. E antes vou dizer-lhe o
seguinte: quando eu era criança, você
me batia?
ESTREPSÍADES
Sim, porque tinha boas intenções e
cuidados por você.
FIDÍPIDES
Então diga-me: não é justo que eu
tenha - boas intenções e, da mesma
forma, lhe bata, já que “ter boas inten-
ções” é “bater”? Pois como é que o seu
corpo deve sair ileso dos golpes e o
meu não? E, no entanto, bem que eu
nasci livre... “As crianças choram e
pensas que um pai não deve cho-
rar??38 5 Mas você dirá que se consi-
dera esse ato como" próprio das crian-
ças, e eu responderei que os “Velhos
380 Ántipirrema — Fidípides, numa nova encarna-
ção do espírito Injusto, revela seu total desprezo
pelas leis tradicionais (vv. 1399-1445).
381 Cf.vv. 1455; 25 ss.
382 Cf.vv. 87255.
383 Refere-se a Sócrates; provável alusão ao “ele
disse” dos pitagóricos; veja nota v. 219.
384 Já agora Estrepsíades está convicto dos erros
que cometeu.
385 Paródia de Eur., Alc., v. 691. Cf. Tesm., v.
194; Escol., v. 1415. Como se trata de paródia,
mantivemos a 2.º pessoa do singular na tradução.
Zo
são duas vezes crianças”?*8 8 e que é
natural que os velhos chorem mais do
que os jovens, tanto quanto é menos
razoável que cometam erros...
ESTREPSÍADES
Mas em lugar algum se admite que o
pai sofra esse ultraje !38 7
FIDÍPIDES
Acaso quem estabeleceu essa lei
pela primeira vez não foi um homem
como você e eu, que persuadiu aos
antigos com suas palavras?388 Então
é menos razoável que eu, de meu lado,
para o futuro estabeleça uma nova lei
para os filhos: que, por sua vez, batam
nos pais? Todas as pancadas que
costumávamos receber antes de ser
estabelecida esta lei, nós deixamos pas-
sar e lhes damos grátis para serem
espancados. .. Mas observe como os
galos e todos esses outros “animais se
vingam dos seus pais. Ora, em que
diferem de nós, senão porque não redi-
gem decretos?38º
ESTREPSÍADES
Já que você imita os galos em tudo,
por que também não come esterco e
não dorme num poleiro?
FIDÍPIDES
Não é a mesma coisa, meu caro;
nem Sócrates aceitaria isso... .3º90
ESTREPSÍADES .
Se é assim, não me. bata. Senão, um
dia, você também será castigado. ..
386 Expressão proverbial.
387 Estrepsiades, representante da velha guarda,
apóia-se no peso da tradição.
388 Fidípides argumenta a partir da relatividade
das leis e dos usos, estabelecidos convencional-
mente, e apela para as leis naturais, de acordo com
os ensinamentos dos sofistas. Cf. v. 1427 (alusão
aos galos); cf. Ehrenberg, op. cit., p. 358 (oposição
entre “physis” e “nomos”).
38s Cf.v. 1018, Cav., v. 1383.
390 TFidípides, em última instância, apela para a
autoridade do mestre.
1420
1425
1430
1435
1440
228
FIDÍPIDES
Como?
ESTREPSÍADES
Porque tenho direito de castigá-lo e
você ao seu filho, se o tiver.
FIDÍPIDES
E se eu não tiver filhos? Terei chora-
do em vão, e'você já estará morto,
rindo diante do meu nariz !
ESTREPSÍADES
Homens de minha idade*º1, penso
que ele diz o que é justo ! Creio que se
deve concordar com os filhos no que é
razoável... Pois é natural que tam-
bém choremos, se não fazemos o que é
Justo.
FIDÍPIDES
Reflita ainda sobre um outro pensa-
mento...
ESTREPSÍADES
Não... Pois vou morrer...
FIDÍPIDES
E provavelmente você não ficará
com raiva depois de ter padecido o que
estã padecendo agora...
ESTREPSÍADES
Como? Mostre-me qual o benefício
que você poderá fazer-me...
FIDÍPIDES
Também vou bater na minha mãe,
assim como lhe bati? *2.
ESTREPSÍADES
Que diz? Que diz você? Esse crime
ainda é maior!
391 Dirige-se aos espectadores.
382 O filho esperava agradar ao pai; todavia não é
bem sucedido, e a reação do velho é violenta. A mãe
gozava de muito respeito, no seio das famílias, e Só-
crates recomendava que se lhe devotasse afeição
ainda que ela não o merecesse. Cf. Xen., Mem, II,
2. Opiniões contrárias aparecem em Esq., Eum., vv.
658 ss., e Eurip., Or., vv. 552 ss. Veja V. Ehrenberg,
op. cit., p. 194.
— ARISTÓFANES
FIDÍPIDES
Por quê? E.se eu vencê-lo com pala-
vras, sustentando o raciocínio fraco de
que se deve bater na mãe?
ESTREPSÍADES:º3
Que mais há de acontecer, se você
fizer isso? Nada poderá impedi-lo de
precipitar-se no Baratro3º*, com Só-
crates e com esse tal raciocínio fraco!
(4o Coro.) Nuvens?º 8, eis o que estou
sofrendo por vossa causa, porque vos
confiei todos os meus problemas !3º &
CORO
Você mesmo foi o causador desses
males, quando se virou para a perversi-
dade...
ESTREPSÍADES
Por que então naquele tempo vós
não me dissestes isso, e virastes a cabe-
ça de um homem velho e ignorante?
CORO
É assim que sempre fazemos, quan-
do reconhecemos que alguém é amante
das más ações, até que o atiramos na
desgraça para que aprenda a temer os
deuses *,
ESTREPSÍADES
Ai de mim, é um castigo penoso mas
justo! Pois eu não devia negar-me a
pagar o dinheiro que tomei empres-
tado! (Ão filho) Agora então, meu
querido, contanto que você venha co-
migo para destruir aquele canalha do
Querefonte e Sócrates, eles que me
enganaram amimea você...
393 Antipnigos: reação de
1445-1451).
394 Abismo a noroeste da Colina das Ninfas, de
onde se atiravam os condenados à morte. Cf. Cav.,
v. 1362; Ras, v. 574; Hdt., VII, 133.
395 Éxodo: arrependimento e vingança de Estrep-
stades.
396 Cf. vv. 435-462.
397 Cf.vv. 1303-1320.
Estrepsíades (vv.
1445
1450
1455
1460
1465
So Do Sa
1470
1475
J480
AS NUVENS
FIDÍPIDES
Mas eu não poderia fazer mal aos
meus mestres... .3º8
ESTREPSÍADES
Sim, sim, respeite o Zeus pater-
nal!399
FIDÍPIDES
Vejam só, Zeus paternal! Como
você é antiquado! Acaso existe um
Zeus: +09
ESTREPSÍADES
Existe.
FIDÍPIDES
Não,- não existe, quem reina é o
Turbilhão, depois que destronou
ZEUS sat
ESTREPSÍADES
(Aproximando-se de
pote.)
Não destronou. Era eu que acredi-
tava nisso, por causa deste pote. .: 402
Ai, desgraçado de mim, porque o jul-
gava um deus, quando você é um
vaso!...
um
FIDÍPIDES
Fique aí delirando consigo mesmo e
dizendo tolices. . . (Sai.)
ESTREPSÍADES
Ai, que falta de juízo! Como estava
louco quando quis jogar fora os deuses
por causa de Sócrates! (Aproxima-se
de um busto de Hermes *º3.) Mas, meu
3938 Cf.v. 871.
399 Epíteto de Zeus, fregiente em outras cidades,
mas pouco usado em Atenas. Cf. Plat., Butid.,
302-C.D. Aqui invocado como protetor dos pais.
s00 Cf.v. 818.
401 Cf. vv. 380 ss.; vv. 827 ss. Com: amargura
Estrepsiades ouve o filho repetir as suas próprias
palavras.
402 Prosseguimento e explicação do mal-entendido
que se iniciara nos vv. 380 ss.
“03 Termes “guardião das portas”. Cf. Plut., 1153.
Passagem semelhante em Paz, v. 658.
229
caro Hermes, não fique com raiva de
mim, não acabe comigo, tenha com-
paixão, porque enlouqueci com fanfar-
ronices ! Seja meu conselheiro, se devo
processá-los depois de escrever uma
queixa ou o que lhe parece. (Finge
ouvir o que diz a estátua.) Dá-me um
bom conselho, não me deixando re-
mendar processos “*º * mas dizendo-me
que ponha fogo na casa dos fanfar-
rões*º5, o mais depressa possível!
(4os escravos.) Aqui, aqui, Xantias!
(Xântias acorre.) Saia, apanhe uma es-
cada e traga uma tocha, e, depois se
você estima o seu patrão suba ao
“nensatório” e ponha o teto abaixo, até
derrubar a casa em cima deles. (A
outro escravo.) Você, traga-me uma
tocha acesa e eu hoje vou fazer que
algum deles me pague, por mais char-
latães que sejam !4º 6
(Sobe ao telhado com a
tocha.)
DISCÍPULO A
(De dentro.)
Ai, ai!
ESTREPSÍADES
Tocha, a sua tarefa é lançar grandes
chamas!
DISCÍPULO B
(Saindo, espantado.)
Homem, que está fazendo?
ESTREPSÍADES
Que faço? Que mais há de ser senão
trocar sutilezas com as traves da casa?
DISCÍPULO B
(De dentro.)
Ai, quem põe fogo em nossa casa?
“04 Alusão à mania judiciária dos atenienses.
“05 Epíteto usual com que eram criticados os filó-
sofos. Cf. fr. 418; Eúpolis, fr. 311; Plat., Fed., 70-C.
SO fi vi OD
1485
1490
1495
1500
230
ESTREPSÍADES
Aquele fulano - cujo manto vocês
roubaram... 407
DISCÍPULO B
Vai matar-nos, matar-nos.
ESTREPSÍADES
(Desmanchando o telhado.)
Pois é isso mesmo que eu quero, se a
tocha não trair as minhas esperanças,
ou se antes eu não cair e quebrar o
pescoço...
SÓCRATES
(Aparecendo.)
Homem, que está fazendo? Você aí
em cima do telhado? !.
ESTREPSÍADES
407 Cf.v. 497, v. 856.
AS NUVENS
t
“Ando pelos ares e olho o sol de
Cima? ms ÃO
SÓCRATES
Ai de mim, desgraçado, vou morrer
sufocado !
DISCÍPULO A
Desgraçado de mim, vou morrer
queimado ! »
- ESTREPSÍADES
Pois, com que sabedoria, vocês
nsultam os deuses e investigam o
“assento” da Lua? (Ão escravo.) Ata-
que, atire, bata, bata por muitas ra-
zões, e principalmente porque você
sabe que eles ofendiam os deuses!
CORO
(Saindo.)
Conduzi-nos para fora.
Hoje o nosso coro já dan-
çou a sua medida...
“08 Verso idêntico a 225 (palavras de Sócrates,
aqui repetidas ironicamente).
1505
1510
Este livro integra a coleção:
OS PENSADORES — HISTÓRIA DAS GRANDES IDÉIAS DO MUNDO OCIDENTAL
Composto e impresso nas oficinas da
Abril S. A. Cultural e Industrial, caixa postal 2372, São Paulo